As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Margarida Vale de Gato — Há-de ser pelo meio da pele que se começa

 

Há-de ser pelo meio da pele que se começa

(dialogo em verso, adaptado de texto dramático em curso)

 

Queiramos florir. Tenho um botão a brotar,

Uma pétala da tua casca corroída,

Gostava de tocar-lhe e untá-la de manteiga

Comer-me? Encostar-te à face derretida.

Serias quente se te tocasse, ou meiga

Ou viscosa. Não importa, É mais fundo

trocar de pele do que tocá-la. Cercear

o cordão do desejo, o impulso da ternura.

 

Nem ventre, entranhas, seios, muito menos olhos;

há-de ser pelo meio da pele que se começa

Esfolada, curtida, envergada às avessas!

O inverso é um truque fácil, que não colhe…

Então quê? Então isto [acto à escolha]

Deixa marca? A intenção não era essa

Deixa marca? Deixa que embeba e humedeça.

Sinto que escorre nos pêlos que se molham.

 

Devemos esquecer, despovoar o mundo,

E isso inclui os pêndulos e os afectos.

Mas há uma anamnese da pele e da sutura,

E há sonhos que empurram como água. Estas

coisas, usemo-las para desmanchar os véus

que os sentidos usam para ligar objectos.

Aceitemos, um e outro, esvaziar os gestos

Até voltarmos de ventas à torneira de Deus.

 

Gato, Margarida Vale de, revista INÚTIL número 3, Novembro de 2010

 

«pain», v, © v, Deviantart (D.R.)

   Artigo de Pedro Mexia sobre «Mulher ao Mar» (primeiro livro de poesia da autora), originalmente publicado no suplemento Ípsilon do jornal Público de 7 de Maio de 2010, via blogue (cerc)ARTE.

   blogue da Revista INÚTIL

Oficina de Poesia para Conserto de Automóvel

 

 

Um evento inesperado, possivelmente tanto como as circunstâncias que o provocaram. Ter Margarida Ferra, Margarida Vale de Gato, Miguel Cardoso e Miguel-Manso, duas solidárias Margaridas e dois amigos Migueis lendo-se «multiplamente com críticas dos participantes» seria em si um bom acontecimento; neste caso, o pequeno drama quotidiano de uma valente mulher e amante editora de poesia transforma-se no pretexto para que o acontecimento seja virado poeticamente de patas para o ar. E do pequeno drama automobilizado, surge uma noite onde se espera que surja o inesperado. Um acto poético, pede-se, a cada um dos nossos dias. Pois aqui o têm, servido de bandeja. E o privilégio de poder dar uma mãozinha à Helena Vieira, que já nos deu tantas coisas.

 

 

embora lá ajudar a pôr o farolim no sítio

(clique para ampliar)

 

Link Relacionado:

Espaço SOU

Margarida Vale de Gato – Mulher ao Mar

Mulher ao Mar” é o título do aguardado primeiro livro de poemas de Margarida Vale de Gato*, mais conhecida pelo seu reputado trabalho de tradutora, mas com alguns trabalhos poéticos no mínimo impressionantes, “espalhados” online (dois deles publicados no primeiro número da Sulscrito, Verão de 2007) surge finalmente, com a chancela da Mariposa Azual. O lançamento será no Domingo, dia 25 de Abril, com apresentação de Hélia Correia (ora toma), e leitura de poemas. Começará às 21h, no Espaço Sou, Rua Maria 73, em Lisboa; e continuará com um apropriado “Baile da Revolução”.

Por amabilidade de Helena Viera, editora da Mariposa Azual, junto se dão a conhecer dois poemas do livro, trabalhos de notável depuração e destreza formal; uma poética cortante, incisiva como um estilete (os estiletes brilham).

Declaração de Intenções


Para aqueles que insistem diluir

isto que escrevo aquilo que eu vivo

é mesmo assim, embora aluda aqui

a requintes que com rigor esquivo.


À língua deito lume, o que invoco

te chama e chama além de ti, mas versos

são uma disciplina que macera

o corpo e exaspera quanto toco.


Fazer poesia é árido cilício,

mesmo que ateie o sangue, apenas pus

se extrai, nem nunca pela escrita


um sólido balança, ou se levita.

Então sobre o poema, o artifício,

a borra baça, a mim a extrema luz.


***


Psyché a Eros


tanto tempo casta

tanto tempo apenas

admirada, nunca

amada, agora

presenças transparentes

me atendem

de dia impaciente

conto as horas

que impedem tua chegada


virás como sempre

trajando o manto

do homem invisível

de noite vens velar

o pranto previsível

promessas leves

que a dor é breve

preliminar do amor

que me atravessa


no reverso da língua

que lambe a mão

e sorve o leite

surde o azeite

que queima o dorso

do corpo ocre


o atirador

rechaça a corda

do arco terso

a flecha

corta.


*Margarida Vale de Gato nasceu em Vendas Novas em 1973. É tradutora de inglês e francês para português, tendo vertido textos literários de diversos autores, como Lewis Carroll, Christina Rossetti, Oscar Wilde, W. B. Yeats, Kirsty Gunn, Herman Melville, Henry James, Sharon Olds, Tim Burton, George Sand, René Char, Henri Michaux e Nathalie Sarraute. Está a terminar uma dissertação de doutoramento sobre Edgar Allan Poe em Portugal, sendo investigadora do Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa. Publicou poemas e contos em revistas e antologias portuguesas e internacionais de repercussões homeopáticas. [Nota biográfica obtida aqui]