As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Obituário

Matilde Rosa Araújo (1921 – 2010)

Foi um mail do Rui Almeida que me deu a notícia da morte de Matilde Rosa Araújo, autora que marcou gerações de leitores e partiu sem capas de jornais ou notícias de abertura de telejornal. Não era um simples mail e trazia, nele, um belo texto da escritora. O Rui fez mais pela devida homenagem a esta autora que muitos meios de comunicação social. Meios? Grupos inteiros.

[Rui Almeida é poeta (Lábio Cortado, Livro do Dia, 2008); e autor de um dos mais amplos e persistentes blogues de divulgação de poesia portuguesa, Poesia Distribuída na Rua]

MATILDE ROSA ARAÚJO / SEBASTIÃO DA GAMA

[…] Eras tu, Sebastião; tu glorioso, apesar do teu corpo mudo de menino de tua mãe. Tu que me disseste: «E quando a morte vier diz-lhe que não; diz-lhe que és moça e não cumpriste ainda. Vês, querida amiga, é por causa de momentos assim, em que te resignas a ela, que é preciso a gente escrever, mesmo com certa casca literária, uma «largada». Porque mocidade é insurreição, protesto contra o que não está direito, vontade de erguer monumentos, desassombro para contrariar a morte. Negas a tua mocidade — não a mereces, quando, em momentos que eu muito bem compreendo, aceitas a morte como uma boa irmã. E sabes tu por que motivo a morte, surda ao teu abandono, às boas vindas que lhe cicias, se vai para outros caminhos? É porque ainda a não mereces. Nós não merecemos a morte ainda, Matilde. Que é que nós fizemos? Que lágrimas enxugámos? A que bocas demos pão? Que remédios trouxemos para curar o «mal profundo da alma»? Claro, minha filha, que alguma coisa fizemos. A nossa torre de marfim é bem rasgada de janelas. Mas o «alguma coisa» que fizemos é tão débil, tão mínimo… Ver Nápoles e morrer — dizem. Fazer alguma coisa e morrer — devemos dizer nós, gente nova. Tu perguntaste-me, quando te disse o «Convite a ser-se moço»: «Porque rimaste no fim?» Achei fora de propósito a pergunta… Mas, se meditasse um minuto, talvez respondesse que para fixar melhor aqueles últimos versos.
É preciso merecer a mocidade, é preciso merecer a mocidade, é preciso merecer a mocidade. E o processo não é dizer que sim à morte.
Quantas vezes me insurjo contra mim, Matilde, porque me não sinto verdadeiramente moço; é que a minha vida tem mais horas de sangue morno do que sangue latejante… E eu queria ser era forte, era moço, era construtivo. Não para que dissessem, num elogio: Aquele é forte, é moço, é construtivo. Antes para sentir que era útil. Tanta vez tenho vergonha de mim, me sinto mesquinho!» E conta. E continua : «…agora não quero mais senão fixar uma coisa: é que podem todos gritar, como têm gritado, que sou um indiferente, um desinteressado dos… que me cercam — que eu sinto tranquila a minha consciência. E para tal me basta que saiba, de ciência certa, que não sou indiferente, que me não desinteresso. Valem, para mim, muito mais as acções do que as palavras. E tenho e certeza de que sou humano e do meu tempo nas minhas relações com os outros. Para muitos desses outros não basta — queriam qualquer ismo para designar a minha maneira de ser; qualquer ismo moderno. Mas paciência. E sobretudo é cedo demais para julgar quem é mais interessado.
E também já estou a escrever demais e sério demais. A isto me levou o nevoeiro que amanheceu na Arrábida. Desculpa. Eu preferiria, de facto, contar-te uma história de crianças. Olha, esta, a que a Joaninha assistiu: «Eu gostava de ser flor. E tu?» Bem é verdade: «O melhor de tudo são as crianças».
As crianças. Era isso, Sebastião. Era tudo isto: o sol alado, glorioso, que morreu ontem. Era esta tua força perante a vida, este teu merecer a morte, gloriosa e final como mereceste. É isto que nos afasta. Tu mereceste-la inteira […]

(in Távola Redonda – folhas de poesia, fascículos 16 e 17 [edição de homenagem a Sebastião da Gama], 30 de Abril de 1953 – da edição fac-similada: Contexto editora, 1989)

Convento da Arrábida, Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. (Fonte: Fundação Oriente)

José Saramago (1922 – 2010) – Espaço curvo e finito

Morreu José Saramago.

