As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Mariposa Azual

Golgona Anghel — Podia fazer um bocadinho mais de esforço

 

Podia fazer um bocadinho mais de esforço,

sei lá: deixar de ser essa clepsidra cheia de neve.

Gosto da sua pose clássica,

de peitos nus debruçados sobre um futuro académico,

livros raros e bibliotecas nacionais;

mas fazia bem em tirar de vez em quando

a gravata e o chapéu,

subscrevo e recomendo, eu.

 

Você sabe, gosto de coisas triviais, sou o seu cão banal,

colecciono cabelos

nas folhas de um herbário sentimental,

sou vítima do seu produto interno bruto, objecto

em série da maneira como segura no volante,

eu imundo e encharcado,

eu a sustentabilidade da segurança social,

analfabeto, pedreiro da Lena Construções. Lda.

 

Eu fácil eu farto eu fome

com a vida marcada na pele,

 

olha-me de frente

quando gritas e esticas a pernoca.

Quem manda aqui sou eu.

Agora abre a boca.

 

Golgona Anghel, Vim porque me pagavam, Lisboa: Mariposa Azual, 2012.

 

 

«Svefn g englar II», Katarzyna Kędroń, via Deviantart (D.R.)

 

 

Golgona Anghel no site da editora Mariposa Azual

Adília Lopes — Não gosto tanto de livros

 

Não gosto tanto

de livros

como Mallarmé

parece que gostava

eu não sou um livro

e quando me dizem

gosto muito dos seus livros

gostava de poder dizer

como o poeta Cesariny

olha

eu gostava

é que tu gostasses de mim

os livros não são feitos

de carne e osso

e quando tenho

vontade de chorar

abrir um livro

não me chega

preciso de um abraço

mas graças a Deus

o mundo não é um livro

e o acaso não existe

no entanto gosto muito

de livros

e acredito na Ressurreição

dos livros

e acredito que no Céu

haja bibliotecas

e se possa ler e escrever

 

//

 

Lopes, Adília, Obra, Lisboa: Mariposa Azual, Lisboa, 2000

 

Dimitri Caceaune ©Dimitri Caceaune,via Deviantart (D.R.)

Adília Lopes no site da D-GLB

Golgona Anghel — Vim Porque Me Pagavam (dois poemas e apresentação)

Depois do tão aguardado como surpreendente e bem recebido livro de Margarida Vale de Gato (Mulher Ao Mar), de novo a Mariposa Azual edita uma autora cujo trabalho poético se aguardava há muito em livro, depois de Crematório Sentimental («Quasi», reeditado na «Livrododia»). Os poemas de Golgona Anghel,  alguns deles dispersos em publicações e blogues, prometiam nova corporização num conjunto publicado (organizado num tríptico temático), francamente estimulante até pela singularidade da voz poética da autora. Vim Porque Me Pagavam é o título da obra. Por gentileza da editora, Helena Vieira, da Mariposa, aqui se deixam dois poemas e notícia do seu lançamento, na Sexta-feira, 22 de Julho às 22:30 – 23/7 às 1:30, no Bar Bartleby, Rua Imprensa Nacional, 116, Lisboa.

Refira-se que o livro estará em venda, a partir de segunda-feira 18 de Julho (ainda antes do seu lançamento), nas livrarias «Poesia Incompleta», «Livraria Sá da Costa», «Livrarias Leitura books & living — (Livraria Leitura Campo Alegre (Porto)», «FNAC’s». Como foi feita uma edição de 300 exemplares, acorrei aqueles que gostam de poesia, os bibliófilos, os investidores em bens mais sólidos que certificados de aforro.

«od to triumphal desolation 2», shoots © soots, via Deviantart (D.R.)

 

«O mundo é estranho, Sandy!»

 

 

 O nosso é parecido com a palavra agora.

Das mãos nasce-nos uma espécie de nostalgia trémula

que na versão alemã traduziram por dipsomania.

 

 

Quando temos sede abrimos um rio

de esperas na noite dentro

e arregaçamos as calças até aos joelhos.

Não se dê que a madrugada

nos surpreenda com as cheias.

 

 

Estou com esta doença agora, but it’s ok.

I close my eyes and drift away;

I softly say a silent pray.

Não ligues nem comentes,

just press play:

 «O mundo é estranho, Sandy! O nosso é parecido.»

 

 

*****

Esta é a melhor altura do ano

para cortar o cabelo – profere Sandy,

remexendo com a ponta dos dedos

alguns fiozinhos na testa.

A porra da lua atrai as marés,

cria tsunamis, invade o Japão,

provoca uma crise nuclear,

porque é que não haveria de fazer

crescer o cabelo?

 

Deus puxa os poetas pelos cabelos, explica Hölderlin – 

acrescento então,

preocupada com a importância literária do assunto.

Mas, para ter a certeza,

quis perguntar a um especialista,

isto é, a qualquer uma das mulheres

que estavam agora a fazer fila

à entrada do Ginásio Clube Português

como os grandes bandos de antílopes Impala

à beira de um pântano,

num documentário na Animal Planet.

 

 

Quis dizer-lhes que o dinheiro, a idade não contam,

que amanhã é outro dia,

mas depois lembrei-me dos terramotos,

da crise nuclear, do IVA,

e fiquei calada.

