Margarida Vale de Gato — Há-de ser pelo meio da pele que se começa
Há-de ser pelo meio da pele que se começa
(dialogo em verso, adaptado de texto dramático em curso)
Queiramos florir. Tenho um botão a brotar,
Uma pétala da tua casca corroída,
Gostava de tocar-lhe e untá-la de manteiga
Comer-me? Encostar-te à face derretida.
Serias quente se te tocasse, ou meiga
Ou viscosa. Não importa, É mais fundo
trocar de pele do que tocá-la. Cercear
o cordão do desejo, o impulso da ternura.
Nem ventre, entranhas, seios, muito menos olhos;
há-de ser pelo meio da pele que se começa
Esfolada, curtida, envergada às avessas!
O inverso é um truque fácil, que não colhe…
Então quê? Então isto [acto à escolha]
Deixa marca? A intenção não era essa
Deixa marca? Deixa que embeba e humedeça.
Sinto que escorre nos pêlos que se molham.
Devemos esquecer, despovoar o mundo,
E isso inclui os pêndulos e os afectos.
Mas há uma anamnese da pele e da sutura,
E há sonhos que empurram como água. Estas
coisas, usemo-las para desmanchar os véus
que os sentidos usam para ligar objectos.
Aceitemos, um e outro, esvaziar os gestos
Até voltarmos de ventas à torneira de Deus.
Gato, Margarida Vale de, revista INÚTIL número 3, Novembro de 2010
• Artigo de Pedro Mexia sobre «Mulher ao Mar» (primeiro livro de poesia da autora), originalmente publicado no suplemento Ípsilon do jornal Público de 7 de Maio de 2010, via blogue (cerc)ARTE.
• blogue da Revista INÚTIL