Que deus o receba na sua paz.


José Saramago na praia Quemada, entre Yaiza e Tías, Lanzarote (Canárias) - Pedro Walter © Pedro Walter, El País (d.r.)

Espaço curvo e finito


Oculta consciência de não ser,

Ou de ser num estar que me transcende,

Numa rede de presenças e ausências,

Numa fuga para o ponto de partida:

Um perto que é tão longe, um longe aqui.

Uma ânsia de estar e de temer

A semente que de ser se surpreende,

As pedras que repetem as cadências

Da onda sempre nova e repetida

Que neste espaço curvo vem de ti.

Saramago, José, Os Poemas Possíveis, Lisboa: Editorial Caminho, 1981.

João Aguiar – (1943 – 2010). Um escritor «light»?

Morreu ontem João Aguiar. Surgiu e fez-se notado no «romance histórico» com “A Voz dos Deuses” (1984). Na altura o género não estava popularizado, e o sucesso que o romance conheceu causou alguma surpresa no meio literário. Seria, hipoteticamente, um escritor «light»? Sobre isso afirmava, em entrevista  publicada no blogue Porta Livros, que pode ser lida aqui:

A literatura light poderá chamar leitores?
“Não sei. Tenho medo da literatura light. Por um lado pode ser o início, mas também pode ser o fim. É tudo muito complicado de definir. Eu iria mais para o que está bem escrito e mal escrito. Sherlock Holmes era literatura light! Não se pode ignorar.”

Parece-me bom que também haja escritores light (que não será sequer definição ajustada à muito diversa obra de João Aguiar), que têm leitores, que “criam” leitores. A Caras não cria; a Bola agora também já não.

João Aguiar (1943 - 1910)

De “A Voz dos Deuses” (excerto de uma extensa transcrição da obra, no Projecto Vercial)

II – A INSÍGNIA DO TOURO
I
Durante a Primavera fizemos pequenas incursões na Betúria, mais para sobreviver que para enfrentar seriamente os Romanos. Os nossos efectivos não permitiam uma ofensiva – Cúrio e Apuleio teriam uns dois mil homens, nessa altura – e só podíamos atacar de surpresa e em terreno conhecido.

Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, aquela Primavera foi para mim um período importante porque me habituei à vida de campanha, às longas marchas, a viver o dia-a-dia, a enfrentar o perigo constante. Habituei-me também ao lado menos brilhante da guerra, o espectáculo das aldeias saqueadas e das mulheres violentadas (coisa que nunca gostei de ver; mas alguns dos nossos eram especialistas nisso e os príncipes toleravam a prática, embora não a seguissem). Na verdade, o que menos me agradou foi sentir que éramos mais um bando de salteadores que um exército. Não havia objectivo, excepto viver à custa dos saques e matar Romanos.

Outro aspecto penoso mas inevitável da guerra é assistir à morte de camaradas com quem na véspera se partilhou uma refeição à roda da fogueira. Assim perdi o meu amigo Indibilis, que morreu durante um assalto, trespassado por uma lança. Vinguei-o matando o legionário que o atingiu. Antes de morrer, Indibilis ofereceu-me o seu capacete de bronze e pediu-me que, em troca, enterrasse o seu corpo. Cumpri esta vontade; fora um guerreiro corajoso e um bom amigo, sempre pronto a instruir-me no ofício da guerra.

Quando o tempo aqueceu, anunciando a chegada do Verão, um grupo de cavaleiros de além-Tagus veio até nós com mensagens para Cúrio e Apuleio. Os príncipes ouviram os recém-chegados em privado, mas logo a seguir convocaram uma assembleia de tropas. Os mensageiros, instados a repetir em público o que haviam dito aos comandantes, anunciaram que estava em preparação um ataque em larga escala, dos Lusitanos e dos seus vizinhos, contra a província Ulterior, para vingar enfim a traição do pretor Galba. Naquele momento, acrescentaram, formava-se uma coligação de reis, príncipes e chefes tribais; entre os povos que enviariam contingentes para a nova grande hoste contavam-se os Igeditanos, os Taporos, os Túrdulos de Aeminium e Conímbriga e também os Vetões, fiéis à aliança com a Lusitânia. Havia ainda muitos outros – ao todo, cerca de dez mil guerreiros. Alguns chefes, dos mais ilustres, tinham manifestado o desejo de propor a Cúrio e Apuleio que participassem na expedição e os emissários ali estavam: se a proposta fosse bem recebida deveríamos comparecer na grande assembleia que se ia realizar junto dos montes Hermínios.

