As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Música

os fantasmas inquilinos: Maria Callas – «Una voce poco fa»

«Maria Callas», Henry Koerner, 1956 © National Portrait Gallery, Smithsonian Institution; doação da Time magazine

(clique para ampliar)

«When one wants to find a gesture, when you want to find how to act onstage, all you have to do is listen to the music. The composer has already seen to that. If you take the trouble to really listen with your Soul and with your Ears – and I say ‘Soul’ and ‘Ears’ because the Mind must work, but not too much also – you will find every gesture there.» — Maria Callas

 

Em Hamburgo, 1959, interpretando a bem conhecida ária de «O Barbeiro de Sevilha» de Rossini, que não sendo obra característica do seu repertório, deixa perceber bastante bem o que a cantora lírica queria dizer na citação.


*o título do post faz evidente alusão ao livro de poesia de Daniel Jonas Os Fantasmas Inquilinos.

Ian Curtis – nos 30 anos da morte

Faz hoje trinta anos que Ian Curtis morreu. Pode não se gostar da personagem, da ideologia, da ruptura estética que protagonizou, do carácter depressivo. Mas era mais que um letrista: era um poeta.

love will tear us apart

When routine bites hard
And ambitions are low
And resentment rides high
But emotions won’t grow
And we’re changing our ways, taking different roads
Then love, love will tears us apart again
Love, love will tears us apart again
Why is the bedroom so cold
You’ve turned away on your side
Is my timing that flawed?
Our respect run so dry
Yet there’s still this appeal that we’ve kept through our lives
But love, love will tears us apart again
Love, love will tear us apart again
You cry out in your sleep
All my failings exposed
And there’s a taste in my mouth
As desperation takes hold
Just that something so good just can’t function no more
But love, love will tear us apart again
Love, love will tear us apart again

Lena Horne (1917 – 2010)

Nos primeiros tempos deste blogue muito se falou do «Great American Songbook», dos seus autores, temas, intérpretes.

Hoje morreu Lena Horne, uma das grandes intérpretes norte-americanas, ela que trazia a América toda misturada no sangue; a cantora, actriz e bailarina que viu Hollywood fechar-lhe as portas por causa das ideias políticas, de esquerda para os padrões Estados Unidos; que seria imortalizada pelo talento, coisa que, na “América”, acaba quase infalivelmente por vir à tona.

Stormy Weather, canção que a imortalizou, aqui em imagens do filme com o mesmo nome.

Don’t know why there’s no sun up in the sky

Stormy weather since my man and I ain’t together

Keeps raining all the time, the time

Life is bare, gloom and misery everywhere

Stormy weather, just can’t get my poor self together

It’s raining all the time, the time

When you went, you went away, the blues walked in and met me

If he stays away, ol’ rocking chair will get me

All I do is pray, the Lord above will let me walk in the sun once more

Can’t go on, everything I had is gone

Stormy weather since my man and I ain’t together

It’s raining all the time

I walk around, heavy-hearted and sad

Night comes around and I’m still feeling bad

Rain’s pouring down, blinding every hope I had

This pitterin pattering, beating and spattering drives Me Mad

Love, Love, Love, this misery’s just too much for me

Can’t go on, everything I have is gone


Stormy weather since my man and I ain’t together

It’s raining all the time, keeps raining all the time

Jónsi – Go Quiet

A singular história de Jónsi Birgisson, vocalista do grupo irlandês Sigur Rós, manifesta-se em registo excepcional a solo, com “Riceboy Sleeps” (2009) e “Go” (2010). Na sequência deste álbum, Dean Deblois realiza um filme, “Go Quiet”, com uma ideia tão simples como bela, até porque se fundamenta no acontecido. Na passagem do ano, Jónsi organiza uma festa em sua casa. “It’s new year’s day in Reykjavík, and Jónsi awakens to a trashed house in the wake of his party. He avoids cleaning up and instead procrastinates by playing songs that reflect the night before, the bittersweetness of new year, and the melancholy of a year gone by“. É o que Deblois conta; é o que filma. O trailer é soberbo (para ver em full screen).

Hoje

Celebra-se um dia fulgurante, improvisado e certeiro. A liberdade como movimento perpétuo.

