As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Nuno Brito — «Duplo Poço». Excerto e Nota de Leitura.

Nuno Brito

Nuno Brito


(excerto)


OUTRA FORMA DE MENTIR

I. 

Sou a verdade, uso uma mini-saia vermelha,

Vejo os homens masturbarem-se nas sua varandas enquanto me olham,

passo nas ruas de Alexandria, Berlim, Tóquio, Budapeste,

Bernini esculpiu-me, Whitman descreveu-me

mas nunca nenhum homem me possuiu

Por mim correrão futuros antiquários ainda por nascer

Afundo-os de desejos, mutilo-lhes os sonhos

Sou múltipla e tudo acendo sobre a forma de calor,

Quem tem medo está mais próximo de mim, estou na boca dos amantes,

Nos seus ternos abraços

II. 

A minha visão é fragmentada de tanto olhar para o sol,

um fabricante de sinos do futuro, também ele cego,

mergulha dentro de mim e badala como do fundo de um lago suíço,

não tenho sono, nunca dormi até hoje,

ouço o badalar link link link link,

subaquático e triste:

Todos os comboios correm até mim,

velo o sono de um faroleiro com medo do escuro,

teço-lhe os sonhos de fios dourados,

puxo as extremidades para o centro da alma e sento-me a chorar,

também eu tenho medo do escuro e me deito à sombra

as cidades possuem o céu,

o céu possui a música

e a música possui-me a mim,

sou todas as viagens, a meus pés construíram Tróia,

os semi-deuses esculpiram Cápri dos meus joelhos —

A amnésia beijou-me a boca;

O futuro líquido na forma de dois joga pólo aquático consigo mesmo,

tudo é um, tudo está condenado a ser um,

criei a poesia, teço todas as narrativas,

mergulho em todas as prosas,

todas as ficções me atravessam a nuca,

de um ao outro lado um comboio apita, um rio passa,

acorda um gato em queda,

os homens têm caminho à sua frente

e bebem o caminho, porque têm sede e o futuro é de beber,

as memórias também são de beber, o amor é líquido,

apesar de não existir também eu bebo o caminho:

Nado dentro de todos os homens;

Não penso, sinto, não corro, minto.

(Duplo Poço, pp. — 25/26)

«Duplo Poço» — Nuno Brito

«Duplo Poço» — Nuno Brito


(nota de leitura)

Ao ler o terceiro livro do Nuno Brito, encontra-se, desde logo, um conjunto bastante complexo de meios profusos no processo de formalização da sua obra. Entre eles é particularmente nítida, porque se destaca como constante e deliberada, a utilização das repetições, das consecutividades, aquilo que o Vasco Graça Moura chamou «automatismos conducentes à fragmentação» e associou ao surrealismo, a propósito da obra de Nuno Brito, noção essa que não se afigura excepcionalmente feliz.

Cremos que, preferencialmente a automatismos, poderíamos falar de consecutividades e repetições. Sabêmo-lo desde o corpo teórico da Psicanálise (e recusa-se uma leitura de Duplo Poço à luz de semelhante grelha), que aquelas não são meras reproduções invariáveis de actos, palavras, ideias… Produzem serializações, serializações estas com um referente sempre em movimento, a partir do lugar e do contexto da sua enunciação no corpo do texto, produzindo significados novos, no caso vertente causadores de estranheza, recontextualização, associações inesperadas e poderosas, causadoras imediatas do espanto. Como se de uma hiper-consciência se tratasse, capaz de se traduzir em matéria poética.

Encontra-se, neste livro uma escrita em transe, em trânsito entre o não consciente e o consciente, que opera um fabuloso movimento de  revelação e preenchimento, o contrário da ideia de fragmentação, já aventada a propósito da escrita de Nuno Brito. Quando o autor escreve:

«A Via Láctea brinca, como se fosse um menino… A história foge para dentro dos búzios. A erosão rói devagar os pulsos da solidão — Ela joga Tetris sozinha — com a boca cheia de calmantes (…) A erosão rói devagar os pulsos da solidão.»

