Novos Poetas (36) – Helena Carvalho

by manuel margarido

E, de repente, acontecem-nos descobertas assim. Entra-se na labiríntica casa da blogosfera, vagueia-se de quarto em quarto, passa-se por salas vazias, e de súbito deparamos com um espaço habitado. Pela poesia, neste caso. Por uma poeta, Helena Carvalho (1982) com pouca obra escrita – “não chega para fazer um livro“. Mas seguramente com muita escrita sedimentada antes da poesia (narrativa e ensaística); e muito boa leitura assimilada. O poema, publicado pela autora sob o pseudónimo de Dissonantia, intitula-se meta-texto. Justo título, pela construção em estrofes (quase) repetidas que se transformam em matéria poética pela pergunta meta-textual que as intercala. Mas, se fosse apenas um jogo construtivo, o poema seria consideravelmente menor do que na realidade é; adquire fôlego pela sistemática utilização de paradoxos, hipálages e imagens surrealizantes, de novo desconstruídas, parodicamente, nos três versos finais. A autora tem publicados, no seu blogue, A Luz da Noite, outros poemas, de uma forma geral marcados por um lirismo ácido, desencantado, de uma desenvoltura que se assinala. Pode Helena Carvalho tornar-se numa autora de escrita maior? Possivelmente. Certamente merece ser lida e seguida.

meta-texto

As pessoas são sóis verdes

que congelam as flores

onde os peixes nadam.

Nas alturas em que raios

festivos caem do mar

gravitam sob os pássaros

que se enterram na areia;

quando ondas descem ao céu

rodam obliquamente sobre as folhas

azuis dos candeeiros como

vértices apaixonados.


Que quer este poema exprimir?

Qual o seu sentido meta-textual?

Exactamente isto:


Que as pessoas são sóis verdes

que congelam as flores

onde os peixes voam.

Que nas alturas em que raios

festivos caem do mar

gravitam sob os pássaros

que se enterram na areia;

e quando ondas descem ao céu

rodam obliquamente sobre as folhas

azuis dos candeeiros como

vértices apaixonados.

Errata: sendo do senso comum que os peixes não nadam

na terceira linha do poema deve ler-se

“onde os peixes saltam à corda”.

Dissonantia (Helena Carvalho), Terça-feira, Setembro 16, 2008, via → A Luz da Noite

L'Invention Collective, c.1935 - René Magritte

L'Invention Collective, c.1935 - René Magritte

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