David Byrne & Brian Eno: Strange Overtones


I wake up every morning
I hear your feet on the stairs
You’re in the next apartment
I hear you singing over there

This groove is out of fashion
These beats are 20 years old
I saw you lend a hand to
The ones out standing in the cold

Strange Overtones in the music you are playing
I’ll harmonize
It is strong and you are tough
But a heart is not enough

Put on your socks and mittens
It’s getting colder tonight
A snowball in my kitchen
I watched it melt before my eyes

Your song still needs a chorus
I know you’ll figure it out
The rising of the verses
A change of key will let you out

Strange overtones though they’re slightly out of fashion
I’ll harmonize
I see the music in your face
That your words cannot explain

Strange Overtones in the music you are playing
We’re not alone
It is strong and you are tough
But a heart is not enough

Do álbum “Everything that happens will happen today”

By this River – Brian Eno

O blogue encontra-se, evidentemente, em modo de sobrevivência.

Apenas a vontade de aqui ir deixando vislumbres de beleza o mantém activo.

(por enquanto)


Here we are

Stuck by this river,


You and I


Underneath a sky that’s ever falling down, down, down


Ever falling down.

Through the day


As if on an ocean


Waiting here,


Always failing to remember why we came, came, came:


I wonder why we came.

You talk to me


as if from a distance


And I reply


With impressions chosen from another time, time, time,


From another time.

Canto Dos Torna-Viagem

Do muito que não vi em 2009 (e foi quase tudo), este espectáculo foi aquele que mais pena tive de perder. Um excepcional grupo de autores/intérpretes da música popular urbana portuguesa da segunda parte do século XX estava em palco. Nomes de importância por estabelecer em definitivo, mas que será indiscutivelmente muito, muito grande. Felizmente estão todos vivos.

Três Cantos. José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias, Sérgio Godinho. Aqui numa recriação de “Canto dos Torna-Viagem”, do álbum “Resistir é Vencer”, letra e músicas de José Mário Branco. Admirável interpretação polifónica, de tradição oral. Belíssima letra, mesmo se descontextualizada da época em que foi escrita.

Canto Dos Torna-Viagem

Melodia 1

Foi no sulco da viagem
Já sem armas nem bagagem
Nem os brazões da equipagem
Foi ao voltar

Pátria moratória
No coração da história
Que consumiste a glória
Num jantar

Foi como se Portugal
P’ra bem e p’ra seu mal
Andasse em busca dum final
P’ra começar

Ávida violência
Reverso da inocência
Sal da inconsciência
Que há no mar

Império tão pequenino
De portulano caprino
Bolsos de sina e de sino
Em cada mão

Pátria imaginária
De consistência vária
Afirmação diária
Do teu não

As malas do portugueses
São como os olhos das rezes
Que se mastigam três vezes
Em cada chão

Cândida ignorância
Grande desimportância
Os frutos da errância
Já lá estão

Melodia 2

Ai Senhora dos Navegantes me valei
De África, do sal e do mar só eu sobrei
Foi p’ra me encontrar que amanhã já me perdi
Longe vai o tempo que eu já não estou aqui

Ai Senhora dos Talvez-Muitos-Mais- Sinais
Socorrei estes desperdícios coloniais
Foi na noite fria que o dia me cegou
Inda agora fui, inda agora cá não estou

Ai Senhora dos Esquecidos me lembrai
O caminho que p’ra lá vem e p’ra cá vai
Etecetera e tal, Portugal é nós no mar
Inda agora vim e estou longe de chegar

Ai Senhora dos Meus Iguais que eu subtraí
Foi pataca mim e não foi pataca a ti
Se é tão grande a alma na palma do meu ser
Algum dia eu vou finalmente acontecer

Melodia 3

Porque não tentar outro ponto de vista
A história dos outros quem a contará
Se qualquer colónia sem colonialista
São os que já estavam lá

Tentemos então ver a coisa ao contrário
Do ponto de vista de quem não chegou
Pois se eu fosse um preto chamado Zé Mário
Eu não era quem eu sou

Os navegadores chegaram cá a casa
E foi tudo novo p’ra eles e p’ra mim
A cruz e a espada e os olhos em brasa
Porque me trataste assim?

Não é culpa nossa se quem p’ra cá veio
Não se incomodou ao saber do horror
A história não olha a quem fica no meio
E o que foi é de quem for

Guta Naki

"Os Poetas da Meia Noite" - fotografia de Rita Nunes

Ainda ecos da sessão / evento / sei lá como catalogar, que teve lugar na noite de 20 para 21, no Teatro Casa da Comédia. Apresentados pelo anfitreão Filipe Crowford, nesta fotografia (descaradamente roubada no Facebook, da autoria de Rita Nunes), da esquerda para a direita: Miguel-Manso, Ana Salomé, Hugo Milhanas Machado, Filipa Leal, Vasco Gato e Catarina Nunes de Almeida. Seis autores com vozes poéticas muito distintas, mas tendo em comum uma maturidade e intensidade notáveis (aqui apenas o gosto determinará preferências). Manuel Cintra encerrou (ele que afirmou preferir abrir) a festa. Entre leituras, gostei particularmente de ouvir os Guta Naki, grupo que não conhecia. Entre textos de Álvaro de Campos e Henry Miller, pelo menos uma cantora de uma expressividade vocal e cénica surpreendentes.

