As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Nuno Júdice

Nuno Júdice — Fotografia

 

Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso de
atget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,
e olha para trás, de esguelha, como se quisesse
mostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-se
de nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-se
um sorriso que, não se sabe porquê, se esbate com
essa espécie de névoa com que o tempo envolve
as fotografias antigas, a sépia, em que não é
possível disfarçar a certeza que temos de que aquela
mulher, hoje, não passa de cinza nalgum canto
de cemitério de província. Porém, a sua nudez
desafia a morte; e quase que lhe podíamos pedir
que esqueça o fotógrafo, e regresse à realidade
onde ele a foi descobrir, para que a sua vida
retome o curso habitual, e não nos perturbe com
esse sentimento de que a vida é breve, e já foi.

 

Júdice, Nuno, revista INÚTIL número 2, Abril de 2010

 

Eugène Atget, (s./t.), 1925

(clique para ampliar)

  página sobre Nuno Júdice

  página sobre a fotografia de Atget

  blogue da Revista INÚTIL

Correntes d’Escritas — «Sondagem As Folhas Ardem»: Vote na sua obra preferida.

© Câmara Municipal da Póvoa do Varzim (D.R.)

O Prémio Literário Casino da Póvoa, este ano atribuído à poesia, será anunciado dia 23 de Fevereiro, no âmbito do evento Correntes d’Escritas – Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, notável e corajosa iniciativa da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, evento de crescente e muito assinalável importância na dinamização do conhecimento e do contacto entre os leitores, os autores, as obras. Justíssima a lista pré-seleccionada, sendo o prémio atribuído por um júri respeitável: Almeida Faria, Carlos Vaz Marques, Fernando Pinto do Amaral, Patrícia Reis e valter hugo mãe.

Como é referido na página das Correntes d’Escritas, «Esta selecção resultou de cerca de 150 obras concorrentes de autores de língua portuguesa, castelhana e hispânica, com obras em português, editadas em Portugal (1ª Edição) entre Julho de 2008 e Junho de 2010. Ficaram excluídas as Obras Póstumas, Obras Completas e Compilações e Obras de Literatura Infanto-Juvenil. Também não foram admitidas a concurso obras de autores que tenham sido galardoados com o Prémio Literário Casino da Póvoa nos últimos seis anos. Recorde-se que este Prémio tem um valor de 20 mil euros e este ano distingue poesia. (…) A 22 de Fevereiro, dia anterior ao arranque da 12ª edição do Correntes d’Escritas, o júri reúne pela última vez para decidir qual o vencedor do prémio, decisão que será anunciada no dia 23, na sessão pública de abertura do Encontro. O prémio é entregue no dia 26, na sessão de encerramento.»

*

Lamentavelmente não fazemos todos parte do júri. Por isso, decidiu por unanimidade o conselho de administração deste blogue (1 voto a favor/0 contra), proporcionar a quem quiser a possibilidade de votar na sua obra preferida.

Algumas indicações e notas:

1 — Cada votante pode exprimir a sua preferência apenas uma vez e assinalar três (3) obras;

2 — O termo da votação expira no próprio dia 23 de Fevereiro, data em que o júri (oficial) anuncia o prémio (oficial);

3 — As obras estão alinhadas por ordem alfabética;

4 — Não há um prémio para os votantes; isto não é uma sondagem para acertar no vencedor;

5 — Pede-se a quem votar e/ou tomar conhecimento da iniciativa, que a divulgue. No final das contas,  dez ou vinte votantes já serão uma manifestação impressionante;

6 — O objectivo desta «sondagem» é apenas um: divulgar o evento e, de passagem, estimular o conhecimento das obras e do trabalho dos autores a concurso. Não tem apoio, incentivo, nem é do conhecimento oficial de entidades organizadoras, de qualquer instituição, editora, autor ou seja de quem for.

 

Dito isto, toca a votar nas obras de que gosta mais!

