As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Poesia

Tomas Tranströmer — Prémio Nobel da Literatura 2011 (3 poemas)

(post reeditado)

Ao fim de quinze anos (Wislawa Szymborska foi distinguida em 1996), um poeta recebe o Prémio Nobel da Literatura! Saramago e Pinter escreveram poesia, mas não eram propriamente poetas. Um acontecimento, embora o nome de Tranströmer fosse desde há muito um dos apontados como possível laureado. Aqui se deixam 3 poemas do autor respigados online e uma belíssima fotografia do poeta (que pode ser muito ampliada).

Lisboa

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.

“Mas aqui!”, disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,
“aqui estão políticos”. Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.

Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
“será verdade ou só um sonho meu?”

(Tradução de Vasco Graça Moura)

Tranströmer, Tomas, 21 Poetas Suecos, Lisboa, Vega, 1980.

Novembro

Quando o esbirro se aborrece, torna-se perigoso.
O céu constrói-se, em chamas.
Sinais de pancadas ouvem-se de cela em cela.
E do solo, coberto de neve, o espaço jorra.
Algumas pedras brilham como luas cheias.

(Tradução do alemão para português por Luís Costa)

A Neve Cai

Os funerais aproximam-se
cada vez mais densos
como placas da rua
quando nos aproximamos de alguma cidade.

O olhar de mil pessoas
na terra das longas sombras.

Uma ponte constrói-se
lentamente
sempre a direito no espaço.

(Tradução para português por Luís Costa)

tomas tranströmer

(clique para ampliar)

Manuel António Pina — A ferida

 

A ferida

Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste

que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado. Mas onde encontrar um passado?

 

Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa – uma antologia pessoal, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011

 

«What time is it?» — Shutterbug © Shutterbug, via Deviantart (D.R.)

   Página da D.-G. L. B. que assinala a atribuição do Prémio Camões 2011 a Manuel António Pina, com hiperlink para página sobre o autor.

Simone Tree — não me olhes de perto a pele curva

Foi colocado online, na madrugada de ontem, o terceiro número da revista de artes e letras «a sul de nenhum norte», magnífico objecto criado por Maria Sousa e Nuno Abrantes, gratuito e disponível para quem o queira descarregar. Desta terceira edição da “sul” falarei aqui, em breve. Para já, deixa-se um poema de uma autora de surpreendente segurança formal, pretexto para divulgar esta que talvez seja a melhor revista literária online que se produz, actualmente, entre nós [No terceiro número encontram-se os seguintes autores: Adolfo Luxúria Canibal, Beatriz Hierro Lopes, Catarina Nunes de Almeida, Enrique Vila-Matas, Jenna Cardinale, Joana Corker, José Emílio-Nelson, Leslie McGrath, Long Lim, Machado de Assis, Maggie Taylor, Maria Sousa, Maurice Mbikayi, Miguel Moreira, Miguel Pires Cabral, Nuno Abrantes, Ondjaki, Paulo Rodrigues Ferreira, Rosa Alice Branco. Simone Tree, Tatiana Faia, Teresa Andruetto].


não me olhes de perto a pele curva
do nariz que desce, perfeito, as sardas
e encontra o vício‐razão do toque
na dureza das costelas,
curva dos caracóis.

o mistério dos corpos
‐ tantos anos depois –
é que, mesmo paralelos
encaixam.

Simone Tree, in, «a sul de nenhum norte» n.º 3

clothless bodies and timeless, Utku Atalay © Utku Atalay, via Deviantart

  página da revista na rede social Facebook, onde se pode descarregar os três primeiros números da revista «a sul de nenhum norte»

Nuno Júdice — Fotografia

 

Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso de
atget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,
e olha para trás, de esguelha, como se quisesse
mostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-se
de nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-se
um sorriso que, não se sabe porquê, se esbate com
essa espécie de névoa com que o tempo envolve
as fotografias antigas, a sépia, em que não é
possível disfarçar a certeza que temos de que aquela
mulher, hoje, não passa de cinza nalgum canto
de cemitério de província. Porém, a sua nudez
desafia a morte; e quase que lhe podíamos pedir
que esqueça o fotógrafo, e regresse à realidade
onde ele a foi descobrir, para que a sua vida
retome o curso habitual, e não nos perturbe com
esse sentimento de que a vida é breve, e já foi.