 

 

Anghel, Golgona, Vim Porque Me Pagavam, Lisboa: Mariposa Azual, 2011.

«od to triumphal desolation 1», shoots © soots, via Deviantart (D.R.)

Links relacionados:

Página de Golgona Anghel

Oficina de Poesia para Conserto de Automóvel

 

 

Um evento inesperado, possivelmente tanto como as circunstâncias que o provocaram. Ter Margarida Ferra, Margarida Vale de Gato, Miguel Cardoso e Miguel-Manso, duas solidárias Margaridas e dois amigos Migueis lendo-se «multiplamente com críticas dos participantes» seria em si um bom acontecimento; neste caso, o pequeno drama quotidiano de uma valente mulher e amante editora de poesia transforma-se no pretexto para que o acontecimento seja virado poeticamente de patas para o ar. E do pequeno drama automobilizado, surge uma noite onde se espera que surja o inesperado. Um acto poético, pede-se, a cada um dos nossos dias. Pois aqui o têm, servido de bandeja. E o privilégio de poder dar uma mãozinha à Helena Vieira, que já nos deu tantas coisas.

 

 

embora lá ajudar a pôr o farolim no sítio

(clique para ampliar)

 

Link Relacionado:

Espaço SOU

Miguel-Manso — Balada da Rua Damasceno Monteiro

 

(à sara)

Os poetas não são augures; mas viveram impossivelmente antes o que veio depois, sentiram improvavelmente antes o que aconteceria depois; não adivinham: passam pelo que que há-de acontecer, pelo pressentimento dos segredos de uma casa, dos segredos de uma rua. O que está escondido têm  os poetas, alguns poetas, revelado para si, assim. E assim foi. Como no poema.

 

BALADA DA RUA DAMASCENO MONTEIRO


ardia de amor pela casa

numa confusão de silêncios ou

dizendo de outro modo


afundava-se numa líquida recordação cardíaca


ocultos pólen pólvora fósforos

a má reputação dos dedos

paixão cartografada remota

toponímia dos enganos


braço a braço crescia alto

o incêndio no interior do peito

deliberado ritual de lâminas e pele

a transparente certeza

da cicatriz


mas ardia de amor pela casa soturna

silêncio dando para o saguão luz muitíssimo

extinta por sobre a larga extensão destruída


morrer, principalmente de amor, é

uma compendiosa tarefa doméstica


dentro do coração antigo

serei breve


Miguel-Manso, Contra a Manhã Burra, Lisboa: Mariposa Azual, Maio de 2009

grafitti na Rua Damasceno Monteiro

Miguel Cardoso – Que se diga que vi como corta a faca

Que se diga que vi como a faca corta

Primeira livro de poemas de Miguel Cardoso, Que se diga que vi como corta a faca, com a chancela da Mariposa Azual, lançamento já amanhã, na Fábrica do Braço de Prata, conforme programa que consta na imagem. Um poema que o apresenta.

Foi esta portanto a furtiva impureza que herdámos

sem saber como, este espaço, este canto assim vago,

estes espasmos desmaiados, este tempo, este mundo,

estas arestas, estes pedaços de terra, estes dramas

de inércia e dentes pouco aguçados, os mesmos

rostos rasos ao chão, estes remorsos, estes cafés

onde nos recompomos das derrotas, este modo

de despejar os cinzeiros, estas tardes, este aclarar

da garganta para nada e os rebuçados amarelos

e doces para a tosse, a lucidez, os oscilantes sons

das campainhas, a satisfação ardente dos líquidos

raros, a gradação de intensidade das lâmpadas,

e os dias sempre os dias outra vez os dias.

Cardoso, Miguel. Que se diga que vi como corta a faca. Lisboa: Mariposa Azual. 2010.

«Candies xD, jessica plankarte salas, via Deviantart

Nuno Moura – «Vasquinho Dasse – Histórias muito pequenas e muito más»

Agora que consta estar para breve novo livro do Nuno Moura (rejubilemos), é boa altura para lembrar, dez anos depois, a publicação de O Livro dos Livros ou (respiremos fundo) «Hélice Fronteira – gosto dos mesmo livros que tu. Regina Neri – o monstro do entrepernas. Vasquinho Dasse – histórias muito pequenas e muito más. Ivo Longomel – piudefule. Adraar Bous – beauty conteste talcum powder. Robes Rosa – teatro para cães. Estevão Corte – estudo sobre a sexta-feira 13. Alexandre Singleton – relatório & contas». O volume, de 307 + V páginas, ainda pode ser encomendado no site da Mariposa Azual e serão os 9,80€ mais bem gastos para quem goste, claro. E para quem queira conhecer. Do “Indiciado” Vasquinho Dasse 123 textos, histórias muito pequenas e muito más. Aqui se deixam as primeiras seis.

"Rescue Me", succhio.luce © succhio.luce via Deviantart


1.

Uma mulher vai na parte mais bonita da rua.


O seu gelado passa de boca em boca no passeio contrário

mas pouco dos galos a combusta.


Apetece-lhe chegar a casa e pôr a cabeça sobre os pêlos

do peito.


Ficava-lhe bem uma barba postiça lá para baixo

mas há muito tempo que não o faz.


Um cigarro antes de ir dormir.

Um beijo para acordar o charlie brown.

A camisola da ginástica perto do saco perdido de frio.


2.

Foi trágico.


