As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Beatriz Hierro Lopes — «impressões» (antecedido de nota de leitura)

Emerge neste texto uma incompreensão fundamental: não tanto o modo como nos situamos perante a morte dos que amamos, mas como nos dispomos perante a sinalização da morte que a vida, os outros, nos forçam a lembrar, tendo a impressão que algo ocorreu, perguntando pelo ocorrido. A interrogação do texto é esta: como nos preparamos para que nos lembrem a morte, de repente e de surpresa, sendo sempre esta de repente e de surpresa, seja qual for a sua circunstância? A circunstância da perda perde, aqui, a gravidade da enunciação da mesma: é o descuido, a distração, que tocam com ferros a dor.

Nesse sentido, não é este um texto elegíaco dirigido à perda, mas uma elegia da vida que, não sabendo do saber cuidar da morte, morre por isso sem cura. Longe de um lamento, o texto propõe uma distância radical das incidências inúteis, daqueles que não promovem a reparação nem sabem reparar: têm impressões, curiosidades que poderão ser secamente satisfeitas («Passarei o resto do tempo a dar a notícia. A única diferença é a linguagem. Curta, ríspida»).

É aqui que irrompe intensamente a oração, brilhantemente intercalada no texto, refúgio e prece, último gesto, aquele que já não se sabe fazer; é aqui que se  separam as impressões da impressividade, da funda marca deixada: a intimidade intransmissível e, nesse sentido, perto da indiferença, no interior de uma fadiga irremediável («Aos que me morreram devo a identidade. [Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte]. Até ao dia em que me enterrem o cansaço. [Ámen].)

A Ave-Maria, a mais duradoura das orações por evocar a primordialidade da Mãe, é também aquela que mais duradouramente consola e redime. Não é uma oração de promessa e de devir, como o Pai-Nosso, mas uma súplica por atender: rogo ante a morte, é certo ([e na hora da nossa morte]); mas em primeiro lugar da vida: ([agora e  na hora]).

A morte não é temática alheia à obra de Beatriz Hierro Lopes, nem a elegia um registo que lhe seja estranho. Contudo, neste texto, onde uma oração cadenciada se musicaliza em fundo, há uma espécie de fadiga e de tédio perante os vivos que se aproxima de um desdém; ou de uma compaixão. Vão dar ao mesmo lugar vazio,

a ausência da palavra Jesus, deliberadamente retirada da oração. Sendo comum, entre os crentes, a concepção de que Jesus, na sua divindade, estabeleceu a radical irmandade entre os homens, a autora retira-o: e assim, na não enunciação do seu nome, fá-lo presente de forma brutal: aquele que se deu pelos vivos deles se tornou um sem nome. («E já não falamos mais do sofrimento que vimos. Só o condenado ensina a viver»).

Não estamos perante um texto de carácter religioso em sentido estricto; mas frente a uma milimétrica delimitação do que, no plano emocional, se revela como recusa e se escolhe como aceitação.

Recentemente publicada na revista Telhados de Vidro nº 16, (como já o fora na Criatura, na Cràse, na Inútil),  Beatriz Hierro Lopes é um dos autores maiores na recente escrita portuguesa ainda sem livro apenas seu. Não faltará muito.

«Orgão de tubos da Igreja da Lapa, no Porto», © Marisa Ferreira, via Olhares, fotografia online (D.R.)

«impressões»

Há coisas que o meu catecismo não soube explicar: o porquê das avé-marias serem maiores que os pais-nossos; o porquê de só as mães ensinarem a rezar [Avé-Maria cheia de graça o senhor é convosco]; antes da tabuada chegam as orações [bem-dita sois vós entre as mulheres]; aos cinco anos ninguém sabe muito bem o que são mulheres. Rezávamos em coro. Antes de saber que só os condenados ensinam a viver, como as mães a rezar [bem-dito é o fruto do vosso ventre]. Tenho a minha contabilidade em ordem: por cada justiçado, sentei-me um pouco mais. A reza, pelo contrário, não é coisa que pare, reza-se pelos mortos e eu já não sei rezar.