 

Júdice, Nuno, revista INÚTIL número 2, Abril de 2010

 

Eugène Atget, (s./t.), 1925

(clique para ampliar)

  página sobre Nuno Júdice

  página sobre a fotografia de Atget

  blogue da Revista INÚTIL

Hugo Milhanas Machado — Um Ano Sem Luz

 

 

UM ANO SEM LUZ

 

Se trazia madeira e era um barco me dirás

não lhe sabia afinal a palavra e um ano sem luz

e trinta ruas e outras poucas letras mas tristes

 

tanto faz se trinta ruas ou trinta palavras quando

é noite feita e se falavas eu era tarde eu era tal

pois nunca se disse e dizendo no peito falando

 

nenhuma outra coisa que não do peito falando

era haver luz a ver um ano sem luz e um sol tal

trinta ruas e não haver ruas e era um barco afinal.

 

Machado, Hugo Milhanas, Clave do Mundo, Lisboa: Sombra do Amor Edições, 2007

 

«Code», Giorgia N. © Giorgia N., via Deviantart (D.R.)

António Franco Alexandre — Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo,

 

Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo,

e a água onde mergulhas logo encerra

em fresca e fina luva o corpo inteiro

e sem pudor algum te abraça e beija.

Mesmo o vulgar sabão, no tanque absorto,

pela nudez da carne se insinua

e entre as coxas flutua, como um peixe

mais branco, que outra sombra continua.

Mas eu, quando me cubro do teu rosto

e sou somente de água e fogo feito,

melhor ainda te conheço e quero,

e nada no teu corpo me é alheio:

em cada grão de pele te desejo,

em cada ruga leio o meu destino.

Alexandre, António Franco, Duende, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002

«e-motion study», James Franco © James Franco via Deviantart (D.R.)

Armando Silva Carvalho — Antero, areia e água

O presente poema está evidentemente na origem e anuncia mesmo o livro  Anthero Areia & Água (Lisboa: Assírio & Alvim, 2010),  trabalho de grande fôlego e intenso diálogo com a obra e a figura do poeta Antero de Quental, livro justamente reconhecido pela generalidade da crítica e distinguido com o Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes, atribuído pela Câmara Municipal de Amarante. Neste longo poema, quase imediatamente publicado antes do livro referido, podemos encontrar já o âmago da poética deste: um largo e íntimo questionamento sobre Quental, que se traduz num questionamento sobre o próprio autor, a sua condição, a sua condição de poeta.

Antero, areia e água

 

 

Como todos acabamos, acabaste.

Mas não acabaste como quase todos acabamos.

Sentaste-te num banco de jardim,

Separado pelo mar,

Separado de ti, separado de separações

Que te obrigassem a unir

Os ossos redimidos, os músculos mentais

Desse palácio de ideias, no dizer de Sérgio,

Que durante tanto tempo construíste

 

E disparaste dois tiros.

 

Na boca,

Exactamente,

Sem qualquer espécie de retórica.

 

Na longa sucessão dos anos,

Há muitos que de ti se vão aproximando

Por dever de ofício, por exigência histórica,

Ou por outra natureza qualquer que não convém

Ou vem agora a lume.

 

Por mim, pois sou eu que estou aqui

Por trás da escrita,

Queria perceber — entre a leitura dos textos

E o que a invenção do tempo me faz chegar às mãos

Que ainda estremecem —

A estranha sedução que me provoca

O que ficou do corpo, que dizem que foi teu,

Impresso numa revista a meu lado

Sobre a secretária.

 

 

Um rosto, sobretudo o rosto, pintado por Columbano.

 

Devo, no fundo, ao pintor

O desejo de morte que me arrasta de súbito, numa carga

Erótica,

Para essa santidade por ti tão apregoada

Em falas sucessivas, em ondas de amor absoluto

E bem supremo.

 

O meu sexo sempre reagiu

à sublime inércia em que os corpos se expõem

Em mágoa, em desconforto,

E não surge da culpa, mas da ideia perversa

Duma serenidade casta,

Diva (ó tempos tão modelados na ópera)

E rediviva.

 

Mas não quero que estes versos

Sejam

Uma vez mais o leito onde a ironia corra

Dum suposto sémen

Derramado em vozes de castrados, solitárias farsas,

Preservados delíquios.

 

Por isso peço perdão ao leitor mal

(ou bem)

Intencionado.

 

Hoje entrego-me total e mentalmente a Antero.