Queixa das almas jovens censuradas




Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Poema de Natália Correia

Música de José Mário Branco (versão ao vivo da canção, originária do álbum Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, 1971


Cuitelinho – Nara Leão

Quando ouvi esta canção pela primeira vez, fiquei em estado de graça. A voz de Nara Leão, a conjugação entre uma melodia delicadíssima e uma letra de uma enorme dureza – e tristeza – tem o cuitelinho (o colibri) como mote.  Canção com origem no folclore tradicional do sudeste brasileiro, não admira que existam diversas versões para a letra. A que foi recolhida e fixada por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó surge como a ‘definitiva’. Gravada em 1974, surpreende os espectadores que acompanharam a telenovela ‘Esperança’ da Rede Globo. Está gravada no CD ‘Música Popular do Centro-Oeste/ Sudeste’, lançado originalmente pela editora Marcus Pereira, que integrou a coleção de quatro LP’s ‘Mapa Musical do Brasil‘.

[De novo, é preferível fechar os olhos, o clip não presta para nada. Mas a canção é excepcional]

A letra. A letra é uma obra-prima da língua portuguesa.

Cuitelinho

Cheguei na beira do porto
Onde as onda se espaia
As garça dá meia volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia, ai, ai
Ai quando eu vim
da minha terra
Despedi da parentáia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes batáia, ai, ai
A tua saudade corta
Como aço de naváia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
E os óio se enche d’água
Que até a vista se atrapáia, ai..
.

Sara Tavares lança ‘Xinti’

No próximo dia 11 é lançado ‘Xinti‘, o novo disco de Sara Tavares, depois de ‘Balancê‘ (2005). Vocacionado para o mercado da “world music“, encerra – a avaliar pelo primeiro tema disponível no You Tube, ‘Ponto de Luz‘ – as marcas distintivas de uma cantora que faz a sua obra tendo um horizonte bem mais largo que o êxito comercial. Leia-se a propósito o artigo de João Bonifácio na ‘Ípsilon online‘. Por mim acrescento que muito agradeço a miscigenação na sociedade portuguesa.


Sem Eira Nem Beira – os Xutos dominam…

Confesso, sim, sempre gostei dos Xutos & Pontapés. Não por os ter visto nascer (vi nascer coisas como os UHF, os Táxi, os Trabalhadores do Comércio, valha-me deus) mas pela inacreditável bojarda de energia com que aqueles putos começaram. As letras eram pobres? Batiam! O Tim cantava mal? O pessoal sentia aquilo! E bastou pouco, muito pouco tempo, para os Xutos terem criado duas coisas daquelas que ficam para sempre: um conjunto de canções maiores (Remar Remar, O Homem do Leme, Na América, Esta Cidade, Barcos Gregos, Direito ao Deserto, Sémen, designo apenas as que mais gosto); e uma iconografia única, como nunca ninguém fez em Portugal ao nível das bandas. Os Xutos são, hoje, trinta anos passados, uma marca transgeracional – basta olhar para o primeiro frame do video-clip para perceber a força da imagem que conseguiram gerar e, mais significativo, consolidar. Os espectáculos do grupo até se podem repetir um bocado. Mas são uma festa, o melhor que se faz no nosso país no domínio do Rock&Roll. Acomodados, os rapazes? Bem, ao lançarem o seu novo álbum, comemorativo de três décadas de carreira, os Xutos conseguem abanar, de novo, as águas, com o tema Sem Eira Nem Beira. E esta canção é uma bomba tão poderosa contra José Sócrates como um bom caso de polícia. Claro, como os rapazes não são parvos, um destes dias estão a tomar o pequeno-almoço com o sr. engenheiro.  Com um sorriso inapelavelmente simpático. E  letal.

