As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: novos poetas

Novos Poetas (54) – Catarina Nunes da Almeida

Ainda da cràse número um, o último e o que mais gosto dos três poemas que Catarina Nunes de Almeida publica na edição, de que já se anuncia o «lançamento» em Lisboa no dia 12 de Maio na Livraria Trama, pelas 19 horas.

3.

Colhe de um corpo

o carvão verde

a sua música cereal moída moída.

Abre um corpo na partitura canta-o

enquanto se parte enquanto ficam

anos por contar enquanto ficam

anjos nas pálpebras

inconfessáveis.

Como se a manhã falhasse sempre.

Como se escolhesses o comboio que pára

em todas as estações

e valesse a pena gastar outra infância

para não chegar.

Novos Poetas (53) – Helena Carvalho

Acaba de me chegar às mãos o n.º um da cràse – “revista de literatura emergente”, março de dois mil e dez, 250 exemplares, um luxo comparados com os 60 do número zero. Um luxo, também, a lista de autores e a fasquia qualitativa dos textos publicados, entre  poesia e  contos, sendo esta claramente uma edição mais forte que a primeira zero. Como não poderei divulgar todos (e de quase todos me apeteceria deixar um poema aqui) escolherei três ou quatro autores. E de escolha falo também com alguma propriedade.

E começo pela Helena Carvalho (Nazaré, 1982), poeta muito da predilecção deste sítio. (a autora: Licenciada em Filosofia e pós-graduada em Poética e Hermenêutica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É actualmente professora no ensino secundário. Seleccionada para o Concurso Nacional Jovens Criadores 2009, na área de literatura, tendo publicado na Colectânea Jovens Escritores 2009. Colaborações dispersas em revistas literárias. Autora do blogue a luz da noite.).

Helena Carvalho apresenta, neste um da cràse, um conjunto de quatro fortíssimos poemas. Opta-se pelo primeiro deles, seguindo o critério mais neutro.

Foto-verbo-grafia


Interromper o branco da página como a cegueira branca dos olhos.

As palavras são folhas que se evolam da gravilha rasteira dos pátios

em fins de tarde outonais.

Uma imprevista aragem inicia-as na arte obscena do movimento –

um deslizar lânguido em pequenos sopros;

uma penetração violenta em remoinhos de pó, nojo e sentido.


Esperar a luz projectada que nunca chega inteiramente aqui.

A claridade desmedida adere à matéria urgente da visibilidade,

primeiro nos olhos

depois na ressonância incorpórea das películas. Cumpre-se a luz

numa câmara escura,

exposta na contenção profana das imagens planas e nas quatro dimensões

das pedras angulares.


Acontecer-nos a gestação das horas fragmentadas

dos quadros repetidos até à negação da sua aura.

Um sentido a rebentar na mão pueril e espantada,

como duas pernas de mulher prematuramente abertas

em posição de parto.


Nascer a palavra como uma fotografia em meio-tom

a mover-se pela sombra de si, no contraste abismal

entre a luz que se capta e a que ainda não chegou.

© Lia, Olhares Fotografia Online (D.R.)

Novos Poetas (52) – Vasco Gato

No peito, a manivela ferrugenta

que faz abrir a respiração

começou a emperrar

e o corpo aprendeu rapidamente:

o suor como se a roupa

fosse um antídoto.

O belo cavalo branco de cascos

impretéritos avançou

então

pelas vértebras

mas não impediu que a imagem

fosse real.

Cordas de piano

por onde trepam os assassinos

e onde por vezes

se enforcam

antes de alcançarem a janela,

o repto impune dos que dormem:

vela-me.

GATO,  Vasco, “Omertà”, Famalicão: Edições Quasi, 2007

© Paulo Madeira, Olhares Fotografia Online (d.r.)

Novos Poetas (51) – Maria Sousa

Última escolha pessoal, entre o que foi publicado na criatura número 4, talvez o mais equilibrado de todos os que sairam até agora. Um poema de Maria Sousa, o primeiro dos quatro que publica nesta edição da revista. Da autora é, igualmente o notável blogue There’s Only 1 Alice, onde algum do seu trabalho poético pode ser encontrado e apreciado.

[Agradeço a Maria Sousa a permissão para a publicação deste poema]

O processo de contar histórias é sempre lento

começa-se pelo início

e há quem diga que chegar ao fim é simples


uma frase é a melhor medida

para juntar os fragmentos


e se a noite a subir pela voz

é um método de fazer silêncios

e o coração é um órgão que

espreita pelos buracos da gramática


no fundo é porque têm um corpo como fronteira

SOUSA, Maria, Revista criatura n.º 4, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

"from the (plastic) body #3" © Thiago Rodrigues, Olhares, Fotografia online. (d.r.)

Filipa Leal – A Inexistência de Eva

Coloco este livro no cimo de tudo o que li em 2009. Não me interessa se é “o melhor”, “a grande revelação”. O que conta: Filipa Leal agarra no mais primitivo do ser, nos mais primordiais arquétipos culturais do ocidente e inaugura uma escrita, uma projecção onírica para lá do nosso tempo cujo alcance levará muito tempo a ser integrado: pelos leitores; pelas academias; pelos editores, pelos bibliotecários. Pouco importa, igualmente, serem estes poemas trinta e um textos (poemas/textos, a questão é irrelevante). Já de tomar nota: apenas fazem sentido, os textos, se lidos todos, de seguida, em sequência. Em mim, depois de os ler, instalou-se um grande silêncio. Branco.

Uma referência à cuidada edição da Deriva e à capa, com uma fotografia de Mafalda Capela que, bem vista, quanto melhor vista, mais nos abençoa de perplexidade.

(Agradeço a quem me deu a conhecer, ainda que lendo eu cego de luz.)

