As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Tradução

Tradutores – o ‘desprezo’ com cartaz em fundo

Por estes dias a profissão de tradutor está em destaque em Espanha, com a realização (amanhã) do colóquio Con traducción no hay Pirineos na Feira do Livro de Madrid e do simpósio Traducir Europa, já na segunda-feira, no Instituto Cervantes; em Outubro estará pronto o Libro Blanco de la Traducción. Pretexto para uma entrevista com três dos mais consagrados tradutores espanhóis María Teresa Gallego Urrutia, José Luis López Muñoz e Miguel Sáenz (Larache, que pode ser lida aqui, no El País.  Com clareza, falam do principal problema da profissão: o ‘desprezo’ dos editores. Pretexto, igualmente, para deixar aqui o lindíssimo cartaz dos “Premios nacional de traducción” (sic), autoria de Agustin Sciammarella, notável ilustrador espanhol.

© Agustin Sciammarella

Os ‘meus’ Blogues – Do trapézio, sem rede

(…) uma coisa que eu acho belíssima, essa ideia de que, quando nos confrontamos com um texto, olhamos e dizemos: «tenho aqui uma guerra». Ou seja, há uma opacidade original do texto original, opacidade não quer dizer que a gente não perceba a uma primeira leitura, há uma opacidade à tradução, há uma barreira à tradução, na qual depois aplicamos tudo isto que estamos a teorizar. Mas aplicamo-la como? Quando estamos a traduzir uma frase não estamos a decompô-la, pelo menos racionalmente. Há um mecanismo quase espontâneo, digamos, intuitivo.” – António Mega Ferreira, em “tradução: a panela, o cozido e o caldo”, debate sobre a Tradução, realizado em Março de 2004, publicado em “A Phala 1″ (segunda série, 2007, Assírio & Alvim).

No silêncio discreto, no anonimato das iniciais L.P., o autor do blogue Do trapézio, sem rede tem vindo a realizar um trabalho de grande valor e, por vezes, de descobertas inesquecíveis. Esta ‘poesia passada para português’ não nos oferece apenas, com uma regularidade de metrónomo, poemas de 130 autores (and counting…) vertidos para a língua portuguesa: tem a virtude de nos dar a conhecer muitos poetas que estão fora dos círculos do reconhecimento mais imediato; e o mérito de nunca omitir a fonte, numa atitude de honestidade e seriedade que se deve assinalar. Visito muitas vezes ao Do trapézio, sem rede – nome que, reportando-se à tradução, é já uma enunciação da percepção do autor sobre o seu trabalho. Vou lá muitas vezes, repito, jamais me desiludo. Nunca encontrei cedências de gosto. Antes uma criteriosa escolha de autores; de poéticas; e traduções que admiro. Agradeço muito. Recomendo muito o Trapézio, essa caixa de rebuçados da poesia universal.

Aqui se deixa o último poema que nos é oferecido em tradução – data de dia 18 -, com a respectiva indicação da fonte, cuidado que o autor infalivelmente não descura.

Vladimír Holan

Mãe

Alguma vez observaste a tua velha mãe
a compor a cama para ti,
a maneira como ela estica, endireita, aconchega e alisa os lençóis
para que não sintas um só vinco?
A sua respiração, o movimento das palmas das mãos
são tão ternos
que no passado apagam esse incêndio em Persepolis
e agora acalmam uma futura tempestade
nas costas da China ou em mares desconhecidos.

(versão minha [Nota: do autor do blogue, L.P.], a partir da tradução inglesa de Ian e Jasmila Milner, reproduzida em The poetry of survival, organização e introdução de Daniel Weissbort, Peguin, Londres, 2ª edição (?), 1993, p. 37).
'Mãos de Mãe' © Jorge Roque, Olhares, Fotografia Online [D.R.]

'Mãos de Mãe' © Jorge Roque, Olhares, Fotografia Online

(clique para ampliar)

W. B. Yeats, um poema

[post reeditado]

Tradução, da autoria de Joaquim Manuel Magalhães, de um poema de W. B. Yeats, um amigo meu. Enviada por Amélia Pais, cara leitora atenta.


He Wishes for the Cloths of Heaven


Had I the heavens’ embroidered cloths

Enwrought with golden and silver light

The blue and the dim and the dark cloths

Of night and light and the half-light


I would spread the cloths under your feet:

But I, being poor, have only my dreams

I have spread my dreams under your feet

Tread softly because you tread on my dreams.


W. B. Yeats


Ele Deseja os Tecidos do Céu


Tivesse eu os tecidos bordados dos céus,

Lavrados com a prata e o ouro da luz,

Os tecidos azuis e foscos e de breu

Que têm a noite, a luz e a meia luz



Estenderia esses tecidos a teus pés:

Mas eu, porque sou pobre, apenas tenho sonhos;

São os meus sonhos que eu estendi a teus pés;

Sê suave no pisar, que pisas os meus sonhos.

Wind Flowers, John Waterhouse

Wind Flowers, John Waterhouse

Le Carré no Courrier – um serviço

Ainda a propósito do número de Dezembro do referido Courrier Internacional, a edição salva-se em grande estilo com um esplêndido texto biográfico de John Le Carré (uma devoção, desde ‘A Perfect Spy‘) onde o escritor relata, num tom supinamente irónico, os seus tempos de espião profissional. Como a peça em causa tem o título «The Madness of Spies – A Secret Service secret» e, na tradução portuguesa (não assinada) surge redutoramente vertida em «Um segredo dos Serviços Secretos»; como o texto começa desta forma: «I carried my first 9-mm. automatic Browning when I was just twenty years old. I was a National Service second lieutenant in the Intelligence Corps in Austria. It was my first clandestine mission, and I was in heaven.», e a tradução nos oferece «Tinha apenas 20 anos, quando tive a minha primeira Browning automática de 9mm. Era segundo-tenente do National Service, em serviço no Intelligence Corps, o destacamento dos Serviços Secretos britânicos na Áustria», penso que presto um decente ‘serviço’ ao deixar aqui o link para o texto original, publicado em 29 de Setembro no The New Yorker.

Nota: Na capa do mencionado C.I., surge o título «Espionagem – John Le Carré conta a sua história». Se o título referido no post anterior era, verdadeiramente, um understatement, este é, em boa verdade, um exageradíssimo overstatement. Critérios).

'lindo serviço...'

'mas que lindo serviço...'