Correntes d’Escritas — Prémio Literário Casino da Póvoa

«Sondagem As Folhas Ardem»

Links relacionados:

Página do «Correntes d’Escritas» no site da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim

Gonçalo M. Tavares – Sobre as origens (pouco visíveis) de um suicídio

 

De certa forma esta é uma espécie de acto de contrição: tendo sido um dos que me insurgi contra o afastamento de Joana Morais Varela da Direcção da «COLÓQUIO Letras», e não retirando uma vírgula às virtualidades e especificidades que a mesma imprimiu à revista literária mais importante que se publica em Portugal, verifica-se que, sob a direcção de Nuno Júdice, na «COLÓQUIO» cumpriu-se a promessa de regresso à regularidade de publicação que se havia de alguma forma perdido (note-se que desde o ano de 2000 até 2009 saíram nove números, com um hiato de cinco anos entre 2004 e 2009, quando tomou posse a nova equipa, a qual já publicou sete!). Sem grande desvirtuação na qualidade do conceito gráfico (que é agora bastante mais sóbrio, sem o aparato requintadíssimo que chegou a possuir, mas ainda de um bom-gosto dificilmente discutível), é visível, após os dois números consagrados a Eduardo Lourenço, a tendência para, mantendo um tema (autor) principal, abrir a revista a um espectro de artigos, colaboradores e abordagens mais amplo, com uma forte incidência na «recensão crítica», uma atenção, que parece tendencial, ao campo da poesia e uma selecção de originais — embora irregular de edição para edição — com critérios mais largos, inclusivos e «aggiornati». Poesia, Ficção, Crónica, Entrevista parecem poder ocupar um lugar mais relevante, nesta nova fase da vida da «COLÓQUIO». Do seu número 173 se transcreve aqui, com a devida vénia e a título de divulgação, um texto ficcionado de Gonçalo M. Tavares. [Note-se que em nenhum lugar da revista, desde o número 170, encontrei qualquer referência à protecção de direitos de autor, o que só pode ser manifestamente lapso, para o qual se chama a atenção.]

 

Sobre as origens (pouco visíveis) de um suicídio

UM HOMEM com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio pede ajuda a outro homem.

Fala-se, pois, de dois homens. O homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio (um) pediu ajuda a um segundo homem (dois). Pediu-lhe, em suma, que fizesse algo divertido, que demonstrasse uma qualquer habilidade — colocar o pé atrás do próprio pescoço, fazer barulhos estranhos com a garganta, imitar animais através apenas do movimento dos olhos, enfim, que ele, este segundo homem, fizesse algo, uma habilidade qualquer, uma declamação, que conseguisse colocar o pé atrás do próprio pescoço, que conseguisse imitar animais através apenas do movimento dos olhos, qualquer coisa, mas que o convencesse, enfim, de que aquele sítio que era ele — pois uma pessoa por ser pessoa não deixa de ser sítio, de ocupar espaço, de ter altura, comprimento e volume — que conseguisse enfim mostrar a esse homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio que ele, o segundo homem, teria algo dentro de si mesmo, e portanto nele, pelo menos, neste segundo homem, o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio não encontrará o nada que tanto está habituado a encontrar.

Pode revistar-me à vontade — poderia dizer o segundo ao primeiro homem, se este texto entrasse claramente na ironia.

Mas ainda não nasceu — como se diz nos momentos de grande e definitivo elogio — o homem capaz de sair à rua e dizer a quem passa:

— Podem procurar à vontade, dentro de mim não encontrarão o nada. Tudo em mim está ocupado e tem sentido. Em mim, nem o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio encontrará esse tal nada.

Ainda não nasceu, pois, homem que em público possa falar assim.


 

Tomo banho, escovo-me bem, ensaboo-me da ponta dos pés à cabeça, passando pelos órgãos mais íntimos. Seco-me com uma toalha e mesmo assim não consigo: algures, em mim, o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio encontrará esse bocado de nada que o facto de nascer e ter uma certa percepção do mundo me deu direito e o dever de não largar.