Não são fragmentos ou associações livres que encontramos, mas inesperadas ligações imagéticas que explodem no texto. Duas formalizações sintéticas (entre muitas outras que se poderiam isolar) posicionam a obra perante o leitor, abrindo-se em múltiplas leituras:

«Como se fosse um rato. A poesia persegue os balões de hélio, a gravidade puxa-a para a terra, mas há extremidades finas, onde não há segurança, a cerâmica sigilata esconde-se no chão» (…) «Por baixo a água quente, que vem quase do centro da terra.»

É como se o autor partisse do Universo (que é um descomunal vazio preenchido), e chegasse ao âmago, ao centro da terra, ao centro do corpo (com transitividade de ida e volta). E, nesse movimento, persegue o preenchimento feérico de um vazio primordial. Detenhamo-nos neste conceito de vazio:

Percebendo o universo como a totalidade (e toda obra de arte é uma totalidade), o que poderemos ver fora dele? Se deixar entrar e sair o vazio é a função de do vazamento e preenchimento, então o universo pode comparar-se a um completude que é um todo contextual de si mesmo.

Nuno Brito refere, explicitamente, as «paredes do Universo», ou seja, espelha uma integralidade cujo exterior é seu próprio vazio interno; na escrita do Nuno Brito, os limites do vazio, ao contrário de dividirem o que é exterior do que é interno, conduzem o que é externo para dentro do que se acha dentro.

E é esta deslocação que se materializa em Duplo Poço. O preenchimento, a incrível aventura de materializar o vazio.

Uma procura explosiva de corporalização, por meios que só o autor conhece e pertencem à sua violenta liberdade poética:

Este movimento é trabalhado, em estado de pura fruição, apagando o autor a sua própria identidade enquanto um Eu (que aqui surge multiplicado, de resto, em vozes). Torna-se, o autor, numa espécie de mediador entre o mistério do cósmico e o mistério do ovo, movimento que vai do primordialmente mundo ao primordialmente humano.

Em Duplo Poço, Nuno Brito fá-lo de forma quase oracular — e não é por acaso que Cassandra é, talvez, a persona que mais se faz sentir significantemente na obra.

O autor, voluntariamente afastado do centro do texto, é o agente que detecta, reformula e difunde brilhantemente (no sentido da irradiação) uma nebulosa teia de matéria que vai encher o vazio de sentidos.

Não é concedida ao livro uma programática explícita; antes a possibilidade para que os múltiplos significados, imagens e ideias que poeticamente congrega se espalhem, disseminem, num poderoso derrame misterioso, por vezes obscuro, insondável. E, em consequência, marcado pela possibilidade da luz.

Não, não é de forma cómica que assim labora Nuno Brito, e de novo se contrariam algumas ideias formuladas a propósito da escrita do autor. Não se sentem marcas de amargura, ironia ou tristeza em Duplo Poço. Pelo contrário.

Significa isto que é patente o quanto Nuno Brito se diverte. Sente-se, em cada texto, em cada frase, em cada imagem, o prazer de brincar. Jogar aos dados com o universo e o leite materno, é coisa séria demais para que nela não se encontre, desde a primeira página, o enorme gozo de um criador que tem a rara faculdade de ouvir as vozes, os sinais, as cores, os sons que depois multiplica e reorganiza de forma intensamente poética.

Embora de forma redutora, poderíamos segmentar: há quem reduza voluntariamente o léxico, os significados, as imagens, procurando a depuração, na qual a forma se submete aos significados; há quem, pelo contrário, amplie, expanda a pluralidade semântica através de recursos lexicais e de estilo.

Em Duplo Poço, pelo contrário, o autor parte de um léxico e linguagem opulentos, joga com recursos estilísticos de grande diversidade e explode os campos semânticos, criando uma imagética riquíssima, muito além da produção de meros efeitos de surpresa: é de revelação e preenchimento que aqui se trata. E há toda uma linha que atravessa esta obra: sente-se que, (e inevitavelmente só poderia ser) é escrita em estado de júbilo.

«Qualquer gesto humano me excita violentamente, amo tudo quanto flui», escreve o Nuno, que acrescenta, para não deixar dúvidas:

«a literatura (a primeira morte) só serve para unir — os fios que usa são dourados»

A profunda riqueza de ouvir, ver, sentir e, seguidamente, reformular em abundância a riqueza associativa da escrita atinge, por vezes, em Nuno Brito, os limites de um entendimento racional do que está escrito, por parte de quem o lê (inferência a partir da experiência pessoal, das leituras feitas, refeitas).