O debate foi curto porque, afinal, os comandantes já haviam decidido aceitar o convite. Os mensageiros, que nos serviriam de guias, foram honrados com um festim – não muito abundante, já que todos nós devíamos ficar suficientemente sóbrios para partir ao romper da aurora, por isso a cerveja e o vinho foram racionados. No entanto, quando me deitei sentia-me tonto; não por causa do álcool, mas pela excitação. Finalmente, Roma ia ter uma resposta, Camalo e Beduno poderiam repousar contentes no reino dos espíritos. (…)

Ian Curtis – nos 30 anos da morte

Faz hoje trinta anos que Ian Curtis morreu. Pode não se gostar da personagem, da ideologia, da ruptura estética que protagonizou, do carácter depressivo. Mas era mais que um letrista: era um poeta.

love will tear us apart

When routine bites hard
And ambitions are low
And resentment rides high
But emotions won’t grow
And we’re changing our ways, taking different roads
Then love, love will tears us apart again
Love, love will tears us apart again
Why is the bedroom so cold
You’ve turned away on your side
Is my timing that flawed?
Our respect run so dry
Yet there’s still this appeal that we’ve kept through our lives
But love, love will tears us apart again
Love, love will tear us apart again
You cry out in your sleep
All my failings exposed
And there’s a taste in my mouth
As desperation takes hold
Just that something so good just can’t function no more
But love, love will tear us apart again
Love, love will tear us apart again

Lena Horne (1917 – 2010)

Nos primeiros tempos deste blogue muito se falou do «Great American Songbook», dos seus autores, temas, intérpretes.

Hoje morreu Lena Horne, uma das grandes intérpretes norte-americanas, ela que trazia a América toda misturada no sangue; a cantora, actriz e bailarina que viu Hollywood fechar-lhe as portas por causa das ideias políticas, de esquerda para os padrões Estados Unidos; que seria imortalizada pelo talento, coisa que, na “América”, acaba quase infalivelmente por vir à tona.

Stormy Weather, canção que a imortalizou, aqui em imagens do filme com o mesmo nome.

Don’t know why there’s no sun up in the sky

Stormy weather since my man and I ain’t together

Keeps raining all the time, the time

Life is bare, gloom and misery everywhere

Stormy weather, just can’t get my poor self together

It’s raining all the time, the time

When you went, you went away, the blues walked in and met me

If he stays away, ol’ rocking chair will get me

All I do is pray, the Lord above will let me walk in the sun once more

Can’t go on, everything I had is gone

Stormy weather since my man and I ain’t together

It’s raining all the time

I walk around, heavy-hearted and sad

Night comes around and I’m still feeling bad

Rain’s pouring down, blinding every hope I had

This pitterin pattering, beating and spattering drives Me Mad

Love, Love, Love, this misery’s just too much for me

Can’t go on, everything I have is gone


Stormy weather since my man and I ain’t together

It’s raining all the time, keeps raining all the time

Jacques Martin (1921 – 2010) – in memoriam

Morreu Jacques Martin, autor da série de banda desenhada Alix. Foi o melhor professor de História Clássica que tive.

