As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Tag: Literatura Portuguesa

É quase noite — Beatriz Hierro Lopes

Esta escrita organiza-se na construção de uma memória, constitui-se meticuloso inventário íntimo. Ficciona o tempo para obter matéria narrativa. Recusando a recordação nostálgica, estabelece-se como trabalho de arqueologia: procura em camadas, até achar o que já foi ouvido, herdado, roubado, esquecido. Esta escrita faz-se e refaz-se contra a morte:

«Das fotografias antigas, o que de mais terrível fica é saber-se o fim.»

Narrar é produzir o real, narrar resgata, redime.

«chegar ao passado e dizer, à menina das tranças: não chore, nós gostamos tanto de si, e abraçá-la, ocupar o lugar de uma boneca feia que ela agarra e chamá-la ao ouvido: minha princesa

Beatriz Hierro Lopes, É quase noite, Lisboa: Averno, 2013.

(Apresentação do livro em Lisboa: sábado, dia 12 de Outubro, às 22 horas, livraria Paralelo W.)

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Beatriz Hierro Lopes — «nas ruas» (texto inédito e nota de leitura)

Nas ruas há pássaros que me cobrem o caminho até casa. Fileiras de peitos brancos, de asas partidas, alimentando o alcatrão. Sem luz, são fios desavindos de algodão que a minha mãe alinha ao tranquilizar as noites no colo. Tocam-me. Não fogem do chão: eles lá em baixo e eu cá em cima; são ruas sobre ruas, que ditam a estratégia do espaço entre as avenidas. A morte dos pequenos bichos, dos pássaros, dos gatos, entupindo os escoadouros, mortes que são a resistência mais silenciosa que faz transbordar as ruas. E elas, as ruas, são fios de cabelo negro, convergindo até chegarem à altura das clarabóias, a testa deste mundo visto de cima. Que pedem mais luz. O interior de um corpo, visto de cima, guarda a escuridão das noites, antes que as clarabóias lhes purifiquem as articulações que garantem a altura. A casa é o interior do corpo no corpo. Um negativo em miniatura da imagem do mundo, à semelhança das casas de bonecas. Como todas, também esta contradiz a noite, usando um exército de funcionários públicos caiados a verde musgo, em cujas chagas de ferro a luz eléctrica se reflecte, os mais elevados entre o mobiliário urbano. Junto aos pontos de vigia, que tanto lhes imitam a cor como adoptam o beijo vermelho em que os namorados se encostam, tentando ver entre os reflexos o rosto que se adianta contra o seu. Que um beijo citadino é um beijo do mundo, do metro, apenas contado aos ouvidos das janelas, das portas, das grades, das clarabóias. Resta, da segurança da rua, a palidez monótona e geométrica com que se alinham regras de salvaguarda humana: passadeiras que não confundem homem por pássaro ou gato e que, por isso, fecham os olhos ao instante rotativo em que o corpo menor é moído estrada fora. Haverá mortos nos nossos jardins, e beijos que, à falta de destinatário, se cristalizam em magnólias e camélias tão alvas como a recriação do mundo em pés de raiz; são árvores, monstros protestando contra o contrato do tempo. Ninguém sabe das árvores que usam das raízes como nervos, uma espécie de corpo celeste desafiando a elasticidade da terra nos jardins onde se enterra a infância das bicicletas. Hábitos dos velhos sobre as mesas de jogo, em que as sombras das folhas proporcionam escuridão que chegue às unhas das mulheres que choram ali. As putas nunca foram crianças, apenas as bicicletas de velocidade sepultada entre as raízes das árvores. É fácil vê-las, junto ao lago, fechando os olhos gira ainda uma roda de metal que alguém pintou de vermelho para condizer com os bancos do jardim. Embora a cor se espalhe, com maior urgência, entre marcos de correio e postos telefónicos de graça londrina; outras vezes, porém, encostados aos caixotes de lixo, há demasiados sapatos vermelhos. De agulha ou rasos, elevando tornozelos, troncos, joelhos, bustos, rostos, ou alinhando o passo com as linhas do diário; mas vermelho, sempre vermelho. Todas as mulheres levam vermelho aos pés. Imitam as rodas de bicicleta ceifando invernos do chão. Os homens são negros, sapatos polidos pelo engraxador da avenida. Uns e outros espantam a morte nos intervalos do fumo, todos tem casacos compridos para que não se veja no corpo peito de pássaro ferido. Trazem asas partidas no rosto, penas antigas de pai ou de mãe ocupando o lugar das pestanas, olhos da cor dos botões das camisolas de outono que levavam à escola, mãos de lápis para as aulas de matemática, quando toda a matemática que lhes resta é a memória pronta dos vagares entre os horários dos comboios, do metro, dos autocarros; onde vestem as rugas dos domingos de seus avós; ou os maiores desgostos com que lavram as rotas à cidade, que se molda pelo peso das pequenas multidões que lhes imitam a respiração. A cidade é um enfisema pulmonar. Velhos, velhas, doentes, putas, crianças por morrer por suas mães não terem tido esperança de os deitar à marinha mal nascessem. Como pode esta cidade tão negra, tão vermelha, ainda assim abrir avenidas no céu e provocar derrocadas de nuvens sobre um rio? Como pode imitar o som da terra numa concertina, que ecoa desde santa catarina até à margem, e acordar veleiros fantasma de quando o rio era um peito mais habitado que todo este silêncio, em que apenas a solidão serve de moeda de troca para uma cama menos vazia? Ao longo de todo o trajecto há pássaros caídos. E este som, só meu, enchendo as ruas por onde passo com as palavras que não escrevi e que temo nunca escrever. Casa será sempre este espaço menor em que dou outros nomes à cidade, não vá a manhã surpreender-me e o espelho contar-me o número de paralelos com que o meu rosto foi reconstruído a partir desta noite.