Mas o que está inscrito coloca a questão da incorporação e investimento (preenchimento) do autor e da apropriação do leitor. Porque, muitas vezes, não apreendemos o que quer exactamente o autor dizer, mas experimentamos, de forma intensa, o que ele nos está a dizer; ou seja, atinge o (nosso) próprio inconsciente. Como quando escreve:

«O homem não legitima, a luz legitima»

Isto sente-se, mais do que se entende no plano racional ou mesmo emocional.

Desta forma o autor despe-se deliberadamente do papel de produtor e caucionador da sua obra, surgindo a mesma como um reflexo brutalmente multiplicado da luz (palavra nuclear para a compreensão da obra) que aquele ele recebe, capta e dissemina.

(Evidentemente não se trata de uma espécie de augure que descobre nas entranhas das galinhas os mistérios da natureza humana e responde pelo Universo.)

Utilizando formalizações várias, que se entrecruzam, como a narrativa,  textos de pendor quase ensaístico (um deliberadíssimo logro, ardilosamente forjado), escrevendo muitas vezes num registo aparentemente onírico, Nuno Brito domina os processos que conduzem à sua ars poetica.

Não parecem subsistir dúvidas quanto a este domínio integral da obra por parte do autor. O que se afigura notável é a agilidade com que o emprega e o modo como o faz surgir, de forma aparentemente compulsiva, sendo a destreza de recursos uma quase evidência. Quase.

Estabelecendo, por intermédio de pares semânticos que são antinomias arquetípicas, dualidades primitivas, nelas e na sua relação dinâmica começa a revelar-se o programa implícito da obra, uma unificação dos opostos, poços invertidos que a si mesmos se enchendo, se vazam:

a memória / o esquecimento

o passado / o futuro

o sexo / a morte

o feminino / o masculino

De todos estas antinomias muito haveria a dizer, mas centremo-nos nesta última:

Que o autor estabelece uma ordem hierárquica na qual se encontra uma clara predominância do feminino como o referente matricial revela-se claro e axial na obra. O feminino é diacrónico, é Deus, é o universo, o corpo, o lugar da apaziguamento. O vazio, o duplo poço a ser preenchido. O leite é um símbolo recorrente ao longo deste livro (muitas vezes surgindo como leite condensado, o que nos propõe alguns indícios: a infância, a doçura, a espessura, o sémen).

«A realidade amamenta-se da ficção (a primeira mãe)

bebe do seu leite gordo e quente

um leite que sabe a calma»

O masculino surge-nos, por outro lado, como a presença de uma possibilidade efémera de luz ofuscante, e o seu símbolo maior, em comparação com o leite, é o muito fálico farol, ocorrência sincrónica e fenómeno que permite o vislumbre da luz que guia no sentido do encontro, da fusão.

«A literatura só pode ser União»

Regressemos à questão que nos é recordada pela frase «O homem não legitima, a luz legitima». Que legitimidade é esta? A procura de uma união; a demanda de uma ordem que a poética ambiciona encontrar e estabelecer.

Esta união tem uma origem claramente pulsional, erótica. No livro multiplicam-se um conjunto de repetições e variações em torno do tema orgástico, do vir-se. Citemos duas:

«Os louva-a-deus fêmeas arrancam a cabeça do macho durante o sexo, no exacto momento em que este se está a vir. As ceifeiras colhem o trigo e riem-se. O futuro vem-se dentro da memória.»

«Está-se a vir: A amnésia está por cima, possuída de um prazer extremo — espeta-lhe a faca nas costas. O tempo pára…

o seu sexo incha de prazer»

Analiticamente, o prazer sexual é um momento enunciador do desencontro, encontro com o fantasma da morte: a minha fantasia, aquela que me faz gozar, não é a do outro. Há um desencontro incontornável, gerador do medo, causador de uma procura incessante, repetida, consecutiva, nunca terminada, uma luta contra o esquecimento do outro:

«A amnésia mete uma estrela-do-mar entre as pernas

O seu sexo sabe a mar,

A amnésia mete a noite entre as pernas

O seu sexo sabe a chuva de verão»

O orgasmo, o vir-se, e a ele volto dada a importância e frequência da sua ocorrência na essencialidade dos textos, é, neste trabalho que procura uma ordem, uma unificação que conferirá a calma, uma peculiar forma de paz, espelhado como cristalização do tempo. Instaura-se, desta forma o jogo entre medo/morte e salvação/vida.

