As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Luiza Neto Jorge — Anos quarenta, os meus

 

De eléctrico andava a correr meio mundo

subia a colina ao castelo-fantasma

onde um pavão alto me aflorava muito

em sonhos, à noite. E sofria de asma

 

alma e ar reféns dentro do pulmão

(como o chimpanzé que à boca da jaula

respirava ainda pela estendida mão).

Salazar, três vezes, no eco da aula.

 

As verdiças tranças prontas a espigar

escondiam na auréola os mais duros ganchos.

E o meu coito quando jogava a apanhar

era nesse tronco do jardim dos anjos

 

que hoje inda esbraceja, numa árvore passiva.

Níqueis e organdis, espelhos e torpedos

acabou a guerra meu pai grita «Viva».

Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

 

Já bate no cais das colunas uma

onda ultramarina onde singra um barco

pra Cacilhas e, no céu que ressuma

névoas, águas mil, um fictício arco-

 

-íris como que é, no seu cor-a-cor,

uma dor que ao pé doutra se indefine.

No cinema lis luz o projector

e o FIM através do tempo retine.

 

Luiza Neto Jorge. In: Revista Colóquio/Letras, n.º 97, Maio 1987, p. 59-60.

 

Paula Rego, «Voices (I)», 1996-1998. Série Children´s Crusade (D.R.)

Luiza Neto Jorge — Venho de dentro, abriu-se a porta…

 

Venho de dentro, abriu-se a porta:

nem todas as horas do dia e da noite

me darão para olhar de nascente

a poente e pelo meio as ilhas.

 

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo

de só imaginá-la a luz fulmina-me,

na outra face ainda é sombra.

 

Banhos de sol

nas primeiras areias da manhã

Mansidões na pele e do labirinto só

a convulsa circunvolução do corpo.

 

Luiza Neto Jorge, A Lume, Lisboa: Assírio & Alvim, 1989

 

«time», Magda Kołakowska, © Magda Kołakowska, via Deviantart (D.R.)

Luiza Neto Jorge no portal da D-GLB

Luiza Neto Jorge na página da revista Relâmpago

 

Luiza Neto Jorge – A Magnólia

A MAGNÓLIA

A exaltação do mínimo,

e o magnífico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem a forma

o meu resplendor.


Um diminuto berço me acolhe

onde a palavra se elide

na matéria — na metáfora —

necessária, e leve, a cada um

onde se ecoa e resvala.


A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,


um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.

Jorge, Luiza Neto, in A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.


Claude Monet, «Nymphéas» (detalhe de tela da série com o mesmo nome) © Musée de l’Orangerie, Paris (d.r.)

(clique para ampliar em alta resolução)

English translation by Richard Zenith:

Exaltation of the minimal
and the magnificent lightning
of the master event
restore to me my form
my splendor.

A tiny crib cradles me
where the word elides
into matter – into metaphor –
as needed, lightly, wherever
it echoes and slides.

Magnolia,
the sound that swells in it
when pronounced,
is an exalted fragrance
lost in the storm,

a magnificent minimal entity
shedding on me
its leaves of lightning.


Ligações relacionadas:

Luiza Neto Jorge

Rodrigo Leão – A Magnólia

Claude Monet – Nymphéas (Water Lilies)

Musée de l’Orangerie

Poesia Portuguesa (V) – Luiza Neto Jorge

AS MENINAS


Secámos à mãe

seu leite de mãe

mas não desatámos

do cordão os nós

Infuso no corpo

algo se rebela

são as luas dela

que não brilham em nós


Nosso pai amámos

num amor sem termos

com dentes de leite

com um fio de voz

e se ele nos não queria

no quarto o degredo

era não sabermos

como nos traía


Quando os apanhámos

nos degraus do trono

a lutar de amor

depois mudos, quedos

a morte aflorou-nos

mas não enfiámos

na ficha de elec-

tricidade os dedos.


Fugiu-nos a mão

a forçar o sôfrego

o fluente túnel

onde ainda é cedo.

Pegamos num livro

vamos aprender

na ponta da língua

os novos dizeres,

o primeiro sangue

é que mete medo.


Luiza Neto Jorge, A LUME, p. 29/30, Assírio & Alvim, Lisboa, 1989.

"A familia" (1988) © Paula Rego

"A família" (1988) © Paula Rego