[Editam-se aqui os cinco primeiros textos, apenas para revelar, a quem não leu, um pouco da (a)ventura de mergulhar na obra. Não se edita todo o livro porque o editor me perseguiria a tiros de caçadeira. Retribuo informando o venturoso leitor, que ainda existem livros em venda, no site da editora, ou em algumas livrarias especializadas em poesia]

fotografia da capa: Mafalda Capela (d.r.) - digitalização: CercARTE (blogue)

ESTE LIVRO FOI ESCRITO HÁ MUITO TEMPO.


Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca.

Ouviu: – Não fujas. Não esqueças.

Era uma mulher lívida de medo de não conseguir esquecer.

*

À volta da sala, havia um pomar redondo que a envolvia de maçãs

avermelhadas, difusas. Ela estava lívida e suja, entre a castidade

e o remorso.

Ouviu: – Esquece o arrependimento. Fica.

*

Ao redor do pomar, existira um rio que secara nos últimos

anos. Se o seguisse, junto à margem, em linha curva e longa,

encontraria uma cidade desconhecida. Embora nenhuma cidade

seja desconhecida se soubermos onde está.

Ouviu: – Perder-te-ás na ausência

de água do rio.

*

Não havia um único espelho na sala. Ela não sabia o que era o

princípio e o fim. Desconhecia os conceitos de vida e de morte.

Nunca medira a sala, nem o pomar, nem o terror. Se desejasse,

abriria a porta.

Ouviu: – Assustar-te-á a existência

de dia e de noite.

*

Sabia o seu nome. Chamava-se Eva. Nunca questionara. Porque

haveria de questionar um nome simples e breve? Desconhecia o

texto bíblico, e o simbolismo das palavras. Se se chamasse mar,

ou cálice, ou manhã, não o questionaria.

(…)

LEAL, Filipa, “A Inexistência de Eva” , Porto: Deriva Editores, 2009



Novos Poetas (50) – Luís Filipe Parrado

Ainda extracção do quarto número da revista criatura.

O FOTÓGRAFO CEGO


Fosse eu o fotógrafo cego

e guardaria a beleza vacilante das coisas,


a rapariga de blusa desabotoada,

o sol do meio-dia, a chave na porta,

o sopro que se imagina na fonte

do pensamento,

a presença dos ciprestes no mundo,

falhas, o assobio da infância,

espelhos do tempo.


Abraçaria o coração rachado de qualquer muro,

um homem fechado em si

como num caixão.


Quando uma sombra se perde

descobre no ar

o próprio trilho,

eu ficaria só entre os vivos,


escutaria no céu o rasto dos motores,

o fôlego dos vermes,

a lei da queda dos graves,

a nota imperfeita,

a veemência da carne.


Fosse eu e espalharia a luz.


PARRADO, Luís Filipe, in “Revista criatura n.º 4″, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

© Miguel Matos, Olhares, Fotografia online (d.r.)

© Miguel Matos, Olhares, Fotografia online (d.r.)

Novos Poetas (49) – Ana Salomé

Do quarto número da revista criatura escolho, motivado pelo gosto, dois poemas de Ana Salomé, aqui colocados com graciosa permissão da autora. Dos autores publicados neste número da criatura um ou outro surgirão neste sítio, por escolha própria, necessariamente subjectiva.

Cristal

Levantámo-nos da cama,

arrastando os lençóis pelas ruas.

É urgente encontrar um café,

encontrar uma mesa a um canto no telheiro

e ter com quem não falar.

Daquela esplanada os monumentos são excessivos.

O barroco enche-nos a boca de pedras.

Para as árvores, cultismo, conceptismo, é brisa

e o sol encima-se na talha azul acordada.

Mais um, outro. A estatuária fonte não seca.

Evitamos a sentimentalidade do cristal,

a desusada lágrima pública,

para que caia no poema em segredo.

Vem enfim o café servido por anjos. O alívio.

Um cigarro que nos conte das cinzas pulmonares

em trabalhos de restauro e contrabando.

A paisagem é interior e facciosa em milhares de degraus.

Mesmo quando nos levantamos, descemos.

"que tenhas de mim o contorno incerto" © Carla Salgueiro, Olhares, fotografia online

Tela

Hoje sou eu que poso para o teu poema

Como uma modelo numa cama de flores

Que estaria

A vida inteira diante dos teus olhos

Até ser só ossos, ouro, palavras, rebentação.

SALOMÉ, Ana, in “Revista criatura n.º 4”, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

Beatriz Hierro Lopes – “n.º 82”

[declaração de interesses: conheço pessoalmente a autora, sendo a estima que lhe tenho factor a considerar no que escrevo]

A produção escrita de Beatriz Hierro Lopes (Porto, 1985), embora recente e particularmente oculta (apenas publicada nos três primeiros números da revista criatura), organiza-se formalmente em pequenos textos narrativos que, não sendo fragmentos, ganharão muito com uma leitura sequencial, que pode em parte ser feita no blogue Klein, onde a autora edita alguma da sua melhor escrita. Tal leitura em sequência dos textos de B.H.L. terá duas linhas de interesse: desde logo a percepção de uma evolução evidente das competências de escrita, do alargamento do leque das suas ferramentas e da concomitante evolução para uma textualidade mais fluida e segura; mas também importa o jogo comparativo, no qual se pode identificar uma capacidade imagética de grande fôlego (associada a uma imaginação vibrante, o que não é a mesma coisa) que é evidente nestas narrativas, histórias que, partindo muitas vezes do episódico, do regresso de um passado clivado, quebrado, ascendem ao território da memória nostálgica, de uma aceitação do agora como uma inevitabilidade apenas aparentemente indiferente; nesta aparência tem origem a carga dramática dos textos de B.H.L., ainda mais acentuada pela personificação dos lugares, dos objectos, dos momentos, mesmo das cores ou das luzes, elementos que se instauram como personagens geradoras de uma incessante necessidade de apaziguamento. De perpétua insatisfação, portanto. Textos de fronteira entre a prosa, a prosa poética, a dramaturgia. Bons textos, de uma escritora que tem voz própria; e que, com ela, irá alcandorar-se a plano singular nos tempos mais próximos. Se não estou enganado.