O homem respondeu ao assobio para cão.


3.

Nos quartos por cima do alterne viking choque dance bar

uma mulher veste uma roupa própria para sair.


Não diz nada ao príncipe nem às colegas.


4.

Na cervejaria número noventa à esquina

em fora de horas

o feiticeiro não resiste em levar um chocolate para os

seus miúdos.


5.

A c-mais-s tinha instalações com pessoas dentro de

cadeiras

em salas abrancadas.


Como ele esperava uma aparição, tinha os olhos

vermelhos.


Acendeu o cachimbo. Atrasada como sempre ela viria

para a aula

das oito e meia.


Quando ele for o reitor, ou o governador, vai dizer que

quer governar muitos anos

e a rapariga vai dar-lhe um grande beijo entre as pernas.


Para ela é abraçar o poder.

Para ele é o cheiro do cloro que ela traz depois dos

treinos.


6.

Apanhou um táxi e disse, – um desastre quanto é?

MOURA, Nuno, “O Livro dos Livros” (Hélice Fronteira – gosto dos mesmo livros que tu. Regina Neri – o monstro do entrepernas. Vasquinho Dasse – histórias muito pequenas e muito más. Ivo Longomel – piudefule. Adraar Bous – beauty conteste talcum powder. Robes Rosa – teatro para cães. Estevão Corte – estudo sobre a sexta-feira 13. Alexandre Singleton – relatório & contas), Lisboa: Mariposa Azual, 2000.

Margarida Vale de Gato – Mulher ao Mar

Mulher ao Mar” é o título do aguardado primeiro livro de poemas de Margarida Vale de Gato*, mais conhecida pelo seu reputado trabalho de tradutora, mas com alguns trabalhos poéticos no mínimo impressionantes, “espalhados” online (dois deles publicados no primeiro número da Sulscrito, Verão de 2007) surge finalmente, com a chancela da Mariposa Azual. O lançamento será no Domingo, dia 25 de Abril, com apresentação de Hélia Correia (ora toma), e leitura de poemas. Começará às 21h, no Espaço Sou, Rua Maria 73, em Lisboa; e continuará com um apropriado “Baile da Revolução”.

Por amabilidade de Helena Viera, editora da Mariposa Azual, junto se dão a conhecer dois poemas do livro, trabalhos de notável depuração e destreza formal; uma poética cortante, incisiva como um estilete (os estiletes brilham).

Declaração de Intenções


Para aqueles que insistem diluir

isto que escrevo aquilo que eu vivo

é mesmo assim, embora aluda aqui

a requintes que com rigor esquivo.


À língua deito lume, o que invoco

te chama e chama além de ti, mas versos

são uma disciplina que macera

o corpo e exaspera quanto toco.


Fazer poesia é árido cilício,

mesmo que ateie o sangue, apenas pus

se extrai, nem nunca pela escrita


um sólido balança, ou se levita.

Então sobre o poema, o artifício,

a borra baça, a mim a extrema luz.


***


Psyché a Eros


tanto tempo casta

tanto tempo apenas

admirada, nunca

amada, agora

presenças transparentes

me atendem

de dia impaciente

conto as horas

que impedem tua chegada


virás como sempre

trajando o manto

do homem invisível

de noite vens velar

o pranto previsível

promessas leves

que a dor é breve

preliminar do amor

que me atravessa


no reverso da língua

que lambe a mão

e sorve o leite

surde o azeite

que queima o dorso

do corpo ocre


o atirador

rechaça a corda

do arco terso

a flecha

corta.


*Margarida Vale de Gato nasceu em Vendas Novas em 1973. É tradutora de inglês e francês para português, tendo vertido textos literários de diversos autores, como Lewis Carroll, Christina Rossetti, Oscar Wilde, W. B. Yeats, Kirsty Gunn, Herman Melville, Henry James, Sharon Olds, Tim Burton, George Sand, René Char, Henri Michaux e Nathalie Sarraute. Está a terminar uma dissertação de doutoramento sobre Edgar Allan Poe em Portugal, sendo investigadora do Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa. Publicou poemas e contos em revistas e antologias portuguesas e internacionais de repercussões homeopáticas. [Nota biográfica obtida aqui]

Daniel Maia-Pinto Rodrigues – A Casa da Meia Distância

Bons acontecimentos colorem os dias. A Mariposa Azual volta a publicar poesia, neste caso de Daniel Maia-Pinto Rodrigues, já com um longo percurso de escrita, animação e divulgação. Confiando inteiramente no critério de Helena Vieira, editora da Mariposa Azual, aqui se deixa o texto de apresentação, a belíssima capa (autoria de Luís Batista) e um poema, em pré-publicação, escolhido pela própria editora. É longo, singularmente longo no meio dos poemas que compõem o livro, este poema n.º 54. Ler, por vezes, pede-nos tempo. Depois devolve.

A Casa da Meia Distância será lançado no Porto, dia 10 de Fevereiro, às 21h30m (Bar Labirintho)

Declaração de interesses: publica-se este poema, antecedendo o lançamento do livro, não por amizade para com a editora. Mas por ter gostado dele, poema.