Anda tudo do avesso

Nesta rua que atravesso

Dão milhões a quem os tem

Aos outros um passou – bem


Não consigo perceber

Quem é que nos quer tramar

Enganar

Despedir

E ainda se ficam a rir


Eu quero acreditar

Que esta merda vai mudar

E espero vir a ter

Uma vida bem melhor


Mas se eu nada fizer

Isto nunca vai mudar

Conseguir

Encontrar

Mais força para lutar…


(Refrão)

Senhor engenheiro

Dê-me um pouco de atenção

Há dez anos que estou preso

Há trinta que sou ladrão

Não tenho eira nem beira

Mas ainda consigo ver

Quem anda na roubalheira

E quem me anda a comer


É difícil ser honesto

É difícil de engolir

Quem não tem nada vai preso

Quem tem muito fica a rir


Ainda espero ver alguém

Assumir que já andou

A roubar

A enganar

o povo que acreditou


Conseguir encontrar mais força para lutar

Mais força para lutar

Conseguir encontrar mais força para lutar

Mais força para lutar…


(Refrão)

Senhor engenheiro

Dê-me um pouco de atenção

Há dez anos que estou preso

Há trinta que sou ladrão

Não tenho eira nem beira

Mas ainda consigo ver

Quem anda na roubalheira

E quem me anda a foder


Há dez anos que estou preso

Há trinta que sou ladrão

Mas eu sou um homem honesto

Só errei na profissão

(Refrão)

Cristina Branco – Kronos

Com Abril, de 2007, descobri a arte e a voz de Cristina Branco, para lá do seu anterior trabalho como fadista. Nesta deriva para além do fado, a cantora lançou ontem Kronos, com canções de compositores portugueses de grande valor. O álbum é muito belo. Como ainda não sei converter ficheiros mp3 no editor deste blogue, socorro-me do ‘You Tube’, onde já se encontra a canção Bomba Relógio, autoria de Sérgio Godinho.

(Pesquiso e encontro excerto de entrevista à cantora, falando sobre o álbum: «Tem a ver com o tempo. Eu quando pedi aos autores que escrevessem, pedi para que escrevessem sobre o tempo. É sobre a passagem do tempo pelas nossas vidas. Da progressão ou regressão das coisas na nossa vida. Dez discos depois, achei que era uma boa maneira de parar e olhar para o tempo, pensar no que é que queremos fazer com ele», diz Cristina Branco em entrevista. No décimo álbum da sua carreira, a fadista colaborou com músicos tão díspares e pouco habituais no fado, como José Mário Branco e Sérgio Godinho, ao lado de Carlos Bica e Mário Laginha, junto às letras de Hélia Correia e as composições e piano de Ricardo Dias. «É uma união com os meus dois últimos discos, um de homenagem à Amália e o outro ao Zeca Afonso. Nunca me atreveria a ter pedido antes a estes compositores. Acabou por ser fácil convidá-los, depois de ganhar a coragem. Antes não me sentia ainda à vontade para falar com eles. Mas tudo correu bem. Foi óptimo», comenta a intérprete.)



Jacinta canta Songs of Freedom

“Depois de esgotados os seis primeiros concertos, Jacinta apresenta-se com Songs of Freedom em três novas datas. Num projecto inovador, Jacinta cria um espectáculo irreverente e absolutamente surpreendente, apresentando uma soberba simbiose do jazz com célebres temas dos anos 60, 70 e 80. De Ray Charles a U2, passando por James Brown, Nina Simone, Bob Marley, Beatles, Beach Boys, Stevie Wonder, Prince, Bee Gees e Bobby McFerrin, Jacinta – considerada a melhor jovem artista de jazz do continente europeu em 2007, no âmbito da iniciativa “O Melhor da Europa” – promete revelar todo o seu potencial enquanto intérprete, evidenciando-se a sua voz umas vezes portentosa, outras vezes sublimemente delicada e, sobretudo, a sua competência ao nível do swing. Neste regresso a um passado recente, a selecção dos instrumentos foi criteriosa, apresentando-se desta vez num formato minimalista com piano e saxofone. Evidenciam-se ainda os arranjos e as interpretações de Jacinta que oferecerão a este espectáculo uma lufada de contemporaneidade.”

Reticente embora à expressão “lufada de contemporaneidade”, (este é o texto do press-release), serve o mesmo bem para divulgar que Jacinta se apresentará de novo, no Teatro São Luiz, dias 26, 27 e 28 de Fevereiro. Não se perca, e anteveja(ouça)-se, nesta reportagem da SIC.

