As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Helena Carvalho — O pé da bailarina

Às vezes o mundo explode e insinua‐lhe o seu enigma. Revela pistas e mostra as peças que o compõem, ou parte delas. Nem o mundo foi o crime perfeito. Tenta encaixar as peças, mas elas faltam‐lhe sempre. As que não faltam descansam sobre as placas flutuantes que suportam tudo o que é do mundo e dos homens. Ondulando, cada peça é uma forma instável – ora redonda, ora obtusa – que vai regurgitando significados diferentes. E os seus olhos são servos enfeitiçados que lhes adivinham a secreta participação na ilusão que vela o sentido do mundo: umas vezes, esforçam‐se por captar o que fica da transfiguração das coisas e da sua aparição intermitente, outras, cerram‐se como punhos agastados para sossegar um estômago às voltas. O sentido é um sol quebrado.

Por vezes, quando os seus olhos abertos se perdem, há aqueles instantes plenos em que tudo se alinha perfeitamente, os momentos geométricos em que tudo se equilibra no fio de trapézio de uma palavra ou de um dia de chuva. E ela equilibra‐se também sobre um chão que plana despido de gravidade. Então é um corpo que roda sobre si mesmo com o mundo suspenso na ponta dos pés.

Helena Carvalho. in, a sul de nenhum norte n.º 6, p. 55

«Ballerina As Is», spinninghead © spinninghead, via Deviantart (D.R.)

 


Blogue da Revista A sul de nenhum norte (onde a revista online pode ser descarregada)

Novos Poetas (53) – Helena Carvalho

Acaba de me chegar às mãos o n.º um da cràse – “revista de literatura emergente”, março de dois mil e dez, 250 exemplares, um luxo comparados com os 60 do número zero. Um luxo, também, a lista de autores e a fasquia qualitativa dos textos publicados, entre  poesia e  contos, sendo esta claramente uma edição mais forte que a primeira zero. Como não poderei divulgar todos (e de quase todos me apeteceria deixar um poema aqui) escolherei três ou quatro autores. E de escolha falo também com alguma propriedade.

E começo pela Helena Carvalho (Nazaré, 1982), poeta muito da predilecção deste sítio. (a autora: Licenciada em Filosofia e pós-graduada em Poética e Hermenêutica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É actualmente professora no ensino secundário. Seleccionada para o Concurso Nacional Jovens Criadores 2009, na área de literatura, tendo publicado na Colectânea Jovens Escritores 2009. Colaborações dispersas em revistas literárias. Autora do blogue a luz da noite.).

Helena Carvalho apresenta, neste um da cràse, um conjunto de quatro fortíssimos poemas. Opta-se pelo primeiro deles, seguindo o critério mais neutro.

Foto-verbo-grafia


Interromper o branco da página como a cegueira branca dos olhos.

As palavras são folhas que se evolam da gravilha rasteira dos pátios

em fins de tarde outonais.

Uma imprevista aragem inicia-as na arte obscena do movimento –

um deslizar lânguido em pequenos sopros;

uma penetração violenta em remoinhos de pó, nojo e sentido.


Esperar a luz projectada que nunca chega inteiramente aqui.

A claridade desmedida adere à matéria urgente da visibilidade,

primeiro nos olhos

depois na ressonância incorpórea das películas. Cumpre-se a luz

numa câmara escura,

exposta na contenção profana das imagens planas e nas quatro dimensões

das pedras angulares.


Acontecer-nos a gestação das horas fragmentadas

dos quadros repetidos até à negação da sua aura.

Um sentido a rebentar na mão pueril e espantada,

como duas pernas de mulher prematuramente abertas

em posição de parto.


Nascer a palavra como uma fotografia em meio-tom

a mover-se pela sombra de si, no contraste abismal

entre a luz que se capta e a que ainda não chegou.

© Lia, Olhares Fotografia Online (D.R.)

Novos Poetas (44) – Helena Carvalho

É uma pena que esta autora escreva tão pouco. Antes assim. Antes escrever pouco e assim.

A invenção da noite

Inventamos a noite porque não há noite bastante
que nos adormeça,
nem teia que nos enrede na absoluta lucidez
do último minuto.