O que encontramos, em Duplo Poço, como  uma possibilidade de programática última, vem da esfera do desejo. A gloriosa, cósmica tarefa de preenchimento do Vazio.

E é o poeta quem nos dá as pistas, as linhas possíveis do seu acto tremendo:

«A literatura só pode ser União»

«O amor é como carne»

«Só o amor permite ver de cima»

«O Riso é o Gerador Único do Universo»

«Só o Riso é Deus»

O desejo de unificação através do riso, da alegria, do júbilo. O entendimento da origem do ínfimo e do infinito como um sopro de amor. A escrita, o trabalho poético como a voz possível para enunciar a explosão!

Explosão seminal: esperma, sangue, palavras, luz, transpostos para uma explosividade escrita.

«A poesia prova deus,

Ele sabe a gente»

Em última análise, é a Explosão o leitmotiv onde se constrói e perfaz a obra. Um Big-Bang cósmico e íntimo, a partir do qual a matéria se expande até ocupar o vazio.

É silencioso o vazio do Universo. São silenciosas as células. Nuno Brito, perante este silêncio, toca, interpreta a sua música tão pessoal. Dá-nos a ouvir o som do silencioso poço do corpo; a música do silencioso poço do mundo. Duplo Poço é expressão brilhante desta explosão da musicalidade do Universal. É obra.

Refira-se, finalmente, ser esta a primeira edição de um autor da nova chancela, a Hariemuj Editora, sob a batuta de Maria Quintans (que já dinamiza a revista de poesia Inútil). Quando editar poesia (ou prosa poética) se destina a um universo cada vez mais restrito de leitores, saúda-se a escolha desta obra, prenúncio de uma vontade e persistência que, devidamente acauteladas pela exigência e por uma acertada linha editorial, poderão conferir a esta nova editora um lugar sólido no rarefeito e volátil mundo da edição de poesia no nosso país.

(esta nota de leitura, editada, foi elaborada a partir do texto de base para a apresentação do livro Duplo Poço, no dia 22 de Dezembro de 2012, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul)

Nuno Brito, Duplo Poço, Lisboa: Hariemuj Editora, Novembro de 2012

Nuno Brito — Pink Cigarette

Nuno Brito (autor de Delírio Húngaro e Créme de la Creme, livros já referenciados e citados aqui) escreve este poema, que publica hoje, no seu recente blogue pequenos animais sem expressão. Poema para ler agora, para reler depois, na sua violenta linguagem profética.

Pink Cigarette

À Anezinha

 

Quero impregnar-me de gente, de paisagem portuguesa

 Luiz Pacheco

 

 

Nesta terra as mulheres crescem à sombra,

como os cogumelos, o musgo ou a razão,

em ponto de cruz a saudade vai sendo domesticada,

o mais honesto  e obediente animal  puxado por uma trela dourada

feita de medo e outras coisas que ligam

o seu viso tem a expressão de todos

e é nestas caras quentinhas que descem ainda as lágrimas de Eros

mudando por dentro o nome do continente, outra cara, possível Começo

sem nome, sem coisa nenhuma, é às vezes o sal

que cai destas caras que tempera o prato, porque todo o sal não chega

para compensar o amargo que veio morar para a boca

cansada de saber que a linguagem não chega

porque eles fugiram, cada um em seu barco:

os filhos

 

 