«oporto» buri, via Deviantart (D.R.)

«oporto» buri, via Deviantart (D.R.)

Não acidentalmente, o texto que aqui se dá a conhecer, «das ruas», inicia-se com a frase: «Nas ruas há pássaros que me cobrem o caminho até casa». Encontramos aqui os elementos simbólicos fundamentais na composição: a rua, os materiais urbanos, os animais, os caminhos; o eu. Elementos de significação que se sucedem em personificações, metamorfoses, reificações, numa sequência narrativa em que a imagética se alarga, imensa, espalhando-se como um rio (para o rio) através de poderosas representações encadeadas que ampliam os campos de significação em contiguidades e analepses, numa tessitura milimetricamente urdida. O texto revela  um programa interno: a assunção da casa como a cidade, da cidade como uma extensão do eu ou, em sentido inverso, do eu como hipótese da cidade. É uma cidade doente: «A cidade é um enfisema pulmonar», de pessoas doentes: «todos têm casacos compridos para que não se veja no corpo peito de pássaro ferido»; uma cidade onde se adoece. Como um enfisema (essa lenta forma de ir sufocando), não há salvação perante esta eminência de morte. Não é de um queixume, de um lamento ou mesmo de uma  elegia que aqui se trata, mas de um vaticínio de morte: «A morte dos pequenos bichos, dos pássaros, dos gatos, entupindo os escoadouros, mortes que são a resistência mais silenciosa que faz transbordar as ruas». A ideia de resistência é consubstanciada no anseio da verticalidade da luz contra o negrume (percebe-se, assim, a importância dada aos altos candeeiros das ruas), na arquitectura erguida das casas por cair, das clarabóias que, organizando a luz como uma armadura, evitassem a derrocada do eu, o ruir da casa, a morte da cidade: «A casa é o interior do corpo no corpo». A esta quieta resistência se agarra o texto: «Resta, da segurança da rua, a palidez monótona e geométrica com que se alinham regras de salvaguarda humana». Uma contraposição perplexa: «Como pode esta cidade tão negra, tão vermelha, ainda assim abrir avenidas no céu e provocar derrocadas de nuvens sobre um rio?». Uma salvação improvável: «Casa será sempre este espaço menor em que dou outros nomes à cidade, não vá a manhã surpreender-me e o espelho contar-me o número de paralelos com que o meu rosto foi reconstruído a partir desta noite.» A casa como metáfora da cidade; esta como metáfora do eu. Uma identificação profunda produz-se, como um desejo intenso, nesta linha estreita à beira do abismo das águas do rio.

