As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Poesia Portuguesa (17) – Al Berto

é tarde, meu amor


é tarde meu amor

estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido

agora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sono

habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais…

a solidão tem dias mais cruéis


tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer contigo

enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda… cantar-te os gestos com

[ternura

mas não


águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco

em mim a lama… e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem

[estátua-de-jardim-público

aceito o desafio do teu desdém


na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição

apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam

Al Berto, in, O Medo (Trabalho poético, 1974 – 1990) , Livro Quarto – Trabalhos do olhar, Assírio & Alvim, Lisboa, 1991

© Paulo Madeira, Olhares, fotografia online

© Paulo Madeira, Olhares, fotografia online

Novos Poetas (IX) Miguel Godinho

O trabalho de Miguel Godinho, poeta de Vila Real de Santo António, era-me desconhecido, até o descobrir, por portas travessas, no blogue que mantém, o (F)Utilidades. Aos 29 anos apresenta uma escrita assumidamente não mediada pela técnica, por escola ou vasto lastro cultural. Uma escrita que se situa a partir de um lugar de barricada, a ‘autenticidade’, nas palavras do próprio, justamente a propósito da questão desencadeada, na Ípsilon de 12 de Setembro: «O poeta, o verdadeiro poeta, quanto a mim, deve desinteressar-se (no sentido de se sentir obrigado a retorquir só para produzir efeito entre pares) sobre aquilo “que realmente precisa de envelhecer”. A produção poética é filha do tempo de quem a produz. Um poeta que é novo (com menos de quarenta anos) não deve escrever no sentido de se fazer passar por velho, não deve procurar a afirmação através de uma maturidade fingida. O próprio conceito de maturidade é extremamente relativo – veja-se, por exemplo, o caso de Rimbaud. Quanto a mim, o poeta deve olhar, ver e bradar, reflectir, e dizer da forma que melhor o satisfaz e que lhe for mais sincera, da forma que se sentir impelido a fazê-lo. Um poeta é uma pessoa e uma pessoa é filha do seu próprio tempo. E a poesia só carece de autenticidade

Enfim, não será um statment propriamente original. Mas é bom saber que vão surgindo cada vez mais vozes e mais espaços onde os modos de produção de cultura, na sua diversa identidade, se desencadeiam, na área da poesia, da literatura. De que é exemplo a Sulscrito, do Círculo Literário do Algarve (Faro), que  vai no seu segundo número, datado de Agosto de 2008, com um vasto número de colaboradores e uma visível ponte com a margem espanhola. (podem ser feitas encomendas no site)

Sulscrito. Capa do número 2

Volte-se a Miguel Godinho, também colaborador da Sulscrito.

Tesão

Consegues saborear o suor da flor do loendro
numa tarde de verão?
É que, sabes, o que me apetecia mesmo
era perder-me no despudor do seu vermelho
e roçar-me até cair na incandescência de suas pétalas


Miguel Godinho
, em http://f-utilidades.blogspot.com/, 07 de Junho, 2008

Pouso dos Anjos © Paulo Madeira, Olhares, Fotografia online

Pouso dos Anjos © Paulo Madeira, Olhares, Fotografia online