*

“Como se chama o lugar onde ficaram os nossos sonhos, Quando tivemos que sair?
O novo livro de Poesia de Daniel Maia-Pinto Rodrigues -A CASA DA MEIA DISTÂNCIA, depois da consagração dos dispersos na Antologia DIÓSPIRO (Quasi Edições, 2007), é um regresso, um retorno ao poder das pequenas coisas.
Quietas. Simples. Suspensas. Que ficaram nesse limbo – A meia distância.
A distância que por certas vezes sentimos que se coloca entre nós e a nossa vida; entre as palavras e as coisas; entre o céu e a terra; entre o antes e o depois.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues nasceu no Porto, em 1960, cidade onde vive desde sempre. Autor de uma considerável obra que inclui poesia, romance e novela, é uma figura da cena literária do Porto, por ter sido um dos animadores, dizedores, divulgadores de poesia no Pinguim Bar, nos idos anos de 80 e 90.
Entramos na casa.
Regulamos a nossa própria altura pela altura desta casa. A porta é baixa. Obriga a dobrar um pouco o pescoço e a flectir os joelhos para podermos entrar nas suas salas de paredes claras e um pé-direito confortável para humanos.
Registamos o aviso / epígrafe da velha fábula de la Fontaine. A infância-raposa, continua à procura de uvas maduras nos livros.
Mais uns passos e passamos pela Definitiva História de Julian, o Pastor.
Entramos, pé ante pé; a porta ficou entreaberta desde os anos 80, quando um grupo de mulheres e um homem aqui passaram umas férias de Verão.
Percorremos, devagar, os seus 64 cantos / 64 poemas / 64 pausas. Espaços da casa / espaços do livro / takes do tempo.
Uma voz suave e doce guia as nossas descobertas. Revelações, inconfidências, provocações, relatos. Brincadeiras. Levezas.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues é o biógrafo deste tempo e deste lugar. Regista o seu pulsar. Guarda os factos, a imaginação, o desejo, a luz desses dias, a frescura dessas noites.
O livro / casa desfilou diante de nós. É hora de partir. Chegou a melancolia, essa outra doença do tempo. Anuncia-se o momento em que é preciso SAIR DA CASA UTÓPICA PARA IR MORRER À REALIDADE.
Mas antes da despedida, ainda vamos a tempo de aceitar o convite e voltar ao VERÃO 77 – POP DAYS em ESPOSENDE.”

– Helena Vieira

Daniel Maia-Pinto Rodrigues é o autor das seguintes obras publicadas:
Vento, Edição de autor, Porto, 1983
Conhecedor de Ventos, Ed. Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Porto, 1987
A Próxima Cor
, Ed. Pinguim Poesia Bar, Porto, 1983, ( Prémio Nacional Foz Côa/86 -Menção Honrosa Novos Valores da Cultura, 1988)
O Valete do Sétimo Naipe, Ed. Felício Cabral Publicações, 1994, com prefácio de Mário Cláudio
O Céu a Seu Dono, Co-autoria com João Gesta, Ed. Edicións Positivas, Santiago de Compostela, 1997
A Sorte Favorece os Rapazes, Ed. Fundação Ciência e Desenvolvimento / Teatro do Campo Alegre, 2001
O Afastamento Está Ali Sentado, Ed. Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2002
O Diabo Tranquilo – Co-autoria com Isabel Rio Novo; pósfacio de Pedro Eiras, Ed. Campo das letras, Porto, 2004
Malva 62, Pósfacio de Manuel António Pina, Ed. Quasi Edições, Vila Nova Famalicão, 2005
O Corredor Interior (romance), Ed. Clube Literário do Porto, Porto, 2006
Dióspiro –Poesia Reunida 1977-2007 (antologia com selecção e organização de Luis Miguel Queirós e José Carlos Tinoco), Ed. Quasi Edições, Vila Nova Famalicão, 2007
Os seus poemas integram várias e importantes Antologias de Poesia Portuguesa Contemporânea, incluindo a monumental “Poemas Portugueses. Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI”, de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, que lhe dedica mais de 20 páginas, apresentado-o como um poeta central dos anos 60 do sec. XX.

Capa de Luís Barata © Mariposa Azual (clique para ampliar)

54

Acho que estou a precisar de ir descansar. Vou para o meu quarto,
que sei perfeitamente onde fica.

Lembro-me de outrora ter escrito livros, de ter
falado de bosques.
Agora só tenho no meu quarto
um armário cheio de pequenas gavetas,
fechadas por alguém ou por mim há muito tempo.

Um solitário feixe de luz incide no armário,
parece vir enfeitado de lampadazinhas coloridas,
conhecidas também por colours of the rainbow.
Naquela gaveta poderá estar um perfil de telhados – silhueta trespassada
pelo grande sol frio do fim da tarde.

Lembro-me de outrora ter falado de bosques…
Naquela gaveta poderá estar o espelho longevo
com seu insubstituível reflexo de divisões infantis.

Quatro ou cinco gavetas terão uma praia
que se estende com a luz matinal
a varar as distâncias.

Outras terão as abas dos guarda-sóis
com o som que fazem quando lhes dá o vento.

Tenho um armário com as imagens separadas
que tão a sós não fazem um poema.

A perenidade ao sol
de Françoise a beber o mazagrin
também deve estar em alguma gaveta.

Não faço ideia da gaveta em que estará a tarde
que decorre com esplanadas ao fundo
e onde tudo quanto se move
é descontracção e alegria.

Fátima oferece-me água da Serra da Penha
numa gaveta que exista e que seja secreta.