De Beatriz Hierro Lopes são conhecidos os textos curtos que publica no seu blogue ao longe todos são pedras. Textos de múltiplas temáticas, diversas formalizações, mas sempre com uma voz tão própria na cadência, no ritmo, na riquíssima paleta imagética (tão cromática); na imensidão de recursos estilísticos e na singularidade da escrita, que mal esconde um mundo de feroz confronto com a temática da perda. E é nesse domínio que a escrita de Beatriz Hierro Lopes não encontra paralelo nos autores mais recentes.

Ruben A. — O amor é de outro reino.

 

Num tempo em que o tema amoroso é quase tão obnóxio como a gesta, ou a moral; quando abordado pela generalidade dos escribas contemporâneos assusta por nefastas múltiplas formas, é um prazer reencontrar Ruben A. e a sua forma tão peculiar de agarrar o motivo, elevá-lo a alturas valentes, não largar o osso.
[este fragmento foi copiado do site «O Citador», por preguiça de transcrição e indecisa capacidade de escolha. Escolheram por mim. E ainda bem.]

 

«O amor é de outro reino. Da amizade, do amor, do encontro de duas pessoas que se sentem bem uma ao lado da outra, fazendo amor, falando de amor, trocando amor, conversando de amor, falando de nada, falando de pequenas histórias códig…o de ministros com aventuras de aventuras sem ministros conversa alta e baixa de livros e de quadros de compras e de ninharias conversas trocadas em miúdos ouvindo música sem escutar música que ajuda o amor o amor precisa de ajudas de ir às cavalitas de andas de muita coisa simples amor é um segredo que deve ser alimentado nas horas vagas alimentado nas horas de trabalho nas horas mais isoladas amor é uma ocupação de vinte e quatro horas com dois turnos pela mesma pessoa com desconfianças e descobertas com cegueiras e lumineiras amor de tocar no mais íntimo na beleza de um encanto escondido recôndito que todos no mundo fizeram pais de padres mães de bispos avós de cardeais amor agarrado intrometido de falus com prazer de alegria amor que não se sabe o que vai dar que nunca se sabe o que vai dar amor tão amor.»

Ruben A. Silêncio para 4, Lisboa: Moraes Editores, 1973

 

Fotografia: Rubem A. (s/d; autor desconhecido)

 

Alexandre O’Neill — O citadino Pipote (conto)

Ainda bem que Pipote não é judoca. Pipote não passa de Suspensório Lilás. Pipote judoca seria o fim. Pipote entra nos eléctricos a ombro. Diz com licença depois de ter passado. Cheira a cebola e a camisa de anteontem. Fala curto. Assim tem mais tempo para chupar os dentes. Pipote usa elástico de câmara-de-ar a envolver a carteira. Traz negócios de ferro-velho, traz os filhos nos estudos, traz uma viúva debaixo de olho. Agora que os móveis (quinanes, principalmente) estão a dar, Pipote vai comprar fragoneta. Já o vejo agarrado ao volante com medo que a fragoneta desalvore. Já o topo a fazer mudanças no joelho da viúva.

Contam-se muitas do Pipote. Parvenu, parvo nu, Piparote não é pior nem melhor, escusam de se estar a rir, que vocês. Piparote começou difícil. Vocês tiveram colégio, manteiguinha no pão, Bucha & Estica nas matinés de quinta-feira. Piparote teve cachações e casqueiro ao mata-bicho. Veio a pulso, Piparote — e com muita honra!

Das que se contam de Piparote, não sei ainda se conte a que me apetece contar. É que não é nada típica, sabem? Remonta aos 14 anos de Piparote, quando Piparote, quer dizer, ainda não era Piparote. Era o cédula Joaquim Serrano Deusdado — Quincarvoeiro para os inimigos.

Não me faço mais rogado.

DE COMO JOAQUIM SERRANO DEUSDADO, ALIÁS, QUINCARVOEIRO, ALIÁS PIPOTE, DEIXOU APODRECER OS DENTES TODOS MENOS UM.

Às 6 horas da manhã, chutaram Quimcarvoeiro para a consulta externa de Todos-os-Martírios. Questão dum obcesso bochechado a aguardente e a raiz de alteia com desinflamação subsequente e recidivas de ganir. Bochecha infla, bochecha desinfla, a cara do pobre já era como um cartucho e o misérias estava por tudo.

