João Miguel Fernandes Jorge — O Melro de Mazagão (poema e apontamento)
Era um corpo feito às mãos caía-lhe pó dos dedos
era dos meus amigos o mais propenso à ilusão.
E eu estava ali quieto sobre a casa, a alma
pode ser muitas vezes uma pedra
eu estava ali quieto isto é o mais importante: era
um corpo feito às mãos.
Ia por um caminho de palmeiras
aquele que procura o meio-dia e o encontra
era um homem entre uma rua da Nazareth e a rua do Celeiro
de espírito orgulhoso: esses tempos já lá vão
se quisermos aprender alguma coisa
dos pedreiros escrevendo a estrela e o
crescente
Mazagão é a miragem de portos barcos e reinos.
Para que serve? Preferia ficar a bordo onde podia trabalhar
sem interrupções e onde várias vezes me senti inspirado
como nunca tinha estado antes nem voltei a estar depois.
Eu por mim sou assim quando chego aos portos embarco.
E sonho um país onde nunca acabam as casas
porque as casas são para não ter fim: «já não
tenho pressa agora já não quero chegar a lado algum».
e que mais hei-de fazer deste terreiro de favas e papoilas?
A matéria não podia já mover-se por si própria ou
se movia ao acaso. Era uma ponte em vão.
Era um mar de dragões e solitários espíritos esse
onde navega o melro de Mazagão
as coisas que se transformam em função das suas paixões,
um melro canta sempre de determinada maneira
avisando contra toda a espécie e fortuitos acontecimentos.
Era da família dos amarílis
e se o não era ele, era o seu canto.
Pois quando volvemos o olhar enfrentando este terror
insinuando a dúvida pela fugaz economia
e dizendo ecce ancillla domini
semelhante ao desprezo de Platão,
disto estou certo: era um corpo feito às mãos.
Jorge, João Miguel Fernandes, Obra Poética Volume 3, Lisboa: Editorial Presença, 1988

Dante Gabriel Rossetti «ecce ancilla domini!» Óleo sobre tela montado em painel, 41.9 x 72.7 cm. Tate Gallery, Londres, Reino Unido
Voltamos ao Direito de Mentir (1978, 7.º livro do autor) e, talvez por acidente, ao quase caricato episódio que o autor relata, na reedição da Obra Poética, da Editorial Presença: «no dia em que ficou pronto e em que fui à editora buscar o primeiro exemplar, ao abri-lo, vi com grande espanto que os poemas não eram os que eu tinha escrito. O Direito de Mentir trazia o miolo do livro Voo Doméstico de António Manuel Couto Viana. Houve que proceder à sua troca, pois os tão conseguidos poemas de Couto Viana sobre Luanda e o fim do Império não me pertenciam. Tudo acontecia como uma pequena ironia movida no cumprimento do título, já por si tomado a partir do texto «Sobre um pretendido direito de mentir por humanidade», de Kant.». Ironia que tem, como ponto de legitimação uma verdade intrínseca, íntima, que atravessa o poema e o livro como evidência e proclamação do olhar do autor perante os acontecimentos do mundo, permitindo-lhe o Direito de Mentir, de afirmar a sua própria percepção do real contra a «verdade» das evidências (aquilo que, carecendo de demonstração, se configura como revelação: «ecce ancilla domine» Lc: 1,38). Joaquim Manuel Magalhães escreverá, a propósito do livro, ser este: «expressão duma paz contemplativa de sucessivas paisagens perturbadas (…) num plano que não é o da confissão linear de sentimentos, mas que é duma afirmação emocional tensa, ora carregada de paixão, ora de euforia irónica, ora de puro registo sensorial.» (Magalhães, Joaquim Manuel — Os Dois Crepúsculos, Lisboa: «Na Regra do Jogo», 1981, p. 243).
[Nota: Este poema teve uma publicação prévia na revista «Raiz & Utopia», números 3-4, Outono/Inverno de 1977.]