Passarei o resto do tempo a dar a notícia. A única diferença é a linguagem. Curta, ríspida. Afinal a morte dos outros é uma violação à nossa mortalidade [Santa Maria, Mãe de Deus]. Dá-se o rótulo da doença e conta-se o tempo passado. Numa simples frase, oração, tudo acaba. E já não falamos mais do sofrimento que vimos. Só o condenado ensina a viver. Abusamos da respiração, como de tudo o que é reprovável: contra a morte só o excesso é permitido; e quem nisso reprovação vê é porque desconhece o número de palmos de terra em que há-de enterrar a história.

A história, repito-me, a história que incorporamos na nossa história. A desalma do coveiro cria-nos repugnância que, sem saber, aceitaríamos no lugar da dor. Passados tempos, meses ou anos: — sim, morreu há dois anos, digo à pergunta: — é impressão minha ou morreu?

Quem têm a impressão da morte de outrem?

A impressão da morte como o registo identitário, a condição de se estar morto contra a memória. O cansaço. — Sim, morreu há dois anos. A frieza sem condição da oração determinativa. — Está morto, repito, desabitada. E digo-o num automatismo que me é natural, como poderia ter dito: quanto frio faz nesta primavera. Sou testemunha.

Aos que me morreram devo a identidade. [Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte]. Até ao dia em que me enterrem o cansaço. [Ámen].

[Maio de 2012.]

Blogue de Beatriz Hierro Lopes.


Golgona Anghel — Não me interessa o que dizem os dissidentes da ditadura.

 

 

Não me interessa o que dizem os dissidentes da ditadura.

Mas confesso que gostava de chocolates Toblerone

que a minha tia me trazia no Natal.

 

Não acredito nos detidos políticos,

nem me impressionam os miúdos descalços

que mostram os dentes para as máquinas Minolta

dos turistas italianos.

 

Não vou pedir asilo.

Desconheço os avanços ou retrocessos económicos do meu país.

Já falei de Drácula que chegue.

Já apanhei morangos na Andaluzia.

Já fui cigana, já fui puta. Escusam de mo perguntar outra vez.

 

O que me preocupa — e isso, sim, pode ser relevante

para o fim da história — é saber quando é que me transformei,

eu que era uma loba solitária,

neste caniche de apartamento que vos fala agora?

 

Anghel, Golgona, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.12

[originalmente publicado na revista criatura n.º 5]

 

«paperlungs and paperacid», bonny chen © bonny chen, via Deviantart (D.R.)

Links Relacionados:

 

Página de Golgona Anghel

revista criatura

 

 

 

Novos Poetas (51) – Maria Sousa

Última escolha pessoal, entre o que foi publicado na criatura número 4, talvez o mais equilibrado de todos os que sairam até agora. Um poema de Maria Sousa, o primeiro dos quatro que publica nesta edição da revista. Da autora é, igualmente o notável blogue There’s Only 1 Alice, onde algum do seu trabalho poético pode ser encontrado e apreciado.

[Agradeço a Maria Sousa a permissão para a publicação deste poema]

O processo de contar histórias é sempre lento

começa-se pelo início

e há quem diga que chegar ao fim é simples


uma frase é a melhor medida

para juntar os fragmentos


e se a noite a subir pela voz

é um método de fazer silêncios

e o coração é um órgão que

espreita pelos buracos da gramática


no fundo é porque têm um corpo como fronteira

SOUSA, Maria, Revista criatura n.º 4, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

"from the (plastic) body #3" © Thiago Rodrigues, Olhares, Fotografia online. (d.r.)

Beatriz Hierro Lopes – “n.º 82”

[declaração de interesses: conheço pessoalmente a autora, sendo a estima que lhe tenho factor a considerar no que escrevo]

A produção escrita de Beatriz Hierro Lopes (Porto, 1985), embora recente e particularmente oculta (apenas publicada nos três primeiros números da revista criatura), organiza-se formalmente em pequenos textos narrativos que, não sendo fragmentos, ganharão muito com uma leitura sequencial, que pode em parte ser feita no blogue Klein, onde a autora edita alguma da sua melhor escrita. Tal leitura em sequência dos textos de B.H.L. terá duas linhas de interesse: desde logo a percepção de uma evolução evidente das competências de escrita, do alargamento do leque das suas ferramentas e da concomitante evolução para uma textualidade mais fluida e segura; mas também importa o jogo comparativo, no qual se pode identificar uma capacidade imagética de grande fôlego (associada a uma imaginação vibrante, o que não é a mesma coisa) que é evidente nestas narrativas, histórias que, partindo muitas vezes do episódico, do regresso de um passado clivado, quebrado, ascendem ao território da memória nostálgica, de uma aceitação do agora como uma inevitabilidade apenas aparentemente indiferente; nesta aparência tem origem a carga dramática dos textos de B.H.L., ainda mais acentuada pela personificação dos lugares, dos objectos, dos momentos, mesmo das cores ou das luzes, elementos que se instauram como personagens geradoras de uma incessante necessidade de apaziguamento. De perpétua insatisfação, portanto. Textos de fronteira entre a prosa, a prosa poética, a dramaturgia. Bons textos, de uma escritora que tem voz própria; e que, com ela, irá alcandorar-se a plano singular nos tempos mais próximos. Se não estou enganado.

