As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Revistas Literárias

Simone Tree — não me olhes de perto a pele curva

Foi colocado online, na madrugada de ontem, o terceiro número da revista de artes e letras «a sul de nenhum norte», magnífico objecto criado por Maria Sousa e Nuno Abrantes, gratuito e disponível para quem o queira descarregar. Desta terceira edição da “sul” falarei aqui, em breve. Para já, deixa-se um poema de uma autora de surpreendente segurança formal, pretexto para divulgar esta que talvez seja a melhor revista literária online que se produz, actualmente, entre nós [No terceiro número encontram-se os seguintes autores: Adolfo Luxúria Canibal, Beatriz Hierro Lopes, Catarina Nunes de Almeida, Enrique Vila-Matas, Jenna Cardinale, Joana Corker, José Emílio-Nelson, Leslie McGrath, Long Lim, Machado de Assis, Maggie Taylor, Maria Sousa, Maurice Mbikayi, Miguel Moreira, Miguel Pires Cabral, Nuno Abrantes, Ondjaki, Paulo Rodrigues Ferreira, Rosa Alice Branco. Simone Tree, Tatiana Faia, Teresa Andruetto].


não me olhes de perto a pele curva
do nariz que desce, perfeito, as sardas
e encontra o vício‐razão do toque
na dureza das costelas,
curva dos caracóis.

o mistério dos corpos
‐ tantos anos depois –
é que, mesmo paralelos
encaixam.

Simone Tree, in, «a sul de nenhum norte» n.º 3

clothless bodies and timeless, Utku Atalay © Utku Atalay, via Deviantart

  página da revista na rede social Facebook, onde se pode descarregar os três primeiros números da revista «a sul de nenhum norte»

Da criatura número cinco

imagem promocional da revista © revista criatura (D.R.)

 

 

No seu número cinco, a revista criatura atinge uma maturidade e coesão sem paralelo nas revistas literárias que se publicam actualmente; afirma-se de forma segura como a mais significativa publicação dentro do género neste início de década. Ao referir maturidade, explicite-se que, entre os catorze poetas escolhidos e incluídos neste número, não há algum que escreva inutilmente; que não se encontram aqui poemas duvidosos; e em vão se procurarão fragilidades evidentes.

A ideia de coesão não pressupõe uma qualquer corrente literária geracional –não me parece útil falar de geração nem de gerações num tempo em que a escrita poética se fragmentou em vozes que se movem na singularidade. Contudo, é a selecção dos autores e dos poemas que estabelece uma afinidade, possível de identificar e enunciar por um acentuado antilirismo; em simultâneo, pela frequente utilização do real, das marcas do tempo e dos lugares como matéria poética; formalmente, por um «desejo de narratividade» por vezes quase explícito, que é perceptível em alguns autores (Diogo Vaz Pinto, mas também Rui Pedro Gonçalves, Tiago Araújo).

Talvez o dístico de David Teles Pereira (autor dos melhores poemas da revista), que ao princípio me pareceu exógeno e fácil, seja afinal o resumo do programa inerente à selecção e escolha dos autores e poemas: (A poesia é como as ovas de ouriço-do-mar / sabe melhor com um pouco de acidez).

Esta acidez, presente, por exemplo, nos três poemas de Margarida Vale de Gato (em torno da questão do género, desconstruindo os lugares comuns do quotidiano), é também marcante nos poemas de Roger Wolfe (Os poemas? / Alguns funcionam, / outros não. / Se o que queres / é uma garantia, /então compra um televisor.). O que nos remete para outro aspecto comum a muitos dos autores publicados: a dessacralização do poema, do acto poético, da figura do poeta enquanto entidade de excepção (nesse sentido são particularmente notáveis os poemas de Luís Filipe Parrado, um autor que apenas por desejo próprio, imagina-se, não tem ainda obra publicada em livro, que eu saiba); Ainda os seis poemas em sequência de Jaime Rocha, partindo de uma linguagem quase descritiva, procuram justamente uma imposição da aparente naturalidade das coisas para produzirem um resultado poético (…) Nada / distingue as ruas de um grande / vale de narcisos).

