As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Manuel António Pina — A ferida

 

A ferida

Real, real, porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste

que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado. Mas onde encontrar um passado?

 

Manuel António Pina, Poesia, Saudade da Prosa – uma antologia pessoal, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011

 

«What time is it?» — Shutterbug © Shutterbug, via Deviantart (D.R.)

   Página da D.-G. L. B. que assinala a atribuição do Prémio Camões 2011 a Manuel António Pina, com hiperlink para página sobre o autor.

Manuel António Pina – As Vozes


AS VOZES


A infância vem

pé ante pé

sobe as escadas

e bate à porta

– Quem é?

– É a mãe morta

– São coisas passadas

– Não é ninguém

Tantas vozes fora de nós!

E se somos nós quem está lá fora

e bate à porta? E se nos fomos embora?

E se ficámos sós?

PINA, Manuel António, Nenhuma palavra e nenhuma lembrança, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999

© Débora Klempous, Olhares, Fotografia Online