Faço ainda como vi em filmes: sento-me num banco de jardim, isolado, olho para todos os lados para ver se alguém me vê e, depois de confirmar que estou sozinho e sem vigilantes, tiro — do bolso de uma camisa — um saco de plástico vazio e ali o deixo, só, vazio, e sem sentido, em cima do banco do jardim — para de imediato ser levado à força pelo vento que, embora quase inexistente, tem força sempre para arrastar um saco de plástico que nada guarda dentro de si. Mas tal exercício não basta para o que pretendia; não é assim que me liberto do nada que existe no sítio que sou enquanto animal com volume; e esse saco vazio pode ser conduzido como um veado cego pelo jardim da cidade, batendo imprudentemente contra as árvores, caixotes do lixo e outros obstáculos, bem pode essa simulação do meu nada que simulei atirar borda fora como se o corpo fosse um navio, e o mundo alto mar, e o saco vazio fosse a parte que em mim não me deixa ter um sentido para todas as coisas, bem pode essa simulação do meu nada avançar por empurrões sucessivos para o lado oposto onde me encontro agora, que jamais serei capaz, diante do homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio, de não tremer, de não ficar assustado, e perante a mera indicação para levantar os braços não os levantar de imediato e pedir perdão: sei que continuo com um bem localizado nada a montar e a desmontar consecutivamente tenda algures nesta parte mais débil deste meu organismo que uma mulher um dia, por descuido ou ilusão de apaixonada, chamou de belo corpo acima da terra. E nestes dias em que me sinto caminhar ao lado das toupeiras e com elas fazendo a melhor das amizades, eis que relembrar palavras simpáticas de uma mulher  me faz cair ainda mais, e soterrado, finalmente, por completo, sei que só se a morte me esconder mais ninguém, por mais que vasculhe, encontrará essa ponta do nada em que começou a minha depressão e em cujo centro a minha firme vontade de morrer se foi construindo, sólida e tranquila, como a construção sem pressas de uma casa.

Tavares, Gonçalo M., in COLÓQUIO Letras número 173, Janeiro / Abril 2010

«Just a Plastic Bag», Michalina © Michalina, via Deviantart (D.R.)

(clique para ampliar)

Nuno Júdice – Retrato

 

 

Amo-te; e o teu corpo dobra-se,

no espelho da memória, à luz

frouxa da lâmpada que nos

esconde. Puxo-te para fora

da moldura: e o teu rosto branco

abre um sorriso de água, e

cais sobre mim, como o

tronco suave da noite, para

que te abrace até de madrugada,

quando o sono te fecha os olhos

e o espelho, vazio, me obriga

a olhar-te no reflexo do poema.

Júdice, Nuno, Pedro, lembrando Inês, Lisboa: Publicações D. Quixote, colecção Frente e Verso, 2009

«Anathema», © Michel Omar, via Deviantart

 

Links Relacionados:

Nuno Júdice aqui, aqui e aqui

Nuno Júdice – Jogo

 


Jogo


Eu, sabendo que te amo,

e como as coisas do amor são difíceis,

preparo em silêncio a mesa

do jogo, estendo as peças

sobre o tabuleiro, disponho os lugares

necessários para que tudo

comece: as cadeiras

uma em frente da outra, embora saiba

que as mãos não se podem tocar,

e que para além das dificuldades,

hesitações, recuos

ou avanços possíveis, só os olhos

transportam, talvez, uma hipótese

de entendimento. É então que chegas,

e como se um vento do norte

entrasse por uma janela aberta,

o jogo inteiro voa pelos ares,

o frio enche-te os olhos de lágrimas,

e empurras-me para dentro, onde

o fogo consome o que resta

do nosso quebra-cabeças.

Júdice, Nuno, O Movimento do Mundo, Lisboa: Quetzal, 1997

«Lonely Queen», hermin abramovitch © hermin abramovitch, via Deviantart (D.R.)

Os ‘meus’ Blogues – irmaolucia

Escrever um blogue não será exactamente um exercício de verborreia regular, onde o autor ou autores desabafam pensamentos definitivos sobre questões muitas vezes excessivamente passageiras. Ou será. Não entendo assim, defeito meu. Tal como não compreendo bem a lógica de copy/paste, o exercício de partilha do diário que deveria estar fechadinho com um cadeado, a trincheira para guerrilhas pessoais com um vastíssimo número de interessados que se esgota nos próprios, o anonimato que tantas vezes esconde o faccioso. Na magnífica plataforma de expressões plurais que a blogosfera permite, muitas são as modalidades possíveis para os autores darem forma ao desígnio a que se propõem: fazer ouvir, num meio que tem recursos comunicacionais cada vez mais vastos, a sua singular (plural) voz,  para ser visto. Escutado. Lido. É essa a vontade que está na origem de um blogue. Mas a ideia de ter um auditório e correspondente público implica que se tenha uma ideia discursiva. Ou melhor, anterior a ela, uma identidade (mesmo que fragmentada, questão identitária que nos levaria longe).

Entendo o blogue que escrevo como um lugar de partilha das coisas que me espantam, dão prazer, gozo, ou suscitam por vezes a ironia. Mas sobretudo um lugar de encontros, onde se podem cruzar, casualmente (a norma é tantas vezes essa casualidade ter um sentido) a cintilação de um poema com o relâmpago de uma imagem; o fulgor de um texto com a doçura de uma alfinetada no traseiro da idiotice. Aqui é um lugar de conjugações, portanto. De acasos que não são por acaso. Lugar de partilha do prazer. Da uma ética da beleza (não escrevi ‘do bonito’, está bem?).