Em que gaveta estará o menino a lamentar-se aos pais
por o caranguejo que apanhara
já não estar no balde que trazia?

Françoise bebe agora um cocktail, talvez de ginger ale.
Mas não sei em que gaveta. Se bem me recordo, contemplava um soleil couchant,
kitsch, ele também, por sua vez, mas lindo até ao fim do mundo.

…………………………………………………..
distantes margens delineando a noite,
pontilhadas por pequenas iluminações esparsas
que parecem só existir assim, vistas de longe.

Dentro desta gaveta estou eu com dezassete anos, no pinhal ao sol,
com duas latinhas de lulas e a minha ideia de poesia.

Aquela gaveta, que parece mais privada,
seria a que as mulheres daquele tempo escolheriam
para retocar nos lábios o bâton cereja.
E nesta, mais notória,
estarão os cães a ladrar e a caravana a passar.

Tenho ideia de que será nesta gaveta – bem, ou talvez nesta –
que se poderá encontrar Françoise
a soltar o seu cabelo castanho de francesa.
Mas, por exemplo, não faço a mínima ideia
onde possa estar a brisa suave que ameniza a temperatura de Agosto,
nem a gaveta que guarda o relógio que nunca pára
e que agora, muito naturalmente, assinalará as banalíssimas onze da manhã.

É provável que no armário já não exista nenhuma gaveta
com o entusiasmo do mar sobre os penedos. É provável que já não haja
nenhuma gaveta vaga para a senhora de apelido Araújo
e para as palavras límpidas que de olhos nos olhos dissemos,
enquanto – na voragem exterior a nós – lhe dedicava um livro
e lhe entregava nesse olhar os meus últimos feixes
de vitalidade, os meus mais raiados votos de que fosse feliz.
Não mais a verei, amável senhora,
inteligente e bonita senhora sensível. Não mais a verei,
e vim para esta casa com essa amargura.
Porque penso que a poderão interessar, procure as palavras
de Isabel Rio Novo sobre a Dimensão Fantástica.
Presumo que as encontrará com facilidade nos recentes dispositivos tecnológicos.
E procure também a própria Isabel Rio Novo; encontrá-la-á
ao seguir pela escada que dá para o lado do mar.

Senhora de apelido Araújo, esta foi a forma que tive de comunicar
consigo. De lhe dizer que acredito em si. De lhe dizer
que acredito na Nova Mulher, com a Qual (movimentos democráticos
de cariz feminista) me estanciei no lindíssimo período da minha mocidade. Essa [Mulher
é ainda hoje a minha Mulher favorita. E agora, desta vez, sugiro-lhe
que procure Ana Luísa Amaral, encontrá-la-á com facilidade onde estiver a [acontecer
a boa educação.
Mostre a sua existência, caríssima senhora Araújo, mostre o seu valor,
mostre que não é uma metáfora deste texto. E exista tal qual é,
ouça, tal qual é, não pusilânime, não petulante feita à pressa, não solerte
miserabilista, não carneirinha da manada, e sabendo
– como bem o sabe – que o azedume não é sinónimo de raciocínio,
antes sim, como facilmente se compreende
(só os próprios azedos não o compreendem por nada saberem raciocinar),
sinónimo das próprias frustrações.
esta foi, bela senhora de apelido Araújo, a forma que tive de comunicar
consigo, a forma que encontrei para lhe poder dedicar as duas próximas estrofes.

Crianças de aldeias, crianças a quem na infância acenei
do vidro traseiro do automóvel rápido
e que ficaram pelos caminhos a brincar ao verão,
sem que para isso precisassem de conhecer praias.
O que foi feito de vós?
O que fizestes aos vossos sorrisos puros?
Como eu gostava que a minha vida vos tivesse oferecido uma gaveta!
Choro agora de tantas saudades por tão breves instantes.

Raparigas contentes em suas roupas claras,
em suas roupas claras sobre os seios que cresciam,
amei-vos sem nunca mais vos ver,
amei-vos por nunca mais vos ter visto,
amei-vos intensamente, como a qualquer coisa que se desprende
e se perde da nossa lembrança de saber o quê.
Em mim ficastes a pertencer às distâncias cheias de luz,
diluídas agora, e ainda mais, pelas minhas lágrimas.
Neste momento, tardio, em que é de mim que me despeço,
entregar-vos-ia, no melhor gesto da vida, o meu armário todo.

A baleia encalhada deve estar nesta gaveta maior,
e nestas ao lado estarão as pessoas transportando água do oceano
para lhe verter no dorso.
Se de facto é nesta gaveta maior que está a baleia,
é por aqui que está o marinheiro da luz pálida e molhada,
a comunicar que mais nada se podia fazer;
a baleia tinha morrido.

Lembro-me de um dia ter escrito livros, de ter
falado de bosques.
Agora só tenho no meu quarto
um armário cheio de gavetas
fechadas por alguém ou por mim há muito tempo.

Um armário com imagens separadas
que tão a sós não fazem um poema.