Direi depois se puder

E em livro

As causas desta minha decadência

Já surda à voz das grandes multidões,

Cansadas também elas

Das palavras que lhes deitam por cima como bombas

Em árias suicidas

No palco da mentira universal.

Como ele também dizia.

 

Repito:

Entre a beleza funérea

E a pouca areia e água em que vejo afundar-se

A minha vida

Corre a extinta luz dum mundo

Já sem mundos.

 

E nessa cinza, como um desafio,

Consigo decifrar as pegadas de Antero

A caminho do supremo

Nada.

 

Carvalho, Armando Silva, Colóquio/Letras n.º 173, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro/Abril 2010

 

«Antero de Quental» [1889], Columbano Bordalo Pinheiro, Museu do Chiado, Lisboa

Link Relacionado

Sobre Armando Silva Carvalho

António Franco Alexandre — Debaixo do colchão tenho guardado

 

II

Debaixo do colchão tenho guardado

o coração mais limpo desta terra

como um peixe lavado pela água

da chuva que me alaga interiormente

Acordo cada dia com um corpo

que não aquele com que me deitei

e nunca sei ao certo se sou hoje

o projecto ou memória do que fui

Abraço os braços fortes mas exactos

que à noite me levaram onde estou

e, bebendo café, leio nas folhas

das árvores do parque o tempo que fará

Depois irei ali além das pontes

vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;

mas com cuidado, para não ferir

as minhas mãos astutas de princesa.

Alexandre, António Franco, Quatro Caprichos, Assírio & Alvim, 1999
(Prémio Luís Miguel Nava 2000)


Pedro Tamen — Ensoneto

 

Entretanto, meu filho, é vinho tinto,

erosão persistida, abraço baço.

Lumes novos, quem é que os inventa

melhor do que o calor que nós nos damos?

 

 

 

Às uvas pois. O mais é uma cadeira

e o olhar do céu com chuva ou não,

enquanto as aves fogem e nós as imitamos

quase sem dor nem arte — só sentidos.

 

 

Assim sossega, assim verdeja e está,

eructa e vê, olhando à transparência,

um céu assim mais lento.

 

 

Só depois te levantas e contigo

vai certeza nenhuma, só viver

outra vez, amanhã, a vida mesma.

1971

Tamen, Pedro, Colóquio/Letras n.º 12, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Março de 1973

«Raisin and grape - 2», Mordecai @ Mordecai, via Deviantart (D.R.)


David Ignatow — Para a minha filha em resposta a uma pergunta

 

 

 

No dia do Pai. Sara. Clara, João.

 

Para a minha filha em resposta a uma pergunta

Não vamos morrer,

havemos de encontrar uma solução.

Respiraremos fundo

e teremos cuidado com a comida.

A nossa mente estará concentrada em vivermos.

Nenhum dos dois desaparecerá.

Seremos os primeiros,

nunca nos riremos de nós mesmos

e os teu filhos serão os meus netos.

Nunca nada mudará

a não ser por adição.

Não haverá nunca ninguém como tu

e ninguém nunca como eu.

Nunca ninguém te confundirá

ou me confundirá com outro.

Não seremos nunca esquecidos e ultrapassados

e enterrados sob os nascimentos e as mortes por vir.

 

 

(Versão de L.P. publicada no blogue Do Trapézio sem Rede. Agradeço ao autor deste muito valioso blogue, também ele notável presença na poesia portuguesa actual, a transposição do poema, sabendo de antemão que a sua elegância me autoriza a fazê-lo.)
«Fathers and Sons», Cahilus © Cahilus, via Deviantart (D.R.)
Links relacionados:

Daniel Faria — Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo

 

 

Este é o dia novo. Sei-o pelo desejo

De o transformar. Este é o dia transformado

Pelo modo como apoio este dia no chão.

Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra

Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo

Na atenção.


E fico atento, fico deitado porque não sei crescer

Num terreno que se levante.

Cresço na clareira de um homem que é uma palavra

Na sua túnica inteira

Porque este é o sítio do dia sem horário


Sem divisões


E ponho-me de frente no seu lado,

Nos seus braços abertos para me unir

E entro pelo lado aberto e ardo – como Elias

Em chamas subindo para o céu.


Faria, Daniel, Poesia, Vila Nova de Famalicão:Quasi, 2003

 

 

Torrie © Torrie, via Deviantart (D.R.)