Como queríamos lá estar, bem presos
nos fios de seda,
imóveis
resignados
carne-exposta,
a esperar o fim
do tiquetaquear estridente do relógio
e a culpar o sorriso diabólico da aranha.

É quando a noite se estende e nós voltamos a
inventá-la
que desafiamos o tempo.
Montamos os vários palcos do duelo
Que tal um toque vintage na decoração, madame?
arquitectamos as teias onde seremos as presas e,
pelo sim pelo não,
anestesiamo-nos ainda com um pouco mais de noite.
Por favor, mais dois dry martini, um para mim e outro para a senhora. Como é mesmo o seu nome?

Então somos só nós e ele.
A densa escuridão injecta-se nas veias como um sedativo,
e já poucos conseguem ver o movimento dos vultos.
Mais dois destes! Como que raio é que disseste
que te chamavas?
Ouve-se apenas: contidos gritos humanos,
o ranger de ponteiros
e um som agudo
de lâminas e guindastes.

Amanhecemos retalhados –
nós e o tempo –
entre o escuro das paredes nocturnas e
a claridade das janelas. Corpos mutilados e horas paradas.

Mas as horas logo voltam à vida
dos relógios que afinal nunca pararam
de contar;
só nós, consumida a noite,
ficamos desfeitos no palco
a refazer a topografia dos membros e do corpo
próprio.

Ainda hoje,
à mesma hora,
voltaremos a cortar os pulsos
porque a noite não nos adormecerá.

Boa noite… Não se quer sentar e oferecer-me uma bebida?

Helena Carvalho, in, a luz da noite, blogue da autora.

© Francisco Miguel Santos Leonardo, Olhares, Fotografia Online

© Francisco Miguel Santos Leonardo, Olhares, Fotografia Online

Novos Poetas (36) – Helena Carvalho

E, de repente, acontecem-nos descobertas assim. Entra-se na labiríntica casa da blogosfera, vagueia-se de quarto em quarto, passa-se por salas vazias, e de súbito deparamos com um espaço habitado. Pela poesia, neste caso. Por uma poeta, Helena Carvalho (1982) com pouca obra escrita – “não chega para fazer um livro“. Mas seguramente com muita escrita sedimentada antes da poesia (narrativa e ensaística); e muito boa leitura assimilada. O poema, publicado pela autora sob o pseudónimo de Dissonantia, intitula-se meta-texto. Justo título, pela construção em estrofes (quase) repetidas que se transformam em matéria poética pela pergunta meta-textual que as intercala. Mas, se fosse apenas um jogo construtivo, o poema seria consideravelmente menor do que na realidade é; adquire fôlego pela sistemática utilização de paradoxos, hipálages e imagens surrealizantes, de novo desconstruídas, parodicamente, nos três versos finais. A autora tem publicados, no seu blogue, A Luz da Noite, outros poemas, de uma forma geral marcados por um lirismo ácido, desencantado, de uma desenvoltura que se assinala. Pode Helena Carvalho tornar-se numa autora de escrita maior? Possivelmente. Certamente merece ser lida e seguida.

meta-texto

As pessoas são sóis verdes

que congelam as flores

onde os peixes nadam.

Nas alturas em que raios

festivos caem do mar

gravitam sob os pássaros

que se enterram na areia;

quando ondas descem ao céu

rodam obliquamente sobre as folhas

azuis dos candeeiros como

vértices apaixonados.


Que quer este poema exprimir?

Qual o seu sentido meta-textual?

Exactamente isto:


Que as pessoas são sóis verdes

que congelam as flores

onde os peixes voam.

Que nas alturas em que raios

festivos caem do mar

gravitam sob os pássaros

que se enterram na areia;

e quando ondas descem ao céu

rodam obliquamente sobre as folhas

azuis dos candeeiros como

vértices apaixonados.

Errata: sendo do senso comum que os peixes não nadam

na terceira linha do poema deve ler-se

“onde os peixes saltam à corda”.

Dissonantia (Helena Carvalho), Terça-feira, Setembro 16, 2008, via → A Luz da Noite

L'Invention Collective, c.1935 - René Magritte

L'Invention Collective, c.1935 - René Magritte