As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Público

Crónica de Miguel Esteves Cardoso no Público – “O meu novo casamento”

Publiquei aqui a primeira crónica do Miguel Esteves Cardoso da série ininterrupta e diária a que se propôs, com a promessa de, por respeito aos direitos de autor, ser essa transcrição excepção. Agora que o escritor renova o seu contrato com o jornal, alargando-lhe o âmbito, não resisto à «cópia» da crónica de ontem, 12 de Julho. Ou de, como a partir de um facto trivial (a aparente banalidade de um  contrato), MEC escreve uma brilhante crónica.

O meu novo casamento


Este mês casei-me com o PÚBLICO que, como disse o meu amigo José Cardoso, fez de mim uma mulher honesta.

Sou muito feliz com o PÚBLICO, meu marido em caixa alta. É bom pertencer ao PÚBLICO e fazer o que ele me diz e ele deixar-me fazer o que quero.

Foi longo e picante o namoro. Mas até a mais eufórica das noivas sabe que, a certa altura, começa o casamento em si. Devagarinho, vão-se revelando, de parte a parte, hábitos irritantes e manias. Mas também inesperadas graças e doçuras. Havendo amor, fazem-se pequenos pactos, trocam-se aceitações e abdica-se das importâncias.

Tenho a sorte de saber, graças à Maria João, como cresce um bom casamento. Nos primeiros anos a ordem dos pronomes é eu, tu, nós. No deslumbramento do tu, o eu começa a ser menos eu, mas o nós quase não existe: só eu e tu e “que giro ou que mau tu seres isto ou eu ser aquilo!” Passados três anos já há um nós. É um de nós para além da soma do eu e do tu. É um casal de que gostamos e de que dependemos. Embora o eu ainda tenha medo. E fica: eu, nós, tu.

É duro o tu ficar em último mas logo arranja companhia quando o nós passa para primeiro e fica: nós, tu, eu. É esta a fase de casamento em que estou. Não sei o que vem a seguir mas suspeito que não ficarão na mesma linha e que será, por cima, nós e, por baixo, tu e eu. Deus me livre que seja assim com o PÚBLICO. Mas caso com ele na mesma.

"the marriage", choas-overlord-joe © choas-overlord-joe, via deviantart (para B.A.B.F.)

Portugal – Coreia do Norte e o sorteio.

Ontem realizou-se o sorteio dos grupos que vão disputar a fase final do Campeonato do Mundo de Futebol de onze (versão masculina), na África do Sul, em 2010. Ninguém parece ter ficado satisfeito com a nossa sorte. Cristiano Ronaldo queixa-se, Carlos Queirós diz que o primeiro jogo é decisivo (mas não são todos?); os comentadores torcem o nariz e, a esta hora, o site da FIFA aponta o “grupo” como o mais difícil, por larga margem sondada à boca do clique.

Pois eu acho o grupo lindo. Jogar contra o Brasil deveria ser encarado como uma festa, um feriado não-oficial; a Costa do Marfim surge-nos para recordar a nossa história, faceta descobridora, o pioneiro contacto de europeus com os litorais africanos para lá do Bojador, as traficâncias do ouro, do marfim, da pimenta; dos escravos. A Coreia do Norte… bem, a Coreia do Norte foi, em 1966, Inglaterra, o adversário digníssimo que permitiu à Selecção Nacional o jogo verdadeiramente épico da sua história. Em menos de nada estamos a perder 0-3. Então agiganta-se Eusébio e, com ele, uma equipa (e uma nação, colada aos rádios; e um Governo, atento à oportunidade de propaganda, ainda que em formas e modos rudimentares, pré-socráticos, digamos). O jogo, mais que o resultado final (5-3), entrou no domínio da lenda.

Agora, que vamos encontrar de novo os norte-coreanos, fixem bem os nomes de todos e cada um dos seus jogadores. Talvez daqui a dez anos estejamos a subscrever abaixo-assinados da Amnistia Internacional. Se tivermos informações suficientes para. Futebol, política, afectos, heroísmo e direitos humanos. Uma combinação rara.

