As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Livros Cotovia

Gonçalo M. Tavares — A Água

 

 
No café trazem-me um copo com água

como se ele resolvesse todos os meus problemas.

É ridículo – penso – não há saída.

No entanto, depois de beber a água

fico sem sede.

E a sensação exclusiva do organismo

acalma-me por momentos.

Como eles sabem de filosofia – penso –

e regresso, logo a seguir, à angústia.

 

Tavares, Gonçalo M.,  1, Lisboa: Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004.

 

«The Glass: Drowned» — Alberto Guerrero © Alberto Guerrero via Deviantart (D.R.)

 

  blogue de Gonçalo M. Tavares

 

Daniel Jonas — Trabalho e trabalho

Trabalho e trabalho

para dar à luz um pai

na minha solidão de depauperado

arado que nada sulca

porque como um comboio a que faltaram carris

prévios ao meu arado são seus sulcos.

 

Sou um filho circular. Como um signo

zodiacal sou um filho circular, requer o que faço

aquilo em que me movo

que é aquilo em que me movo

o que faço e como fazê-lo

se não tenho já em que me mova? O que faço

é o que me fez.

 

Sou comboio e arado e um rodado

sem discos. Sem paralelo em círculos

rotunda tristeza propago

de vertiginosa incubação de vórtices

que ajudo a solidificar: outra vez a sólida

solidão: é fácil a primeira imagem do comboio:

 

insta à compaixão. E são pesados os bois

circulares que o meu arado

entontece, em vão o rodado

sem discos. Quanto pesarão

bois entontecidos? Como ser pai

quando se é filho?

 

Jonas, Daniel, Os Fantasmas Inquilinos, Lisboa: Livros Cotovia, 2005

 

«Perfect Intersection», bulent © bulent, via Deviantart (D.R.)

 

Página sobre Daniel Jonas no site da D.-G.L.B.

Daniel Jonas — São tristes os meus dias com pedras

 

 

 

São tristes os meus dias com pedras

em lugar de mãos

ou a cabeça funda na brancura

de través do travesseiro

e o corpo depresso em moles guindastes.

São dias de chorar por menos

ou teimar queixoso com um crânio polido,

batuque convexo

no muro demorado.

Ficar a ouvir o sangue,

o som tubular do sangue. Ao vale seco

da clavícula atrair a água, o sangue

e sorver a sopa intestina

ou se o líquido escapa à boca

tantálica, calar com argila

o que me pede água.

Ficar a palpar os buracos

da ausência, as ligas

da ausência, as ribanceiras

a que caem os pensamentos, a cor

dióspiro que banha a enfermidade

e em seguida tomar o pulso

evadido, travar o touro, o soco da dor,

o infinito infinitivo presente.

Uma amálgama de alma

migra no fôlego de modorrento

pregão de dor, o condor

passa e anda andino e é uma

traça asfixiante: faço um céu rarefeito,

a dispneia é um felino

que arranha céus

e a boca rebuliço espúmeo

expele o sabor da morte

e o que mais consiga cuspir

por entre ovéns e enxárcias

e traves quebradas.

É uma desilusão com as coisas,

uma desilusão funda com as coisas,

com o vazio meio-cheio das coisas.

Meu fôlego um fólio cheio

de silêncio, uma catástrofe natural

um vulcão: no meu pulmão pôr lava

e no trovão treva.

Jonas, Daniel, Os Fantasmas Inquilinos, Lisboa: Livros Cotovia, 2005

«desolation», Eray Eren © Eray Eren, via Deviantart, (D.R.)

 

Bénédicte Houart — Dilúvio

 

 

Dilúvio

Chove. As ambulâncias já ligaram as suas sirenes. O acidente ainda não aconteceu, mas com certeza não vai tardar. E, por isso, quando chove, penso na morte. Na morte daqueles que amo e de todos aqueles que deveria ter amado se soubesse como. As ambulâncias desligam as sirenes. Levo a mão ao sexo. Modo de chorar. Modo de despedida.

Chove. Cheira a narcisos no centro da cidade. As velhas estão dentro de casa aconchegando o tempo às pernas exangues. O sangue teima em circular embora a cabeça descaia vezes de mais. As velhas estão dentro de casa, salvo aquela que aquece sempre os pés na calçada. Percorre as ruas da cidade faça sol faça chuva. E nos seus cabelos compridos a chuva deixa gotas que parecem pérolas.

Chove. Nos centros comerciais, há homens sentados junto às escadas rolantes. Estão pensativos. De vez em quando, esticam o pescoço, giram-no para a esquerda para a direita, movem-no para cima para baixo. Pensam na vida. Ela corre dentro deles como se fosse explodir dentro de segundos. E vai. Não estes segundos, mas outros, os próximos, talvez. Agora, ela chega-lhes em catadupa, escorre para fora deles.

A chuva parou. As putas animam os passeios trocando receitas de cozinha. Riem mostrando os dentes negros. Nascem, estão a nascer, novos clientes. Hão-de crescer depressa. Hão-de levar as mãos aos bolsos. Quanto a elas, é certo que não morrerão nunca.