A recusa da transcendência da escrita poética, o deliberado apagamento de uma estilística (presente nos dois poemas de Luís Pedroso) revela-se plenamente na temática, na semântica abertamente coloquial dos excelentes poemas de Jesus Jiménez Dominguez, que, com Roger Wolfe, abrem a revista para fora do âmbito dos autores portugueses (e ainda bem).

Da criatura cinco não se poderá falar de niilismo, de uma poética do desencanto, ou da resignação ao questionamento do real, externalizado ou existencial. Não há aqui um discurso comum, mas uma expressão de contemporaneidade, que não esgota o que se escreve actualmente no domínio da poesia (longe disso) mas reúne coerentemente trabalhos de autores que têm programas de escrita com as afinidades referidas.

O que não deixa de tornar excepcional (porque de uma excepção se trata) a abertura da revista com um conjunto de  poemas de Muhammad Abdur Rashid Ashraf (António Barahona), autor de longa obra poética, que nos cinco poemas publicados (sendo um deles um tríptico) estabelece um poderoso diálogo entre o lirismo amoroso / erótico e a espiritualidade, em poemas de grande solidez formal, fruto de uma mão poética cheia de saber, ofício e sonho.

Não representando escola, nem corrente, a criatura torna-se, neste número cinco, um possível cânone para reconhecimento futuro de muita da nova poesia portuguesa. Um notável labor de selecção e escolha que (se) define. Nele é legítimo pensar  que estaremos perante alguns dos poetas que deixarão marca nos anos que estão para vir.


(transcreve-se aqui um poema de Luís Pedroso, a que se seguirão dois ou três posts com alguns poemas de que mais gostei, a título de divulgação da revista)


O Evangelho Segundo Santo Agostinho


Detesto a arquitectura das teias

e o desaparecimento dos lugares

que os antigos marcavam para esperar a morte


Hoje não a esperamos em campos de batalha

nem em monumentos seculares

Mas em pouco mais, talvez, que na ameaça de um Domingo


«Monument», Owain Roger © Owain Roger, via Deviantart, (D.R.)



Tiago Patrício – “A literatura e a leitura da luz”

Ainda da cràse número um. Última escolha para deixar aqui. O primeiro texto da revista, de Tiago Patrício [Funchal em 1979]. Uma pequena narrativa de melancólica ironia, escrita em andante, se é permitida a comparação, a marcação do tempo.

© José Monteiro, Olhares, fotografia online

A literatura e a leitura da luz

O Homem Desempregado gostava muito de ler e tinha um cuidado extremo com o tipo de luz que seleccionava para a leitura, preocupava-se tanto com este assunto que muitas vezes se esquecia do que estava a ler e murmurava satisfeito:

– Como é boa esta luz para acompanhar uma leitura.

Passava manhãs inteiras ou semanas à volta da mesma página que tanto podia ser de filosofia política como de uma lista da toponímia da sua cidade e nem dava conta da perda de validade de certos livros requisitados nas bibliotecas, o que deixava os funcionários muito aborrecidos.

Raramente lia à noite, só em último caso, em especial livros de instruções para alguma tarefa imprescindível ou algum telegrama que lhe chegava depois do crepúsculo.

Na casa onde morava tinha uma luz franca que iluminava os textos e as suas ideias mais complexas, mas a partir de uma certa hora o sol deixava de bater na sala virada para Sudoeste e tinha de sair de casa à procura do poente como de alimentos para a dispensa. Dobrava a esquina e entrava num largo que se abria num miradouro sobre o rio, com alguns bancos de jardim que lhe agradavam sobremaneira. Assim, nos dias amenos, o Homem Desempregado descia as escadas do prédio e saía para a rua com um livro forrado a papel de jornal debaixo do braço. Passava por baixo de duas árvores e procurava um lugar com espaço para si e para o seu livro, entre os grupos de pessoas já instaladas.

