As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Pedro Tamen

Pedro Tamen — Ensoneto

 

Entretanto, meu filho, é vinho tinto,

erosão persistida, abraço baço.

Lumes novos, quem é que os inventa

melhor do que o calor que nós nos damos?

 

 

 

Às uvas pois. O mais é uma cadeira

e o olhar do céu com chuva ou não,

enquanto as aves fogem e nós as imitamos

quase sem dor nem arte — só sentidos.

 

 

Assim sossega, assim verdeja e está,

eructa e vê, olhando à transparência,

um céu assim mais lento.

 

 

Só depois te levantas e contigo

vai certeza nenhuma, só viver

outra vez, amanhã, a vida mesma.

1971

Tamen, Pedro, Colóquio/Letras n.º 12, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Março de 1973

«Raisin and grape - 2», Mordecai @ Mordecai, via Deviantart (D.R.)


Pedro Tamen vence o Prémio Literário Casino da Póvoa, nas Correntes d’Escritas, com «O livro do sapateiro»

 

E por aqui ficamos muito contentes (na ‘sondagem’ que aqui foi feita havíamos votado neste livro, em «A Inexistência de Eva» de Filipa Leal e em «Arado», de A. M. Pires Cabral.)

Em Janeiro aqui se deixaram 5 poemas + 1 deste magnífico livro. Basta clicar no link e ler; aberto o apetite, trate-se de comprar o livro onde se encontre. Como foi dito então, «Bem mais do que nove euros, o preço do livro, custam umas meias-solas. E duram menos».

Pedro Tamen, fotografia de António Pedro Ferreira (D.R.)

 

 

Correntes d’Escritas — «Sondagem As Folhas Ardem»: Vote na sua obra preferida.

© Câmara Municipal da Póvoa do Varzim (D.R.)

O Prémio Literário Casino da Póvoa, este ano atribuído à poesia, será anunciado dia 23 de Fevereiro, no âmbito do evento Correntes d’Escritas – Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, notável e corajosa iniciativa da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, evento de crescente e muito assinalável importância na dinamização do conhecimento e do contacto entre os leitores, os autores, as obras. Justíssima a lista pré-seleccionada, sendo o prémio atribuído por um júri respeitável: Almeida Faria, Carlos Vaz Marques, Fernando Pinto do Amaral, Patrícia Reis e valter hugo mãe.

Como é referido na página das Correntes d’Escritas, «Esta selecção resultou de cerca de 150 obras concorrentes de autores de língua portuguesa, castelhana e hispânica, com obras em português, editadas em Portugal (1ª Edição) entre Julho de 2008 e Junho de 2010. Ficaram excluídas as Obras Póstumas, Obras Completas e Compilações e Obras de Literatura Infanto-Juvenil. Também não foram admitidas a concurso obras de autores que tenham sido galardoados com o Prémio Literário Casino da Póvoa nos últimos seis anos. Recorde-se que este Prémio tem um valor de 20 mil euros e este ano distingue poesia. (…) A 22 de Fevereiro, dia anterior ao arranque da 12ª edição do Correntes d’Escritas, o júri reúne pela última vez para decidir qual o vencedor do prémio, decisão que será anunciada no dia 23, na sessão pública de abertura do Encontro. O prémio é entregue no dia 26, na sessão de encerramento.»

*

Lamentavelmente não fazemos todos parte do júri. Por isso, decidiu por unanimidade o conselho de administração deste blogue (1 voto a favor/0 contra), proporcionar a quem quiser a possibilidade de votar na sua obra preferida.

Algumas indicações e notas:

1 — Cada votante pode exprimir a sua preferência apenas uma vez e assinalar três (3) obras;

2 — O termo da votação expira no próprio dia 23 de Fevereiro, data em que o júri (oficial) anuncia o prémio (oficial);

3 — As obras estão alinhadas por ordem alfabética;

4 — Não há um prémio para os votantes; isto não é uma sondagem para acertar no vencedor;

5 — Pede-se a quem votar e/ou tomar conhecimento da iniciativa, que a divulgue. No final das contas,  dez ou vinte votantes já serão uma manifestação impressionante;

6 — O objectivo desta «sondagem» é apenas um: divulgar o evento e, de passagem, estimular o conhecimento das obras e do trabalho dos autores a concurso. Não tem apoio, incentivo, nem é do conhecimento oficial de entidades organizadoras, de qualquer instituição, editora, autor ou seja de quem for.

 

Dito isto, toca a votar nas obras de que gosta mais!

Correntes d’Escritas — Prémio Literário Casino da Póvoa

«Sondagem As Folhas Ardem»

Links relacionados:

Página do «Correntes d’Escritas» no site da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim

Pedro Tamen – O livro do sapateiro

 

 

Em Março de 2010 Pedro Tamen ofereceu-nos «O livro do sapateiro», 49 poemas (escritos entre 18 de Maio e 25 de Agosto de 2009), onde a humildade das pequenas coisas, do fazer quotidiano, do saber da mão, se transporta para a condição do homem, da existência, para a temporalidade: vida e morte, sentido e absurdo. Um livro magnífico, que começa com uma belíssima enunciação da intencionalidade e se estende sequencialmente em poemas lhanos, rentes à palavra, de grande mestria formal, ligados por uma muito subtil narratividade que os sequencia e confere à obra uma unidade firme e brilhante como um sapato primorosamente polido.