B&W © Elsa Ribeiro, Olhares, Fotografia Online (d.r.)

n.º 82

Perseguia a silhueta de ruas pouco conhecidas. À procura daquela rua em particular: a rua que reflectia o rosto das palavras e o paladar adocicado das histórias que ela ouvira um dia. Há muitos anos. Presa entre a estreiteza de todas as ruas que a separavam da Rua em que nunca vivera. Seria, talvez estranho o seu desejo de retornar a uma rua que nunca fora sua. Mas ela crescera assim: alimentada pelo açúcar escondido nas palavras sibiladas ao seu ouvido, pela sua mãe.

Todas as histórias de que se lembra – e lembrava-se, também, da textura empoeirada dos tapetes sobre os quais se deitava, apoiando o rosto entre as mãos. atenta ao som das frases – que se precipitavam, atropelavam, matavam, na pressa com que atingiam o ponto culminante da narrativa. Aí chegadas, calavam-se. Consoladas, entreolhavam-se as palavras, ao deleitarem-se com o vazio silencioso que entre elas se erguia para revelar o propósito obscuro da história – começavam na Rua. Só depois se adivinhavam as paredes da Casa.

Era assim na Rua da Picaria. Uma rua que não é especialmente bonita. Uma rua embrenhada numa luminosidade que apenas é visível à noite, quando as janelas embaciadas respiram o calor que se liberta de dentro delas. Nessa rua, as casas não são casas: são pessoas. E as pessoas são casas vazias que o tempo se esqueceu de demolir. Todo o comércio da rua respeitava a solenidade da mesma. Vendiam-se móveis. Estantes de carvalho, sólidas o suficiente para suportarem o peso incalculável das bibliotecas particulares; camas de casal, camas de criança, berços de bebés, suaves como a mão que, ao embalar a vida, concede-lhe o peso do fim; mesas grandes, mesas pequenas, para albergar famílias inteiras ou pequenas confissões sussurradas entre o ouvido da empregada e a boca da senhora; secretárias de tampos largos, que sustentariam o peso dos cotovelos de quem, ocasionalmente, fosse privado do sono.

Era à noite que ela perseguia a rua. Atravessando todas as vias estreitas que a distanciavam dela. O som da sua passagem pelas ruas sem nome, era idêntico ao som aguçado de uma faca prestes a enterrar a vida. Rápida. Velozes, os seus passos matavam a longitude das ruas. Deixava os cadáveres – alguns ainda quentes – para trás, na sede assassina com que escalava uma nova rua; acreditando sempre que aquela seria a última. A última baixa nessa guerra que é retornar à Casa. Voltar ao princípio que se erguia ainda antes, do seu nascimento.

Não conhecia a casa. Nunca entrara dentro dela. Nunca sentira o frio gélido das paredes de granito do hall de entrada; nunca correra pela escadaria que conduzia os seus habitantes a cada um dos quatro andares; nunca tocara no veludo azul da sala de piano ou se perdera no salão vermelho, onde todos os sofás eram um convite ao silêncio; nunca, mas, nunca, se sentara à secretária do velho Senhor, que morrera sem aviso prévio. Nunca brincara com o sinete que ele deixara sob o tampo daquela mesa e que hoje repousa sobre o tampo da sua secretária. De pinho, demasiado frágil para suster o peso dos cotovelos dela, em noites de insónia.

Mas aquela casa, que nunca viria a conhecer, pertencia-lhe. Era sua por direito de sucessão emocional. Herdara-lhe as memórias. Fizera suas, cada uma das lágrimas, cada um dos sorrisos, cada surto de felicidade e dor, que nela se protegiam das intempéries do tempo. Não é disso que são feitas as paredes? Seriam suas, então. Despidas de recordações, as paredes nunca seria capazes de suportar o peso daquela casa. A casa que, no n.º 82. se abre ao mundo que a espreita do Largo de Montpellier – serena, da cor do sol quando se abate sobre o horizonte marítimo.

A Casa n.º 82 da Rua da Picaria tem a cor de uma mulher. Uma Mulher como jamais deveria ter existido. Uma mulher cujos cabelos não eram da cor do ouro – eram antes, negros como a penugem dos corvos ao anunciarem um mau presságio –; cujos olhos, nada deviam à translucidez desse Atlântico tão português – eram antes, de um castanho lamacento que recordava o cansaço das terras outrora férteis em países distantes –; cuja boca não era espessa como os lábios das mulheres que, em si, escondem uma promessa de vida – eram antes, firmes e tensos, como as bocas femininas cansadas de reproduzirem em palavras o vendaval que lhes assola o espírito. E, no entanto, era ela, a Dourada.

O centro secreto de toda aquela imensa rede que, à sua volta, crescia. Velha. Terrivelmente velha. Esta seria a sua última imagem: cinco crianças ao redor da sua cama; sufocadas pelo ruído da sua morte – sim, a morte é um grito de revolta contra a respiração do corpo – perplexas com a possibilidade da sua não-existência.

Muitos anos depois, era a sua vez de, do outro lado da rua, contemplar a Dourada. Alta. Altíssima. Como o são as casas que se fundem na intimidade das mulheres. Sabia que haviam destruído o miolo da casa. Que não haveria nenhum vestígio da escadaria em madeira. Que o hall de granito se convertera em matéria humana, fria, ignóbil, funcional. Sim. Tornara-se numa casa funcional. Quatro ou cinco escritórios de advogados povoavam-na. Instalaram-se ali como parasitas. Era, talvez, a modernidade que expatriava as histórias que aquelas paredes ainda guardavam.