Sentava-se cheio de boa disposição, pedia licença e agradecia a amabilidade a todos aqueles que faziam companhia ao entardecer. Aconchegava o olhar até ao outro lado do rio, para ficar com uma boa visão periférica e fazia inspirações semibreves de contentamento. Porém, após ultrapassar as três ou quatro páginas do seu livro da tarde, começava a ficar incomodado com o excesso de ruído que não lhe permitia ler sem estar sempre a perder-se com os estímulos, especialmente com os daqueles que tinham chegado pouco tempo depois dele e já eram considerados intrusos. Nessas alturas o Homem Desempregado lembrava-se de que a intolerância aumentava com a permanência e o apego aos lugares. Após longas e espaçadas inspirações conseguia voltar à leitura da luz, sem contudo deixar de sentir uma certa benevolência por aqueles que conversavam no largo do miradouro sobre a sua leitura.

revista INÚTIL 2

O lançamento é hoje, às 21h, no espaço da antiga Buchholz. A revista INÚTIL é um projecto de Maria Quintans, Ana Lacerda e João Concha.

Novos Poetas (53) – Helena Carvalho

Acaba de me chegar às mãos o n.º um da cràse – “revista de literatura emergente”, março de dois mil e dez, 250 exemplares, um luxo comparados com os 60 do número zero. Um luxo, também, a lista de autores e a fasquia qualitativa dos textos publicados, entre  poesia e  contos, sendo esta claramente uma edição mais forte que a primeira zero. Como não poderei divulgar todos (e de quase todos me apeteceria deixar um poema aqui) escolherei três ou quatro autores. E de escolha falo também com alguma propriedade.

E começo pela Helena Carvalho (Nazaré, 1982), poeta muito da predilecção deste sítio. (a autora: Licenciada em Filosofia e pós-graduada em Poética e Hermenêutica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É actualmente professora no ensino secundário. Seleccionada para o Concurso Nacional Jovens Criadores 2009, na área de literatura, tendo publicado na Colectânea Jovens Escritores 2009. Colaborações dispersas em revistas literárias. Autora do blogue a luz da noite.).

Helena Carvalho apresenta, neste um da cràse, um conjunto de quatro fortíssimos poemas. Opta-se pelo primeiro deles, seguindo o critério mais neutro.

Foto-verbo-grafia


Interromper o branco da página como a cegueira branca dos olhos.

As palavras são folhas que se evolam da gravilha rasteira dos pátios

em fins de tarde outonais.

Uma imprevista aragem inicia-as na arte obscena do movimento –

um deslizar lânguido em pequenos sopros;

uma penetração violenta em remoinhos de pó, nojo e sentido.


Esperar a luz projectada que nunca chega inteiramente aqui.

A claridade desmedida adere à matéria urgente da visibilidade,

primeiro nos olhos

depois na ressonância incorpórea das películas. Cumpre-se a luz

numa câmara escura,

exposta na contenção profana das imagens planas e nas quatro dimensões

das pedras angulares.


Acontecer-nos a gestação das horas fragmentadas

dos quadros repetidos até à negação da sua aura.

Um sentido a rebentar na mão pueril e espantada,

como duas pernas de mulher prematuramente abertas

em posição de parto.


Nascer a palavra como uma fotografia em meio-tom

a mover-se pela sombra de si, no contraste abismal

entre a luz que se capta e a que ainda não chegou.

© Lia, Olhares Fotografia Online (D.R.)

Lucy Pepper – as ilustrações na Callema 06

O lançamento do sexto número da Callema em Lisboa deu origem, no início do Verão, a animado encontro na Livraria Trama. À Callema se voltará. Antes, deixam-se aqui as ilustrações que fecham a edição, da autoria de Lucy Pepper, artista plástica inglesa que reside em Portugal. Na revista, a sequenciação das ilustrações, possível pela passagem das páginas, permite um efeito de surpresa e ironia deliciosos. Uma suite genial, de uma ilustradora que pode ser melhor conhecida no seu blogue.