[Aqui se transcrevem os cinco primeiros poemas e o último (49). Bem mais do que nove euros, o preço do livro, custam umas meias-solas. E duram menos]

La eternidad está en las cosas

del tiempo, que son formas presurosas

JORGE LUIS BORGES

1.

Iremos procurar a razão da giesta

a razão do amarelo

iremos procurar a razão

iremos procurar

e os olhos tomarão todas as cores

as cores de tudo

2.

Mordeu a vida a pele da minha mão direita.

Na mão direita que segura o ferro

e assim julgava dominar o tempo,

devagar, mas depressa, como não existindo,

entrou incendiado um sopro do destino

sobre o qual aqui me tenho acocorado.

3.

Sentado no curto escabelo que me deram

espreito aqui da cave pela janela alta

as pessoas que passam.

Passam passam deixo de vê-las

enquanto ergo e baixo a ferramenta.

Continuo sentado no escabelo que me deram

e no escuro desta cave estou acompanhado.

Sim, acompanhado

não por quem passa

mas por quem não passa.

4.

Há um rio e o outro lado do rio.

Ao longe há um verde entrando pelos olhos que fecho

e sem saber ao certo

se o que entra é a cor de um certo tempo antigo

ou o licor de um outro tempo novo.

E verifico então de olhos molhados

que não há que saber

nem distinções na paisagem

— que é uma só no largo coração.

5.

Estar aqui é como não estar aqui.

No escuro onde as minhas lentas mãos modelam

a pele deste ser vivo,

o universo,

é da fina camada que cobriu

o seu vasto percurso

no largo da pastagem,

é no táctil roçar da sua vida

que uma luz, é esta!, me transporta.

(…)


49.

Vejo-me no brilho que te dou,

ó espelho das minhas mãos,

fugaz vitória destes dias

últimos.

Tamen, Pedro, O livro do sapateiro, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010

«Shoemaker Faysal II», Ozgur Cakir, © Ozgur Cakir, via Deviantart (D.R.)

(clique para ampliar)

Link relacionado:

Página  sobre Pedro Tamen (actualizada e excelente)

Pedro Tamen – Agora abandonado sem sentimento algum


Agora abandonado sem sentimento algum

de ter valido a pena ou de não isso,

de olhos abertos mais, assumo e amo,

encordoado como não sei que bicho,

de pé-coxinho como não sei que homem.

Olho A e B, e a ti, porém contando

com posição de mar roçando a praia alheia,

tão marginal mas útil de outra forma,

tão mar e marginal, desfeito mas fazendo.

O lar sonhado não é aqui, mas onde

não sonhe mais por ele. Vivo

de pé, completo com aquilo

que outro vento não tive que me desse,

e mais ainda, com o que não tenho agora

nem pretendo rever: o dia é grande,

a morte igual, a voz silente.

Não posso pedir mais que o dom da sede.

TAMEN, Pedro, «Horácio e Coriáceo», Lisboa: Moraes editores, 1981.

(sobre o autor)

«Alone with the waves», Tayfun Eker © Tayfun Eker, via Deviantart

Poesia Portuguesa (27) – Pedro Tamen

Pedro Tamen (1934), poeta, eminente tradutor, professor, administrador de múltiplas entidades públicas e privadas ligadas à cultura, é um daqueles homens incontornáveis na segunda metade do século XX, a figura do ‘intelectual’ que surge no frutífero cadinho dos então designados ‘católicos progressistas’ (e da Moraes). A sua biografia/bibliografia – de excelente qualidade – pode encontrar-se aqui → (Pedro Tamen). Na revista Colóquio/Letras, 127/128, de Janeiro/Junho 1993, dedicada a António Nobre, Tamen, que era à época administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, editora da revista, publica este poema com António Nobre como tema. De assinalar que o excepcional número duplo da Colóquio Letras, de grande apuro estético e abundantes hors-texte (o meu exemplar apanhou água num dos cantos e está apropriadamente atacado de tísica desde então) tem sobrecapa e, ilustrações de Miguel Branco (1963), um pintor e escultor com uma linguagem única e inclassificável nas correntes de expressão plástica contemporâneas, que pode ser apreciada na imagem que ilustra este post (a referida sobrecapa, o tamanho engana, a pintura tem 19 x 24 cm, uma ‘miniatura, portanto) e contextualizada no comentário à sua obra → (da autoria de Nuno Faria).


NOBRE REVISITED

por

Pedro Tamen

Tão dlim, tão dlão,

tão coração,

tão rim.


(Ó meu poeta prejudicado

pela suavidade do portuguesismo,

pela saudade antes do saudosismo,

pelo sexo de só crucificado,


meu cor-de-terra quando foge

onde não há verdades verdes que despontem,

ó meu poeta que ainda tosses hoje

tendo nos olhos as olheiras de ontem!)

Março 93

Pedro Tamen, in Revista Colóquio/Letras, número 127/128, p. 15, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Janeiro/Junho 1993

Miguel Branco / Sem Título, óleo sobre madeira, 1992

Miguel Branco / Sem Título, óleo sobre madeira, 1992

(clique para ampliar)