A quatro de frente, de cara amarrada, a bicha para os serviços de Odontologia consumia-se e refazia-se ao longo das horas e dum corredor conventual. Quando chegou à porta da sala dos alicates, Quincarvoeiro compreendeu, num ápice, a utilidade das bichas: terem cauda. Um menino que saía da sala segurava os queixos com a manita, vexado de todo, e dava pontapés de desespero na estúpida mãe caridosa.

Uma cigana (sedentária) apiedou-se do chavalito probecito e começou a desenrolar uma lamúria meio rezada entrecortada de cuspinhadelas raivosas para o lado. Um digno velho remendado e limpo reprovava mudamente tudo, não escondendo, na sua sobranceria, que só o mau destino fora responsável por ele se encontrar ali, misturado com a gentalha.

“Trezentos e quinze!”, disse uma voz entreportas que parecia mesmo a voz do creosote. Era a senha do Quincarvoeiro. Este deu um passo ao lado e uma grande coragem de fugir pôs-lhe as pernas em movimento. Pisgou-se para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço.

Ainda hoje o citadino Pipote fala com um dentinho de orgulho desse caso da sua vida de rapazelho. Aliás, é sempre com orgulho que Pipote se revê em Quincarvoeiro, seu querido filho na perspectiva do tempo. Espero que a vossa credulidade chegue onde chegou a minha, quando ouvi esta história do infeliz Pipote: três ou quatro vezes se atrasou para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço. Ao meio-dia, na derradeira repescagem de senhas não respondidas, a bicha era Quincarvoeiro. Até que um dentista, alicate em punho, se avantajou nos umbrais.

Foi apanhado.

Já na cadeira, já de boca ocupada pelos ferros, dedos, espelhinhos, o cédula Joaquim Serrano Deusdado tentou articular uma queixa, soprar uma indicação, subtrair-se o mais que podia à mordedura metálica dos alicates, que andavam, por ali, a planar de mão em mão. Os odontologistas trabalhavam rápida, firme, irrevogavelmente. Se os deixassem entregues à sua própria inércia, desdentariam o mundo real o apanhassem a bocejar de tédio. Três dores agudas, fininhas. Uma patada no estribo da cadeira. Um compasso de espera com ferros a retinir, torneiras a trepidar, desconhecidos cheiros violentos a subirem-lhe ao nariz. Depois, um ríspido «abre mais a boca»!. Abriu mais a boca. Não abriu os olhos. O alicate veio, entrou. Sentiu o choque no alto da cabeça, por dentro. O alicate mordeu. Queriam virar-lhe a caixa dos pirolitos do avesso?

Descomandou-se. Gritou… Mas já, triunfante, o diabo-dentista lhe mostrava o dente, que o alicate continuava a morder.

E Pipote, hoje, comenta, num sorriso de aqueduto em ruínas:

— Sôr Aníbal (eu já lhe disse que não era Aníbal, que era O’Neill…), Sôr Anibal, a vida é assim: o dente que me tiraram estava bom; o estragado cá ficou. Já passaram para cima de trinta anos e nunca mais voltei a esses diabos! Cá me vou governando com os dentes que tenho. Mas digo-lhe a verdade: o dente que me tiraram foi o único dente bom que tive.

E o aqueduto sorri, enquanto Pipote o vai chupando paulatinamente.

Alexandre O’Neill. «O citadino Pipote». in Ficções — Revista de Contos, Lisboa: Tinta Permanente, 2003.

crédito fotográfico: Ben Hickey

Beatriz Hierro Lopes — «impressões» (antecedido de nota de leitura)

Emerge neste texto uma incompreensão fundamental: não tanto o modo como nos situamos perante a morte dos que amamos, mas como nos dispomos perante a sinalização da morte que a vida, os outros, nos forçam a lembrar, tendo a impressão que algo ocorreu, perguntando pelo ocorrido. A interrogação do texto é esta: como nos preparamos para que nos lembrem a morte, de repente e de surpresa, sendo sempre esta de repente e de surpresa, seja qual for a sua circunstância? A circunstância da perda perde, aqui, a gravidade da enunciação da mesma: é o descuido, a distração, que tocam com ferros a dor.