Antecedendo Aldeia, o texto (escrito em língua inglesa e traduzido na própria revista):

“Todos os pintores que visitam Portugal apaixonam-se pela sua luz clara e transparente. Tenho mais sorte do que eles, já que a posso ver durante todo o ano nas suas várias personalidades.”

"Aldeia" © Lucy Pepper (d.r.)

"Aldeia" © Lucy Pepper (d.r.)

Minguante – micronarrativas online (0)

(em estado de krímsjúka)

A ideia pode não ser original, mas adquire, com a revista online Minguante, uma expressão, formalização e persistência notáveis. Na própria definição da revista, esta consiste num Espaço online dedicado à micronarrativa. Está aberto à participação e organiza-se em torno de uma revista trimestral e temática. E define, de forma bem concreta, o que entende por micronarrativa: As micronarrativas, em nosso entender, para além de serem breves (não excedendo as 200 palavras), devem ser narrativas, ou seja, contar uma história, quer seja em prosa ou em verso. O Corpo Editorial é constituído por Fernando Gomes (webdesign); Luís Ene (concepção e supervisão) e Margarida Delgado (grafismo). Duas ou três notas apenas, uma vez que a revista pode (e deve) ser lida no seu site. 1) A Minguante nasce em Faro, facto que nos dá uma (pálida) ideia da actual vitalidade de diversos núcleos de produção cultural fora dos grandes centros urbanos; o meio online tem sido uma poderosa ferramenta de afirmação destes núcleos produtores 2) A revista já conta com 13 números, sempre com número crescente de participações, de qualidade desigual, claro, mas na generalidade bem dentro do aceitável; 3) Desde o número zero, a publicação online conta com significativa participação de autores não portugueses (nomeadamente do Brasil e de Espanha), num saudável entendimento cosmopolita da literatura (agora seria moda designar-se por multiculturalismo, étimo que mantenho em pousio enquanto andar a servir para vender muita patranha e muito projecto gerador de empregos por medida).

Uma nota final, esta com alguma tonalidade de tristeza: contactei duas vezes por mail os responsáveis da Minguante, no sentido de me permitirem a divulgação da mesma e de alguns – poucos – textos de cada número. Não obtive, até hoje, qualquer resposta, positiva ou negativa. Não serei digno do estorvo, nem de grandes insistências. Ponderei. Assim, indignamente, mas sabendo que estou, em primeira e última análise, a divulgar um projecto editorial que me suscita admiração, e textos de que gosto, atrevo e publico três textos do número zero, datado de Junho de 2006 – o único sem tema – (aos autores peço indulgência, uma vez que me pareceu correcto contactactar a Minguante). Com o tempo, divulgarei os números seguintes, nos mesmos termos. Talvez os autores da Minguante, que só podem ser pessoas decentes e de gosto, arranjem um pouco de tempo para validar ou negar-me a iniciativa. Acatarei qualquer decisão. desde que a conheça. (continuarei a contactar…)

Minguante, n.º Zero. Junho de 2006

Minguante, n.º Zero. Junho de 2006

José Carlos Barros


O caderno do Mestre Ferrador

Vinte e seis anos
cabem num caderno de capa negra
de cartão grosso: registo do deve e haver
e do estado dos campos. A vacina
do tétano no mês de Junho
de mil novecentos e sessenta e dois,
as ferraduras novas, a infusão de marcela
ou a tintura de genciana
para o gado vacum remoer,
receitas com alúmen, o canfocitrol,
a essência de terebentina,
a injecção para as inflamações
nas tetas das ovelhas. Chamavam-lhe
o Mestre. E o Mestre gostava
dessa deferência para com a sua Arte: vê-se
pela caligrafia apurada, pelo esmero
no alinhamento das parcelas numéricas,
pelo modo como, diz quem o conheceu,
olhava uma mula doente, demoradamente,
e se recusava a emitir opinião
enquanto não passasse ao rigoroso,
minucioso exame científico da besta.