B&W © Elsa Ribeiro, Olhares, Fotografia Online (d.r.)

n.º 82

Perseguia a silhueta de ruas pouco conhecidas. À procura daquela rua em particular: a rua que reflectia o rosto das palavras e o paladar adocicado das histórias que ela ouvira um dia. Há muitos anos. Presa entre a estreiteza de todas as ruas que a separavam da Rua em que nunca vivera. Seria, talvez estranho o seu desejo de retornar a uma rua que nunca fora sua. Mas ela crescera assim: alimentada pelo açúcar escondido nas palavras sibiladas ao seu ouvido, pela sua mãe.

Todas as histórias de que se lembra – e lembrava-se, também, da textura empoeirada dos tapetes sobre os quais se deitava, apoiando o rosto entre as mãos. atenta ao som das frases – que se precipitavam, atropelavam, matavam, na pressa com que atingiam o ponto culminante da narrativa. Aí chegadas, calavam-se. Consoladas, entreolhavam-se as palavras, ao deleitarem-se com o vazio silencioso que entre elas se erguia para revelar o propósito obscuro da história – começavam na Rua. Só depois se adivinhavam as paredes da Casa.

Era assim na Rua da Picaria. Uma rua que não é especialmente bonita. Uma rua embrenhada numa luminosidade que apenas é visível à noite, quando as janelas embaciadas respiram o calor que se liberta de dentro delas. Nessa rua, as casas não são casas: são pessoas. E as pessoas são casas vazias que o tempo se esqueceu de demolir. Todo o comércio da rua respeitava a solenidade da mesma. Vendiam-se móveis. Estantes de carvalho, sólidas o suficiente para suportarem o peso incalculável das bibliotecas particulares; camas de casal, camas de criança, berços de bebés, suaves como a mão que, ao embalar a vida, concede-lhe o peso do fim; mesas grandes, mesas pequenas, para albergar famílias inteiras ou pequenas confissões sussurradas entre o ouvido da empregada e a boca da senhora; secretárias de tampos largos, que sustentariam o peso dos cotovelos de quem, ocasionalmente, fosse privado do sono.

Era à noite que ela perseguia a rua. Atravessando todas as vias estreitas que a distanciavam dela. O som da sua passagem pelas ruas sem nome, era idêntico ao som aguçado de uma faca prestes a enterrar a vida. Rápida. Velozes, os seus passos matavam a longitude das ruas. Deixava os cadáveres – alguns ainda quentes – para trás, na sede assassina com que escalava uma nova rua; acreditando sempre que aquela seria a última. A última baixa nessa guerra que é retornar à Casa. Voltar ao princípio que se erguia ainda antes, do seu nascimento.

Não conhecia a casa. Nunca entrara dentro dela. Nunca sentira o frio gélido das paredes de granito do hall de entrada; nunca correra pela escadaria que conduzia os seus habitantes a cada um dos quatro andares; nunca tocara no veludo azul da sala de piano ou se perdera no salão vermelho, onde todos os sofás eram um convite ao silêncio; nunca, mas, nunca, se sentara à secretária do velho Senhor, que morrera sem aviso prévio. Nunca brincara com o sinete que ele deixara sob o tampo daquela mesa e que hoje repousa sobre o tampo da sua secretária. De pinho, demasiado frágil para suster o peso dos cotovelos dela, em noites de insónia.