Isto é um ‘press-release’, sim senhores, Contra a Manhã Burra

Envia-me a Helena Viera, da Mariposa Azual, a seguinte informação, que transmito com muito gosto:

Miguel-Manso escreveu e editou CONTRA A MANHÃ BURRA em 2008.
A pequena edição de 250 cópias editadas pelo autor, esgotou rápida e surpreendemente.
Manuel de Freitas e José Mário Silva deram pelo caso e informaram das muitas razões
pelas quais devíamos prestar atenção a este livro.
Nuno Moura trouxe o texto à Mariposa Azual para que a palavra continuasse a circular.
A 2ª edição está disponível 5ª feira, às 21h, na associação crew hassan, Lx,
em ambiente de Festa.
apresentação do livro –  João Pacheco
leitura de alguns poemas pelo Miguel-Manso
e alguns temas originais do estreante grupo – Babilónia Reduzida.
'Bora lá de noite, de manso, contra a manhã burra'

'Bora lá de noite, de manso, contra a manhã burra'

Novos Poetas (39) – Miguel-Manso

Dois em um: aproveita-se para relembrar o número zero da revista Índice, já comentada neste blogue, cujo número zero ainda terá exemplares disponíveis. Como são gratuítos, pode sempre tentar pedir-se um exemplar à Mariposa Azual, editora responsável da publicação (esperemos que a Primavera traga o desejado número um); aproveita-se para relembrar Contra a Manhã Burra, o livro de Miguel-Manso, do qual, naquele número zero da Índice, se publicaram dois poemas. Em Setembro do ano passado. Antes de ser ‘descoberto’ pela generalidade dos media de grande circulação. Sobre o autor, igualmente, já se escreveu aqui no blogue.

Dois em um: dois poemas no mesmo post.

PASSAGEM DO AUTOR


a manhã abriu

à primeira

gaivota


decidiu mais uma

vez largar o mundo

tentar a cicatriz litoral do êxito


mar do lado direito do carro

o frio nos dedos agora limpos de tabaco

a primeira luz


mãos oceânicas

seguram o negro volante

amanhecido


pensa

no mais argênteo comércio

do peixe


é dos que choram no cinema

e depois saem dissimulando

o rosto

 estrada perdida V © paulO lisboA, Olhares, Fotografia online

estrada perdida V © paulO lisboA, Olhares, Fotografia online

RETRATO de ÂNGELO de LIMA


Sílaba quente

No rumo da frase até à sílaba fria

De Ninive


Da cabeça

uma claridade de tijolo nas

cousas do olhar


desde Chu-Si a Kuan-Su

sobre a mesa de jóias eu agradeço

à criança da razão verde


milhões de vezes

a pirâmide inversa até à

coluna eterna do


poeta Ângelo de Lima

acreana queda em estática face

a pose derramada de

mia soave

the FUNERAL © Mark Freedom, Olhares, Fotografia Online

the FUNERAL © Mark Freedom, Olhares, Fotografia Online

Sob o signo de Llansol

Com entusiasmo, Helena Vieira, directora da Mariposa Azual e sócia activa (se bem a conheço, hiper-activa) do Espaço Llansol, faz chegar a notícia da evocação de Maria Gabriela Llansol, dia 24 de Novembro, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Sintra. É a data de nascimento da escritora que se celebra e serve como convocação do evento, onde serão apresentados dois livros dedicados à sua obra (ver, Programa, abaixo), ambos editados pela Mariposa Azual, na nova colecção, já aqui anunciada, Rio Da Escrita. Como não é todos os dias que podemos encontrar Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça comentando obras de João Barrento e de Maria Etelvina Santos, (havendo ainda lugar à leitura de fragmentos dos Cadernos Inéditos a cargo de Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça, sendo que os próprios autores das suas obras falarão, estamos perante um acontecimento cultural que deve ser acompanhado e, de preferência, presenciado. A entrada é livre. Não me consta que haja croquetes e tapas, com copinhos de porto e sumo de laranja. Se assim for, ainda bem. Se houver, olha…

PROGRAMA

MARIA GABRIELA LLANSOL
Um Lugar e um legado

Sessão evocativa e lançamento de livros
Biblioteca Municipal de Sintra
24 de Novembro de 2008, 18 h.

• João Barrento: «Llansol entre nós»
• Maria Etelvina Santos: «M. G. Llansol – Um registo de vida»
• Leitura de fragmentos dos Cadernos inéditos por
Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça,
• O espólio de Maria Gabriela Llansol: uma visita virtual

• Helena Vieira apresenta a Mariposa Azual
• Apresentação dos livros da nova colecção «Rio da Escrita»,
da editora Mariposa Azual:

• Como Uma Pedra-pássaro que Voa. Llansol e o improvável da leitura

de Maria Etelvina Santos, por José Tolentino Mendonça

• Na Dobra do Mundo. Escritos LLansolianos, de João Barrento,

por Gonçalo M. Tavares

(APOIO: Câmara Municipal de Sintra)

'Na Dobra do Mundo. Escritos Llansolianos'. João Barrento

'Na Dobra do Mundo. Escritos Llansolianos' - João Barrento

'Como uma pedra pássaro que voa' - Maria Etelvina Santos

'Como uma pedra-pássaro que voa' - Maria Etelvina Santos


Novos poetas (XV) – Hugo Milhanas Machado

Publicado na Índice (nº zero), um poema de Hugo Milhanas Machado (1984), que ultima a edição de Mas Que Hei-de, na colecção O Rio da Escrita, na Mariposa Azual.

A caminho da cama


Hoje que se deitou cedo se chovia

que maravilha estamos afinados.