[Em baixo, uma prancha de L’Enfant Grec (1979), aqui na edição em língua castelhana. Clique para ampliar]

Alix, "L'Enfant Grec" © Casterman

Eric Rohmer (1920 – 2010) – anjos e hormonas

Em 1980, ano em que cursei funestamente o primeiro ano de direito em Coimbra, duas coisas salvaram-me: uma entrega total à leitura, que excluía apenas as sebentas, e o ter vivido ‘principescamente’ instalado num quarto com singular vista para nascente, acompanhando as colinas e a chegada do rio à cidade, na antiga sede do C.A.D.C. (à época Instituto Justiça e Paz), na cidade velha alta; era o Instituto liberal e calorosamente dirigido pelo P. Idalino Simões, que saudades. Numa das suas (dele) ideias peregrinas, cultivar os rapazes, o P. Idalino lembrou-se de organizar, na biblioteca, sessões de cinema à noite. Ficámos pelo Eric Rohmer, creio. E chegou. Não, não percebiamos nada da importância da “Nouvelle Vague“, nem tinhamos noção da importância das “Seis Fábulas Morais“. Mas vimos tudo o que pudemos. E discutíamos, por obra e graça do espírito santo discutíamos os filmes até à exaustão, valha-me deus. Discussão turvada, no meu caso, por um sentimento agudo e ambivalente: a dialéctica possível entre a a vertente metafísica e o subtil erotismo da coisa. Subtil? Pela palavra, pelos diálogos, muito em mim se acendeu, e não apenas na ordem do espírito. Uma terceiro factor salvou-me o ano, lá pela primavera. Digamos que vivi sob o signo de Rohmer: não foi pouca coisa, traduzida que foi em transcendentes passagens ao acto. Palavra de honra, aos 18 anos até os anjos nos sublevam as hormonas.


Morreu o meu ‘grasshopper’


Master Po: [after easily defeating the boy in combat] Ha, ha, never assume because a man has no eyes he cannot see. Close your eyes. What do you hear?
Young Caine: I hear the water, I hear the birds.
Master Po: Do you hear your own heartbeat?
Young Caine: No.
Master Po: Do you hear the grasshopper that is at your feet?
Young Caine: [looking down and seeing the insect] Old man, how is it that you hear these things?
Master Po: Young man, how is it that you do not?

Morreu David Carradine (1936 – 2009) um actor que muito apreciei, estando mesmo em crer que foi bastante mal aproveitado pela indústria do cinema. Mas, seja qual for o filme em que mais gostei de o ver (e foram tantos), de quem vou ter mesmo saudades é do meu ‘grasshopper’, do meu gafanhoto, na série “Kung Fu”. É bom, muito bom, quando nos assaltam, felizes, as memórias da infância. So long, Master Caine.

'Eu não faço mal a ninguém, por isso o melhor é sossegarem'

'Eu não faço mal a ninguém, por isso o melhor é sossegarem'

Até já, senhor João Bénard da Costa

Agora que já toda a gente falou bem, falando bem, e justamente bem, de João Bénard da Costa, é fútil dizer seja o que for. Mas apetece-me muito citar as últimas linhas do livro onde se reúnem as suas crónicas n’ O Independente:

(…) Também, por isso não me despeço. Vou ficar por aqui enquanto gostar e sei que hei-de gostar enquanto cá estiverem as pessoas por causa de quem gosto. Vou só descansar um bocadinho e voltar com fato novo. Feito de fitas, feito de mim. Também nisso não vou mudar. Não sei fazer ou falar de outra coisa. Até já.

BÉNARD DA COSTA, João, Os filmes da minha vida/Os meus filmes da vida, p. 268, 1.ª edição, Assírio & Alvim, 1990.

'Cena de 'The Searchers' (A Desparecida), cena e filme de que João Bénard da Costa muito gostava

'Cena de 'The Searchers' (A Desparecida), cena e filme de que João Bénard da Costa muito gostava

Fotografia do Dia (VII) – William Claxton (1927-2008)

Aos 80 anos, morre William Claxton, notabilizado como fotógrafo de celebridades ligadas ao meio musical e, em particular, ao Jazz. Será um rótulo. Mas não deixa de ser admirável a invulgar capacidade técnica do artista colocada ao serviço de uma estilística solta, em movimento, improvisada. Jazzística, então. Logrou, ao longo da sua extensa carreira, composições de grande qualidade e rigor estéticos. Era, por isso, respeitado. No Guardian (edição online de hoje), prestam-lhe tributo, num belo artigo, a que se soma uma pequena galeria demonstrativa do seu trabalho). Mas é no site do fotógrafo que podemos ter uma ideia mais precisa(osa) da sua obra. Veja-se. É uma homenagem.

Chet Baker em Los Angeles, 1954 © William Claxton/AP

Chet Baker em Los Angeles, 1954 © William Claxton/AP