Mas aquela casa, que nunca viria a conhecer, pertencia-lhe. Era sua por direito de sucessão emocional. Herdara-lhe as memórias. Fizera suas, cada uma das lágrimas, cada um dos sorrisos, cada surto de felicidade e dor, que nela se protegiam das intempéries do tempo. Não é disso que são feitas as paredes? Seriam suas, então. Despidas de recordações, as paredes nunca seria capazes de suportar o peso daquela casa. A casa que, no n.º 82. se abre ao mundo que a espreita do Largo de Montpellier – serena, da cor do sol quando se abate sobre o horizonte marítimo.

A Casa n.º 82 da Rua da Picaria tem a cor de uma mulher. Uma Mulher como jamais deveria ter existido. Uma mulher cujos cabelos não eram da cor do ouro – eram antes, negros como a penugem dos corvos ao anunciarem um mau presságio –; cujos olhos, nada deviam à translucidez desse Atlântico tão português – eram antes, de um castanho lamacento que recordava o cansaço das terras outrora férteis em países distantes –; cuja boca não era espessa como os lábios das mulheres que, em si, escondem uma promessa de vida – eram antes, firmes e tensos, como as bocas femininas cansadas de reproduzirem em palavras o vendaval que lhes assola o espírito. E, no entanto, era ela, a Dourada.

O centro secreto de toda aquela imensa rede que, à sua volta, crescia. Velha. Terrivelmente velha. Esta seria a sua última imagem: cinco crianças ao redor da sua cama; sufocadas pelo ruído da sua morte – sim, a morte é um grito de revolta contra a respiração do corpo – perplexas com a possibilidade da sua não-existência.

Muitos anos depois, era a sua vez de, do outro lado da rua, contemplar a Dourada. Alta. Altíssima. Como o são as casas que se fundem na intimidade das mulheres. Sabia que haviam destruído o miolo da casa. Que não haveria nenhum vestígio da escadaria em madeira. Que o hall de granito se convertera em matéria humana, fria, ignóbil, funcional. Sim. Tornara-se numa casa funcional. Quatro ou cinco escritórios de advogados povoavam-na. Instalaram-se ali como parasitas. Era, talvez, a modernidade que expatriava as histórias que aquelas paredes ainda guardavam.

Sentou-se na soleira da porta. Quieta, fumando um cigarro. Imaginando como seria bom tocar à campainha e ser acolhida pelas paredes daquela casa. Aceitar num único gesto a herança das dores hereditárias que lhe corrompiam o espírito: tão novo e tão velho. Que existir seja a soma de tudo o que antes de nós outros foram, era-lhe compreensível. Incompreensível era a impotência. O não poder retornar ao que, antes dela, era já o seu início.

Vivera o primeiro riso ali – Seria bom voltar a ele. Seria terrivelmente bom, retornar à gargalhada primordial – vivera ali, também, o peso da primeira morte. Uma morte que se funde no seu reflexo todas as manhãs. Enquanto penteia o seu cabelo asa de corvo; enquanto pinta os seus olhos feitos a partir de punhados de terra; ou passa os dedos pelos lábios cansados de pensar.

Tudo seria assim: restar-lhe-ia uma casa adulterada, vazia, cujas paredes mantinham ainda o clarão das palavras há muito ditas. Restar-lhe-ia a Casa onde nunca poderia entrar. Soube-o aí. Soube que há demasiadas casas no seu sangue que nunca voltariam a ver a luz do dia. Soube que ela seria sempre a memória de uma Casa vazia.

Soube. E, aceitou-o.

No fim de contas, teria sempre a Rua. E o seu lugar vigilante à soleira de uma porta.

Lopes, Beatriz Hierro (texto inédito)

Máscaras © Elsa Ribeiro, Olhares, Fotografia Online

Novos Poetas (45) – Luís Filipe Parrado

Com a saída do seu terceiro número, percebe-se com alguma nitidez que a revista de poesia “criatura” está num ponto em que precisa de um golpe de asa, sob pena de, em breve, ficar num limbo em que autores, linguagens e estéticas se repetem e encerram sobre si, caminho excelente se der origem a um casulo; uma pena se gerar apenas um novelo. Assinala-se a presença de dois autores espanhóis (Ben Clark e Elena Medel), convenientemente traduzidos (colocando uma questão editorial: por que razão se lhes apresenta uma pequena nota biobibliográfica, quando nenhum dos outros autores portugueses a merece? Serão assim tão conhecidos? Inversamente, serão excessivamente modestos por junto?). O conjunto de seis poemas de Luís Filipe Parrado surje, no conjunto, enxuto nos recursos, certeiro na amplitude e com uma contundência desemocionalizada. Luís Filipe Parrado é, aqui, ‘categorizado’ como novo, não pela sua idade, mas no sentido em que, por não ter atingido a sua obra um conhecimento público suficiente notório, não evitamos deixar de o ler com a atenção devida ante a ‘novidade‘.