© Maria Lázaro, Olhares, Fotografia Online

© Maria Lázaro, Olhares, Fotografia Online

Henrique Manuel Bento Fialho
Nocturnos

I
Um manjerico com a orelha toda furada, bêbedo que parecia um cacho, berrava que nem vaca tresmalhada. O dono do bar indicou-lhe a saída. O manjerico deu com o vaso. E com os cornos de um boi qualquer.

II
O segurança da discoteca discutia com a namorada enquanto me segurava a goela com os dois punhos. Pedi-lhe um cigarro e dancei do filme armado em herói.

III
Um pastor alemão entrou no bar. O DJ exibia-se à mesa do bilhar. Os fregueses pararam de dançar. Rosa pediu a conta e pôs-se a andar. O cão farejou o motard. Faltou-lhe o ar.

IV
O motard meteu-se com a mulher-desespero. Serviço feito, o motard confessou: «na tênh’ d’ nhêro». O motard, em fuga, espalhou-se na estrada.

V
A menina-ingénua abocanhou o Zé Tó, isto no entrementes de um banhista se lhe trocar de olhares. O Zé topou. Depois, vingou-se dos mares banhando o banhista com meio cibo de pó.

VI
O chibo, para provar que não amava a pedido, esbofeteou a namorada na presença da mãe. Ela não suportou a humilhação. Sacou-lhe as chaves e pô-lo a andar.

VII
O peixe esparóide mirou-o à desconfiança. Virou-lhe as costas e seguiu na direcção do sol nascente. De mastodonte ao léu, pendura de fia-te 600, gritou línguas do leste na direcção dum velho goraz. O anzol morreu de tédio.

VIII
O país sardinha assada afogou-se em água-pé, honrou o jet set com honoris causa e foi de carrinho para Espanha vender figos.

IX
A classe engravatenhada, de telemóvel abrincalhado, optou por sinalizar chamadas com um ring ring aflito. As mulheres andam numa aflição, os filhos andam numa aflição. À hora de jantar, famílias inteiras comparecem aflitas nos sítios do costume.

X
Dois ucranianos, de cajado em riste, caceteavam um colchão moloflex. Enxotavam percevejos e vingavam insónias.

© Ramarago, Olhares, Fotografia Online

© Ramarago, Olhares, Fotografia Online

Nuno Moura
As Desfoque Stories

1

Três anéis de prata em forma de cone no lideiro
amargurando os pequenos cabelos desse dedo
e aproveitando o resto de água quente da caldeira
uma esponja cheia de borbulhas num peito floreiro
muita espuma
é a sua mulher
ela tem quarenta e cinco anos

um convite para jantar
de resto os dois
a mesma mesa
uma duas toalhas em rolamento

na noite passada de 22 para 23
aguardaram comunicação definitiva
reabasteceram de combustível em São Paulo
cobriram a generalidade dos interesses
e de manhã estavam em casa
fruta

pequenos obstáculos
grainhas
dentes.

© António Soares

© António Soares, Olhares, Fotografia Online


Índice – uma nova revista de livros e cultura

Chegou-me às mãos o número zero da Índice, uma “nova revista dedicada aos livros e à cultura“. Na ficha técnica: “Esta edição foi realizada sob a influência do texto de Maria Gabriela Llansol e a saudade de ler Eduardo Prado Coelho“. O projecto diz, com clareza, ao que vem: “Uma revista dedicada aos livros, aos autores, aos editores, aos livreiros, aos leitores de todas as espécies“. Anuncia uma periodicidade trimestral e 10.000 (!) exemplares a partir do número um.

