As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Publicações Dom Quixote

Ruy Belo — As Grandes Insubmissões

Alguns dias atrás, a transcrição de um poema de António Gregório neste blogue recordou-me, memória longínqua mas muito presente, um texto de Ruy Belo, que li ainda na primeira edição da Dom Quixote, ainda na primeira edição da minha vida. Relendo-o, relendo integralmente Homem de Palavra(s), retomo o grande gozo que a sua leitura repetidamente me deu e a admirável modernidade (também se poderia falar de contiguidade no tempo, contemporaneidade) do livro. O texto transcreve-se agora, sabendo que todo este livro deveria ser lido como algo «canónico», que estabelece uma voz intocável a abordagens, ideologias, perspectivas que o possam menorizar; que desafia e vence o tempo.

AS GRANDES INSUBMISSÕES

As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.

Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.

Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.

Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.

— Ó maurício, faltaste à aula das nove.

E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.

Tocou para a aula das dez.

— Ó maurício, não vens à aula?

O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.

Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.

Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.

Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.

Ruy Belo. Obra Poética de Ruy Belo, volume 1, Lisboa: Editorial Presença, 1981. p. 181

«basketball hoop», Arevik © Arevik, via Deviantart (D.R.)

Ruy Belo no portal da D-GLB

Ruy Belo no portal do Instituto Camões

António Gregório — A traição do Celso

Aqui há dois anos, num daqueles postos de venda rodeados de plástico que se encontram hoje nas estações de metro, comprei o único livro que conheço de António Gregório (Uma história de desamor treze vezes), por um euro e cinquenta cêntimos; livro de contos que ficou logo pago, por não ter usado bilhete de metro entre o Cais do Sodré e a Almirante Reis, entretido que vinha a lê-lo. Digamos que António Gregório me ficou de borla, com a vantagem do gozo de ter lido, pelo caminho, grande parte de um livro publicado aos 24 anos de vida do autor, na Âmbar: uma festa de ironia, de  formalização por vezes estonteante, mas de um domínio exemplar da escrita, em função da intencionalidade narrativa. Recordo-me particularmente das variações que o autor era capaz a propósito de um simples incidente, ou acidente, normalmente doméstico. O absurdo e a relatividade, um quase paródico olhar sobre os acontecimentos mais triviais, que eram desmontadas em doses torrenciais, onde cabia o auto-sarcasmo. Não conheço, de António Gregório, mais obra publicada, mesmo tendo procurado um bocadinho. Eis que no Resumo, a poesia em 2011 me deparo com um poema previamente publicado na Criatura nº 6 (única que ainda não possuo). Ao ler este poema, delicioso, lembrei-me imediatamente, pela temática, do grande texto/poema de Ruy Belo As Grandes Insubmissões, publicado no livro Homem de Palavra(s), na edição de 1969, da Dom Quixote.

Dito isto, a publicação deste poema é absolutamente deliberada e mesmo medida para que se ajuste sequencialmente no tempo: com a final da Taça de Portugal, da Taça de Inglaterra e a aproximação do Campeonato do Mundo de Futebol, as contiguidades nunca são inocentes.

A traição do Celso

Jogava comigo na defesa reduto

dos inábeis dos impopulares (abaixo

de nós só o guarda-redes); o Celso e eu

vendo a glória avançada e esperando os embates

entre o medo de sempre e o desejo da acção

heróica redentora. Mas como no amor

cabia-nos menos defender antes de ser

repositório de culpas pelos falhanços

colectivos e como um amante traiu-me

 

quando atrás de não sei que instinto (parecia

doido) subiu à baliza dos outros e

marcou o melhor golo da terceira classe.

 

António Gregório, Resumo, a poesia em 2011, Lisboa: Documenta / FNAC, 2012. (originalmente publicado em Criatura/6, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope da A.A. da F. de Direito de Lisboa, 2011.)

 

«Play Time, simplyspoken © simplyspoken, via Deviantart (D.R.)

[Nota: já depois de editado o post, sou informado da existência de um mais recente livro de António Gregório, American Scientist, Quasi, 2007 (reimpressão). Dizem-me que, ocasionalmente, surge nas livrarias da Bertrand]

Pedro Mexia — Alexandria

 

 

Lisboa não é Alexandria mas

Alexandria não passa de uma metrópole

em versos subida e sublimada, a sua geometria,

as incisões do pequeno desespero.

Dêem-me uma cidade, que esta minha

está cansada e não quero outra,

escadarias em que se desce sempre,

velhas varandas apalaçadas,

dêem-me uma Alexandria do pensamento,

com uma antiguidade a dourar cada hora,

cada entardecer, mas uma antiguidade

falsa, hiperbólica,

subtil de tão imaginada, unreal city.

Lisboa não é Alexandria e está cansada, houve sítios

que conheci, outros ocultos,

percursos que adivinho no avanço

das multidões, dias de festa,

lambris de janelas, amuradas.

Não quero este rio, nem o outro,

heraclitiano, que me oferecem

umas breves obras completas na estante.

Dêem-me uma cidade terrestre, sem posteridade

ou idioma, uma cidade para que eu possa

inaugurar o passado das ruas

e, sem outro propósito, respirar.

 

Mexia, Pedro, Menos por Menos – Poemas Escolhidos, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011

 

«life breath», m0thyyku © m0thyyku, via Deviantart (D.R.)