Valentine’s Day – Tom Waits

Tom Waits, num programa de televisão desconhecido, em data desconhecida. Ah, mas a canção é Take Me Home, do One From the Heart, filme do meu coração. História tão banal, tão simples, rapaz ama rapariga, os dois descompassam, conhecem cada um um outro, ‘apaixonam-se’, hão-de voltar aonde os afectos mais fundos moravam. Frannie (Teri Garr) pede a Hank (Frederic Forrest) que pedirá a Frannie. Pedidos desencontrados que se encontram. A banda sonora de Tom Waits (acompanhado, na interpretação, por Crystal Gayle, que canta o tema) é pelo menos tão bela como o Do Fundo do Coração. E esta canção excepcional, com uma letra tão básica, uma melodia tão simples, é aquela que me lembra sem falhas a grandeza absurda da parvoíce que é o amor.

Escrito de madrugada. ‘Ainda’ é dia 14 de Fevereiro, data sem qualquer significado, mas que nunca esquecemos graças à tv, internet, jornalinho e publicidade.

take me home

you silly boy

put your arms around me

take me home

you silly boy

all the world’s not round without you


I’m so sorry that I broke your heart

please don’t leave my side

take me home

you silly boy

cause I’m still in love you

– Tom Waits

João Aguardela (1969 – 2009)

Morreu o João Aguardela, ainda antes de fazer 40 anos. Eu nem apreciava particularmente o seu primeiro grupo, Os Sitiados (era a Naifa que agora me interessava). Mas apreciava-lhe o bom-gosto, a constante inquietação inovadora, a energia. E era um tipo bonito, em sentido estricto e lato. A notícia pode ser lida aqui.

Porra, não é justo.

João Aguardela © Blitz

João Aguardela © Blitz

Cesária Évora em regresso ao passado

'bienvenue sur le site de Cesaria Evora'

'bienvenue sur le site de Cesaria Evora'

Hoje à noite, no Cinema São Jorge, Cesária Évora regressa a Lisboa para apresentar «Rádio Mindelo», trabalho que recupera registos de canções feitos na década de sessenta, na Rádio Barlavento, Mindelo. Acompanha-a o compositor Gregório Gonçalves, autor de parte dos temas, na generalidade inéditos. Cesária antes de ‘Césária’, antes de ser ‘La Diva aux pieds nus‘, antes de ser ‘descoberta’ pelos franceses – mérito difícil de engolir pelo mercado da edição nacional, que em devido tempo a ouviu e nela não acreditou.  Por essas e por outras é que o site da cantora está em duas línguas, opcionais: o francês; e o inglês. Lusofonia. Pois.

The Great American Songbook (XVI) – It Might as Well Be Spring

A esta hora já os americanos estão a ocorrer às urnas – já o fazem desde há algum tempo, de resto, graças ao ‘peculiar’ sistema eleitoral norte-americano. Não restam grandes dúvidas que os índices de abstenção terão um mínimo assinalável, num universo em que apenas 75% dos cidadãos com capacidade eleitoral estão ‘registados’ como eleitores. Votarão com esperança, como dizia um comentador ontem, na All Jazeera, cadeia televisiva que tem feito uma notável abordagem da campanha, apanhando sempre os aspectos mais analíticos, não seguindo o modelo espectacular da CNN. A esta hora votam, repito, com esperança. Mais: com um desejo de salvação personificado num homem. Ora não será este homem – seja qual for o eleito – um fazedor de milagres. Esperam-no grandes trabalhos para corresponder minimamente ao que, maximamente, dele se aguarda. É um trabalho de elevado risco este: em pleno Inverno fazer aparecer a Primavera.

*

It Might as Well Be Spring. Em 1945, ano de Primavera, após o longo Inverno da Guerra, a dupla Rodgers e Hammerstein escrevem esta canção para o filme State Fair, com ela ganhando o ‘Óscar para a Melhor Canção‘. Muitas versões, mas de novo Nina Simone arrebata o troféu do meu gosto. E de novo com uma imagem em still, o que pode até ser bom para apenas ouvir. Um ‘apenas’ que não é pouco.

The Great American Songbook (XV) – The Man I Love

Faltam menos de 24 horas para a grande nação americana começar a votar. Como sempre, parte de cada um, parte de cada uma, votará com a razão. A outra com a emoção. Desta vez, creio que a emoção ascenderá à paixão. À escolha do homem amado, idealizado, ‘salvador’.

*

George e Ira Gershwin aqui de novo, com um dos mais belos temas que escreveram. The Man I Love (1927), passou rapidamente dos palcos da Broadway para a música popular. Ella Fitzgerald, já com o peso dos anos, mas com todos os recursos vocais que a singularizaram como uma das maiores intérpretes do século passado. Uma versão longa, jazzy, com um delicioso scat final.