Sentou-se na soleira da porta. Quieta, fumando um cigarro. Imaginando como seria bom tocar à campainha e ser acolhida pelas paredes daquela casa. Aceitar num único gesto a herança das dores hereditárias que lhe corrompiam o espírito: tão novo e tão velho. Que existir seja a soma de tudo o que antes de nós outros foram, era-lhe compreensível. Incompreensível era a impotência. O não poder retornar ao que, antes dela, era já o seu início.

Vivera o primeiro riso ali – Seria bom voltar a ele. Seria terrivelmente bom, retornar à gargalhada primordial – vivera ali, também, o peso da primeira morte. Uma morte que se funde no seu reflexo todas as manhãs. Enquanto penteia o seu cabelo asa de corvo; enquanto pinta os seus olhos feitos a partir de punhados de terra; ou passa os dedos pelos lábios cansados de pensar.

Tudo seria assim: restar-lhe-ia uma casa adulterada, vazia, cujas paredes mantinham ainda o clarão das palavras há muito ditas. Restar-lhe-ia a Casa onde nunca poderia entrar. Soube-o aí. Soube que há demasiadas casas no seu sangue que nunca voltariam a ver a luz do dia. Soube que ela seria sempre a memória de uma Casa vazia.

Soube. E, aceitou-o.

No fim de contas, teria sempre a Rua. E o seu lugar vigilante à soleira de uma porta.

Lopes, Beatriz Hierro (texto inédito)

Máscaras © Elsa Ribeiro, Olhares, Fotografia Online

Novos Poetas (48) – Nuno Brito

Ainda na Cràse, número zero, após a surpresa da descoberta de Luís Felício, podem encontrar-se alguns outros autores que sobressaem. Nuno Brito (Porto, 1981) publica três poemas, formal e tematicamente distintos entre si, mas tendo em comum uma grande capacidade de criar imagens inesperadas. Na riqueza imagética, mas também nos bruscos saltos do enunciado, estará a singularidade do autor. A aparente “desigualdade” entre poemas derivará da mesmíssima razão que origina a “desigualdade” dentro de cada poema: o salto, a guinada, a deslocação e o estranhamento do sentido, manipulados laboriosamente para criar trabalhos que prenunciam uma voz poética não confundível. [Nuno Brito tem, publicado em 2009, o livro Delírio Húngaro, com a chancela da Edita-me]

Panteão Nacional


Fui ao Panteão Nacional adorar um ou dois mortos que se riram

o suficiente

e isso chega

A Puma que protege a sua entrada, dita com os olhos verdes quem

é imortal e quem é mais do que isso. Vigia os dez milhões

de habitantes.

Todos eles com as suas bússolas apontadas para sul foram

antigos Reis de Alexandria.


© Carla Salgueiro, Olhares, Fotografia online (d.r.)

Novos Poetas (47) – Luís Felício

Então, abro uma revista de poesia que desconhecia, a Cràse, no seu número zero de cinquenta exemplares e leio o trabalho de nove autores que desconhecia, ou quase. Entre todos tornam-se evidentes ao meu gosto os poemas de Luís Felício. E penso que terá caminho na poesia.

Então, chego ao fim e vejo nota biográfica: Luís Felício, Tavira, 1982.
Seleccionado para o Concurso Nacional de Jovens Criadores 2008 e publicado na Colectânea; premiado e publicado nas edições 2007 e 2008 do Concurso Literário Lisboa à Letra; vencedor do Concurso Nacional Aveiro Jovem Criador 2007; vencedor do Prémio Nacional Jovem Literário Luís Teixeira, com a obra assim também um corpo, em vias de publicação pela editora Livro do Dia. Finalista de Hist. da Arte e Filosofia, FLUL. Publicou na revista literária sin-ismo. Publicou no DN Jovem desde 2002. E penso que outros pensaram que terá caminho na poesia.

Então, dois dias após a leitura de alguns poemas de Luís Felício, na já citada Cràse (a ela se voltará), com a já referida saliência, mão amiga faz-me chegar, após lhe ter mencionado o nome, o último poema de Felício, com devida autorização do autor para publicar este inédito. E penso que há coincidências que têm, elas coincidências, um caminho poético.

[Agradeço a Luís Felício, que não conheço, a autorização concedida para a publicação do poema.]

"ao nada, ao pó, ao esquecimento" © Carla Salgueiro, Olhares, Fotografia online (d.r.)

“La musique savante manque à notre désir”

Rimbaud, in Conte, Illuminations


I – poética  (estátua, som e gesto)

1

alguém canta, se adormeço entre rosas;

alguém canta, se o mármore amadurece

por dentro da vertical cegueira do sangue

e se recolhe no tímpano; e,

alguém canta se, subitamente,

o silêncio é uma fatalidade musical,

e o pó, esse fruto semeado entre os dedos,

ainda inclinados sobre a pedra,

aguarda o florescer da manhã

entre a carne palpitante do peito

e a friíssima sede do cinzel auscultando o coração

de quem canta rodeado de noites

e semeado das nocturnas pétalas do pó

2

enquanto o pó não floresce por dentro

do movimento do sangue, e os braços

de quem dorme dentro da pedra

apenas se erguem inutilmente

para uma negra solidão de metáforas,

o poeta fecha-se num quarto escuro,

o poeta fecha-se dentro da pedra, e espera

pela perfeita coincidência da mão e do gesto

e da água e do fruto; o poeta espera, inclinado

justamente sobre o vértice da água guardada

nas ânforas das imagens;

o poeta sabe que toda a água é perpendicular

à verticalidade desse gesto

que escreve sempre as últimas coisas

3

o poeta sabe

que todo o deus é um paradoxo formal.

o poeta sabe que o que o poema diz são

os lentos braços de mulher desse deus

repartindo as águas diante da pétrea fronte

coberta de pó.