Nesta terra as mulheres crescem à sombra

E têm sombra nos olhos, que o eco veio pintar

a lápis de cor por cima da paisagem humana

que se aloja debaixo de tudo o que a alma espelha,

veias, artérias, vasos, curvas fininhas que o tempo vai moldando

A anatomia rasgando o cosmos à escala humana, soprando-o para longe

Transbordo que a sede cria,

E enquanto as filhas vão ao poço, sol, risos, perfeita anatomia

As sombras crescem. Pequeninas rendinhas em baús

Terços, santinhos, livros de areia, um dente de leite

o fio de ouro a que está ligado,

e são de sombra os seus gestos porque quando se movem

são os braços de outros que ganham vida e retiram à paisagem

a natureza para pôr nela a arte, a civilização, a linguagem e a vitória

a mais alemã invenção,

e o seu sorriso é uma espécie de Deus

e quanto mais se enrola na paisagem mais deus é

Até parece que a razão dorme dentro delas,

e a razão dorme dentro delas –  o capitão do navio dá-lhes duas opções

Ou embarcam no barco do amor ou embarcam no barco do amor

Mas vão ter ainda de o Criar para o atravessar, e partir as árvores, da madeira fazer o barco

e calafetá-lo e dar-lhe um nome, e baptizá-lo, porque tudo aquilo em que se toca também se é

A sede vai-lhes toda para os olhos,

Urgente era que as sombras saíssem, como o fumo adocicado dos pulmões

Para dentro doutros pulmões.

 

 

Estas mulheres seriam modelos se as estátuas de sono não dormissem dentro delas

Se não fossem só alma,

O planeta chama-as do centro, as rugas vão rasgando a sua pele

Mas elas riem pouco,

E há poucos jovens

Estão todos no meio da Europa, Lisboa, Porto

Em Lisboa está a arte e no Porto está a arte

E no Couço está a arte e em todo o lado está a arte

Se não fossem só alma teriam visto mais vezes o mar

Não são filhas da revolução nem são filhas de ninguém

os seus filhos estão todos na taberna e são mais  velhos que elas

À noite estas sombras limpam com um guardanapo o beiço dos velhos

Porque desce-lhes azeite pelos queixos, e esses guardanapos podiam ser a página 100

de uma História Contemporânea, edição de luxo, a meio da investigação os eruditos

folheavam o guardanapo em Lisboa onde está a arte ou no Porto onde está a arte.

 

 

Exportámos marmelada para a Austrália ou para os armazéns de retalho da capital

que importa se toda a geografia é interior? – Enquanto dormem até de deus são mães

E entre as suas pernas as almofadas (penas de pato, segredos ou outros novelos).

 

 

As suas casas são feitas de queda, de verticais os muros ganham contornos,

a mais cara renda que são os dias a vir

formas breves, novas formas, dias que incham

parecem areia soprada pelo fogo

com que se  faz o vidro e se embacia o espelho

um dia também ele será inventado pelas mãos quentes de um artesão etrusco

antes mesmo de haver as moedas para o comprar

e que levarão os nossos filhos para longe,

Para o Canadá, Luxemburgo, Cantões,

nos navios, nas bagagens, nos aviões, todos com o seu preço

calafetado por dentro e por fora, impregnado na paisagem,
claves de sol pontilham a paisagem, por cima do trigo, a picotado

 

As sombras destas mulheres são às vezes música, entra nos búzios

Não só por nos lembrarem que elas provêm do sol,

como tudo o que parte, mas por nos erguerem como o caule de um girassol

a sua voz é a sua seiva, está dentro da nossa espinha, é o nosso equilíbrio

uma balança onde se pesam as palavras que ficaram por dizer

 

 

Futura-te*

Também a rede quer dormir mas não é da natureza das redes dormirem

e a rede pede que lhe cortem as pontas, que tragam uma tesoura

E alguém corta as pontas, mas as pontas crescem com mais força, como uma estrela

-do-mar, a tesoura é também informação e acrescenta-se à rede, tudo é soma nesta nova

anatomia

Coisas que entram

Abre as portas, vem muita gente atrás e todos querem entrar em ti,

Entrar é ser gente, crescer é ser rede,

homens e redes nunca dormem verdadeiramente,

 

 

Em Manchester as fábricas enchem-se de música e no Couço

cresce o trigo dos latifúndios e todos estes homens precisam

de equadores ao mesmo tempo que precisam de pólos

E todas estas mulheres precisam um pouco mais de calor

Não só para deixarem de ser sombras

mas para saberem que de se descarrilarem se fazem novos caminhos

Nas carruagens vai este gado

Já não de ferro nem de vento são os caminhos em que é feita a viagem

Sem pontes de aço, betão ou de cimento, só ultrapassagem

 

 

No Portugal dos pequeninos os filhos que se vão perder em todos os continentes

das suas perdas novos filhos nascerão: Filhos da revolução. Qual?