TEORIA DA NARRATIVA FAMILIAR


Naquele tempo o meu pai trabalhava

por turnos

como herói socialista

no sector siderúrgico

e dormia com a minhamãe.

A minha mãe esfregava

a sarja encardida:

a água ficava da cor da ferrugem.

Havia, por perto, um cão

esgalgado,

sempre a rondar.

Depois a minha irmã nasceu

e eu fui obrigado

a rever a minha mitologia privada do caos.

Entre uma coisa e outra

aprendia mentir.

E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

PARRADO, Luís Filipe, criatura n.º 3, p. 119, Abril de 2009

'moldando o ferro' © Ricardo Barros, Olhares, Fotografia Online

'moldando o ferro' © Ricardo Barros, Olhares, Fotografia Online

Novos Poetas (XXII) – David Teles Pereira

A criatura 2, revista de poesia e prosa poética (seja lá o que isso for, vá lá meter-se em caixotinhos) já saiu há umas semanas. Embrulhadas várias transviaram-me o primeiro exemplar que comprei, pelo que, agora, só há 348 exemplares no mercado (dois estão cá em casa). Deste segundo número falarei aqui, em breve. Enquanto isso, atiço o apetite dos interessados, com um poema de David Teles Pereira, poeta já divulgado neste blogue, e que, numa primeira leitura, me parece uma das vozes mais altas no corpo da criatura. Salva-se da incipiência adolescente com o golpe de asa da ironia.


CARTA DE AMOR


Meu amor, és tão perfeita que por certo não

será um exagero comparar-te a Ofélia.

A água – pensava nela – não tem por que não ser a melhor

das fugas para quem sabe que a morte é um silêncio,

mas que vem de dentro.

Meu amor, diz-me se alguma vez vamos deixar de sonhar

com as sereias que compõem tranças em cabelos ondulados,

ou com rosas que só crescem na superfície lunar

e que não têm espinhos.

Meu amor, os meus cabelos não são de oiro nem de cinza,

são tão pretos quanto os do meu pai, quanto o meu esperma

invocado em sessões de sexo tântrico com as tuas borboletas.

Tenho tanto ciúme do silêncio e daquela vez que o

beijaste no rosto, quando ainda só tinhas vinte e um anos.

Meu amor, o teu crime foi cometido em Lisboa e, por isso,

nunca hás-de ser um Anjo a atravessar os portões do Céu.

Mas não te preocupes,

tenho vários amigos no Inferno, já lá estive um par de vezes,

e, quando voltar, havemos de arranjar forma de nos divertir.

Meu amor, sei que sonho contigo porque o faço

em eclipse total.

Meu amor, faz-me tanta falta a primeira luz do dia.

Quem me dera ter-te para a procurarmos juntos. Acho que me

vou transformar em cisne e chorar a tua queda.

Meu amor, meu amor, as nossas mãos só não estão entrelaçadas

porque tu estás morta. Mas o amor, esse sereno amor, nunca acaba.

David Teles Pereira, in revista Índice nº 2, p. 73, Lisboa, 2008

Ophelia, de John E. Millais

Ophelia, de John E. Millais

‘criatura’ convida

Sem ainda ter o meu exemplar (mas amanhã é dia de ir ao Chiado) aqui deixo uma nota, a acrescentar a este ‘convite’, que divulgo sem procuração. A criatura já se encontra nestes locais:

Lisboa

Alexandria (Calçada do Combro); Book House (Saldanha); Bulhosa (Campo de Ourique); Bulhosa (Entrecampos) ; Ler Devagar (Bairro Alto); Ler Devagar (Fábrica Braço de Prata); Letra Livre (Calçada do Combro); Portugal (Chiado); Pó dos Livros (Avenida Marquês de Tomar); Sá da Costa (Chiado); Trama (Rato).

Porto

Maria vai com as outras (Rua do Almada); Poetria (C. C. Galerias Lumière)

Évora

Fonte de Letras (centro histórico de Montemor-o-Novo)

criatura. lançamento do número 2

criatura. lançamento do número 2