água!, quem canta clama por água,

alguém sempre ama o seu metafórico som,

quando embate na oblíqua pedra escarlate do peito.

diz-se água dentro da noite, e as ânforas do verso transbordam

no crescente das luas das imagens incitadas às enseadas

dos dedos segurando o cinzel.

mas água!, o sangue pesa, e toda água é levíssima,

como se cantasse perpetuamente;

toda a água é a coincidência do som e do gesto

na oblíqua brancura musical de um ofício

de esculpir o negrume que medeia pupila e pulso,

coração e tímpano; toda a água estremece

neste ofício de se saber uma ferramenta musical

4

o pulso, rodeado de água negra,

o pulso, fonte e clareira do movimento. o pulso recolhe

o dilúvio da epiderme do som, quer a pele e a sede

desse mármore;

o pulso, que segura o cinzel, o pulso

é o naufrágio de uma cega leveza sonora de metáforas

a prumo no aprumo do canto escrito no pó semeado

à tangente do lábio lírico.

é depois uma, a primeira, sempre aquela palavra

que dissemina as águas, e que é a ascese

lunar da sombra através das ancas da fêmea em pranto

perante o pathos das imagens estilhaçadas

pelo movimento que as inicia; é sempre

essa palavra que fica –  essa palavra que

é sempre a loucura do mínimo

5

poema: escarlate e pétrea geografia do tumulto,

vertical ascese lunar da sombra e da água negra

do verbo contornando as penínsulas dos dedos,

e instigando as enseadas do sangue

ao litígio dos promontórios das imagens,

aliciando o golfo do coração

e a ancestral paisagem da memória,

à queda a prumo no aprumo

de cantar tudo o que não se pode cantar;

poema, horizontal leito, sono em que se estremece, sempre

que alguém canta o solar destino de todo o canto,

sempre que alguém canta o que não se pode cantar

6

e, não se pode cantar essa mulher feita de penumbra

que cresce por dentro dos versos, essa água negra

que devora as imagens desde o fulcro do gesto

dos dedos inclinados sobre a brancura da página

à cova de seda vermelha do coração; não se pode cantar

o rosto dessa mulher, que é uma escarpa de vidro recolhendo

os prodígios, amalgamando os meridianos da ordem

e propiciando a coincidência da escuta e da pupila,

e a catarse dos anjos (essas metáforas) enrodilhados

diante do coração da visão; não se pode cantar

esse anjo de penumbra que germina entre os umbrais

dos braços cingidos por uma elipse de lume

7

e, não te posso cantar a ti (imagem),

que me costuras um anjo de pó na fronte, se as ânforas do verso

vertem as marmóreas madrugadas do canto

através da rosa aberta da casa onde te deitas comigo,

e se fico submerso de memória e água até ao coração,

e sucumbo a esse levíssimo peso da lua cingida pelas ancas;

não posso cantar a casa, essa rosa

onde me pões a pedra sobre o coração;

e, repito, não posso cantar a casa,

a clareira de todo o movimento do mundo,

o radial espaço da permanência; não posso cantar,

sem que a água negra brote dos buracos líricos da pedra;

não posso cantar o mais mínimo destino.

8

apenas posso cantar as imagens. apenas posso cantar

imagens de imagens; tão só posso cantar

o invisível movimento das imagens, sem fixar a rosa

no cume das águas erguidas a prumo até onde (o) nada se vê.

porém, entre o movimento do cinzel, a invisibilidade do mundo,

a escuridão da água rasa em torno dos olhos

e o florescimento do pó, sei que

o poema, esse gesto antiquíssimo, sei que o poema dirá

o enorme talento dos minerais, e que tu, imagem do meu sono

nos interstícios das coisas, tu, estátua, tu

havias de dizer as metáforas todas enfileiradas, de rosto voltado

para a penumbra do pó semeado entre os dedos;

e sei que tu haverás de dize-las,

por fim, maduras para a escuta de todos os líquidos perecíveis

e do coração do pó estremecendo onde

o gesto coincide com o som,

sei que tu haverás de dizer o lugar

onde as imagens sempre se detém para ouvir

a íngreme loucura do coração, o lugar onde

finalmente o mármore amadurece

na epiderme da escuta em que o poema ressoa

através do imóvel tímpano da pedra

9

hei-de cantar que no poema as imagens

são essas rosas de mármore semeadas no flagelo

que as mulheres costuram ao peito

cada vez que cantam no sono de quem

imagina por gesto e música o ocluso coração da pedra,

de quem sabe que as imagens são

também a floração mineral do sangue

entre os dedos auscultando

o sono e o branco coração

do pó

Luís Felício (poema inédito, 2009)

Novos Poetas (46) – Rui Almeida

Ainda o lançamento, em Lisboa, na Livraria Trama, do sexto número da Callema, em animada noite de Verão, de amena informalidade e alguma paródia. No que à poesia respeita, publicam-se trabalhos de Rui Almeida (um dos pândegos daquela noite), Fernando Silva e do poeta turco Orhan Veli, pela primeira vez trazido à língua portuguesa

Destaquei um poema de Rui Almeida (n. 1972), primeiro vencedor do “Prémio de Poesia Manuel Alegre” (2008) com o livro Lábio Cortado, recentemente editado na Livrododia (que pena aquela capa) e já comentado aqui por Henrique Fialho, e também aqui por Nuno Dempster. Rui Almeida é, de resto, autor de um blogue, Poesia Distribuída na Rua, de fazer inveja aos maiores e melhores sítios divulgadores de poesia online. (Fora da rede nem se fala.)

Mas pelo poema publicado na Callema (antecedido de nove outros, do mesmo autor, numa sequência apenas aparentemente fragmentária) se fica, pelo seu rigor formal, contenção imagética e tom delicadamente aforístico, tão contundente como o metafórico murro que nele irrompe.

