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Herberto Helder – O Poema/I

 

Ainda as escolhas de Maria Alzira Seixo (em os poemas da minha vida). O poema de Herberto Helder e o breve comentário aposto ao mesmo.

 

O POEMA/I


Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne.

Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.


Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

rios, a grande paz exterior das coisas,

folhas dormindo o silêncio

— a hora teatral da posse.


E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.


E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único, invade as casas deitadas nas noites

e as luzes e as trevas em volta da mesa

e a força sustida das coisas

e a redonda e livre harmonia do mundo.

— em baixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério.


— E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

 

 

Head of J. M. II © Frank Auerbach (D.R.)

 

(nota de leitura de Maria Alzira Seixo)

[Com Herberto aprendemos sempre que o poema é, em termos de linguagem, construção e objecto, e damos conta do seu incomensurável poder. Só a ele ficarão incólumes os analfabetos, e é da responsabilidade de todos que eles deixem de existir, por este meio também.] – Maria Alzira Seixo.

Ligações Relacionadas:

sobre Herberto Helder

sobre Herberto Helder (em língua inglesa)

sobre o poema

António Feijó – Anacreôntica

Respigado da selecção de Maria Alzira Seixo no livro da colecção Os Poemas da minha Vida, editada pelo jornal Público, este soneto de António Feijó, que valerá o que nele se conseguir encontrar e gostar. Muito encontra, na breve mas incisiva nota de leitura, Maria Alzira Seixo (que pode ser lida no final do poema).

ANACREÔNTICA


Teu rosto é como

Um róseo pomo

Que eu só desejo

Morder num beijo


Último tomo

De amor que eu domo

Enquanto almejo

O grato ensejo…


O afecto que

Me enchera de

Paixão fatal


Vê com ardor

Teu belo cor-

po escultural!

Feijó, António, in Maria Alzira Seixo – Os Poemas da Minha Vida, Lisboa: Público – Comunicação Social, S.A., 2005.

«Anacréon», Eugène Guillaume, Musée d'Orsay (d.r.)

(nota de leitura de Maria Alzira Seixo)

[Uma fase decisiva para o conhecimento da poesia é a que encontra as antologias de Líricas Portuguesas, da Editora Portugália, nas suas quatro séries, organizadas por José Régio, Cabral do Nascimento, Jorge de Sena e António Ramos Rosa. Uma possibilidade de experiência única para o leitor de poesia. Os pórticos das antologias são momentos privilegiados, e a segunda série abre com este inesperado poema do autor das Bailatas. A sua metrificação rara e a quebra do verso, então pouco usual, comunicam um erotismo directo e algo irónico, estecticista e distante, que como que confunde o corpo do amante com o corpo do poema.] – Maria Alzira Seixo.

Ligações relacionadas:

António Feijó (nota biográfica e alguns poemas do autor)

Maria Alzira Seixo