Uma mulher está sentada a uma mesa. Leva de vez em quando o cigarro aceso aos lábios. Observa discretamente quem passa, não vá pensarem… Não tem importância, ela pensa por eles. Pensa com tanta força que parte a caneta contra a página. Ou então pára de escrever. Risca a página como se mudasse de vida.

Recomeça a chover. Calo-me. Por que não chove ininterruptamente durante um século? Criámos um deus de amor, mas não fazemos a menor ideia do que seja amar.

Texto publicado na revista INÚTIL número 2, Abril de 2010

«Shadows», Hugo Colares Pinto, © Hugo Colares Pinto (D.R.)

(clique para ampliar)

Links Relacionados:

Artigo sobre a autora no D.N. (por Isabel Lucas)

Alguns poemas (traduzidos para inglês, com a versão original)

A autora no catálogo da «Livros Cotovia»

Revista Inútil

Portfólio online de Hugo Colares Pinto

 

Daniel Jonas – Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias



Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias

chegaríamos a iguais resultados

pelo que de nada adianta imaginar um almagesto

ou tabelas de paralaxe para isto

a que convencionalmente chamamos amor,

nem calcular o ângulo

entre nós e o centro da terra,

de nada nos aproveitara, tu e eu

centros escorraçados de irregular gravitação.


Porém, isso não me impediu de ver plêiades

cada vez que surgias (só

não te dizia nada) plêiades iluminando

meu Hades

com suas cabrinhas coruscantes

pascendo

o vale da sombra da morte.


E a questão hoje é: who’s gonna drive you home tonight?

quando o melancólico transístor

destila também outras perguntas, mas nenhuma

tão dura quanto essa,

por exemplo: porque é que a água tem mais tendência

a subir em tubos estreitos

ao contrário do mercúrio?

Isto é view-master e são coisas que faço

na tua ausência.

Jonas, Daniel, Os fantasmas inquilinos, Lisboa: Livros Cotovia, 2005

Sacred Geometry © phidelity.com

Luís Quintais – Riscava a Palavra Dor No Quadro Negro

Poema do novo livro de Luís Quintais, Riscava a Palavra Dor No Quadro Negro.

O que podemos projectar

que não seja o desenho

do nosso futuro incompleto?

Tudo é revisitação nessa caixa escura

onde células se movem e se escutam

mutuamente, como se esperassem

por um acontecimento primeiro,

uma revelação atenta do sangue

e do plasma, da música que te fez cego

e que trouxe as enumerações do sensível,

a evidência de uma cor extrema queimando

os signos e a gramática desenhada.

O que podemos projectar agora?

Quintais, Luís, Riscava a Palavra Dor No Quadro Negro, Lisboa: Livros Cotovia, 2010

«Thinking», The Muse of Smutty Yaoi, via Deviantart

Luís Quintais – “O Mundo como Representação”


O MUNDO COMO REPRESENTAÇÃO

“O mundo é a minha representação.”

Que tipo de imagem

eclode na mente

quando, de noite, um cão uiva,

como se a sua carne

não fosse carne da sua carne,

mas um véu espesso

que cobre a dor

e a torna mais intensa?

Uma janela abre-se de par em par,

e eu persigo os sulcos e a ira

desse cão mirífico,

desse cão que existe algures

para lá do ver.

A noite que ignorei torna-se visível,

mas não a ira, a ira absoluta do cão,

ainda que os meus olhos

ceguem numa exasperante vontade

de luz.

QUINTAIS, Luís, “Duelo”, Lisboa: Livros Cotovia, 2004.

Francisco Goya, "Perro semihundido" (detalhe) - Museu do Prado (d.r.)

Novos Poetas (XIII) – Daniel Jonas

Contagioso. Sonótono é contagioso. Depois do primeiro poema do livro, aqui deixo o segundo (ciente de que não os deverei divulgar todos, por muitos serem, e haver direitos de autor, e ser sempre melhor ler o livro, no livro, no papel, com as folhas na polpa dos dedos). De novo os 14 versos do soneto, sendo que, neste belíssimo poema, o título é já verso. E que verso, interpolando, a partir da casualidade fonética, a semântica que decorre dos nomes da Lisnave, de Luís Miguel Nava, explorada com destreza e brilho.

Os dois últimos versos são recolhidos (tal como em todos os poemas do livro, falhou aqui a formatação, no poema anterior).

COMO UM METALÚRGICO DA LUÍSNAVA

Que uma musa metálica redime

E faz dum vulcão cama e os lençóis lava,

Soldo a métrica, malho p’ra que rime.

Toco a afiada lira, tanjo o meu aço,

Na homérica bigorna chispa e liça.

Silvam sereias, chamam-me ao regaço,

Ítaca estanca a dor, Ática atiça-a.

Como operário do verso blindo a nave

Que ao leme outro almirante levará;

Levo-me a mim à vela, o argueiro é trave:

Neste solo outro mastro cantará.

E se o cálamo às vezes carpe as bulhas

Das carúnculas saem-me faúlhas.

Daniel Jonas, in Sonótono, p. 12, Cotovia, 2007

'Não sei do que é que estou à espera' © Mariah, Olhares, fotografia online

'Não sei do que é que estou à espera' © Mariah, Olhares, fotografia online