Manuel Gusmão — morreremos repetidamente sobre esta praia, nas margens da luz.

 

 

morreremos repetidamente sobre esta praia, nas margens da luz.

A rosa declina a sua autobiografia, obliquamente caindo

sobre quilómetros e quilómetros de florestas insistentes,

sobre a sombria arquitectura desta terra longamente apaixonada,

sobre a rosa que sobe até à aérea metalurgia das nuvens.

Gusmão, Manuel, Dois sóis, A Rosa / a arquitectura do mundo, Lisboa: Editorial Caminho, 1990

 

Hind alNuaimi © Hind alNuaimi, via Deviantart (D.R.)

 

Links Relacionados:

Recensão crítica ao livro, por Maria Aliete Galhoz, na Revista Colóquio/Letras 129/130 (2003)

Herberto Helder — «Por isso ele era rei, e alguém (…)»

 

 

Por isso ele era rei, e alguém

se punha diante da realeza para ter um pensamento, uma palavra

súbdita: dá-me um nome, uma

baforada

desfere o ceptro contra a minha testa para eu ver

uma constelação maior que onze varas,

enche de hélio o espaço reservado à minha glória quando me volto

na escuridão com toda a potência

dos raios, dizia, o torso envolto pelas ramagens

do fogo,

bate-me na testa e que eu seja a minha luz, onze

varas de luz para os braços torcidos,

uma camisa aos rasgões brilhantes por força

da entrada e saída

do ar, porque de ti recebo a soberania e lanço pela boca

petróleo a arder como no circo dos prodígios

fazem os reis terríveis,

por isso também eu tenho o poder e o sítio e o exercício

desta magia: a realeza de uma combustão,

acto, verbo,

e em estado natural os elementos:

madeira, cristal e ouro, e o ar movendo

o poema número a número.


Helder, Herberto, Poesia Toda, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996

 

«Nebula», Cristina Romero Ríos © Cristina Romero Ríos, via Deviantart (D.R.)

Filipa Leal — Douro

 

 

Douro

 

Não sei se prefiro o rio

ou o seu reflexo nas janelas espelhadas.

 

De um lado

os barcos ancorados, do outro lado:

barcos — na imediata memória das âncoras.

Deste lado, o porto, ou o cais,

contracenando com a sua própria inexistência

daquele lado.

 

Existirá aquele rio nos espelhos?

Poderá este subsistir sem as janelas?

 

Sou dourada como os peixes que te

desabitaram. E, do outro lado, sou

desabitada.

 

Leal, Filipa, Talvez os Lírios Compreendam, Porto: Cadernos do Campo Alegre / 8, 2004

 

«Como a querer esconder-se», Rui Vaz Ribeiro © Rui Vaz Ribeiro, (D.R.)

 

Links Relacionados:

Nota biográfica de Filipa Leal (no site da Deriva)

Rui Vaz Ribeiro

Al Berto — A paisagem prolonga-se

 

a paisagem prolonga-se num S de flores azuladas

ela entra nas ruínas

junto ao ângulo penumbroso da casa destruída

está vestida de branco quando ele lhe fala

ambos têm o olhar vago

ela recorta-se sobre um fundo de árvores nuas

ele está de pé encostado a um muro de pedra

ouve-se alguém dizer: não tenhas medo
so

somos apenas actores dum sonho paralelo à paisagem

os lábios dela tremem ou sorriem

ele encolhe-se mais contra a parede

o silêncio ainda não os abandonou

ela espreita-o

ele desenha-se exacto no centro do écran

(de novo uma voz off)

um vento vertical adere à casa

onde as raízes dos cardos irrompem dos alicerces

e quando ela se vira para o interior das ruínas

prende-se-lhe o olhar num ponto inexistente

ele já ali não está

apenas a objectiva da câmara continua a segui-la

Al Berto, Trabalhos do Olhar, Lisboa: Contexto, 1982

 

 

«Window Ruin», Marcin © Marcin, via Deviantart (D.R.)

Fiama Hasse Pais Brandão — quatro poemas

«Between the trees», Petitescargot, © Petitescargot, via Deviantart (D.R.)

 

A SÉPIA


Chegava no seu carro solar

ao meio-dia

o amolador rústico.

Com uma roda fruste que brilhava

e ressoava surda

no bater do pedal?

