As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Rui Pires Cabral — A Vida Paralela

 

Nenhum comboio nos leva
tão longe: uma cidade morta

vive ainda na rara canção.
Escuta as palavras que ensina

e todas as coisas que volta
a mostrar: a noite, o regresso

ao quarto emprestado,
as caves com livros

de Charing Cross Road
e o tempo lá fora

tão frio.

Rui Pires Cabral. Ladrador, Lisboa: Averno, 2012.

 

«Train Ride», Alex © Alex, via Deviantart (D.R.)

Rui Pires Cabral — «Do coração da noite vinham apelos e silêncios»

 

«Do coração da noite vinham apelos e silêncios»1

Para o João Menau

 

As cidades doem, estão dentro de nós

mantidas por laços de fumo e desejo,

têm muros úteis e portas escondidas

que dão para a noite, como certos livros,

e há amores que vivem a horas tardias

 

e outros que se cortam no fio da trama,

queimam paus de incenso para abrir

caminhos, remover obstáculos, há curvas

e arcos, ecos desolados, quartos de ninguém.

As cidades cansam, estão nos nossos

 

dias, têm mil janelas de azul virtual

que nunca sossegam e nunca terminam

e há corpos que ensinam a temer a morte,

sombras que circulam nas redes do escuro

e homens que ferem para não chorar.

 

1Albert Camus, A Morte Feliz [tradução de José Carlos González], Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p. 102.

Cabral, Rui Pires, Oráculos de Cabeceira, Lisboa: Averno 2009

 

«Prey», Nuno Figueira © Nuno Figueira, via Deviantart (D.R.)

Rui Pires Cabral – A Nossa Vez



A NOSSA VEZ


É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia

a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar


e entram clandestinas no poema.

São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos

atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera

e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva

nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer

a nossa vez.

Cabral, Rui Pires, Longe da Aldeia, Lisboa: Averno, 2005

«Not Quite There», Bogdan Stefanescu © Bogdan Stefanescu, via Deviantart (D.R.)

Novos Poetas (XI) – Rui Pires Cabral

Nesta procura de novas vozes poéticas, já se esbateram os limites etários, geracionais, editoriais (é novo porque não tem livro editado?). Importa mais ir descobrindo ou revelando autores cujo tempo de trabalho poético está ainda a entrar no alvor, ou dele acabou de sair para ganhar esplendor. Na número 10 da revista Telhados de Vidro, de Julho de 2008, editada pela Averno, Rui Pires Cabral (1967) surge, com quatro poemas, sob o título Oráculos de Cabeceira II, cada um deles com número remissivo junto ao título, para uma referência bibliográfica final, titulada ABERTOS AO ACASO. O autor está bem identificado no blogue Volumen, e vale a pena ir lá, perceber melhor. Um poeta só se percebe com o tempo da sua escrita. A sua escrita só se contrói no tempo.

A latere: pedi o número 10 da revista na Fnac do Chiado. Amabilíssima, a funcionária informou-me que estava esgotado, mas possuía 23 exemplares do número 11! Estranhei muitíssimo. Tanta estranheza levou a senhora à investigação in loco (nas prateleiras da ‘Poesia’). Voltou muito animada, de livro na mão, chamou uma colega e informou-nos aos dois: “tem graça, temos imensos números 10, o sistema é que deu entrada do número 11, que não existe”. Entregou-me o exemplar. Paguei e olhei para a incómoda etiqueta que colam na contra-capa dos livros, neste caso ainda mais irritante por estar ‘peganhentamente’ aposta sobre um material translúcido, o papel vegetal, que faz parte integrante do grafismo da revista (na capa, tem a função de deixar entrever e despertar a curiosidade para o desenho de Jorge Feijão, impresso na primeira página de papel opaco). De facto, na referida etiqueta, lá está – Telhados de Vidro N11, com código de barras e tudo. Gostava que as FNAC’s do mundo deixassem de colar vinhetas nas capas dos livros. Gostava, também, que todas fossem tão optimistas que anunciam já, num número acabado de sair, a existência do que há-de vir.

ORÁCULOS DE CABECEIRA II

«Are others happier?»¹

para a Helena Gaspar

Quando se sentam a ler

nos grandes átrios da noite

entre mil luzes, jogos de água,

escadas que rolam ainda

sob cúpulas de betão –

são mais felizes?


Quando saem do trabalho

acossados pelo vento

de meados de Fevereiro

e é sempre segunda-feira

nas paragens do eléctrico –

são mais felizes?


Quando se cruzam connosco

no remanso dos jardins

e encontram outro caminho

de mistério, de desejo

na nossa imaginação –

são mais felizes?


Quando os vemos mais

pequenos, mais ao longe,

nas esplanadas sobre o mar

e por momentos nos lembram

que tudo se há-de perder –

são mais felizes?

ABERTOS AO ACASO:

¹ Derek Jarman, Modern Nature, Vintage, Londres, 1992, p. 138.

Rui Pires Cabral, in revista Telhados de Vidro nº 10, p. 35, Averno, Lisboa, Julho de 2008

ponto cruz © Maria São Miguel, Olhares, fotografia online

ponto cruz © Maria São Miguel, Olhares, fotografia online