Que se dormiu pouco que tanto fazia

vem por aí gente que se conhece e

juro que alguma palavra me aborrece

assim deitada junto das outras e

perguntam se estão bem se é aqui e

se não tem no texto mais ninguém

que não querem no texto mais ninguém

e o que na boca acontece

a minha e a tua bem de ver

que parece que andamos à turra

mas estamos apenas a caminho da cama

gostamos do engano desta trama minha

e dessa trauma tua se não me engana

agora que se se deitou cedo e chovia

e combinamos jantar mais logo

telefonas tu e telefono eu.

Salamanca, 29 de Abril de 2008

Hugo Milhanas Machado, in revista Índice nº 0, p. 49, Mariposa Azual, Lisboa, 2008

2 in motion III © DDiArte, olhares, Fotografia online

2 in motion III © DDiArte, Olhares, Fotografia online

Índice – uma nova revista de livros e cultura

Chegou-me às mãos o número zero da Índice, uma “nova revista dedicada aos livros e à cultura“. Na ficha técnica: “Esta edição foi realizada sob a influência do texto de Maria Gabriela Llansol e a saudade de ler Eduardo Prado Coelho“. O projecto diz, com clareza, ao que vem: “Uma revista dedicada aos livros, aos autores, aos editores, aos livreiros, aos leitores de todas as espécies“. Anuncia uma periodicidade trimestral e 10.000 (!) exemplares a partir do número um.

O que nos traz a Índice? Objectivamente um conceito (palavra que uso com pudor e à falta de melhor, porque me desagrada de todo) transversal nos seus conteúdos, acolhendo novos autores e nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea. Nela pode encontrar-se o ensaio, a leitura crítica, breves textos em prosa, poesia, evocações, divulgações, textos sobre música, entrevistas. E uma distribuição de publicidade – uma espécie de caderno no miolo da revista – que tem a vantagem de a isolar do resto dos conteúdos, conseguindo, com isso dar-lhe acrescido destaque. Não será portanto, de admirar a ambição dos editores, que estimam ter um público-alvo de 60.000 leitores. Haja quem ouse, neste ‘portugalinho.’ Sem pretensiosismo, sem pertença a clube, tendência, ‘seita’. A liberdade sente-se à solta na Índice.

Tendo Helena Vieira como ‘dínamo’, a Índice é da responsabilidade da Mariposa Azual (a Casa), editora de que já aqui se falou. (Sai ao mesmo tempo que a ‘Mariposa‘ parte para outra aventura, uma nova colecção, O Rio da Escrita, com três títulos já na forja, de que falarei um destes dias).

O que há a reter neste número zero da Índice? A publicação de três fragmentos (belíssimos) dos “cadernos inéditos de Maria Gabriela Llansol“, em primeiro lugar. Mas também um texto original de José Luís Peixoto escrito especificamente para o lançamento da Índice. Maria Etelvina Santos oferece-nos Maria Gabriela Llansol. A Música da Caixa de Leitura, um texto breve e emotivo sobre o acto de ler enquanto estabelecimento de uma ordem de realidade, na senda do pensamento de Llansol, (texto que prenuncia o ensaio que publicará na referida colecção O Rio da Escrita, sob o título Maria Gabriela Llansol – Como uma pedra-pássaro-que voa; João Barrento retoma excertos de um notável texto de 1984, em Sem mim falta-me qualquer coisa… a propósito de Os Universos da Crítica, obra referencial de Eduardo Prado Coelho. de Gonçalo M. Tavares temos a reprodução da 1ª página de Jerusalém, que, aqui, recontextualizado, ganha novas matizes. E, depois, a poesia de Nuno Moura – devoção acrítica – Tiago Araújo, Hugo Milhanas Machado, Paulo Condessa, Miguel-Manso, João Saboga (neste caso com duas cenas de uma peça ainda não acabada). Todos estes autores merecem atenção, a ver se consigo dar-lha. Sinalizem-se ainda, os textos de Carla Baptista (Paisagem com mulher e mulher ao fundo, ainda com Prado Coelho como tema); de Marta Lança Abandonar os Livros, sobre a leitura enquanto ‘ritual’, de Cláudia Tomaz, Performances híbridas, elaborando sobre as artes performativas. Finalmente, ainda de Marta Lança, um excerto em tradução livre de um lindo poema, Cahier d’un Retour au Pays Natal (1939), de Aimé Césaire; e uma página de um diário de viagem (?) de Pedro Vieira de Moura, Soderno, copita de limón!. Quase saltava por cima do trabalho de Frederico Pereira, recolhendo as palavras de seis editores sobre a leitura e o seu significado numa perspectiva pessoal.

Pois. É bastante. É muito, para um número zero. O grafismo (notável capa) é talvez o plano onde a revista deva investir um pouco mais, mas pode ser apenas uma questão de gosto pessoal.

Como não é todos os dias, que nascem coisas destas, olhem, sejam valentes e descubram coisas mais raras  e valiosas que o último modelo de LCD da Samsung, está bem?

*

Sem procuração, autorização, solicitação ou qualquer outro ‘ão’ que não seja comoção, aqui se deixa um dos três fragmentos dos “cadernos inéditos de Maria Gabriela Llansol“. Particularmente feliz nesta revista, onde tudo se congrega para uma ideia central: o transtorno luminoso da leitura.