Ana Luísa Amaral — Biografia (curtíssima)

Biografia (curtíssima)

Ah, quando eu escrevia
de beijos que não tinha
e cebolas em quase perfeição!

Os beijos que eu não tinha:
subentendidos, debaixo
das cebolas

(mas hoje penso
que se não fossem
os beijos que eu não tinha,
não havia poema)

Depois, quando os já tinha,
de vez em quando
cumpria uma cebola:

pérola rara, diamante
em sangue e riso,
desentendido de razão

Agora, sem contar:
beijo ou cebolas?

O que eu não tenho
(ou tudo): diário
surdo e cego:

vestidos por tirar,
camadas por cumprir:

e mais:
imperfeição

 
Amaral, Ana Luísa, Inversos, Poesia 1990-2010, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010

 

«Good Appetite», saabie © saabie, Deviantart (D.R.)

   Página sobre Ana Luísa Amaral

Natália Correia — O Cavalo

 

Ao Botequim da Graça, pelo discreto e constante trabalho, que reúne amigos, memórias, coisas presentes, projectos culturais.

E porque «fazem falta Natálias»

 

O cavalo


Teus poros exalam o fumo

Do lar dos deuses de onde vieste.

Rompante de espuma e de lume

És sol quadrúpede ou mar equestre?


 

Desfilando derramas o ouro

Do teu rio inacabável,

Desmedido relâmpago louro

De um deus equídeo possante e frágil.


 

Tudo existiu para que fosses

No contraluz desta madrugada

Mitológica proporção perfeita

Em purpúrea bruma recortada.


 

Pois que te é divino mister

Humanos olhos extasiar

A dúvida é só perceber

Se vieste do sol ou do mar.


 

Correia, Natália, 
Poesia Completa
Inéditos 1985/90 : Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999

 

da série «Equus», Tim Flach, © Tim Flach, (D.R.)

 

(clique para ampliar)

Pedro Tamen – O livro do sapateiro

 

 

Em Março de 2010 Pedro Tamen ofereceu-nos «O livro do sapateiro», 49 poemas (escritos entre 18 de Maio e 25 de Agosto de 2009), onde a humildade das pequenas coisas, do fazer quotidiano, do saber da mão, se transporta para a condição do homem, da existência, para a temporalidade: vida e morte, sentido e absurdo. Um livro magnífico, que começa com uma belíssima enunciação da intencionalidade e se estende sequencialmente em poemas lhanos, rentes à palavra, de grande mestria formal, ligados por uma muito subtil narratividade que os sequencia e confere à obra uma unidade firme e brilhante como um sapato primorosamente polido.

[Aqui se transcrevem os cinco primeiros poemas e o último (49). Bem mais do que nove euros, o preço do livro, custam umas meias-solas. E duram menos]

La eternidad está en las cosas

del tiempo, que son formas presurosas

JORGE LUIS BORGES

1.

Iremos procurar a razão da giesta

a razão do amarelo

iremos procurar a razão

iremos procurar

e os olhos tomarão todas as cores

as cores de tudo

2.

Mordeu a vida a pele da minha mão direita.

Na mão direita que segura o ferro

e assim julgava dominar o tempo,

devagar, mas depressa, como não existindo,

entrou incendiado um sopro do destino

sobre o qual aqui me tenho acocorado.

3.

Sentado no curto escabelo que me deram

espreito aqui da cave pela janela alta

as pessoas que passam.

Passam passam deixo de vê-las

enquanto ergo e baixo a ferramenta.

Continuo sentado no escabelo que me deram

e no escuro desta cave estou acompanhado.

Sim, acompanhado

não por quem passa

mas por quem não passa.

4.

Há um rio e o outro lado do rio.

Ao longe há um verde entrando pelos olhos que fecho

e sem saber ao certo

se o que entra é a cor de um certo tempo antigo

ou o licor de um outro tempo novo.

E verifico então de olhos molhados

que não há que saber

nem distinções na paisagem

— que é uma só no largo coração.

5.

Estar aqui é como não estar aqui.

No escuro onde as minhas lentas mãos modelam

a pele deste ser vivo,

o universo,

é da fina camada que cobriu

o seu vasto percurso

no largo da pastagem,

é no táctil roçar da sua vida

que uma luz, é esta!, me transporta.

(…)


49.

Vejo-me no brilho que te dou,

ó espelho das minhas mãos,

fugaz vitória destes dias

últimos.

Tamen, Pedro, O livro do sapateiro, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010

«Shoemaker Faysal II», Ozgur Cakir, © Ozgur Cakir, via Deviantart (D.R.)

(clique para ampliar)

Link relacionado:

Página  sobre Pedro Tamen (actualizada e excelente)

Nuno Júdice – Retrato

 

 

Amo-te; e o teu corpo dobra-se,

no espelho da memória, à luz

frouxa da lâmpada que nos

esconde. Puxo-te para fora

da moldura: e o teu rosto branco

abre um sorriso de água, e

cais sobre mim, como o

tronco suave da noite, para

que te abrace até de madrugada,

quando o sono te fecha os olhos

e o espelho, vazio, me obriga

a olhar-te no reflexo do poema.

Júdice, Nuno, Pedro, lembrando Inês, Lisboa: Publicações D. Quixote, colecção Frente e Verso, 2009

«Anathema», © Michel Omar, via Deviantart

 

Links Relacionados:

Nuno Júdice aqui, aqui e aqui