Nesse sentido, não é este um texto elegíaco dirigido à perda, mas uma elegia da vida que, não sabendo do saber cuidar da morte, morre por isso sem cura. Longe de um lamento, o texto propõe uma distância radical das incidências inúteis, daqueles que não promovem a reparação nem sabem reparar: têm impressões, curiosidades que poderão ser secamente satisfeitas («Passarei o resto do tempo a dar a notícia. A única diferença é a linguagem. Curta, ríspida»).

É aqui que irrompe intensamente a oração, brilhantemente intercalada no texto, refúgio e prece, último gesto, aquele que já não se sabe fazer; é aqui que se  separam as impressões da impressividade, da funda marca deixada: a intimidade intransmissível e, nesse sentido, perto da indiferença, no interior de uma fadiga irremediável («Aos que me morreram devo a identidade. [Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte]. Até ao dia em que me enterrem o cansaço. [Ámen].)

A Ave-Maria, a mais duradoura das orações por evocar a primordialidade da Mãe, é também aquela que mais duradouramente consola e redime. Não é uma oração de promessa e de devir, como o Pai-Nosso, mas uma súplica por atender: rogo ante a morte, é certo ([e na hora da nossa morte]); mas em primeiro lugar da vida: ([agora e  na hora]).

A morte não é temática alheia à obra de Beatriz Hierro Lopes, nem a elegia um registo que lhe seja estranho. Contudo, neste texto, onde uma oração cadenciada se musicaliza em fundo, há uma espécie de fadiga e de tédio perante os vivos que se aproxima de um desdém; ou de uma compaixão. Vão dar ao mesmo lugar vazio,

a ausência da palavra Jesus, deliberadamente retirada da oração. Sendo comum, entre os crentes, a concepção de que Jesus, na sua divindade, estabeleceu a radical irmandade entre os homens, a autora retira-o: e assim, na não enunciação do seu nome, fá-lo presente de forma brutal: aquele que se deu pelos vivos deles se tornou um sem nome. («E já não falamos mais do sofrimento que vimos. Só o condenado ensina a viver»).

Não estamos perante um texto de carácter religioso em sentido estricto; mas frente a uma milimétrica delimitação do que, no plano emocional, se revela como recusa e se escolhe como aceitação.

Recentemente publicada na revista Telhados de Vidro nº 16, (como já o fora na Criatura, na Cràse, na Inútil),  Beatriz Hierro Lopes é um dos autores maiores na recente escrita portuguesa ainda sem livro apenas seu. Não faltará muito.

«Orgão de tubos da Igreja da Lapa, no Porto», © Marisa Ferreira, via Olhares, fotografia online (D.R.)

«impressões»

Há coisas que o meu catecismo não soube explicar: o porquê das avé-marias serem maiores que os pais-nossos; o porquê de só as mães ensinarem a rezar [Avé-Maria cheia de graça o senhor é convosco]; antes da tabuada chegam as orações [bem-dita sois vós entre as mulheres]; aos cinco anos ninguém sabe muito bem o que são mulheres. Rezávamos em coro. Antes de saber que só os condenados ensinam a viver, como as mães a rezar [bem-dito é o fruto do vosso ventre]. Tenho a minha contabilidade em ordem: por cada justiçado, sentei-me um pouco mais. A reza, pelo contrário, não é coisa que pare, reza-se pelos mortos e eu já não sei rezar.

Passarei o resto do tempo a dar a notícia. A única diferença é a linguagem. Curta, ríspida. Afinal a morte dos outros é uma violação à nossa mortalidade [Santa Maria, Mãe de Deus]. Dá-se o rótulo da doença e conta-se o tempo passado. Numa simples frase, oração, tudo acaba. E já não falamos mais do sofrimento que vimos. Só o condenado ensina a viver. Abusamos da respiração, como de tudo o que é reprovável: contra a morte só o excesso é permitido; e quem nisso reprovação vê é porque desconhece o número de palmos de terra em que há-de enterrar a história.

A história, repito-me, a história que incorporamos na nossa história. A desalma do coveiro cria-nos repugnância que, sem saber, aceitaríamos no lugar da dor. Passados tempos, meses ou anos: — sim, morreu há dois anos, digo à pergunta: — é impressão minha ou morreu?