Com o assobio que modula

um ser perdido

na estrada da velha vila

esboçada na paisagem

por trás da vila de hoje?

 
SÃO JULIÃO DA BARRA

1

Sempre vão passando barcos

na Barra ao longe, na linha

de memórias ocas

e é oco o som cavo de apitos.


2

Há manchas de mar por vezes sobrepostas

à rusticidade doce da casa.

Mas um sentido rural que se demora

traz imagens tangíveis tão próximas

daquilo que para mim as coisas eram.

 


METAFÍSICA


Todas as árvores apaziguam

o espírito. Debaixo do pinheiro bravo

a sombra torna metafísica

a silhueta de tronco e copa.

Em volta da ameixoeira temporã

vespas ensinam aos meus ouvidos

louvores. As oliveiras não se movem

mas as formas da essência desenham-se

cada dia com o vento.


Na sombra os frémitos

acalentam o pensamento

até ao não pensar. Depois

até sentir a vacuidade

no halo das flores que o envolve.

Sob as oliveiras, por fim,

que não se movem contorcendo-se,

concebe o não conceber.


ESTRADA DE FOGO
Pedra a pedra a estrada antiga

sobe a colina, passa diante

de musgosos muros e desce

para nenhum sopé;


encurva, na abstracta encruzilhada;

apaga-se, na realidade. Morre

como o rastilho de fogo,

que de campo em campo aberto


seguia, e ao bater na mágica cancela

dobrava a chama, para uma respiração,

e deixava o caminho do portal

incólume e iniciado.


1986

 

Brandão, Fiama Hasse Pais, Colóquio/Letras n.º 108, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Março de 1989.

Between the trees chapter II, Petitescargot © Petitescargot, via Deviantart (D.R.)

Rui Nunes — Vésperas Portuguesas

 

VÉSPERAS PORTUGUESAS


o dia corre de poente para nascente, a chuva

é um lençol tenso sobre os velhos que separam

as lembranças, com palavras que não chegam

a dizer: esquecem os subterfúgios do tempo

e avançam cambaleantes pelas grandes fissuras

entregues ao despovoamento alucinante


no interior dos carros, os crimes

são ligeiras confidências


Nunes, Rui, Ofício de Vésperas, Lisboa: Relógio d’Água, 2007.

«the fall of the gentlemen», dark oak © dark oak, via Deviantart (D.R.)

(post editado):

Graças à amabilidade do Pedro S. Martins (poeta, autor do blogue «Escara Voltaica»), aqui se junta a listagem das obras de Rui Nunes, tal como surge no seu último livro, Os Olhos de Himmler:

As Margens, 1968, Edição de autor

Sauromaquia, 1ª edição: 1976, Parceira A. M. Pereira, 2ª edição: 1986, Relógio D’Água Editores

Os Deuses da Antevéspera, 1ª edição: 1977, Parceria A. M. Pereira, 2ª edição: 1990, Vega

O Mensageiro Diferido, 1981, Regra do Jogo, 2ª edição: 2004, Relógio D’Água Editores

Quem da Pátria Sai a Si Mesmo Escapa?, 1983, Relógio D’Água Editores

O Canto no Ocaso, 1985, Rolim

Enredos, 1987, Rolim

O Incêndio in “As Escadas Não Têm Degraus 5”, 1991, Cotovia

Oscultariz, 1992, Relógio D’Água Editores, Prémio Literário P.E.N. Clube Português, 1992, 1º lugar ex aequo

Álbum de Retratos, 1993, Relógio D’Água Editores

Que Sinos Dobram Por Aqueles que Morrem Como Gado?, 1995, Relógio D’Água Editores

Grito, 1997, Relógio D’Água Editores, Grande Prémio de Romance e Novela APE – 1997

Cães, 1999, Relógio D’Água Editores

Rostos, 2001, Relógio D’Água Editores, Prémio da Crítica 2001 atribuído pelo Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários

A Boca na Cinza, 2003, Relógio D’Água Editores

O Choro É Um Lugar Incerto, 2005, Relógio D’Água Editores

Ouve-se Sempre a Distância numa Voz, 2006, Relógio D’Água Editores

Ofício de Vésperas, 2007, Relógio D’Água Editores

Os Olhos de Himmler, 2009, Relógio D’Água Editores

Daniel Faria – Um pássaro em queda mesmo

 

 

 

Um pássaro em queda mesmo
Quando é proporcional à pedra
Que tomba do muro nunca
Alcança a mesma coloração do musgo
– Já nem sequer falo do tempo
Em que mudam a pena

Para fazeres ideia pensa
Como perde um homem a idade
De encontrar os ninhos

Retém na memória: o homem cai. Desloca-se
O pássaro para que as estações não mudem

É dessa rotação que o muro
Pode cercar-se sem ninguém o construir. O cerco
Do voo é a pedra da idade

Para fazeres uma ideia pensa
Em engoli-la

 

Faria, Daniel, Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003

 

«5939», CiCe © CiCe, via Deviantart (D.R.)

