As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Rui Lage — Birds, Beasts, and Flowers

 

This is the iron age
but let us take heart
seeing iron brake and bud
seeing rusty iron puff with clouds of blossom
D. H. Lawrence

 

 

 

O aguaceiro manso das jovens

passeia na sala tardia

(o pêssego de Lawrence amadurece

algures nas tuas mãos).

 

Ao longe nuvens de flores aparecem

raiando a costa do ferro e do gelo,

a ilha de Miranda sabe o caminho

para a casa da luz,

escrito no sangue do tigre

que nos livros

acende a temível simetria da noite:

sangue sujo de amor

na inocência

e na experiência.

 

Na sala tardia,

a polpa ferida de literatura inglesa,

o caroço preso à floração

do vestido de Ofélia,

que ouviu adagas

e medrou lilases da terra sem vida.

 

Espera a romã, os figos,

a nêspera: não esperes o enfarte,

acento agudo

na sílaba final do mais longo dos versos.

Rui Lage. Berçário, Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2004.

 

Capa sobre sobre fotografia de Carlos Pinto Coelho.

Rui Lage — Caça Grossa

 

 

CAÇA GROSSA


Entopem o gargalo da toca

espetando o nariz, calcando

esquivo lagarto pateando

ossinhos de rato no Éden

de outra vida

enquanto das élficas orelhas

sacodem dejectos de sol:

duas raposas recém-nascidas.


Indiferentes ao milhafre

e à doninha,

em qualquer colo felizes

de qualquer leite beberiam.


Mas na aldeia,

numa porta de estábulo

imunda e carunchosa

o sangue secou no ruivo pêlo

e na materna cabeça a pólvora

onde a bala deu entrada.


Lage, Rui, Corvo, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2008 − encontrado aqui.

 

«mummified fox», david bolwell © david bolwell, via Deviantart (D.R.)

“Tess of the D’ Ubervilles” – Thomas Hardy

“I agree to the conditions, Angel; because you know best what my punishment ought to be; only – only – don’t make it more than I can bear!”
– Thomas Hardy, Tess of the d’Urberville

Nos 170 anos da nascimento de Thomas Hardy (2 Junho de 1840 – 11 Janeiro de 1928), pretexto para recordar um dos filmes da minha vida (damn, não se consegue fugir a citar o João Bénard da Costa). Melhor dito, pretexto para a memória da adolescência de hormonas e borbulhas, amplamente estimuladas pelo intensa desempenho de Natasha Kinski, então com 19 anos, uma linhagem cinematográfica de peso e uma carreira que tudo parecia prometer. De “Tess of the D’ Ubervilles” (1979) se fala, em Portugal estreado com um simplificado e muito apelativo título: “Tess“. Via este filme de Roman Polanski (que a justiça divina o proteja dos tribunais) cheguei ao livro, mais tarde ao autor. E se, de Thomas Hardy, aprecio bastante a poesia (obrigado, Rui Lage, por esta tradução), quando surge o nome do escritor de Dorset é do filme, não do romance, que imediatamente me lembro. Mas quem lhe ficou indiferente, a ele filme? Quem não suspendeu a respiração na cena final?