O que nos traz a Índice? Objectivamente um conceito (palavra que uso com pudor e à falta de melhor, porque me desagrada de todo) transversal nos seus conteúdos, acolhendo novos autores e nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea. Nela pode encontrar-se o ensaio, a leitura crítica, breves textos em prosa, poesia, evocações, divulgações, textos sobre música, entrevistas. E uma distribuição de publicidade – uma espécie de caderno no miolo da revista – que tem a vantagem de a isolar do resto dos conteúdos, conseguindo, com isso dar-lhe acrescido destaque. Não será portanto, de admirar a ambição dos editores, que estimam ter um público-alvo de 60.000 leitores. Haja quem ouse, neste ‘portugalinho.’ Sem pretensiosismo, sem pertença a clube, tendência, ‘seita’. A liberdade sente-se à solta na Índice.

Tendo Helena Vieira como ‘dínamo’, a Índice é da responsabilidade da Mariposa Azual (a Casa), editora de que já aqui se falou. (Sai ao mesmo tempo que a ‘Mariposa‘ parte para outra aventura, uma nova colecção, O Rio da Escrita, com três títulos já na forja, de que falarei um destes dias).

O que há a reter neste número zero da Índice? A publicação de três fragmentos (belíssimos) dos “cadernos inéditos de Maria Gabriela Llansol“, em primeiro lugar. Mas também um texto original de José Luís Peixoto escrito especificamente para o lançamento da Índice. Maria Etelvina Santos oferece-nos Maria Gabriela Llansol. A Música da Caixa de Leitura, um texto breve e emotivo sobre o acto de ler enquanto estabelecimento de uma ordem de realidade, na senda do pensamento de Llansol, (texto que prenuncia o ensaio que publicará na referida colecção O Rio da Escrita, sob o título Maria Gabriela Llansol – Como uma pedra-pássaro-que voa; João Barrento retoma excertos de um notável texto de 1984, em Sem mim falta-me qualquer coisa… a propósito de Os Universos da Crítica, obra referencial de Eduardo Prado Coelho. de Gonçalo M. Tavares temos a reprodução da 1ª página de Jerusalém, que, aqui, recontextualizado, ganha novas matizes. E, depois, a poesia de Nuno Moura – devoção acrítica – Tiago Araújo, Hugo Milhanas Machado, Paulo Condessa, Miguel-Manso, João Saboga (neste caso com duas cenas de uma peça ainda não acabada). Todos estes autores merecem atenção, a ver se consigo dar-lha. Sinalizem-se ainda, os textos de Carla Baptista (Paisagem com mulher e mulher ao fundo, ainda com Prado Coelho como tema); de Marta Lança Abandonar os Livros, sobre a leitura enquanto ‘ritual’, de Cláudia Tomaz, Performances híbridas, elaborando sobre as artes performativas. Finalmente, ainda de Marta Lança, um excerto em tradução livre de um lindo poema, Cahier d’un Retour au Pays Natal (1939), de Aimé Césaire; e uma página de um diário de viagem (?) de Pedro Vieira de Moura, Soderno, copita de limón!. Quase saltava por cima do trabalho de Frederico Pereira, recolhendo as palavras de seis editores sobre a leitura e o seu significado numa perspectiva pessoal.

Pois. É bastante. É muito, para um número zero. O grafismo (notável capa) é talvez o plano onde a revista deva investir um pouco mais, mas pode ser apenas uma questão de gosto pessoal.

Como não é todos os dias, que nascem coisas destas, olhem, sejam valentes e descubram coisas mais raras  e valiosas que o último modelo de LCD da Samsung, está bem?

*

Sem procuração, autorização, solicitação ou qualquer outro ‘ão’ que não seja comoção, aqui se deixa um dos três fragmentos dos “cadernos inéditos de Maria Gabriela Llansol“. Particularmente feliz nesta revista, onde tudo se congrega para uma ideia central: o transtorno luminoso da leitura.

Ler, ou seja,

vestir o que leio, em

imagem


Não desenho, mas

capto as linhas do

desenho.

Sei qual é a

carne da cor e da

imagem_______

Maria Gabriela Llansol, Caderno nº 51, 20 de Junho de 1998

Revista Índice. Capa do número zero.

Revista Índice. Capa do número zero.