As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Livraria Trama

Novos Poetas (54) – Catarina Nunes da Almeida

Ainda da cràse número um, o último e o que mais gosto dos três poemas que Catarina Nunes de Almeida publica na edição, de que já se anuncia o «lançamento» em Lisboa no dia 12 de Maio na Livraria Trama, pelas 19 horas.

3.

Colhe de um corpo

o carvão verde

a sua música cereal moída moída.

Abre um corpo na partitura canta-o

enquanto se parte enquanto ficam

anos por contar enquanto ficam

anjos nas pálpebras

inconfessáveis.

Como se a manhã falhasse sempre.

Como se escolhesses o comboio que pára

em todas as estações

e valesse a pena gastar outra infância

para não chegar.

Novos Poetas (46) – Rui Almeida

Ainda o lançamento, em Lisboa, na Livraria Trama, do sexto número da Callema, em animada noite de Verão, de amena informalidade e alguma paródia. No que à poesia respeita, publicam-se trabalhos de Rui Almeida (um dos pândegos daquela noite), Fernando Silva e do poeta turco Orhan Veli, pela primeira vez trazido à língua portuguesa

Destaquei um poema de Rui Almeida (n. 1972), primeiro vencedor do “Prémio de Poesia Manuel Alegre” (2008) com o livro Lábio Cortado, recentemente editado na Livrododia (que pena aquela capa) e já comentado aqui por Henrique Fialho, e também aqui por Nuno Dempster. Rui Almeida é, de resto, autor de um blogue, Poesia Distribuída na Rua, de fazer inveja aos maiores e melhores sítios divulgadores de poesia online. (Fora da rede nem se fala.)

Mas pelo poema publicado na Callema (antecedido de nove outros, do mesmo autor, numa sequência apenas aparentemente fragmentária) se fica, pelo seu rigor formal, contenção imagética e tom delicadamente aforístico, tão contundente como o metafórico murro que nele irrompe.

[DEZ PECADINHOS MORTAIS AO ACASO]


Suavíssimos pretextos para nada;

O medo de ouvir falar do vento;

O avanço das armas escondidas;

Os tesouros perdidos frontalmente;

Sinceridades sem razão de ser;

A violência de conter o murro;

Segredos que se dizem sem ouvidos;

Os silêncios que mascaram as sombras;

O vil excesso de um pão sem fome;

As palavras escritas com maiúsculas.

Almeida, Rui, in Revista Callema, n.º06, p. 14. Maio de 2009

"White Man" © M, Olhares, fotografia online (d.r.)

Lucy Pepper – as ilustrações na Callema 06

O lançamento do sexto número da Callema em Lisboa deu origem, no início do Verão, a animado encontro na Livraria Trama. À Callema se voltará. Antes, deixam-se aqui as ilustrações que fecham a edição, da autoria de Lucy Pepper, artista plástica inglesa que reside em Portugal. Na revista, a sequenciação das ilustrações, possível pela passagem das páginas, permite um efeito de surpresa e ironia deliciosos. Uma suite genial, de uma ilustradora que pode ser melhor conhecida no seu blogue.

Antecedendo Aldeia, o texto (escrito em língua inglesa e traduzido na própria revista):

“Todos os pintores que visitam Portugal apaixonam-se pela sua luz clara e transparente. Tenho mais sorte do que eles, já que a posso ver durante todo o ano nas suas várias personalidades.”

"Aldeia" © Lucy Pepper (d.r.)

"Aldeia" © Lucy Pepper (d.r.)