As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Revista criatura n.º 4

Novos Poetas (51) – Maria Sousa

Última escolha pessoal, entre o que foi publicado na criatura número 4, talvez o mais equilibrado de todos os que sairam até agora. Um poema de Maria Sousa, o primeiro dos quatro que publica nesta edição da revista. Da autora é, igualmente o notável blogue There’s Only 1 Alice, onde algum do seu trabalho poético pode ser encontrado e apreciado.

[Agradeço a Maria Sousa a permissão para a publicação deste poema]

O processo de contar histórias é sempre lento

começa-se pelo início

e há quem diga que chegar ao fim é simples


uma frase é a melhor medida

para juntar os fragmentos


e se a noite a subir pela voz

é um método de fazer silêncios

e o coração é um órgão que

espreita pelos buracos da gramática


no fundo é porque têm um corpo como fronteira

SOUSA, Maria, Revista criatura n.º 4, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

"from the (plastic) body #3" © Thiago Rodrigues, Olhares, Fotografia online. (d.r.)

Novos Poetas (50) – Luís Filipe Parrado

Ainda extracção do quarto número da revista criatura.

O FOTÓGRAFO CEGO


Fosse eu o fotógrafo cego

e guardaria a beleza vacilante das coisas,


a rapariga de blusa desabotoada,

o sol do meio-dia, a chave na porta,

o sopro que se imagina na fonte

do pensamento,

a presença dos ciprestes no mundo,

falhas, o assobio da infância,

espelhos do tempo.


Abraçaria o coração rachado de qualquer muro,

um homem fechado em si

como num caixão.


Quando uma sombra se perde

descobre no ar

o próprio trilho,

eu ficaria só entre os vivos,


escutaria no céu o rasto dos motores,

o fôlego dos vermes,

a lei da queda dos graves,

a nota imperfeita,

a veemência da carne.


Fosse eu e espalharia a luz.


PARRADO, Luís Filipe, in “Revista criatura n.º 4″, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009

© Miguel Matos, Olhares, Fotografia online (d.r.)

© Miguel Matos, Olhares, Fotografia online (d.r.)

Novos Poetas (49) – Ana Salomé

Do quarto número da revista criatura escolho, motivado pelo gosto, dois poemas de Ana Salomé, aqui colocados com graciosa permissão da autora. Dos autores publicados neste número da criatura um ou outro surgirão neste sítio, por escolha própria, necessariamente subjectiva.

Cristal

Levantámo-nos da cama,

arrastando os lençóis pelas ruas.

É urgente encontrar um café,

encontrar uma mesa a um canto no telheiro

e ter com quem não falar.

Daquela esplanada os monumentos são excessivos.

O barroco enche-nos a boca de pedras.

Para as árvores, cultismo, conceptismo, é brisa

e o sol encima-se na talha azul acordada.

Mais um, outro. A estatuária fonte não seca.

Evitamos a sentimentalidade do cristal,

a desusada lágrima pública,

para que caia no poema em segredo.

Vem enfim o café servido por anjos. O alívio.

Um cigarro que nos conte das cinzas pulmonares

em trabalhos de restauro e contrabando.

A paisagem é interior e facciosa em milhares de degraus.

Mesmo quando nos levantamos, descemos.

"que tenhas de mim o contorno incerto" © Carla Salgueiro, Olhares, fotografia online

Tela

Hoje sou eu que poso para o teu poema

Como uma modelo numa cama de flores

Que estaria

A vida inteira diante dos teus olhos

Até ser só ossos, ouro, palavras, rebentação.

SALOMÉ, Ana, in “Revista criatura n.º 4”, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope, Dezembro 2009