As Folhas Ardem

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Etiqueta: Resumo – a poesia em 2010

José António Almeida — Artigo treze da Constituição

 

 

 

Artigo treze da Constituição

 

«Cem euros, ou levas uma facada»

— isto é Portugal em 2005

numa vila da província no sul:

o que principia na cama acaba

na sala do comandante do posto

da Guarda Nacional Republicana.

 

O que germina como crocitante

revoada de pássaros ao peito

do mais íntimo de corpos no coito

é relatado tintim por tintim

na sala do comandante do posto

da Guarda Nacional Republicana.

 

Isso que mais custava dizer ontem

desde que nasceu até agora:

«sou homossexual, não me envergonho»,

proclamas com serena gravidade

na sala do comandante do posto

da Guarda Nacional Republicana.

 

Confessar a própria sexualidade

— que ninguém a ninguém é obrigado,

os olhos fixos por vezes nas armas

da bandeira de Portugal ao fundo

na sala do comandante do posto

da Guarda Nacional Republicana.

 

Almeida, José António, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.77

[originalmente publicado em Obsessão Lisboa: & etc, 2010]

 

 

António Ladeira — Há anjos

 

 

«where the angels float», Nuxk © Nuxk, via Deviantart, (D.R.)

 

Há anjos

à memória de Mário Cesariny

 

Há anjos

que não compreendem o que dizemos

que não compreendem o próprio sentido

das palavras que, incessantemente, repetem

da esperança universal de que têm de nos convencer diariamente.

 

Há anjos que ressonam como foles

que andam cansados porque estão acordados há séculos

que precisam de ser transportados às costas

alimentados intravenosamente

protegidos da ferocidade do mundo.

 

Há anjos que lêem livros

anjos que escrevem poemas.

 

Há anjos que deixaram crescer a barba

que gostam de se deixar adormecer pelo comovente murmurar

das barbearias.

 

Há anjos que acabaram de nascer

que têm nomes vulgares

que viajam de avião

que até gostam de aeroportos.

 

Há anjos secretamente apaixonados por fadas,

por longos rios cheios de luzes

por súbitos glaciares.

 

Há anjos que são subcutâneos.

 

Há anjos que estão sempre com febre

que são ingénuos como enigmas.

 

Há anjos que vivem em arranha-céus,

que trabalham em andaimes

de onde às vezes se precipitam de propósito.

 

E há anjos que são funâmbulos.

 

Há anjos que talvez nos surpreendam

que às vezes nos saúdam, disfarçadamente, por entre a multidão

que abrem os olhos de noite.

 

Que, na sua voz interrompida, mutilada,

pedem calma.

 

Pedem muita calma.

 

Ladeira, António, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, pp.19/20

[originalmente publicado em Relâmpago/26, Lisboa: Fundação Luís Miguel Nava, 2010]

 

«yesterday», Corbin K. Zahrt © Corbin K. Zahrt, via Deviantart (D.R.)

 

Links relacionados:

Sobre António Ladeira

Frederico Lourenço — Rua do Século, 79

 

 

Rua do Século 79


Os gradeamentos das janelas

negam a quem os contempla da rua

qualquer sugestão de vida

a ser vivida por trás das grades.

Os caixilhos de ferro forjado

sugerem locutórios de um convento

da mais ascética austeridade,

como se o espaço (cujo acesso

as grades peremptoriamente vedam)

fosse votado por inteiro a extremos

exacerbados de misticismo e de penitência.

Mas também se pressentem salões escuros,

onde paira sempre o cheiro fresco a encerado,

ou a perfume de rosas e noz-moscada;

paredes revestidas de damasco,

cobertas de grandes telas,

paisagens campestres e naturezas mortas.

Medalhões de talha dourada, segurados

por fitas de seda listrada a duas cores;

silhuetas de damas coroadas de peruca,

fantasmas da corte da Rainha Louca,

móveis nas suas molduras de tartaruga e charão.

 


Lourenço, Frederico, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.53

[originalmente publicado em Santa Asinha e Outros Poemas, Lisboa: Editorial Caminho, 2010]

 

 

Rua do Século

Golgona Anghel — Não me interessa o que dizem os dissidentes da ditadura.

 

 

Não me interessa o que dizem os dissidentes da ditadura.

Mas confesso que gostava de chocolates Toblerone

que a minha tia me trazia no Natal.

 

Não acredito nos detidos políticos,

nem me impressionam os miúdos descalços

que mostram os dentes para as máquinas Minolta

dos turistas italianos.

 

Não vou pedir asilo.

Desconheço os avanços ou retrocessos económicos do meu país.

Já falei de Drácula que chegue.

Já apanhei morangos na Andaluzia.

Já fui cigana, já fui puta. Escusam de mo perguntar outra vez.

 

O que me preocupa — e isso, sim, pode ser relevante

para o fim da história — é saber quando é que me transformei,

eu que era uma loba solitária,

neste caniche de apartamento que vos fala agora?

 

Anghel, Golgona, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.12

[originalmente publicado na revista criatura n.º 5]

 

«paperlungs and paperacid», bonny chen © bonny chen, via Deviantart (D.R.)

Links Relacionados:

 

Página de Golgona Anghel

revista criatura

 

 

 

Maria Sousa — escrevo o que ainda não conheço

 

 

Escrevo o que ainda não conheço

nomes de ruas pássaros árvores

monólogos de quem ainda te fala alto

é a minha voz ou a tua?

 

lá fora a chuva confunde-se com gestos

falamos do tempo, ponte entre o silêncio e o nada

 

ouve, quando não fores capaz de falar, toca-me

 

Sousa, Maria, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.12

 

«let me fly», glinda © glinda, via Deviantar (D.R.)

[originalmente publicado em Exercícios para Endurecimento de Lágrimas, Lisboa: Língua Morta, 2010]

Alberto de Lacerda — Murmuro o teu nome ao rés da relva

 

 

Murmuro o teu nome ao rés da relva

 

Murmuro-o

Em diagonal da terra ao céu azul

Radiante

 

Felicíssimo

Não entendo nada.

 

Lacerda, Alberto, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.12

[originalmente publicado em O Pajem Formidável dos Indícios, Lisboa: Assírio & Alvim e Fundação Mário Soares, 2010]

 

«the sweet escape», Julie de Waroquier © Julie de Waroquier, via Deviantart (D.R.)