Pedindo indulgência ao jornal, e ao desaforo de abuso do direito de citação, transcreve-se aqui, integralmente, o artigo de Helena Matos, no Público de 19 de Novembro. Ganhou a matéria uma luz intensa, uma pertinência nova e urgente, com o sorteio de ontem à noite. Até parecia augúrio. Chapeau, Helena Matos.

Decorem-lhes os nomes, aos rapazes da Coreia do Norte que nos defrontarão na África do Sul. Ou apontem-nos num caderno, no pc, no diário. Para memória futura.

(continuará)

Eusébio acaba de marcar um dos seus quatro golos, num jogo histórico.

O que foi feito do homem que marcou golo no primeiro minuto?

“Agora que a propósito da queda do Muro de Berlim se faz ouvir a ladainha relativista sobre os novos muros – perguntem aos presos se um muro que impede a saída é igual a um muro que impede a entrada! – é ocasião para recordarmos um dos mais brilhantes jogos efectuados pela selecção portuguesa de futebol. Aconteceu em 1966. Portugal defrontou a Coreia do Norte, cuja equipa estava ainda embalada pela euforia da vitória sobre a Itália. Portugal chegou a estar a perder por três a zero. Como não sei nada de futebol, sou incapaz de explicar o que aconteceu, mas aos meus olhos leigos nessa matéria só parece que, a partir de dado momento, a bola e Eusébio se encontravam em perfeita sintonia no caminho para a baliza dos norte-coreanos. Portugal acabou por ganhar por cinco a três. Quatro dos golos foram de Eusébio. O resto foi o que se sabe. Para Portugal, evidentemente. No livro Os Aquários de PyongYang, do historiador francês Pierre Rigoulot e do refugiado norte-coreano Kang Chol-hwan, ficamos a saber que os jogadores norte-coreanos, uma vez regressados à Coreia do Norte, pagaram caro os resultados desse jogo: alguns foram expulsos dos locais onde viviam e outros acabaram nos campos de prisioneiros. Kang Chol-hwan, que foi internado aos nove anos por o seu avô ter sido considerado reaccionário, encontrou um desses jogadores no campo de Yodok. Mais precisamente encontrou Park Seung-jin, o jogador que marcou um golo a Portugal logo no primeiro minuto de jogo. Mas o Park Seung-jin detido em Yodok destacava-se entre os outros prisioneiros não pelo poder dos remates, mas sim pela sua capacidade de vencer a fome. Comia todos os insectos que encontrava e por isso chamavam-lhe “Barata”. Ainda estava vivo, mas já muito fraco quando, em Fevereiro de 1987, Kang Chol-hwan mais o seu pai, tio, irmão e avó foram autorizados finalmente a sair de Yodok.

O que é feito de Park Seung-jin?

O destino destes jogadores ou as tragédias pessoais de alguns dos heróis desportivos dos países socialistas têm matéria q.b. para reflectir sobre a diferente natureza dos muros. Desconheço se Park Seung-jin alguma vez voltou a saltar de alegria como fez quando enfiou a bola na baliza de Portugal em 1966. Mas sei que a força do futebol foi suficiente para que alguém, em 2002, se interessasse pelo destino desta equipa e conseguisse transformá-la em matéria de documentário. Pode ser que agora a pretexto do Mundial se fale outra vez destes homens e, quem sabe, se procure confirmar os relatos de refugiados norte-coreanos e declarações do Governo japonês que dão conta de raptos de mulheres em Macau pelos serviços norte-coreanos que usavam esta mirabolante técnica para, entre outras coisas, arranjarem professoras de línguas. Estes raptos tiveram lugar num tempo em que Macau era administrado por Portugal e até agora o desinteresse que os rodeia é para mim tão inexplicável quanto aquela revirvolta no resultado do Portugal-Coreia do Norte de 1966″

