As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: A Luz da Noite

Novos Poetas (44) – Helena Carvalho

É uma pena que esta autora escreva tão pouco. Antes assim. Antes escrever pouco e assim.

A invenção da noite

Inventamos a noite porque não há noite bastante
que nos adormeça,
nem teia que nos enrede na absoluta lucidez
do último minuto.

Como queríamos lá estar, bem presos
nos fios de seda,
imóveis
resignados
carne-exposta,
a esperar o fim
do tiquetaquear estridente do relógio
e a culpar o sorriso diabólico da aranha.

É quando a noite se estende e nós voltamos a
inventá-la
que desafiamos o tempo.
Montamos os vários palcos do duelo
Que tal um toque vintage na decoração, madame?
arquitectamos as teias onde seremos as presas e,
pelo sim pelo não,
anestesiamo-nos ainda com um pouco mais de noite.
Por favor, mais dois dry martini, um para mim e outro para a senhora. Como é mesmo o seu nome?

Então somos só nós e ele.
A densa escuridão injecta-se nas veias como um sedativo,
e já poucos conseguem ver o movimento dos vultos.
Mais dois destes! Como que raio é que disseste
que te chamavas?
Ouve-se apenas: contidos gritos humanos,
o ranger de ponteiros
e um som agudo
de lâminas e guindastes.

Amanhecemos retalhados –
nós e o tempo –
entre o escuro das paredes nocturnas e
a claridade das janelas. Corpos mutilados e horas paradas.

Mas as horas logo voltam à vida
dos relógios que afinal nunca pararam
de contar;
só nós, consumida a noite,
ficamos desfeitos no palco
a refazer a topografia dos membros e do corpo
próprio.

Ainda hoje,
à mesma hora,
voltaremos a cortar os pulsos
porque a noite não nos adormecerá.

Boa noite… Não se quer sentar e oferecer-me uma bebida?

Helena Carvalho, in, a luz da noite, blogue da autora.

© Francisco Miguel Santos Leonardo, Olhares, Fotografia Online

© Francisco Miguel Santos Leonardo, Olhares, Fotografia Online

Novos Poetas (36) – Helena Carvalho

E, de repente, acontecem-nos descobertas assim. Entra-se na labiríntica casa da blogosfera, vagueia-se de quarto em quarto, passa-se por salas vazias, e de súbito deparamos com um espaço habitado. Pela poesia, neste caso. Por uma poeta, Helena Carvalho (1982) com pouca obra escrita – “não chega para fazer um livro“. Mas seguramente com muita escrita sedimentada antes da poesia (narrativa e ensaística); e muito boa leitura assimilada. O poema, publicado pela autora sob o pseudónimo de Dissonantia, intitula-se meta-texto. Justo título, pela construção em estrofes (quase) repetidas que se transformam em matéria poética pela pergunta meta-textual que as intercala. Mas, se fosse apenas um jogo construtivo, o poema seria consideravelmente menor do que na realidade é; adquire fôlego pela sistemática utilização de paradoxos, hipálages e imagens surrealizantes, de novo desconstruídas, parodicamente, nos três versos finais. A autora tem publicados, no seu blogue, A Luz da Noite, outros poemas, de uma forma geral marcados por um lirismo ácido, desencantado, de uma desenvoltura que se assinala. Pode Helena Carvalho tornar-se numa autora de escrita maior? Possivelmente. Certamente merece ser lida e seguida.

meta-texto

As pessoas são sóis verdes

que congelam as flores

onde os peixes nadam.

Nas alturas em que raios

festivos caem do mar

gravitam sob os pássaros

que se enterram na areia;

quando ondas descem ao céu

rodam obliquamente sobre as folhas

azuis dos candeeiros como

vértices apaixonados.


Que quer este poema exprimir?

Qual o seu sentido meta-textual?

Exactamente isto:


Que as pessoas são sóis verdes

que congelam as flores

onde os peixes voam.

Que nas alturas em que raios

festivos caem do mar

gravitam sob os pássaros

que se enterram na areia;

e quando ondas descem ao céu

rodam obliquamente sobre as folhas

azuis dos candeeiros como

vértices apaixonados.

Errata: sendo do senso comum que os peixes não nadam

na terceira linha do poema deve ler-se

“onde os peixes saltam à corda”.

Dissonantia (Helena Carvalho), Terça-feira, Setembro 16, 2008, via → A Luz da Noite

L'Invention Collective, c.1935 - René Magritte

L'Invention Collective, c.1935 - René Magritte