Quem têm a impressão da morte de outrem?

A impressão da morte como o registo identitário, a condição de se estar morto contra a memória. O cansaço. — Sim, morreu há dois anos. A frieza sem condição da oração determinativa. — Está morto, repito, desabitada. E digo-o num automatismo que me é natural, como poderia ter dito: quanto frio faz nesta primavera. Sou testemunha.

Aos que me morreram devo a identidade. [Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte]. Até ao dia em que me enterrem o cansaço. [Ámen].

[Maio de 2012.]

Blogue de Beatriz Hierro Lopes.


Agustina Bessa-Luís — Os Cinco Reis Mouros

ilustração de Ilda David © Ilda David (D. R.)

OS QUADROS deste diário que escrevo espelham para mim as glórias de Lisboa. Seu ar róseo e materno, seus ventos e sombras que Monsanto despede até às nuvens.

Começando pelo princípio, dentro dos campos de Ourique se deu um caso que nunca foi bem explicado. Tendo Afonso sido jurado rei pelos soldados, o que o fazia mais general deles do que príncipe de todos nós, teve por empreitada combater cinco reis mouros; havia-os aos bandos, e eram tão numerosos os califas e os sultões que a Espanha e os Algarves estavam cheios dos seus palácios aonde os reis cristãos mandavam os filhos como hoje se mandam às universidades. A cultura deles era formidável e nas matemáticas não havia quem os igualasse; nem na poesia, porque a sensibilidade extrema vai muitas vezes a par com a crueldade mais refinada.

O triunfo era duvidoso em batalha tão desigual. Cinco reis mouros não são cinco réis de gente; é muito mais. Afonso, muito calado com o seu escudo e cota de armas, viu Cristo na cruz, ao levantar os olhos para o lábaro que receava perder. E Cristo disse-lhe que havia de ter vitória sobre os infiéis. Afonso não se intimidou com a aparição e falou cara-a-cara com o Senhor:

— Não venhas a mim mostrar-te, porque eu creio e não preciso de milagres para crer. Mostra-te aos meus inimigos que, esses sim, precisam de te conhecer para nos temer a nós.

Esta fala, de tão arrojada, não foi muito do agrado dos catequistas e não se ensinou nas escolas. Eram tempos maravilhosos em que se começava a ser português, e para isso era preciso valor tão grande que os céus o recebiam como medida do homem. Que saudades dessa pátria inventada num milagre que se recusa! O povo miudinho corria ao lado dos grandes pecadores, que eram almas grandes também. Confiavam neles; com lágrimas e com juras, confiavam neles. Afonso mandou pintar na sua bandeira cinco escudetes azuis, em lembrança dos cinco reis vencidos. Ainda lá estão, reparem bem. Pensar nestas coisas distrai o coração de velhacarias, que foi o que se multiplicou passados tempos, e hoje não há mais lugar na terra para tanta instrução maliciosa.

A memória cativa as coisas num lugar fabuloso, que é onde mora a esperança. Mas é certo que os primeiros passos na ordem da pátria tinham que ser agigantados, não só pela fábula, que os serviu, também pela coragem que só protegeu. Afonso, que no ardor de vencer se esquece de se submeter ao milagre, é coisa digna de se ver e de recordar. Como se lá estivéssemos em carne e osso.

Agustina Bessa-Luís, Os Cinco Reis Magos, «Revista Kapa» nº 2, Novembro de 1990, p. 159. — ilustração de Ilda David, acompanhando o texto na publicação original.

Possidónio Cachapa — «O rio»

As águas subiram escuras. O homem estendeu o braço, o músculo amaciado sobre a carne sã e agarrou o pulso da mulher. Ela tinha nas mãos gordas um anel de noivado de onde a pérola desertara e uma aliança coberta de lama do rio.

— Agarra-me com mais força que tenho medo que escorregue.

Ele assentiu e estendeu mais a mão de modo a cobrir o braço da mulher de forma inabalável.

Do outro lado estava um homem magro a quem chamavam “Desconfiado”.

— Não se consegue…

Um murmúrio reprovador levantou-se entre os outros. Mas nessa severidade havia também a crença de que ele não falharia. Que não poderia falhar. A chuva começou a cair com mais força e as águas cresceram ainda um pouco mais.