Helena Matos, in Público n.º 7170, 19 de Novembro de 2009

António Lobo Antunes no Público – o Editorial

Assinalando o seu 19.º aniversário, o Público convidou António Lobo Antunes para assumir as funções de ‘director’ por um dia. Já o havia feito anteriormente, com José Pacheco Pereira, que teve um papel bastante interventivo nessa ‘sua’ edição do jornal. No Público de ontem, além de uma saudável variação formal, sendo a ‘notícia’ de capa o próprio jornal com o sugestivo título Ups! Fizemos asneira, a que se seguem os sub-títulos Inventário das gralhas e disparates dos últimos 19 anos. Um verdadeiro jardim cheio de flores; E nós, também vamos acabar? Não foi esse o destino de tantos jornais em papel?; ainda, em sub-título, É pena que os jornais, como a literatura, sejam uma estrebaria de porta aberta, que nos remete para o Editorial, escrito por Lobo Antunes. É uma crónica magnífica, onde a nostalgia mascara a zanga com o presente. As crónicas em jornal/revista do escritor são, de resto, portadoras de uma perspectiva singular, nas quais é capaz de escrever sobre um bairro como Chelas (por exemplo) fugindo à sociologia, à  retórica moral, ao juízo político, penetrando de forma empática nos meandros da vida, de qualquer vida comum, ou mesmo sórdida, com uma funda capacidade de se colar à pele dos dias dos outros e nela encontrar motivo de deslumbre ou, pelo menos, de funda interrogação. Neste caso, é a pele dos jornais que ele toca, a partir da memória.

Repara-se, já quando se finaliza este post (que foi transcrito) que o Público colocou a crónica de António Lobo Antunes online. Olha, pelo menos não têm a fotografia do Merckx.

Os jornais & eu

Em criança

(e em adolescente, e em adulto)
não havia jornais na minha casa mas havia jornais nas casas da minha família. Na do meu avô paterno lembro-me do Debate, monárquico, impossível de ler porque estava sempre dobrado e com a cinta posta. Na do meu tio Elói, aí sim, abertos, os semanários da sua terra, o Ecos de Pombal e o Notícias de Pombal. Na secção necrológica do Ecos li uma ocasião uma notícia que começava assim: faleceu oportunamente no Brasil o senhor Fulano de Tal, tio do nosso estimado amigo Não Sei Quê Não Sei Quê. Na do meu outro avô, em Nelas, era o Diário de Notícias, que chegava no comboio da meia-noite e trazíamos, de bicicleta, da estação. O meu outro avô, de casaco de linho branco, passava horas a lê-lo na varanda para a serra. Depois do casaco de linho morrer a minha avó substituiu o Diário de Notícias pelo Almanaque da Sãozinha, cheio de milagres da dita, relatados por crentes agradecidos. Num desses prodígios uma senhora contava que, de pobre que era, olhava em lágrimas as panelas vazias do almoço. Veio-lhe a Sãozinha à ideia, rezou com empenho, entrou-lhe de imediato uma lebre pela cozinha dentro, fechou a cozinha, matou a lebre à paulada e regalou-se a comer prodígio divino de cabidela. Confesso que esta dádiva da Sãozinha me fez um bocado de impressão, ao imaginar o assassinato do bicho. Até ao fim da sua vida a pagela da santa dos roedores ocupou um lugar importante no oratório da minha avó: uma adolescente de aspecto virtuoso, cheia de medalhas, que ofereceu a sua existência terrena em troca da conversão dos pais. Jesus fez-lhe a vontade arrebatando-a, estou a citar, ao nosso convívio, e os pais incréus descobriram o Altíssimo que, mesmo através da cabidela e do fricassé, se manifesta à gente, ou não mesmo, de preferência através da cabidela e do fricassé, misturando o Céu com o micro-ondas e os mandamentos com batatinhas salteadas.
