As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Vim Porque Me Pagavam

Golgona Anghel — Podia fazer um bocadinho mais de esforço

 

Podia fazer um bocadinho mais de esforço,

sei lá: deixar de ser essa clepsidra cheia de neve.

Gosto da sua pose clássica,

de peitos nus debruçados sobre um futuro académico,

livros raros e bibliotecas nacionais;

mas fazia bem em tirar de vez em quando

a gravata e o chapéu,

subscrevo e recomendo, eu.

 

Você sabe, gosto de coisas triviais, sou o seu cão banal,

colecciono cabelos

nas folhas de um herbário sentimental,

sou vítima do seu produto interno bruto, objecto

em série da maneira como segura no volante,

eu imundo e encharcado,

eu a sustentabilidade da segurança social,

analfabeto, pedreiro da Lena Construções. Lda.

 

Eu fácil eu farto eu fome

com a vida marcada na pele,

 

olha-me de frente

quando gritas e esticas a pernoca.

Quem manda aqui sou eu.

Agora abre a boca.

 

Golgona Anghel, Vim porque me pagavam, Lisboa: Mariposa Azual, 2012.

 

 

«Svefn g englar II», Katarzyna Kędroń, via Deviantart (D.R.)

 

 

Golgona Anghel no site da editora Mariposa Azual

Golgona Anghel — Vim Porque Me Pagavam (dois poemas e apresentação)

Depois do tão aguardado como surpreendente e bem recebido livro de Margarida Vale de Gato (Mulher Ao Mar), de novo a Mariposa Azual edita uma autora cujo trabalho poético se aguardava há muito em livro, depois de Crematório Sentimental («Quasi», reeditado na «Livrododia»). Os poemas de Golgona Anghel,  alguns deles dispersos em publicações e blogues, prometiam nova corporização num conjunto publicado (organizado num tríptico temático), francamente estimulante até pela singularidade da voz poética da autora. Vim Porque Me Pagavam é o título da obra. Por gentileza da editora, Helena Vieira, da Mariposa, aqui se deixam dois poemas e notícia do seu lançamento, na Sexta-feira, 22 de Julho às 22:30 – 23/7 às 1:30, no Bar Bartleby, Rua Imprensa Nacional, 116, Lisboa.

Refira-se que o livro estará em venda, a partir de segunda-feira 18 de Julho (ainda antes do seu lançamento), nas livrarias «Poesia Incompleta», «Livraria Sá da Costa», «Livrarias Leitura books & living — (Livraria Leitura Campo Alegre (Porto)», «FNAC’s». Como foi feita uma edição de 300 exemplares, acorrei aqueles que gostam de poesia, os bibliófilos, os investidores em bens mais sólidos que certificados de aforro.

«od to triumphal desolation 2», shoots © soots, via Deviantart (D.R.)

 

«O mundo é estranho, Sandy!»

 

 

 O nosso é parecido com a palavra agora.

Das mãos nasce-nos uma espécie de nostalgia trémula

que na versão alemã traduziram por dipsomania.

 

 

Quando temos sede abrimos um rio

de esperas na noite dentro

e arregaçamos as calças até aos joelhos.

Não se dê que a madrugada

nos surpreenda com as cheias.

 

 

Estou com esta doença agora, but it’s ok.

I close my eyes and drift away;

I softly say a silent pray.

Não ligues nem comentes,

just press play:

 «O mundo é estranho, Sandy! O nosso é parecido.»

 

 

*****

Esta é a melhor altura do ano

para cortar o cabelo – profere Sandy,

remexendo com a ponta dos dedos

alguns fiozinhos na testa.

A porra da lua atrai as marés,

cria tsunamis, invade o Japão,

provoca uma crise nuclear,

porque é que não haveria de fazer

crescer o cabelo?

 

Deus puxa os poetas pelos cabelos, explica Hölderlin – 

acrescento então,

preocupada com a importância literária do assunto.

Mas, para ter a certeza,

quis perguntar a um especialista,

isto é, a qualquer uma das mulheres

que estavam agora a fazer fila

à entrada do Ginásio Clube Português

como os grandes bandos de antílopes Impala

à beira de um pântano,

num documentário na Animal Planet.

 

 

Quis dizer-lhes que o dinheiro, a idade não contam,

que amanhã é outro dia,

mas depois lembrei-me dos terramotos,

da crise nuclear, do IVA,

e fiquei calada.

 

 

Anghel, Golgona, Vim Porque Me Pagavam, Lisboa: Mariposa Azual, 2011.

«od to triumphal desolation 1», shoots © soots, via Deviantart (D.R.)

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