Ler, ou seja,

vestir o que leio, em

imagem


Não desenho, mas

capto as linhas do

desenho.

Sei qual é a

carne da cor e da

imagem_______

Maria Gabriela Llansol, Caderno nº 51, 20 de Junho de 1998

Revista Índice. Capa do número zero.

Revista Índice. Capa do número zero.

Rectificação

Entendo os blogues como um meio de expressão (singular, colectiva) com características únicas, onde múltiplas vozes, a transversalidade social em todos os azimutes, encontra um espaço e um tempo de manifestação próprios, marcados em norma por factores identitários e por uma grande amplitude na liberdade de ‘dizer’.

Liberdade essa que conduz, a alguma responsabilidade, a uma ética que confira credibilidade à voz que se exprime. As palavras pesam. Mesmo na blogosfera. Sobretudo na blogosfera (mais que no “24 Horas“, garanto).

Por isso, desde que iniciei este blogue, tenho procurado, o melhor que sei, encontrar a linha do rigor. Eis senão quando sou confrontado com o facto de ter escrito informação grosseiramente errada no post onde invocava Nuno Moura. Reponham-se já os factos.

A editora Mariposa Azual é propriedade de Helena Vieira, que é fundadora da casa. E não de Paulo Condessa, como referi. De igual forma, foram Helena Vieira e Nuno Moura (fundador da ‘Mariposa’ e, na altura, ainda ligado a ela) os responsáveis pela proeza – o adjectivo ajusta-se a um projecto que afirma “a literatura é uma potência muito pequenina” – de ter publicado a “Obra” de Adília Lopes, com ilustrações de Paula Rego. E é a Mariposa Azual (e, portanto, Helena Vieira, em conjunto com um grupo de ‘cúmplices’) que está na origem da Revista Índice.

Vale a pena visitar o site da Mariposa. E da Índice, cujo número Zero já foi editado e com número Um marcado para Dezembro. Darei também notícias aqui, à medida que as for tendo. É que a infelicidade do erro trouxe a felicidade de um reencontro. Há males que vêm por bem.

Agora o blogue pode continuar.

Novos poetas (V) Nuno Moura

(por conter incorrecções factuais, este post foi editado (rasurado é mais verdadeiro), e já se encontra rectificado no blogue.)

Pronto, estilhaçam-se definições sobre o que são os ‘novos poetas’. É Nuno Moura que me apetece convocar, mesmo com livros publicados na década de noventa, ele hoje já muito dentro dos trinta.  Autor de obra singular, voz torrencial, surrealizante, lírica e agónica, irónica e prenhe de doçura, por vezes visceral até ao osso (Calendário das Dificuldades Diárias, &etc, Setembro de 2002). A escrever como um condutor em contra-mão numa auto-estrada.

Lembro-me dos empenhos juvenis em que se meteu para publicar o seu primeiro livro – que pagou a uma fazedeira de edições, a Signo – Não saia nem entre após aviso de fecho de portas (1992, 1.200 exemplares!). Lembro-me do entusiasmo com que abriu uma pequena editora, a Mariposa Azual, (agora parece que gerida por Paulo Condessa, seu companheiro de aventuras) que cometeu a proeza de publicar a Obra de Adília Lopes (15 livros reunidos) e a proeza maior de conseguir para a mesma três ilustrações de Paula Rego. Lembro-me do seu afã em sessões de leitura de poesia, onde acontecia sempre algo de inesperado e surreal (e acabava por lhe acontecer sempre algo de surrealmente inesperado). Lembro-me do excesso, do compromisso feroz entre a vida e a poesia, tão anacrónico e comovente. Lembro-me do inacreditável nome – apenas o nome, este nome, é um acto poético – do livro Nuno Moura e Mariposa Azual apresentam os livros Hélice Fronteira – gosto dos mesmo livros que tu Regina Neri – o monstro do entrepernas Vasquinho Dasse – histórias muito pequenas e muito más Ivo Longomel – piudefule Adraar Bous – beauty conteste talcum powder Robes Rosa – teatro para cães Estevão Corte – estudo sobre a sexta-feira 13 Alexandre Singleto – relatório & contas (Mariposa Azual, 2000). Sei que está envolvido em nova aventura, o lançamento da Revista Índice, no dia 11 de Setembro (20.000 exemplares? 60.000 de ‘audiência’? Tão excessivamente típico que pode ser mais uma pirueta do ‘Comediante’.) Deixo um excerto de Calendário das Dificuldades Diárias, coisa que não se deveria fazer, por impossível de ser retirado do seu contexto, mas… É livro para se ler do princípio ao fim, de um fôlego, até nos faltar o fôlego. Onde andas, Nuno Moura?

(…)

Hoje é o dia dos teus anos e mais uma vez o dia dos teus anos é escuro e frio, chove no meu terraço, caem gotas de água grande ao meu lado, vou lá meter a cabeça? A chuva vai trazer-me paz e amor? A chuva vai lavar-me? Lava-me tu. Lava-me tu.

(…)

Nuno Moura, in Calendário das Dificuldades Diárias, Diário, p. 31, &etc, Lisboa, 2002.

Andando pelos carris de Lisboa II © Raul Rebelo, Olhares, fotografia online

Andando pelos carris de Lisboa II © Raul Rebelo, Olhares, fotografia online