As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Paula Rego

Luiza Neto Jorge — Anos quarenta, os meus

 

De eléctrico andava a correr meio mundo

subia a colina ao castelo-fantasma

onde um pavão alto me aflorava muito

em sonhos, à noite. E sofria de asma

 

alma e ar reféns dentro do pulmão

(como o chimpanzé que à boca da jaula

respirava ainda pela estendida mão).

Salazar, três vezes, no eco da aula.

 

As verdiças tranças prontas a espigar

escondiam na auréola os mais duros ganchos.

E o meu coito quando jogava a apanhar

era nesse tronco do jardim dos anjos

 

que hoje inda esbraceja, numa árvore passiva.

Níqueis e organdis, espelhos e torpedos

acabou a guerra meu pai grita «Viva».

Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

 

Já bate no cais das colunas uma

onda ultramarina onde singra um barco

pra Cacilhas e, no céu que ressuma

névoas, águas mil, um fictício arco-

 

-íris como que é, no seu cor-a-cor,

uma dor que ao pé doutra se indefine.

No cinema lis luz o projector

e o FIM através do tempo retine.

 

Luiza Neto Jorge. In: Revista Colóquio/Letras, n.º 97, Maio 1987, p. 59-60.

 

Paula Rego, «Voices (I)», 1996-1998. Série Children´s Crusade (D.R.)

Bénédicte Houart — são as mulheres que

 

 

são as mulheres que

fazem chorar as cebolas

como se descascassem a própria vida

e, arredondando-se então, descobrissem

um corpo, o seu

uma vida, a sua

e, no entanto, nada que de verdade

pudessem seu chamar

ou talvez sim, mas só

aquela gota de água salpicando

um canto do avental onde

desponta uma flor de pano colorida que

ainda ontem ali não ardia

 

Bénédicte Houart, julho de 2010 © Bénédicte Houart; poema inédito, traduzido no portal «Poems from the Portuguesese» (D.R.)

<http://www.poemsfromtheportuguese.org/»

 

Girls and Dogs suite, Paula Rego © Paula Rego, (D.R.)

Poesia Portuguesa (V) – Luiza Neto Jorge

AS MENINAS


Secámos à mãe

seu leite de mãe

mas não desatámos

do cordão os nós

Infuso no corpo

algo se rebela

são as luas dela

que não brilham em nós


Nosso pai amámos

num amor sem termos

com dentes de leite

com um fio de voz

e se ele nos não queria

no quarto o degredo

era não sabermos

como nos traía


Quando os apanhámos

nos degraus do trono

a lutar de amor

depois mudos, quedos

a morte aflorou-nos

mas não enfiámos

na ficha de elec-

tricidade os dedos.


Fugiu-nos a mão

a forçar o sôfrego

o fluente túnel

onde ainda é cedo.

Pegamos num livro

vamos aprender

na ponta da língua

os novos dizeres,

o primeiro sangue

é que mete medo.


Luiza Neto Jorge, A LUME, p. 29/30, Assírio & Alvim, Lisboa, 1989.

"A familia" (1988) © Paula Rego

"A família" (1988) © Paula Rego

Novos poetas (V) Nuno Moura

(por conter incorrecções factuais, este post foi editado (rasurado é mais verdadeiro), e já se encontra rectificado no blogue.)

Pronto, estilhaçam-se definições sobre o que são os ‘novos poetas’. É Nuno Moura que me apetece convocar, mesmo com livros publicados na década de noventa, ele hoje já muito dentro dos trinta.  Autor de obra singular, voz torrencial, surrealizante, lírica e agónica, irónica e prenhe de doçura, por vezes visceral até ao osso (Calendário das Dificuldades Diárias, &etc, Setembro de 2002). A escrever como um condutor em contra-mão numa auto-estrada.

Lembro-me dos empenhos juvenis em que se meteu para publicar o seu primeiro livro – que pagou a uma fazedeira de edições, a Signo – Não saia nem entre após aviso de fecho de portas (1992, 1.200 exemplares!). Lembro-me do entusiasmo com que abriu uma pequena editora, a Mariposa Azual, (agora parece que gerida por Paulo Condessa, seu companheiro de aventuras) que cometeu a proeza de publicar a Obra de Adília Lopes (15 livros reunidos) e a proeza maior de conseguir para a mesma três ilustrações de Paula Rego. Lembro-me do seu afã em sessões de leitura de poesia, onde acontecia sempre algo de inesperado e surreal (e acabava por lhe acontecer sempre algo de surrealmente inesperado). Lembro-me do excesso, do compromisso feroz entre a vida e a poesia, tão anacrónico e comovente. Lembro-me do inacreditável nome – apenas o nome, este nome, é um acto poético – do livro Nuno Moura e Mariposa Azual apresentam os livros Hélice Fronteira – gosto dos mesmo livros que tu Regina Neri – o monstro do entrepernas Vasquinho Dasse – histórias muito pequenas e muito más Ivo Longomel – piudefule Adraar Bous – beauty conteste talcum powder Robes Rosa – teatro para cães Estevão Corte – estudo sobre a sexta-feira 13 Alexandre Singleto – relatório & contas (Mariposa Azual, 2000). Sei que está envolvido em nova aventura, o lançamento da Revista Índice, no dia 11 de Setembro (20.000 exemplares? 60.000 de ‘audiência’? Tão excessivamente típico que pode ser mais uma pirueta do ‘Comediante’.) Deixo um excerto de Calendário das Dificuldades Diárias, coisa que não se deveria fazer, por impossível de ser retirado do seu contexto, mas… É livro para se ler do princípio ao fim, de um fôlego, até nos faltar o fôlego. Onde andas, Nuno Moura?

(…)

Hoje é o dia dos teus anos e mais uma vez o dia dos teus anos é escuro e frio, chove no meu terraço, caem gotas de água grande ao meu lado, vou lá meter a cabeça? A chuva vai trazer-me paz e amor? A chuva vai lavar-me? Lava-me tu. Lava-me tu.

(…)

Nuno Moura, in Calendário das Dificuldades Diárias, Diário, p. 31, &etc, Lisboa, 2002.

Andando pelos carris de Lisboa II © Raul Rebelo, Olhares, fotografia online

Andando pelos carris de Lisboa II © Raul Rebelo, Olhares, fotografia online