[DEZ PECADINHOS MORTAIS AO ACASO]


Suavíssimos pretextos para nada;

O medo de ouvir falar do vento;

O avanço das armas escondidas;

Os tesouros perdidos frontalmente;

Sinceridades sem razão de ser;

A violência de conter o murro;

Segredos que se dizem sem ouvidos;

Os silêncios que mascaram as sombras;

O vil excesso de um pão sem fome;

As palavras escritas com maiúsculas.

Almeida, Rui, in Revista Callema, n.º06, p. 14. Maio de 2009

"White Man" © M, Olhares, fotografia online (d.r.)

Novos Poetas (45) – Luís Filipe Parrado

Com a saída do seu terceiro número, percebe-se com alguma nitidez que a revista de poesia “criatura” está num ponto em que precisa de um golpe de asa, sob pena de, em breve, ficar num limbo em que autores, linguagens e estéticas se repetem e encerram sobre si, caminho excelente se der origem a um casulo; uma pena se gerar apenas um novelo. Assinala-se a presença de dois autores espanhóis (Ben Clark e Elena Medel), convenientemente traduzidos (colocando uma questão editorial: por que razão se lhes apresenta uma pequena nota biobibliográfica, quando nenhum dos outros autores portugueses a merece? Serão assim tão conhecidos? Inversamente, serão excessivamente modestos por junto?). O conjunto de seis poemas de Luís Filipe Parrado surje, no conjunto, enxuto nos recursos, certeiro na amplitude e com uma contundência desemocionalizada. Luís Filipe Parrado é, aqui, ‘categorizado’ como novo, não pela sua idade, mas no sentido em que, por não ter atingido a sua obra um conhecimento público suficiente notório, não evitamos deixar de o ler com a atenção devida ante a ‘novidade‘.

TEORIA DA NARRATIVA FAMILIAR


Naquele tempo o meu pai trabalhava

por turnos

como herói socialista

no sector siderúrgico

e dormia com a minhamãe.

A minha mãe esfregava

a sarja encardida:

a água ficava da cor da ferrugem.

Havia, por perto, um cão

esgalgado,

sempre a rondar.

Depois a minha irmã nasceu

e eu fui obrigado

a rever a minha mitologia privada do caos.

Entre uma coisa e outra

aprendia mentir.

E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

PARRADO, Luís Filipe, criatura n.º 3, p. 119, Abril de 2009

'moldando o ferro' © Ricardo Barros, Olhares, Fotografia Online

'moldando o ferro' © Ricardo Barros, Olhares, Fotografia Online

Novos Poetas (44) – Helena Carvalho

É uma pena que esta autora escreva tão pouco. Antes assim. Antes escrever pouco e assim.

A invenção da noite

Inventamos a noite porque não há noite bastante
que nos adormeça,
nem teia que nos enrede na absoluta lucidez
do último minuto.

Como queríamos lá estar, bem presos
nos fios de seda,
imóveis
resignados
carne-exposta,
a esperar o fim
do tiquetaquear estridente do relógio
e a culpar o sorriso diabólico da aranha.

É quando a noite se estende e nós voltamos a
inventá-la
que desafiamos o tempo.
Montamos os vários palcos do duelo
Que tal um toque vintage na decoração, madame?
arquitectamos as teias onde seremos as presas e,
pelo sim pelo não,
anestesiamo-nos ainda com um pouco mais de noite.
Por favor, mais dois dry martini, um para mim e outro para a senhora. Como é mesmo o seu nome?

Então somos só nós e ele.
A densa escuridão injecta-se nas veias como um sedativo,
e já poucos conseguem ver o movimento dos vultos.
Mais dois destes! Como que raio é que disseste
que te chamavas?
Ouve-se apenas: contidos gritos humanos,
o ranger de ponteiros
e um som agudo
de lâminas e guindastes.

Amanhecemos retalhados –
nós e o tempo –
entre o escuro das paredes nocturnas e
a claridade das janelas. Corpos mutilados e horas paradas.

Mas as horas logo voltam à vida
dos relógios que afinal nunca pararam
de contar;
só nós, consumida a noite,
ficamos desfeitos no palco
a refazer a topografia dos membros e do corpo
próprio.

Ainda hoje,
à mesma hora,
voltaremos a cortar os pulsos
porque a noite não nos adormecerá.

Boa noite… Não se quer sentar e oferecer-me uma bebida?

Helena Carvalho, in, a luz da noite, blogue da autora.

© Francisco Miguel Santos Leonardo, Olhares, Fotografia Online

© Francisco Miguel Santos Leonardo, Olhares, Fotografia Online

Novos Poetas (43) – Bruno Sousa Villar

Saltando de sala em sala no casarão da blogosfera, detenho-me numa delas, lugar de largo calibre. No blogue Nómada Onírico, Bruno Sousa Villar (‘micro-empresário, tradutor‘, as informações que consegui reunir) tem vindo a publicar, desde Janeiro de 2007, poesia própria. Os poemas mais recentes, todos sob o tag ‘O Canto Nómada’ (referência a Chatwin?) revelam um poeta que não deve ser ignorado. Desconheço se Bruno Sousa Villar tem obra publicada. O trabalho já incorporado no blogue – e também presente em redes sociais ligadas à literatura – justificá-lo-ia plenamente. Visitem o blogue referido, se faz favor.

Imolação


Disseste que quando

ardias em silêncio



ardias por protesto



confesso que no momento

não compreendi a razão



mas verifiquei que quando

começam a falar há muitas

pessoas tão caladas



Estavas

mais que certo



agora comigo

a alargar-te

as costas

ardes em silêncio



continuas a travar

essa luta inglória

de até conseguir

que se diga o que se diz


Bruno Sousa Villar → in Nómada Onírico (blogue), ‘O Canto Nómada’, 29 de Abril. 2009 [D. R.]

