As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Pedro Mexia

Pedro Mexia — Alexandria

 

 

Lisboa não é Alexandria mas

Alexandria não passa de uma metrópole

em versos subida e sublimada, a sua geometria,

as incisões do pequeno desespero.

Dêem-me uma cidade, que esta minha

está cansada e não quero outra,

escadarias em que se desce sempre,

velhas varandas apalaçadas,

dêem-me uma Alexandria do pensamento,

com uma antiguidade a dourar cada hora,

cada entardecer, mas uma antiguidade

falsa, hiperbólica,

subtil de tão imaginada, unreal city.

Lisboa não é Alexandria e está cansada, houve sítios

que conheci, outros ocultos,

percursos que adivinho no avanço

das multidões, dias de festa,

lambris de janelas, amuradas.

Não quero este rio, nem o outro,

heraclitiano, que me oferecem

umas breves obras completas na estante.

Dêem-me uma cidade terrestre, sem posteridade

ou idioma, uma cidade para que eu possa

inaugurar o passado das ruas

e, sem outro propósito, respirar.

 

Mexia, Pedro, Menos por Menos – Poemas Escolhidos, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011

 

«life breath», m0thyyku © m0thyyku, via Deviantart (D.R.)

Margarida Vale de Gato — Há-de ser pelo meio da pele que se começa

 

Há-de ser pelo meio da pele que se começa

(dialogo em verso, adaptado de texto dramático em curso)

 

Queiramos florir. Tenho um botão a brotar,

Uma pétala da tua casca corroída,

Gostava de tocar-lhe e untá-la de manteiga

Comer-me? Encostar-te à face derretida.

Serias quente se te tocasse, ou meiga

Ou viscosa. Não importa, É mais fundo

trocar de pele do que tocá-la. Cercear

o cordão do desejo, o impulso da ternura.

 

Nem ventre, entranhas, seios, muito menos olhos;

há-de ser pelo meio da pele que se começa

Esfolada, curtida, envergada às avessas!

O inverso é um truque fácil, que não colhe…

Então quê? Então isto [acto à escolha]

Deixa marca? A intenção não era essa

Deixa marca? Deixa que embeba e humedeça.

Sinto que escorre nos pêlos que se molham.

 

Devemos esquecer, despovoar o mundo,

E isso inclui os pêndulos e os afectos.

Mas há uma anamnese da pele e da sutura,

E há sonhos que empurram como água. Estas

coisas, usemo-las para desmanchar os véus

que os sentidos usam para ligar objectos.

Aceitemos, um e outro, esvaziar os gestos

Até voltarmos de ventas à torneira de Deus.

 

Gato, Margarida Vale de, revista INÚTIL número 3, Novembro de 2010

 

«pain», v, © v, Deviantart (D.R.)

   Artigo de Pedro Mexia sobre «Mulher ao Mar» (primeiro livro de poesia da autora), originalmente publicado no suplemento Ípsilon do jornal Público de 7 de Maio de 2010, via blogue (cerc)ARTE.

   blogue da Revista INÚTIL

Pedro Mexia — [Entre mergulhos]

 

 
Entre mergulhos

uma pedra rasa salta três vezes

na água.

E assim se divide

assim se parte

o rio. A infância

dum lado. Do outro

a terra firme

onde isto se passou.

 

Mexia, Pedro, Colóquio/Letras n.º140/141, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Abril de 1996.

 

«skimming stone»

Pedro Mexia – Paráfrase

 

 

Paráfrase

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência
infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.

Mexia, Pedro, Avalanche, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2001

«Time won't let me go» © Felicia Simeon, via Deviantart (D.R.)