As Folhas Ardem

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Etiqueta: Reino Unido

Carol Ann Duffy, ‘poet laureate’

Desde o primeiro dia de Maio, Carol Ann Duffy (1955 – ) é oficialmente a ‘poet laureate‘ do Reino Unido. Trata-se da primeira mulher a ocupar o ‘cargo’, do primeiro poeta de origem escocesa, do primeiro poeta assumidamente bissexual. Estas singularidades não deveriam merecer a relevância que os media lhes tem conferido, face à qualidade e consistência da obra da autora. Mas, ao assumir o lugar desta peculiar tradição (não exclusiva, mas eminentemente britânica), que remonta pelo menos a Ben Jonson, nomeado pelo rei Jaime I em 1617, e foi servida por nomes como John Dryden, Alfred Tennyson, Ted Hughes, Duffy torna-se agora notória para o grande público, ‘para além’ da sua obra. Na história da incumbência, uns recusaram (Philip Larkin) ou demitiram-se. Não espanta: o cargo é perpétuo, a remuneração anual ascende à astronómica soma de £5750 libras e é suposto que se escreva alguma poesia por encomenda ‘oficial’! O ‘The Guardian” tem um excelente dossiê online sobre o assunto, que inclui um poema recente (Premonitions) e uma selecção de poemas de autoras contemporâneas, feita pela própria ‘poet laureate‘.

Em ‘piloto-automático’, dirijo-me ao blogue Do Trapézio Sem Rede; um cão sabe sempre onde pode haver um osso escondido. Encontro, sem espanto, dois poemas de Carol Ann Duffy, traduzidos por L.P.. Aqui deixo um deles, pedindo muita licença e de ‘chapéu na mão’, em sinal de respeito; e perguntando aos meus botões, sem respeito nenhum, como seria a guerra de ‘capelas’, ‘capelinhas’, castelinhos’, ‘feudos’ e ‘quintais’, se tal função existisse em Portugal; e uma escolha tivesse de ser feita.

'A menestrel oficial sou eu'

'A menestrel oficial sou eu'

Carol Ann Duffy

Educação para o ócio

Hoje vou matar alguma coisa. Qualquer coisa.
Estou farto de ser ignorado e hoje vou
representar o papel de Deus. É um dia vulgar,
uma mistura de cinzento e tédio arrebatador pelas ruas.

Esmago uma mosca contra a janela com o polegar.
Fizémo-lo na escola. Shakespeare. Foi noutra
língua e agora a mosca mudou-se para outra língua.
Expiro talento no vidro para escrever o meu nome.

Sou um génio. Poderia ser o que quisesse, com metade
da sorte. Mas hoje vou mudar o mundo.
O mundo de qualquer coisa. O gato evita-me. O gato
sabe que eu sou um génio, e escondeu-se.

Deito pela sanita os peixes dourados. Puxo o autoclismo.
Vejo como isto é bom. O periquito está aterrorizado.
De quinze em quinze dias, faço três quilómetros até à cidade
por causa de uma assinatura. Eles não gostam do meu autógrafo.

Não há nada para matar. Telefono para a rádio
e digo ao homem que está a falar com uma super-estrela.
Ele desliga. Pego na nossa faca do pão e saio.
O piso resplandece de súbito. Toco no teu braço.

(versão minha [N.R.: de L.P.]; o original pode ser lido aqui)


Fotografia do Dia (XI) – Take a View

É conhecido o amor que os britânicos têm pelo landscape, pela paisagem entendida num sentido lato, identitário, onde se dá valor às pedras, aos muros, às colinas e à sua forma, ao cromatismo das estações, a ruínas a que chamam ‘castelos’, que estão lá porque ‘devem estar, sempre estiveram’. Bem sei da barbaridade urbana (e rural) que a Revolução Industrial introduziu na paisagem urbana – e mesmo rural – da Ilhas. Barbaridade humana, também. Com a ascensão das classes médias ao centro do tecido social, o que veio à tona foram afirmações de múltiplas formas de ser, de pensar, de se identificar. Mas, na teia complexa das sociedades ocidentais, os britânicos guardam um acrisolado afecto pela sua paisagem. É-lhes uma herança viva. No ano passado foi lançado o concurso de fotografia Take a View – Landscape Photographer of the Year, com categorias (bizarras), dirigido a fotógrafos amadores e com resultados por vezes admiráveis, que se podem ver no site do Take a View. Esta fotografia faz parte do lote das 15 melhores do concurso de 2008, que pode ser apreciado na galeria colocada online. Escolhia-a pela combinação de cor e luz, pelo equilíbrio compositivo, claro, mas sobretudo pela notável harmonia entre a velha árvore e os geradores eólicos em fundo (curioso: os geradores eólicos eram protagonistas da fotografia vencedora do ano passado). Tradição e modernidade. Mas o mais notável é a vedação. Havia vedações daquelas, em Portugal (onde, aliás, se pode fazer, e faz, excelente fotografia de paisagem, desde que se desvie a lente de sacos de plástico esvoaçantes ou de carcaças de automóveis tombadas onde calha). Havia vedações daquelas, repito. Alguma norma da UE deve ter dado cabo delas.

Morning glow, West Kilbride, Scotland © Peter Ribbeck Take a view

Morning glow, West Kilbride, Scotland © Peter Ribbeck Take a view