Boca de Fogo #3 © Ricardo Sá, Olhares, Fotografia Online [de "Boca de Fogo", pelo EntretantoTeatro]Boca de Fogo #3 © Ricardo Sá, Olhares, Fotografia Online [“Boca de Fogo”, EntretantoTeatro]

Novos Poetas (41) – Liliana Jasmim

De novo Liliana Jasmim. Consecutivamente, na serialização ‘novos poetas’. Não é novidade, neste blogue. E justifica-se plenamente, dada a recente produção textual da autora. Tomando o tema da ‘Luz’, Liliana Jasmim escreve no seu blogue – O silêncio dos versos – uma sequência de textos (um octeto de fragmentos narrativos, seguido de dois poemas, o último dos quais se destaca. É um temática muito bela e difícil, inscrita numa tradição, aqui retomada, de redenção pela presença do Outro como fonte de ‘iluminação’. A tonalidade de prece reforça a carga dramática do poema que tem, a propósito, um dos melhores primeiros versos que li nos últimos tempos. O resto do poema merece-o.

Devora-me, luz que gritas na sombra!


Devora-me, luz que gritas na sombra!

Ilumina-me estas mãos feitas de pedra;

sangra os meus versos de amor e, tão

somente neles, deita-te para dormir.

Seguirei por estas linhas tortas,

para dançar junto à tua cintura;

dar-te-ei uma maçã, para abrirmos

num dia de Sol, e fecharei

todas as portas que a Morte abre

para receber o teu corpo.

Liliana Jasmin → O Silêncio dos Versos (blogue), 16 de Abril de 2009

Mov #3 (*) © José d' Almeida & Maria Flores, Olhares, fotografia online

Mov #3 (*) © José d' Almeida & Maria Flores, Olhares, fotografia online

(clique para ampliar)

Novos Poetas (40) – Liliana Jasmim

Aos 22 anos, com um livro de poesia já publicado (A Lua Está Acesa, Corpos Editora, Lisboa, 2008), Liliana Jasmim surge com uma poética portadora de alguma ingenuidade formal e de um universo referencial ainda estreito, visivelmente biográfico; mas é essa ingenuidade que, por vezes, joga a favor dos poemas, tão transparentes no seu desejo de narratividade, explosões emotivas com destinatário. A autora tem um blogue, O Silêncio dos Versos, essencialmente dedicado à poesia – onde se podem encontrar textos dela. O blogue, com uma estética evoluída (que é também feita das escolhas) é particularmente bom na qualidade da edição fotográfica.

Um ser corpo?


O corpo em declínio,

num desequilíbrio

sem tronco.


O corpo que apodrece

debaixo dos lençóis,

com a dor a romper

nas costuras de uma ferida.


O corpo projectado no vazio

quase,

oculto

anónimo

quadrado

perplexo

sem nexo

arqueado

queimado

vago


O corpo vacinado, amestrado.

O corpo enterrado nas mãos,

treinado para correr e não para sentir.

O corpo entupido pela rigidez.

Um corpo quase louco

pela insónia de afectos.

Um corpo que se quebra a ler Camus.

O Corpo atormentado pela poluição,

morto pelo grito dos pássaros à noite.

O corpo que finge orgasmos.

O corpo que se cala, quase em pranto.


O corpo,

numa casa aparentemente arrumada

onde sobra um braço dormente para compor as estantes.


Liliana Jasmin → O Silêncio dos Versos (blogue), 1 de Fevereiro de 2009

© Deyvis Malta, Olhares, Fotografia Online

© Deyvis Malta, Olhares, Fotografia Online

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Novos Poetas (39) – Miguel-Manso

Dois em um: aproveita-se para relembrar o número zero da revista Índice, já comentada neste blogue, cujo número zero ainda terá exemplares disponíveis. Como são gratuítos, pode sempre tentar pedir-se um exemplar à Mariposa Azual, editora responsável da publicação (esperemos que a Primavera traga o desejado número um); aproveita-se para relembrar Contra a Manhã Burra, o livro de Miguel-Manso, do qual, naquele número zero da Índice, se publicaram dois poemas. Em Setembro do ano passado. Antes de ser ‘descoberto’ pela generalidade dos media de grande circulação. Sobre o autor, igualmente, já se escreveu aqui no blogue.

Dois em um: dois poemas no mesmo post.

PASSAGEM DO AUTOR


a manhã abriu

à primeira

gaivota


decidiu mais uma

vez largar o mundo

tentar a cicatriz litoral do êxito


mar do lado direito do carro

o frio nos dedos agora limpos de tabaco

a primeira luz


mãos oceânicas

seguram o negro volante

amanhecido


pensa

no mais argênteo comércio

do peixe


é dos que choram no cinema

e depois saem dissimulando

o rosto

 estrada perdida V © paulO lisboA, Olhares, Fotografia online

estrada perdida V © paulO lisboA, Olhares, Fotografia online

RETRATO de ÂNGELO de LIMA


Sílaba quente

No rumo da frase até à sílaba fria

De Ninive


Da cabeça

uma claridade de tijolo nas

cousas do olhar


desde Chu-Si a Kuan-Su

sobre a mesa de jóias eu agradeço

à criança da razão verde


milhões de vezes

a pirâmide inversa até à

coluna eterna do


poeta Ângelo de Lima

acreana queda em estática face

a pose derramada de

mia soave

the FUNERAL © Mark Freedom, Olhares, Fotografia Online

the FUNERAL © Mark Freedom, Olhares, Fotografia Online

Novos Poetas (38) – Frederico Mira George

O nascimento de uma editora dedicada à poesia é um acontecimento. Nesta circunstância, pelo inusitado programa, é um caso. Fora de Mercado, anuncia-se no blogue do seu mentor, Frederico Mira George, no dia 3 de Março passado (lindo dia). Uma Poeira Azul Espalha-se, o primeiro título da ‘casa’, da autoria do próprio editor, é lançado no contexto de um projecto singular: «Com este livro de Frederico Mira George com um desenho de João Lemos, «Uma Poeira Azul Espalha-se», nasce uma nova chancela editorial. A chancela «Fora de Mercado – Editores» publicará exclusivamente poemas para que circulem gratuitamente de mão em mão. Impressos em papel de jornal, com formato de bolso, cada exemplar deve ser lido e passado a outro. Não estarão em livrarias, em supermercados… nada. Podem encontrá-los em cafés, teatros, no bolso de um amigo… enfim, em todo o lado menos nos habituais templos do mercado livreiro.»