Marguerite Yourcenar – Cantilena para um tocador de flauta cego


Cantilena para um tocador de flauta cego


Flauta da noite que se cerra,

Presença líquida de um pranto,

Todos os silêncios da terra

São as pétalas do teu canto.


Espalha teu pólen na alfombra

Do catre que por fim te acoite

Mel de uma boca de sombra

Como um beijo na boca da noite


E pois que as escalas que cansas

Nos dizem que o dia acabou,

Faz-nos crer que os céus dançam

Porque um cego cantou.

Tradução de Mário Cesariny

Yourcenar, Marguerite, in A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.

«Shakuhachi Player», Alessandro © Alessandro, via Deviantart, (d.r.)*

(poema original)

Cantilène pour un joueur de flute aveugle


Flute dans la nuit solitarie

Presence liquide d’un pleur,

Tous les silences de la terre

Sont le pétales de ta fleur.


Disperse ton pollen dans l’ombre,

Ame pleurant, presque sans bruit,

Miel coulant d’une bouche sombre,

Comme un baiser fait à la nuit.


Et, puisque tes lentes cadences

Rythment le pouls des soirs d’été,

Fais-nous croire que les cieux dansent

Parce qu’un aveugle a chanté.

Ligações relacionadas:

Marguerite Yourcenar (Wikipedia)

Alguns poemas de Marguerite Yourcenar (em língua francesa, traduzidos para castelhano)

Entrevista a Marguerite Yourcenar na The Paris Review, 1988 (em língua inglesa, pdf. descarregável)

* Na fotografia: um Shakuhachi

Margaret Atwood – O Momento

Há coincidências que não se devem desprezar. Em 24 horas, mão amiga faz-me chegar o poema The Moment, de Margaret Atwood; o suplemento Ípsilon do jornal Público publica rara e estimulante entrevista de Helena Vasconcelos à poetisa e romancista; finalmente, na procura de uma citação adequada para responder a um comentário a post anterior, deparo-me com uma frase da escritora canadiana, em epígrafe, num dos meus blogues favoritos. Respeitem-se as coincidências, agradeça-se o poema traduzindo-o, acto de pouco glorioso resultado; louve-se ainda o trabalho de Helena Vasconcelos.

The Moment


The moment when, after many years

of hard work and a long voyage

you stand in the centre of your room,

house, half-acre, square mile, island, country,

knowing at last how you got there,

and say, I own this,


is the same moment when the trees unloose

their soft arms from around you,

the birds take back their language,

the cliffs fissure and collapse,

the air moves back from you like a wave

and you can’t breathe.


No, they whisper. You own nothing.

You were a visitor, time after time

climbing the hill, planting the flag, proclaiming.

We never belonged to you. 
You never found us.

It was always the other way round.


Margaret Atwood

«Between Light And Nowhere», Martin Stranka © Martin Stranka, via Deviantart (d.r.)


O Momento



O momento quando, após muitos anos

de trabalho duro e uma longa travessia

te encontras no centro do teu quarto,

casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país

sabendo por fim como lá chegaste,

e dizes, eu possuo isto,


é o mesmo momento em que as árvores desatam

os seus macios braços em teu redor,

as aves retiram a sua língua,

as falésias fissuram e colapsam,

o ar vem devolvido de ti como uma onda

e tu não consegues respirar.


Não, murmuram eles. Tu não possuis nada.

Tu foste um visitante, uma e outra vez

subindo a colina, cravando a bandeira, proclamando.

Nós nunca te pertencemos.

Tu nunca nos encontraste.

Foi sempre o contrário.


Ligações relacionadas:

Margaret Atwood

Entrevista de Helena Vasconcelos a Margaret Atwood (Ípsilon, 20 de Agosto de 2010)