Ontem, no CCB

by manuel margarido

Sala cheia para receber Maria João Pires, evidentemente o grande chamariz que levou o público ao CCB. Com ela o violoncelista Pavel Gomziakov e o tenor Rufus Müller. O programa convocava um delicado diálogo entre obras de Beethoven (duas sonatas, cinco lieder e as conhecidas 32 Variações sobre um tema original em Dó Menor, Wo0 80) e de Schubert (uma sonata e seis lieder). Nestas escolhas estava igualmente implícito um outro ‘programa’, de carácter conceptual: procurar a revelação da essência espiritual (“mística”, nas palavras de Maria João Pires) contida no balanço entre a ‘revolta’ (Beethoven) e a ‘aceitação’ (Schubert), de acordo com a percepção expressa pela pianista. Para favorecer este objectivo, algumas singularidades marcaram o espectáculo, como o pedido para que não houvesse aplausos entre cada uma das peças – mas apenas no final da primeira parte e no termo do concerto. Contudo, o que mais concorreu para o ambiente de serenidade e intensidade emocional foi a inequívoca cumplicidade entre os intérpretes, muito para além do plano do desempenho. Um clima de genuíno afecto esteve sempre presente e contribuiu, de facto, para uma audição diferente das obras destes dois grandes compositores do romantismo musical europeu. Maria João Pires não surpreendeu (que bom!). A fluidez única, um cromatismo e uma leveza que lhe são tão característicos, uma sonoridade inconfundível. A dela. É como se a estivéssemos a ouvir há vinte anos, mas ainda mais intensa e perfumada. Gomziakov pareceu bem na sonata de Schubert (Der Zwerg, op.22, nº1, D 771) mas creio que não muito feliz na primeira sonata de Beethoven (sonata para piano e violoncelo nº 1 em Fá maior, op. 5 nº1). A grande surpresa da noite (para mim, claro) foi a notável performance de Rufus Müller, um tenor de excepcional craveira, aliando uma técnica irrepreensível, um controlo sem mácula mesmo nas passagens mais exigentes a uma expressividade encantadora. É verdade que as coisas não lhe correram bem (nem a Maria João Pires) no desacerto ocorrido no lied Der Musensohn, op. 92, nº 1, D. 764.

Mas os momentos altos foram muitos, particularmente Im Frühling, D. 882 e a interpretação fascinante, de uma sustentação magistral, que fechou a noite, do lied Nacht und Träume, op. 43, n.º 2, D. 827. Müller cuja magnífica voz de tenor alto obriga a voltar à questão dos limites e definições do que é um tenor. E contudo… Estavam Müller e Pires a terminar este momento mágico e derradeiro do concerto, mesmo na última frase, quando soam, em simultâneo, dois telemóveis. E o espectáculo acaba assim, com um detalhe ínfimo a produzir perturbação, notória nos intérpretes. O silêncio que se seguiu, até se iniciarem os aplausos – entusiastas, claro – foi uma forma inteligente que o público encontrou para limpar a nódoa. Porque o pano de fundo, esse, foi uma noite excelente, num concerto com um conceito e um ambiente de serena intimidade.

Sou surdo, não tenho telemóvel!

Sou surdo, não tenho telemóvel!

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