Minguante – micronarrativas online, nº 13

by manuel margarido

Em post editado a 17 de Janeiro dei conta da existência da revista online de micronarrativas Minguante, divulgando alguns textos do número zero por minha conta e risco, uma vez que havia solicitado aos responsáveis autorização para o fazer, sem ter obtido resposta. Ela veio, de pronto, amável e esclarecedora de um simples mal-entendido, permitindo-me a transposição, para este blogue, de dois ou três textos de que tenha gostado mais em cada edição. Na sexta-feira, dia 13, saiu a edição de Fevereiro, justamente com o número 13 (na realidade são já 14, contando com o tal zero). Tema: a Superstição! A desigualdade qualitativa dos textos ainda é significativa – e um pouco inevitável, com a presença de mais de seis dezenas de autores, portugueses, espanhois, brasileiros. E o tema não se presta a facilidades. Escolhi três autores, o último dos quais pela sua correcção e destreza narrativa, admirável numa rapariga de 15 anos, Rita Avelar, de Ferreira do Alentejo. (Agradeço aos responsáveis da Minguante, na pessoa de Luís Ene, e deixo-lhes uma palavra de encorajamento na continuidade e evolução qualitativa da revista.)

Minguante nº 13. 'Superstições'.

Minguante nº 13. 'Superstições'.

Fernando Gomes

A passagem do tempo

Acabara de sair da consulta à cartomante. As infalíveis cartas garantiram-lhe que viveria ainda muitos anos. Ao atravessar a passagem de nível, uma fracção de segundo antes de ser trucidada pelo comboio das onze e vinte e dois, só teve tempo de pensar como o tempo passa depressa.

© Guilherme Limas, olhares, Fotografia Online

© Guilherme Limas, olhares, Fotografia Online

Mário Calado Pedro

Do espírito da contradição

Não pode fazê-lo – mesmo que o quisesse, que não quer. Mas acima de tudo, não o deve fazer. E é por isso mesmo que fará tudo para o fazer.

A alma dos mortos

Com o cano da arma apontado à cabeça, disse ao bandido: Cuidado com alma! O bandido riu-se com desplante e contou-lhe que já a não tem: Vendi-a por bom preço! Sim, disse ele, mas cuidado, porque te pode voltar. Já estarei morto nessa altura, prometeu o bandido rodando a arma na sua cabeça. Exactamente por isso, disse, não há nada pior que estar morto e ter alma…

Esta merda

Esta merda não é minha, não pode ser, não me cheira, pensou. Olhou melhor. Mas pelo aspecto não conseguia perceber: pequenas bolas comprimidas num rolo, típicas da prisão de ventre… As nossas fezes têm sempre cambiantes muito diferentes. Mas o cheiro… Não me cheira à minha merda, disse para si próprio. É que o que fazemos, não é que cheire bem, mas tem um cheiro confortável, um doce-quente que o nosso nariz reconhece como amigável… Definitivamente, esta merda não é minha, desabafou. Limpou o cu e saiu assustado.


© Pereira Lopes, Olhares, Fotografia Online

© Pereira Lopes, Olhares, Fotografia Online

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Rita Avelar

Quando era pequena dizia sempre à mãe que não acreditava nas histórias de fantasmas que os meninos lhe contavam na escola. Agora sabia que a palavra certa era supersticiosa. Não era supersticiosa. No entanto, a vida muda tanto como o tempo ao longo do ano.

Encontra-se sentada no sofá com o copo de whisky do costume sobre o colo, e olhar fixo no espelho à sua frente. Vê uma mulher de 37 anos com aparência de 50. Agora, a sua vida está de tal forma minada de problemas que já não acredita em quase nada. O marido partiu de malas nas mãos faz hoje uma semana. A mãe morreu há dois meses. O irmão está em Paris a estudar, e as amigas evaporaram-se tão rápido como o álcool do bar da casa. Finalmente decide-se a pegar no papel da direcção da casa, nas chaves do carro e a sair.

O dia está nublado, como a sua alma. Não foi difícil chegar ao destino. Entra, expectante, no edifício e sobe até ao andar referido no panfleto. À sua espera está uma senhora carismática, cheia de energia, cabelo negro e pinturas faciais exageradas, com um baralho de cartas de tarot na mão.


© Marko Ferreira, Olhares, Fotografia Online

© Marko Ferreira, Olhares, Fotografia Online