As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Rui Almeida

João Miguel Fernandes Jorge — Este é o Papel Singular da Alegria

(para o meu amigo Rui Almeida)

 

Este é o papel singular da alegria
a lei errante do país
é o maior dos silêncios.

Caminhei por entre rios pontos de água
estações de novembro
pequena razão dos ventos da manhã.

Não trafiquei não porque seja forte
mas porque falo da alegria do estar sobre vós
nestes pontos de água
na acidez da flor
neste país frequentado

algumas coisas nunca mudarão. O rigor
da luz torna invulnerável o desejo de perder
esta pressa de verão.

Algumas coisas serão sempre as mesmas: manhã
encosta o teu ouvido sobre a porta escuta
era a voz os cavaleiros roubados a Ucello
longínquos.

(Profanamos a casa não o corpo
esta forma desenhada ruga a ruga
esta cor amarela sobre a praia.)

João Miguel Fernandes Jorge, Obra Poética Volume 3, Lisboa: Editorial Presença, 1988

«spirit of the child», Ciril Jazbec © Ciril Jazbec, via Deviantart (D.R.)

Rui Almeida – um poema

Última escolha da escolha “Resumo, a poesia em 2009”. Outros autores ou poemas gostaria de deixar aqui (todos os de Luís Filipe Parrado, ou de David Teles Pereira, de Rui Pires Cabral ou de Ana Salomé, apenas para falar dos mais novos ou ainda menos conhecidos, mas cujos trabalhos estão mais acessíveis online). Escolhe-se o belíssimo poema de Rui Almeida.

O homem que se olha ao espelho sabe

Que vai morrer. Não sabe quando ou como,

Mas reconhece a finitude da vida

— Da sua vida, de cada vida.


Contempla o processo biológico

E admira-se perante o zelo do tempo

A modelar-lhe a velhice no rosto.

Dino Valls, "Las tentaciones de San Antonio", 1991, Têmpera de ovo e óleo © Dino Valls (D.R.)

in “RESUMO, a poesia em 2009″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010

originalmente publicado em: Almeida, Rui, “Lábio Cortado”, Torres Vedras: Livro do Dia, 2009

Novos Poetas (46) – Rui Almeida

Ainda o lançamento, em Lisboa, na Livraria Trama, do sexto número da Callema, em animada noite de Verão, de amena informalidade e alguma paródia. No que à poesia respeita, publicam-se trabalhos de Rui Almeida (um dos pândegos daquela noite), Fernando Silva e do poeta turco Orhan Veli, pela primeira vez trazido à língua portuguesa

Destaquei um poema de Rui Almeida (n. 1972), primeiro vencedor do “Prémio de Poesia Manuel Alegre” (2008) com o livro Lábio Cortado, recentemente editado na Livrododia (que pena aquela capa) e já comentado aqui por Henrique Fialho, e também aqui por Nuno Dempster. Rui Almeida é, de resto, autor de um blogue, Poesia Distribuída na Rua, de fazer inveja aos maiores e melhores sítios divulgadores de poesia online. (Fora da rede nem se fala.)

Mas pelo poema publicado na Callema (antecedido de nove outros, do mesmo autor, numa sequência apenas aparentemente fragmentária) se fica, pelo seu rigor formal, contenção imagética e tom delicadamente aforístico, tão contundente como o metafórico murro que nele irrompe.

[DEZ PECADINHOS MORTAIS AO ACASO]


Suavíssimos pretextos para nada;

O medo de ouvir falar do vento;

O avanço das armas escondidas;

Os tesouros perdidos frontalmente;

Sinceridades sem razão de ser;

A violência de conter o murro;

Segredos que se dizem sem ouvidos;

Os silêncios que mascaram as sombras;

O vil excesso de um pão sem fome;

As palavras escritas com maiúsculas.

Almeida, Rui, in Revista Callema, n.º06, p. 14. Maio de 2009

"White Man" © M, Olhares, fotografia online (d.r.)