Na natureza nada se apaga

Na natureza não existe amanhã

Mas o homem põe a manta da civilização por cima da natureza

e por baixo da manta fica o escuro e alguns animais sem expressão

às vezes fica também o riso,

a razão fica a sobrevoar a manta

e ficam mulheres debaixo da manta

danças primitivas, ecos, sonhos,

capitães de mar nenhum ficam também

debaixo da manta a razão de ser da literatura,

definir poesia é dar as mãos

Só a gente e paisagem não desce para baixo da manta da razão

E as mãos aquecem agora mais

Nuno Brito

«the future of the species», Alice Korvin © Alice Korvin, Deviantart (D.R.)

Nuno Brito no site Poems from the Portuguese

Blogue do autor, pequenos animais sem expressão

Nuno Brito — A insustentável leveza de quê?

Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É licenciado em História pela FLUP. Frequentou o Instituto de Estudos Medievais em Roma. Em 2008 foi seleccionado para o Concurso Jovens Criadores na categoria de Literatura. No mesmo ano obteve o primeiro Prémio no Concurso Literário da Faculdade de Letras da UP (Poesia) obtendo, no ano seguinte, o primeiro Prémio na categoria de conto.  Em 2009 publicou a obra Delírio Húngaro e em 2011 Créme de la Creme.

Autor já referenciado e transcrito neste blogue, Nuno Brito apresenta-nos neste último livro um conjunto de textos de surpreendente, riquíssima carga imagética, neles se produzindo inesperados significados que aproximam a obra de uma contiguidade surrealizante, nunca deixando contudo de se reconhecer uma voz absolutamente singular no panorama dos autores contemporâneos.

capa do livro "Créme de la Creme"

A insustentável leveza de quê?

Ao Gonçalo

“O poema não é mais verdadeiro nem mais consciente do que uma

teoria científica (provavelmente, é-o menos) o poema não contém atrito

por definir o mundo ou desvendar a metafísica. O atrito do poema tem

a ver com o corpo, a distância e a lentidão”

Pedro Eiras  – A Lenta Volúpia de Cair

 

Deixar cair uma maçã com toda a força,

Não estamos aqui pela gravidade, mas porque

Amamos o chão – a terra

Se possível, metemo-la toda na boca,

perdi um bloco de notas que me compraste no museu do Galileu, nele tinha notas sobre a aflição e o atrito – a ligação entre poesia e ciência, a Vontade de estar dentro de Ti. A maçã contínua cai – sem que Newton ou um poeta suicida – Esqueci-me do número do andar – tenham ainda o sabor da razão na boca, azedo e verde, sem ter asas, nem querer voar: A insustentável leveza de quê? O atrito do ar enquanto desces e perdes toda a poesia, a inocência, a vontade de cair naquilo que nunca será ciência – falo da razão está nos teus olhos, dentes e boca.

Brito, Nuno, Créme de la Creme, Porto: Planeta Vivo, 2011

Gordon McBryde © Gordon McBryde, via Deviantart (D.R.)

Nuno Brito – Ode que ferve

 

 

Ode que ferve

………………………………………………………………………………….

