As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Sophia de Mello Breyner Andresen — Os Erros

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

 

Andresen, Sophia de Mello Breyner, O Nome das Coisas — Obra Poética III, Lisboa: Editorial Caminho, 1991

 

kparks © kparks, via Deviantart

 

 

Biografia, bibliografia e outras ligações sobre Sophia de Mello Breyner Andresen no site da D-GLB

Sophia de Mello Breyner Andresen — Elsinore

 

 

ELSINORE

 

No palácio dos Átridas como em Elsinore

Tudo era cavernoso — as paredes

Eram grossas o espaço excessivo e sonoro

Roucas as vozes da maldição antiga

 

Porém em Micenas o sangue era exposto

E corria vermelho como num grande talho

Sujando apenas as mãos dos assassinos

E a água da banheira —

Lá fora o rio a luz

Continuavam limpos e transparentes

O crime era um corpo estranho — circunscrito —

Não pertencia à natureza das coisas

 

Em Elsinore ao contrário o mal era um veneno

Subtil

Invadia o ar e a luz — penetrava

Os ouvidos as narinas o próprio pensamento —

O amor era impossível e ninguém podia

Libertar-se:

O inferno vomitava a sua pestilência invadia

As veias e os rios —

No entanto o mal não se via: era apenas

Um leve sabor a podre que fazia parte

Da natureza das coisas

 

Nov. 1988.

 

Andresen, Sophia de Mello Breyner, Colóquio/Letras n.º 107, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 1989.

 

Ângelo de Sousa, serigrafia s/d — (D.R.)

(clique para ampliar)

Sophia de Mello Breyner Andresen — Porque os outros se mascaram mas tu não

 

É um poema tão lido, digerido, tão bandeira, tão utilizado, manipulado, instrumentalizado, tão já lugar comum, que nos esquecemos de o ler como se o lêramos pela primeira vez. Mas raios me partam se hoje não me veio à cabeça a tarde toda. E a noite.

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.


Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen

«Chains», by Markus © Markus, via Deviantart (D.R.)

Aniversário (com Sophia em fundo)

(À Ana Clara, minha filha. 16 anos. Os dias… tão poucos tantos)

Que nenhuma estrela queime o teu perfil

Que nenhum deus se lembre do teu nome

Que nem o vento passe onde tu passas.


Para ti criarei um dia puro

Livre como o vento e repetido

Como o florir das ondas ordenadas.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Clara3

Poesia Portuguesa (29) – Ruy Cinatti

De O Livro do Nómada Meu Amigo, obra culminante no trabalho poético de Ruy Cinatti (1915 – 1986), o primeiro e terceiro poemas, na bela edição da Guimarães Editores, com poema de abertura de Sophia de Mello Breyner Andresen e ilustrações de Hansi Stael.

PROCLAMAÇÃO


A natureza não desce

A contratos. Nem a vida

Se mede pela razão.


A vida é toda mistério.


Quem largamente se deu

Não ofendeu a justiça

Mas viveu do coração.


*


DISPONIBILIDADE


Vem ver a vida

Passear silenciosamente

Como a ave no ar claro.


Vê-a que desce. Prende-a.

Nas tuas mãos em concha

Fica um instante.


Deixa-a fugir. Outras há.

Ruy Cinatti, in O Livro do Nómada Meu Amigo, (3ª Edição), pp. 17, 19, Colecção Poesia e Verdade, Guimarães Editores, Lisboa, 1981.

Pintura rupestre, Timor-Leste

Pintura rupestre, Timor-Leste

Poesia Portuguesa (25) – Sophia de Mello Breyner Andresen

De tão conhecida a sua obra, apeteceu-me publicar um poema singularizado, introdutório de O Livro do Nómada Meu Amigo, de Ruy Cinatti, poeta que aqui chegará. No poema, Sophia evoca o amigo ‘desaparecido’ em Timor, escreve em louvor da sua ausência. Uma ausência que provoca esperança, porque significa ‘não ficar’ para ‘Destruir com amargas mãos seu próprio rosto’. Leia-se: viver no sufocante mundo salazarista.

PARA RUY CINATTI

AUSENTE EM TIMOR E ALGURES

APÓS CINCO ANOS SEM NOTÍCIAS


Aquele que partiu

Precedendo os próprios passos como um jovem morto

Deixou-nos a esperança.


Ele não ficou para connosco

Destruir com amargas mãos seu próprio rosto.

Intacta é a sua ausência

Como a estátua de um deus

Poupada pelos invasores de uma cidade em ruínas.

Ele não ficou para assistir

À morte da verdade e à vitória do tempo.


Que ao longe,

Na mais longínqua praia,

Onde só haja espuma, sal e vento,

Ele se perca, tendo-se cumprido

Segundo a lei do seu próprio pensamento.


E que ninguém repita o seu nome proibido.

Janeiro de 1956

Sophia de Mello Breyner Andresen, poema de abertura, in, Ruy Cinatti, O Livro do Nómada Meu Amigo, Colecção Poesia e Verdade, Guimarães Editores, Lisboa, 1981 (3ª edição).

'Entardecer' - Ilha de Jaco, Timor-Leste © Rita Leal, Olhares, Fotografia Online

'Entardecer' - Ilha de Jaco, Timor-Leste © Rita Leal, Olhares, Fotografia Online