Na ideia de entender o interesse do meu outro avô pelo Diário de Notícias comecei a folheá-lo, não era aos quadradinhos e portanto aborreceu-me. Troquei-o por pilhas antigas das Selecções do Reader’s Digest em que achei nacos de prosa fascinantes: “Encontrei o Amor no Hospital Ortopédico”, “Eu Sou o Testículo do João”, “Ao Ficar Cega a Sua Existência Ganhou Sentido”. Mais tarde A Bola e o Record, sobretudo A Bola onde trabalhavam grandes jornalistas
(Carlos Pinhão, Aurélio Márcio, Vítor Serpa, as extraordinárias reportagens da Volta à França de Carlos Miranda que bem mereciam estar reunidas em livro e nada devem às de Antoine Blodin)
e quando esta geração deixou de escrever eu fui deixando de ler. Ao PÚBLICO devo o ter começado a ensaiar prosinhas em forma de crónica graças ao convite de Vicente Jorge Silva, que eu não conhecia e me convidou para o suplemento dos domingos, salvando-me, porque a editora, à época, não pagava, de vender Bordas de Água nas pastelarias ou arrumar automóveis
– Trôça, trôça
na zona do Saldanha, a coçar a magreza com o debrum preto das unhas. Agora não leio jornais: vejo o teletexto, a única coisa, aliás, que vejo na televisão desde que o futebol deixou de ser um desporto, a política uma ocupação digna e a cultura se transformou em banalidades veementes, uma estrebaria de porta aberta em que toda a gente entra, como dizia D. Francisco Manuel de Melo, autor muito do meu afecto. Vejo as capas e as primeiras páginas no quiosque frente ao restaurantezito onde como e passo em frente. As prosinhas do PÚBLICO aparecem hoje na Visão, onde sempre me trataram com extrema delicadeza. Há pouco abri um exemplar e dei com uma tantas frases acerca de mim, estúpidas, desonestas e ignorantes: fiquei curado. É pena que os jornais, como a literatura, sejam uma estrebaria de porta aberta: devia ser reservada aos profissionais sérios, como os nomes de que há pouco falei, e que decerto existem. Conheço alguns. Estes parágrafos para o PÚBLICO são uma homenagem a esses nomes. O que me assusta é o facto de qualquer pessoa estar à mercê de criaturas medíocres, sem possibilidade de rectificar a pulhice. Faleceu oportunamente no Brasil: ao menos o Ecos de Pombal era sincero. A lebre para a esfomeada com fé: ao menos o Almanaque da Sãozinha dava esperança a quem almoça um carioca e um salgado no balcão. Ao ficar cega a sua existência ganhou sentido: ao menos as Selecções do Reader’s Digest animavam os que tropeçam. Se tornar a meter o olho entre páginas e receber sinceridade, esperança e sentido com certeza que lerei. E se o testículo do João for o testículo de António, então, juro, não perco uma sílaba. Desde miúdo que me dá vontade de abrir os brinquedos,  a verificar como funcionam. E tenho um par de tais apêndices de que ignoro o mecanismo e nos quais suspeito
(não estou seguro)
que não existem parafusos nem roscas. Foram um presente dos meus pais e como quase tudo em mim continuam a ser um mistério. Devíamos vir com manual de instruções, como os electrodomésticos.