Vários comboios se descarrilam dentro do meu peito, várzea
à noite com muitos pirilampos acesos:
fervem e cruzam-se todas as linhas –
uma pirâmide de olhares cruzados em fogo,
muitas rotundas, auto-estradas, viadutos,
linhas de metro, passa estridente um comboio a alta velocidade, bebo toda a cidade
e caio rotundo para o chão –
sinto o suor de todos, o doce espasmo de uma jovem etrusca e todo o
Sol a incendiar-te o sorriso: fizemos um pacto com ele, com a vida com o futuro (Comboio estranho que derrete) fizemos um pacto com tudo que fluí, as linhas entrelaçaram-se, sinto a tua pulsação no meu peito e beijo-te os pulsos, a ansiedade nervosa da cidade, o doce espasmo das borboletas e a
Contracção de cada recém-nascido que parte –
A febre recheia a cidade –
O peito cheio de praças e cidades inteiras por dentro, viadutos túneis, contigo em cada esquina, dentro de cada café – com o pôr-do-sol dentro dos pulsos – a injectar o sol líquido no peito, não há mais caminho para trás – tenho a tua sede de futuro, são seis e vinte da manhã e a cidade acorda e adormece ao mesmo tempo – Sinto o calor de todos os que aquecem – A cidade a subir-me pela espinha dorsal, como uma nuvem branca, quando te abraço faço um pacto com a Vida
A cidade chama por nós e faz nós dentro de nós, tudo flui a uma velocidade frenética e todos os poetas futuristas, italianos, russos, franceses, portugueses, espanhóis levantam a cortina pesada da noite à velocidade do dia – enchem os teus olhos de sol – bebo por eles toda a cidade, todos eles sabem quanto te amo (cidade industrial, ceroulas, pastor alemão, civilização assustada, seringas e preservativos no chão, cave com vários fundos húmidos) a boca cheia de vidros – lambo-te o peito, os pulsos, os dentes, a língua (uma abelha na auto-estrada) o relógio de sol funciona à noite – se formos rápidos e seguirmos o dia – quando se patina sobre gelo fino a velocidade é a única salvação – e aqui cito todos os que não disseram a frase porque a sabem e sabem que o tempo corre – Sinto todo o desconforto dos cães à toa antes de serem atropelados
estou nas mãos dos fabricantes de carros que atropelam os cães, nas mãos dos operários, nos muros contra os quais urinam, os operários com as suas mãos – com a linha da vida a arder até ao pulso, e no fim do dia as mesmas mãos com a linha da vida a arder, ou várias linhas que se cruzam, a segurar o pulso da mulher, a acordá-la, a segurar o pulso de todas as mulheres dos operários – preciso tanto de calor – sou a sede, a raiva, o medo, a Vontade líquida de estar dentro de ti, sou líquido e fervo por ti dentro, amo os teus olhos a tua boca os teus dentes os teus pulsos os teus medos as tuas inseguranças as tuas dúvidas, os teus tornozelos, a tua saliva, a tua língua, os teus olhos, a tua boca, os teus dentes, amo os teus braços, as tuas mãos, braços, pernas, pés, e atravesso a peito a tua nuca quente, o teu peito a nado, sou líquido – vejo pelos teus olhos – todos – beijo-te os tornozelos, se penso em escrever um poema sobre o fogo lembro-me da bombeira voluntária de vinte e um anos que morreu a combater os fogos deste Verão – continuamos a subir – são 6:35 da manhã e a cidade acorda por ti adentro
Vejo por trás de ti
Por trás de nós
Por dentro de nós,
a cidade acorda: o sol dos teus olhos a injectar-me no peito uma Vontade Nova – Em tudo Nova – Amo tudo o que ferve
a noite láctea que te atravessa o peito de Calor
Ode que ferve e liga pelo skype,
nado por ti adentro

Nuno Brito, via o blogue Descoiso, com autorização do autor.


Novos Poetas (48) – Nuno Brito

Ainda na Cràse, número zero, após a surpresa da descoberta de Luís Felício, podem encontrar-se alguns outros autores que sobressaem. Nuno Brito (Porto, 1981) publica três poemas, formal e tematicamente distintos entre si, mas tendo em comum uma grande capacidade de criar imagens inesperadas. Na riqueza imagética, mas também nos bruscos saltos do enunciado, estará a singularidade do autor. A aparente “desigualdade” entre poemas derivará da mesmíssima razão que origina a “desigualdade” dentro de cada poema: o salto, a guinada, a deslocação e o estranhamento do sentido, manipulados laboriosamente para criar trabalhos que prenunciam uma voz poética não confundível. [Nuno Brito tem, publicado em 2009, o livro Delírio Húngaro, com a chancela da Edita-me]

Panteão Nacional


Fui ao Panteão Nacional adorar um ou dois mortos que se riram

o suficiente

e isso chega

A Puma que protege a sua entrada, dita com os olhos verdes quem

é imortal e quem é mais do que isso. Vigia os dez milhões

de habitantes.

Todos eles com as suas bússolas apontadas para sul foram

antigos Reis de Alexandria.


© Carla Salgueiro, Olhares, Fotografia online (d.r.)