Evidentemente, não apanhei ainda nenhum exemplar. Podem ler-se muitos poemas do autor no blogue, e em outros da sua autoria, nomeadamente o já extinto mas ainda online Saudades de Antero, onde encontrei dois estimulantes poemas, numa sequência de 39, intitulados caligafia inexplicável (2007). Quanto ao livro (e às futuras edições da Fora de Mercado), é sair por aí e inventar uma alma condizente com a caça às borboletas.

Nota: excepcionalmente não solicitei autorização prévia ao autor que me permitisse uma publicação consentida destes poemas. Dado estarem acessíveis online (embora num blogue descontinuado), espero que me desculpe o atrevimento.

caligrafia inexplicável

# 16

tenho a boca tão seca.

pensou.

será de não falar.

pensou.

pensou.

pensou.

pensou.

tenho a boca tão seca.

será de pensar.

pensou.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

caligrafia inexplicável

# 15

ser um seixo. um seixo que.

transporta.

em si todos os mares,

todos os milénios, o toque de todos os seres.

um seixo.

que.

contempla.

sem desejar nada, sem movimento.

sem naufrágio, sem ilusão. sem agora.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006 in Saudades de Antero (blogue), onde se pode ler toda a série caligrafia inexplicável.

© Iva Freitas, Olhares, Fotografia Online

© Iva Freitas, Olhares, Fotografia Online

Novos Poetas (37) – Jorge Reis-Sá

Mais uma vez recorro, sem pudor e com gratidão, à preciosa informação de Henrique Fialho, no seu blogue Insónia, para aqui deixar a breve nota biográfica que escreveu a propósito deste autor, de que me fizeram chegar A Palavra no Cimo das Águas, da Campo das Letras, edição esgotada, editora parece que também esgotada para sempre. «Jorge Reis-Sá nasceu em Vila Nova de Famalicão no ano de 1977. Estudou Astronomia e Biologia, dedicando-se posteriormente à edição. É responsável pelas Quasi Edições. Estreou-se na poesia com o livro à memória das pulgas da areia (1999). Tem colaboração dispersa por várias antologias e revistas literárias, tendo sido co-director da revista Apeadeiro. Além de poesia publicou obras de ficção e organizou algumas antologias, entre as quais o volume Anos 90 e Agora – Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa (2001), posteriormente revista e aumentada.»


Pai, a Minha Sombra és Tu


a cadeira está vazia, um corpo ausente
não aquece a madeira que lhe dá forma

e não ouço o recado que me quiseste dar
nem a tua voz forte que grita meninos
na hora de acordar
ouço o teu abraço, no corredor em gaia
e os olhos molhados pela inusitada despedida

o sol foge
mas o crepúsculo desenha a sombra que
tenho colada aos pés
ou o espelho, coberto com a tua face

pai, digo-te
a minha sombra és tu

Jorge Reis-Sá, in A Palavra no Cimo das Águas, Colecção Campo da Poesia, Campo das Letras, Lisboa, 2000

'Memories of My Father', Jonathan Cox

'Memories of My Father', Jonathan Cox

Novos Poetas (36) – Helena Carvalho

E, de repente, acontecem-nos descobertas assim. Entra-se na labiríntica casa da blogosfera, vagueia-se de quarto em quarto, passa-se por salas vazias, e de súbito deparamos com um espaço habitado. Pela poesia, neste caso. Por uma poeta, Helena Carvalho (1982) com pouca obra escrita – “não chega para fazer um livro“. Mas seguramente com muita escrita sedimentada antes da poesia (narrativa e ensaística); e muito boa leitura assimilada. O poema, publicado pela autora sob o pseudónimo de Dissonantia, intitula-se meta-texto. Justo título, pela construção em estrofes (quase) repetidas que se transformam em matéria poética pela pergunta meta-textual que as intercala. Mas, se fosse apenas um jogo construtivo, o poema seria consideravelmente menor do que na realidade é; adquire fôlego pela sistemática utilização de paradoxos, hipálages e imagens surrealizantes, de novo desconstruídas, parodicamente, nos três versos finais. A autora tem publicados, no seu blogue, A Luz da Noite, outros poemas, de uma forma geral marcados por um lirismo ácido, desencantado, de uma desenvoltura que se assinala. Pode Helena Carvalho tornar-se numa autora de escrita maior? Possivelmente. Certamente merece ser lida e seguida.

meta-texto

As pessoas são sóis verdes

que congelam as flores

onde os peixes nadam.

Nas alturas em que raios

festivos caem do mar

gravitam sob os pássaros

que se enterram na areia;

quando ondas descem ao céu

rodam obliquamente sobre as folhas

azuis dos candeeiros como

vértices apaixonados.


Que quer este poema exprimir?

Qual o seu sentido meta-textual?

Exactamente isto:


Que as pessoas são sóis verdes

que congelam as flores

onde os peixes voam.

Que nas alturas em que raios

festivos caem do mar

gravitam sob os pássaros

que se enterram na areia;

e quando ondas descem ao céu

rodam obliquamente sobre as folhas

azuis dos candeeiros como

vértices apaixonados.

Errata: sendo do senso comum que os peixes não nadam

na terceira linha do poema deve ler-se

“onde os peixes saltam à corda”.

Dissonantia (Helena Carvalho), Terça-feira, Setembro 16, 2008, via → A Luz da Noite

L'Invention Collective, c.1935 - René Magritte

L'Invention Collective, c.1935 - René Magritte