As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Nuno Júdice — Fotografia

 

Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso de
atget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,
e olha para trás, de esguelha, como se quisesse
mostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-se
de nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-se
um sorriso que, não se sabe porquê, se esbate com
essa espécie de névoa com que o tempo envolve
as fotografias antigas, a sépia, em que não é
possível disfarçar a certeza que temos de que aquela
mulher, hoje, não passa de cinza nalgum canto
de cemitério de província. Porém, a sua nudez
desafia a morte; e quase que lhe podíamos pedir
que esqueça o fotógrafo, e regresse à realidade
onde ele a foi descobrir, para que a sua vida
retome o curso habitual, e não nos perturbe com
esse sentimento de que a vida é breve, e já foi.

 

Júdice, Nuno, revista INÚTIL número 2, Abril de 2010

 

Eugène Atget, (s./t.), 1925

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  página sobre Nuno Júdice

  página sobre a fotografia de Atget

  blogue da Revista INÚTIL

Bénédicte Houart — Dilúvio

 

 

Dilúvio

Chove. As ambulâncias já ligaram as suas sirenes. O acidente ainda não aconteceu, mas com certeza não vai tardar. E, por isso, quando chove, penso na morte. Na morte daqueles que amo e de todos aqueles que deveria ter amado se soubesse como. As ambulâncias desligam as sirenes. Levo a mão ao sexo. Modo de chorar. Modo de despedida.

Chove. Cheira a narcisos no centro da cidade. As velhas estão dentro de casa aconchegando o tempo às pernas exangues. O sangue teima em circular embora a cabeça descaia vezes de mais. As velhas estão dentro de casa, salvo aquela que aquece sempre os pés na calçada. Percorre as ruas da cidade faça sol faça chuva. E nos seus cabelos compridos a chuva deixa gotas que parecem pérolas.

Chove. Nos centros comerciais, há homens sentados junto às escadas rolantes. Estão pensativos. De vez em quando, esticam o pescoço, giram-no para a esquerda para a direita, movem-no para cima para baixo. Pensam na vida. Ela corre dentro deles como se fosse explodir dentro de segundos. E vai. Não estes segundos, mas outros, os próximos, talvez. Agora, ela chega-lhes em catadupa, escorre para fora deles.

A chuva parou. As putas animam os passeios trocando receitas de cozinha. Riem mostrando os dentes negros. Nascem, estão a nascer, novos clientes. Hão-de crescer depressa. Hão-de levar as mãos aos bolsos. Quanto a elas, é certo que não morrerão nunca.

Uma mulher está sentada a uma mesa. Leva de vez em quando o cigarro aceso aos lábios. Observa discretamente quem passa, não vá pensarem… Não tem importância, ela pensa por eles. Pensa com tanta força que parte a caneta contra a página. Ou então pára de escrever. Risca a página como se mudasse de vida.

Recomeça a chover. Calo-me. Por que não chove ininterruptamente durante um século? Criámos um deus de amor, mas não fazemos a menor ideia do que seja amar.

Texto publicado na revista INÚTIL número 2, Abril de 2010

«Shadows», Hugo Colares Pinto, © Hugo Colares Pinto (D.R.)

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Links Relacionados:

Artigo sobre a autora no D.N. (por Isabel Lucas)

Alguns poemas (traduzidos para inglês, com a versão original)

A autora no catálogo da «Livros Cotovia»

Revista Inútil

Portfólio online de Hugo Colares Pinto

 

revista INÚTIL 2

O lançamento é hoje, às 21h, no espaço da antiga Buchholz. A revista INÚTIL é um projecto de Maria Quintans, Ana Lacerda e João Concha.