As Folhas Ardem

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Etiqueta: Mentalidades

Declaração de amor

Se não for forjada (e não me parece) esta cartinha seria divertida de ternura, não desse ela que pensar. Ou de como o sentido dos bens materiais, do “que conta”, arrasa com a graça dos arroubos amorosos infanto-juvenis. ‘Tás tramado, Jorge Daniel.

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«Os meus pais têm um Mercedes e uma casa de férias na Vieira.»

Obama – A vitória pós-racial

A vitória de Barack Obama não significa que a América ultrapassou a questão racial. Confirma que ela já estava ultrapassada. Obama não superou a questão étnica. Revelou que ela passou a ser secundária. Ele é o primeiro presidente americano pós-étnico.

As alterações sociológicas ocorridas nos Estados Unidos na última década são mais expressivas na vitória do candidato Democrata, se analisadas qualitativamente, que a avaliação quantitativa do impressionante resultado eleitoral. Quem votou maioritariamente em Barack Obama? Os seguintes grupos sociais: ‘menos de 45 anos’; ‘negros’; ‘hispânicos’; ‘independentes’; ‘moderados’; ‘maiores rendimentos’; ‘mulheres’; ‘mulheres brancas’ (há sondagens para todos os filtros!). Em que grupos perdeu?  Nos ‘homens brancos’ (por pouco, sendo que nunca algum candidato Democrata ganhou este grupo); ‘idosos’; ‘cristãos evangélicos’; ‘conservadores’, ou seja, a base mais profunda do partido Republicano. Talvez não seja possível, a partir de agora, falar em ‘estados vermelhos’ (R), ‘azuis’ (D) e ‘swinging states’. Há já quem fale em ‘purple states’.

O Colorado é um caso paradigmático. Tradicionalmente um sólido bastião republicano, deu a vitória a Obama. Pelo seu carisma? É possível. Mas, na última década, estabeleceram-se sólidas comunidades cosmopolitas em Denver, Boulder, Aspen e um pouco por todo o território. A população é constituída por 75% de brancos. So what? Este é o terceiro estado com maior crescimento populacional, em grande parte graças à migração da Califórnia (para fugir aos impostos) e à emigração, sobretudo hispânica.

Provavelmente a grande mudança política prometida por Barack Obama, o seu lema traduzido numa única palavra – change – já se dera no plano das mentalidades. Só faltava um catalisador. Nesse sentido, Barack Obama foi o homem certo num tempo histórico maduro para a sua mensagem. Talvez Obama tenha vencido tanto pela ‘questão Economia’ como pelas mutações sociológicas. Talvez o clamoroso fracasso de dois mandatos de George W. Bush seja o resultado inevitável de uma visão de um mundo que já é outro. E é esse mundo outro que vai exigir ao novo presidente um desígnio homérico: dar corpo aos seus sonhos.

'E agora? Grande sarilho!'

'E agora? Grande sarilho!'

Mudar custa

Tinha eu treze anos, foi a seguir ao 25 de Abril. Em visita ‘à terra’, cheio de certezas adolescentes e igualitárias, bebidas no espírito do tempo, vejo-me em acalorada discussão com um tio, homem lá ‘da terra’, sobre a injustiça de ganharem as mulheres metade do salário dos homens. Ouviu-me. Depois, apontando para uma pilha de sacas de batatas, resmungou: «No dia em que as mulheres acartarem o mesmo que os homens, tu tens razão». Calou-me. Aos treze anos pode-se pouco contra a geométrica lógica da mentalidade rural.

No espaço de uma geração o país urbanizou-se. Modernizou-se. Ganhou uma pátine de mundo. Tem um jornal como o Público, por exemplo, onde surge hoje, na capa, em título, «Homens continuam a ter salários muito mais elevados que as mulheres». E, em sub-título, «Portugal e Eslováquia são os países com a maior discriminação salarial da UE». Passaram trinta anos sobre a discussão com o tio da ‘terra’.

Três décadas não libertaram o lastro fundo daquilo que continuamos a ser: uma sociedade conservadora, avessa à mudança e agarrada a ideias ‘seguras’ (isto é uma generalização, evidentemente). Se já não podemos controlar as mulheres no matrimónio, ainda as temos na mão nos salários. Se já não lhes podemos dominar o corpo, os comportamentos, as palavras, ainda lhes apertamos o freio na carteira. Não vão elas gastar tudo nas Zaras, nos Shoppings, nos jantares de amigas. Em discos do Tony Carreira. Em férias para lugares quentes.

O pior é que já gastam.

Na Ásia. Mas lembra-me tanto a minha "terra"...

Na Ásia. (Lembra-me a minha "terra").