Ontem editei um poema de Nuno Júdice. Apetece-me pensar que não foi por acaso que me chegou às mãos. Tal como não foi por acaso, que, mal o publiquei e dei uma última olhadela a alguns blogues, tenha ‘tropeçado’ neste post de um blogue que muito estimo, o irmaolucia (assim mesmo), um dos mais amados na blogosfera, aposto. O autor, Pedro Vieira, é um ‘blogger’ (como raio se escreve autor de blogue?) por definição. Ou seja, ele próprio se encarregou de alargar conceptualmente a ideia de blogue, com a mão notável para os títulos, para o post curto e tantas vezes letal, outras tantas paródico, intercalando o registo pessoalíssimo com um olhar ácido, irónico, terno sobre o quotidiano; concebendo as suas próprias ilustrações – que resultam, as dele, neste meio como em nenhum outro. Aliás, não imagino o irmãolúcia de Pedro Vieira fora da blogosfera, ao contrário de muitos que escrevem o blogue nosso de todos os dias a pensar na primeira edição em papel.

Ontem, dizia, editei o poema Lusofonias, de Nuno Júdice. Nem dez minutos haviam passado quando deparei com este post. Ora venham lá dizer-me se o acaso não produz o encontro. E se o resultado da simultaneidade não é poético!

*

bica a metro

Há um tipo de local que me repugna/fascina pela cidade fora, mais concretamente os quiosques/cafés da Sical, em tons de vermelho e ocres, mergulhados no metro/politano, cheios de gente mas tão vazios, corpos carentes de cafeína mas também de um ombro consolador que ali não se encontra. Incrível a quantidade de gente de cara fechada que ali ruma em busca do abatanado, da italiana, do galão claro e morno, há vidas assim, da bica cheia, do garoto, do diabo a sete e mais um queque de cujas moléculas suspeito imenso, as merendas que podem ser de maçapão ou folhadas na voz de uma especialista que ouvi aqui há dias, todas reluzentes debaixo da luz fluorescente do balcão, a natureza não produz coisas assim, que luzem e que se trinquem na companhia de cegos, migrantes, passeantes, aleijados e trabalhadores de outros comércios, executivos de casta baixa, mochileiros, e esfomeados de ocasião mortinhos por uma vida mista, o queijo e fiambre a desafiar pelo menos a penumbra dos dias. Nos quiosques/cafés da Sical há gelados da Maxibon, bolos instantâneos, empregados que enfiaram a palavra sorriso num paradeiro desconhecido, e sente-se um frio que as paredes decoradas em motivos quentes, africanos, não disfarçam, a preta ilustrada de lenço na cabeça e moldura de fancaria tem mais vida do que aqueles microscosmos em que até as migalhas brilham, ali, aos pés dos incautos. E as migalhas não é suposto brilharem, foda-se.


Leia-se o post na sua origem, com os comentários que suscitou. Para o caso de alguém não conhecer o irmaolucia, o que duvido.

'num café perto de si © Bruno Queiros, Olhares, Fotografia Online

'num café perto de si' © Bruno Queiros, Olhares, Fotografia Online

(não é Sical, mas não fica mal)

Poesia Portuguesa (21) – Nuno Júdice

Devo ao conhecimento e amor pela poesia de pessoa amiga (que nunca vi, mas assino de cruz o adjectivo) a surpresa deste poema. Nuno Júdice comprova, com um belíssimo golpe de asa cheio de ironia, que o acto poético, mesmo na sua expressão contemporânea (por vezes tão marcada pelo signo da ‘gravidade’) a fina ironia se pode conjugar com um domínio superior da escrita, para produzir resultados de fruição e, por que não dizê-lo, da diversão. É uma bela alegoria esta, que se estabelece a partir da semântica das palavras ainda não uniformizadas, graças às idiossincrasias das diferentes normas do português e os anónimos cafés sem mesas do nosso quotidiano.

Lusofonia

rapariga: s.f., fem. de rapaz; mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.

Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada

no café, em frente da chávena do café, enquanto

alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este

poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra

rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,

terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,

a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga

que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não

fique estragada para sempre quando este poema atravessar

o atlântico para desembarcar no rio de Janeiro. E isto tudo

sem pensar em áfrica, porque aí lá terei

de escrever sobre a moça do café, para

evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é

uma palavra que já me está a pôr com dores

de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria

era escrever um poema sobre a rapariga

do café. A solução, então, e mudar de café, e limitar-me a

escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se

pode sentar à mesa porque só servem cafés ao balcão.

Nuno Júdice, A Matéria do Poema, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2008

Nighthawks © Edward Hooper

Nighthawks © Edward Hooper

(clique para ampliar)


Colóquio/Letras – O novo director, o mail e a ‘farpa’

Recebo ontem, às 16h15m, um e-mail enviado por Sara Pais (não tenho o prazer de conhecer), do ‘Serviço de Comunicação’ da Fundação Calouste Gulbenkian, na caixa de correio electrónico deste blogue. Agradeço. Acontece que, por nunca ter dado este endereço à FCG (recebi um e-mail, não um comentário), e estando ele apenas público no blogue, uma de três hipóteses se colocam:

– A FCG dispõe de uma base de dados excepcional, e decidiu fazer um mass-mail à população portuguesa;

– A FCG está muito atenta à blogosfera e deu-se ao trabalho de informar mesmo um blogue de escassa expressão;

– A FCG teve acesso à lista dos subscritores do texto ‘Sentimento de Admiração‘, colocado online por um grupo de admiradores do trabalho de Joana Morais Varela à frente da Colóquio/Letras (texto que subscrevi). Joana Varela contra quem, como recorda Eduardo Pitta, continua a decorrer processo disciplinar (visando despedimento).

Não sei porquê, aposto no último cenário.

E fico com mixed feelings. Por um lado, fosse eu alma burocrata e picuinha, e deveria considerar este mail como spam (correio electrónico não solicitado nem desejado) e a base de dados onde ele consta ilegal (por, como obriga a Lei, não declarar como foi obtido o meu endereço electrónico e não ter um disclaimer para a eventualidade de eu não desejar receber informação do ‘Serviço de Comunicação’ da Fundação Calouste Gulbenkian)

Por outro lado, ele dá conta de notícias sensatas. Afigura-se acertada a escolha de Nuno Júdice, que nem precisaria da caução de um Conselho Editorial presidido por Eduardo Lourenço. Em não precisando, bom é tê-lo.

Mas o que me chateia, e apenas isso, no mail da Fundação Calouste Gulbenkian é a desnecessária ‘farpa’ constante no penúltimo parágrafo. Porque induz a ideia de que a irregularidade temporal na edição da Colóquio/Letras colocava em causa a sua continuidade. É feia e um pouco canhestra esta forma de apoucar o passado. O passado que tem inscrito o nome de Joana Morais Varela.

[Transcrevo o texto integral do e-mail recebido. O sublinhado a azul é meu. Os sublinhados a Bold vinham no e-mail. Curiosamente apenas destacam nomes. Pois. Tudo parece uma questão de nomes. Nomes com peso e estatuto sempre ajudam a apagar outro nome, não é?]

Nuno Júdice é o novo director da Revista Colóquio-Letras, na sequência da decisão do Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian de nomear uma nova direcção e um conselho editorial para a revista, de modo a garantir a sua publicação regular e os compromissos assumidos perante o público e os assinantes.

O conselho editorial da Colóquio-Letras será presidido por Eduardo Lourenço.

A Administração da Fundação Calouste Gulbenkian pretende que a revista continue a ser uma referência no campo literário, o que sucede desde 1971, seguindo os princípios e valores que a nortearam desde a sua criação e orientação por Hernâni Cidade, Jacinto Prado Coelho, David Mourão-Ferreira e Joana Varela.

Tendo em conta que o último número da revista, referente a 2004, foi apresentado em meados de 2007, pretende-se, a partir do início de 2009, retomar a publicação regular da revista, garantindo a sua continuidade.

Nuno Júdice é ensaísta, poeta, ficcionista e professor universitário, tendo desempenhado, em Paris, os cargos de conselheiro cultural da embaixada portuguesa e delegado do Instituto Camões.

(NOTA: por uma questão de ética, enviarei este post, em resposta, a Sara Pais, ‘Departamento de Comunicação’, Fundação Calouste Gulbenkian).

Colóquio/Letras - capa do número duplo 168/169

Colóquio/Letras - capa do número duplo 168/169