António Lobo Antunes, Público n.º 6911, 5 de Março 2009

Eddy Merckx. O 'Tour de Carlos Miranda'

Eddy Merckx. O 'Tour' de Carlos Miranda

Pérolas (12) – Sócrates avaliado

(Ontem, dia 7, o Público escrutina as ‘afirmações factuais’ da entrevista de José Sócrates à SIC. E conclui com esta exigente fasquia:)

‘O primeiro-ministro passa no teste: dos 17 factos analisados, nove são verdadeiros’

'Quando eu for grande quero ter uma média de 10,3. Depois já posso ser primeiro-ministro e avaliar toda a gente'

'Quando eu for grande quero ter uma média de 10,6. Depois já posso ser primeiro-ministro de Portugal e mandar avaliar toda a gente. Os professores, por exemplo'

Miguel Esteves Cardoso no Público – a primeira crónica

Seria quase uma trivialidade, seria um acontecimento quase normal, nascido da vontade de um diário, o Público, enriquecer o seu quadro de cronistas com um nome de vulto, gerador de opinião, bruá,  mais pontos de audiência. Mas este é um acontecimento no verdadeiro sentido da palavra, não é um quase. Miguel Esteves Cardoso começou ontem, dia 5 de Janeiro, a publicar uma série de crónicas. Uma série de crónicas diárias, consecutivas, com a duração de, pelo menos um ano, 365 serão. Uma façanha (lembro-me de Eduardo Prado Coelho, também no Público) a que poucos se atrevem, pelo menos de plena consciência. Escrever por escrever há muito quem escreva: a metro. Ora Miguel Esteves Cardoso nunca escreveu a metro. Ou melhor, mesmo quando escrevia a ‘aviar’, como recentemente afirmou em entrevista à LER, toda a gente achava que era genial (fenómeno que seria assustador para o próprio). E era mesmo genial, ou andava lá perto, no seu menos melhor, ou nas redondezas, no seu mais assim-assim. Porque este homem marcou as muitas gerações que há dentro de uma geração. Algures entre as décadas de oitenta e noventa ele ajudou-nos a sermos um bocadinho menos parvónia. Merece respeito por isso. Merece respeito pela coragem com que se entrega a este trabalho diário, que ontem começou.

E começou tão leve, o MEC. Num texto de uma suavidade elegante, quase intangível, traça um grácil arco de humor, humanidade e sentido a partir de uma trivialidade. Longe da truculência de outrora, é uma voz muito mais serena que vamos começar a ler, pressinto. Um outro completamente o mesmo. Reproduzo aqui, integralmente, esta e apenas esta primeira crónica, ainda que não tenha pedido licença ao Público, nem ao próprio autor, que não conheço. Se não sentir vestígios do meu agradecimento neste post, que pelo menos o Público o tome à conta de promoção. Tu não nos morras, intitula-se a crónica. Obrigado por não nos ter morrido, Sr. Miguel Esteves Cardoso.


Tu não nos morras

«Quando eu era ainda mais novo do que sou hoje, julgava que os velhos de Beckett eram personagens abstractos. Se tinham cabelo branco até à cintura, cabeças caídas e passos vagarosos era porque Beckett imaginara-os assim.

Agora vejo que não era por isso que são universais. Era por serem mesmo velhos: os velhos que, se tivermos sorte, muitos de nós ainda haveremos de ser.

A morte da senhora de 115 anos, Maria de Jesus, não deve ter sido boa notícia para Augusto Moreira. Este era uns bons três anos mais novo. Mas agora,  com os mesmo 112 que tinha, passou a ser o mais velho de Portugal.

Em contrapartida, nós os mais novitos – toda a população – adoramos estas histórias.

Fazem-nos sentir jovens. Dão-nos esperanças de chegar, vá lá, aos 90. Então se o “segredo” é um vício, deliramos. O do Sr. Moreira é um cálice de Porto por dia. Que nós logo convertemos, em termos etários, para nosso próprio consumo, para uma garrafa de tinto.

O Sr. Moreira não é perfeito: não fuma. Mas come “sopas fortes”. De resto, como contou Ana Cristina Pereira no PÚBLICO de ontem, “quase não anda, quase não ouve, quase não vê, quase não fala”. No entanto, na noite de sexta para sábado, chamou muitas vezes pela filha. Que queria ele? “Quero uma saia”, respondeu ele uma vez. E doutra: “Quero debulhar milho.”

Tenho de reler Beckett. Se calhar não era tão bom como eu pensava.»

Miguel Esteves Cardoso [Ainda ontem, série de crónicas diárias], Público, 5 de Janeiro de 2009.

Augusto Moreira de Oliveira, português com 112 anos (Foto Lusa/Pedro Ferrari)

Augusto Moreira de Oliveira, português com 112 anos (Foto Lusa/Pedro Ferrari)

Renúncias

No Público de Quinta-Feira, 4 de Setembro, caderno P2, coluna “Frases de ontem”, item “Escrito na pedra”: «Uma pessoa pode abdicar de sexo, mas o sexo não abdica da pessoa» – Gabriel García Márquez. Está certo (embora tenha dúvidas que o colombiano escrevesse uma frase destas na pedra). Parafraseando-o, talvez o Público pudesse também escrever numa lápide, colocada à porta das suas instalações: «Um jornal pode abdicar do lucro, mas o lucro não abdica do jornal».

Abdico do sexo, pronto. Mas nunca do meu jornal preferido!

Abdico de sexo, pronto. Mas nunca do meu jornal favorito! © Roy Lichtenstein