Na margem, os filhos tremiam, abraçados uns aos outros. Tinham os cabelos espalhados pela cara, empurrados pelo vento e colados pela chuva e pelo medo. Havia, entre eles, um rapaz e uma rapariga muito altos. Não teriam mais de treze ou catorze anos mas a sua estatura elevava-se dos outros como um cacto se destaca das pedras. Olhavam-se de vez em quando. Desde o princípio que se olhavam. Sabiam mais do que os outros sobre o que poderia vir a acontecer. Eram demasiado novos para terem medo por mais alguém que por si próprios. Os sapatos enterrados na lama e tinham medo. Calçavam ainda os mesmos ténis com que tinham passeado entre as árvores, alguns dias antes, apenas. Não tinham tido medo ao dar as mãos, o céu a brilhar por cima deles entre árvores que davam frutos que ainda não se poderiam comer. Sorriam quando não imaginavam que o mundo se poderia transformar numa coisa realmente hostil e perigosa. Ouvia-se, nessa tarde, vozes de raparigas que passeavam, também elas, entre as dunas, descalças na areia quente, o chão uma lagoa imensa e dourada que não existia. Tinham agora na frente uma laguna concreta, movimentando-se incontrolável. E já não havia sol nem frutos nas árvores, nem vozes de moças ou andamentos de pássaros… Apenas os rios unidos a inundarem a terra inesperada, a desfazerem as dunas, a levarem as casas. E toda a alegria partira à medida que as vozes dos adultos se tornavam mais tensas e inquietas; que os braços dos adultos se fechavam uns sobre os outros; que os ombros começavam a configurar-se como uma ponte.

— Elias – disse o pai. E tudo nessa voz se partia ao pronunciar o nome do filho. Tudo nela se amaldiçoava por ter de chamar por ele, à medida que já não havia mais braços nem corpos de adultos para chamar. — Elias – repetiu o pai, do outro lado do círculo.

Ele olhou para ela durante um segundo, antes de entrar na água até à cintura. Abraçou-se aos que ainda havia pouco o passavam de colo em colo.

Melia hesitou um pouco. A mãe antecipou-lhe o gesto e gritou:

— Ainda não!

Mas já ela entrara nas águas, as saias curtas flutuando em redor. Os braços finos a sumirem-se entre os dos homens e mulheres. O rosto que procura sorrir para descansar a mãe. “Ainda não”, tinha dito esta.

As crianças pequenas começaram a subir pelo corpo dos mais velhos, agarrando-se-lhes aos cabelos e às orelhas, deixando marcas de unhas nas faces barbeadas, demorando-se tempo demais quando passavam pelos seus próprios pais e choravam. A tempestade aumentara a um ponto em que já quase não se respirava entre a chuva. E os meninos tentavam passar a um e um para a margem do rio que nunca tinha existido.

Mas o rio era longo e os adultos poucos. Foi o primeiro homem a perceber.

— Não nos salvaremos todos.

E toda a gente começou a gemer e a dizer os nomes das pessoas queridas. Ramos frágeis desprendiam-se das árvores e voavam em direcção às caras e às mãos que saiam das águas, ferindo. O rapaz e a rapariga tremiam, mas nem por um momento tentavam soltar as mãos. Nos ombros o peso das crianças pequenas que eram também elas embora não o parecessem.

— Façamos um círculo – disse o homem. —Uma pirâmide. As crianças mais pequenas que subam para as costas das que forem um pouco maiores e assim sucessivamente.

Por cima, Deus mandava as nuvens e a chuva e o vento e o frio e as trevas que cobriam o dia, enquanto por baixo tudo eram águas castanhas e revoltas, a terra desaparecida.

Os que estavam mais para a frente recuaram e, virando o corpo, deram as mãos aos primeiros. E sobre as suas cabeças, as crianças um pouco mais velhas puxavam para as costas as mais pequenas, as que mais choravam.

E as águas subiram e tocaram nas primeiras bocas que eram as das mulheres mais velhas. E a da rapariga que um dia tinha passeado com um rapaz por entre árvores de frutos verdes. E os últimos queixumes calaram-se, para ficar apenas o silvo da respiração que saía pelas narinas em pânico. Fecharam os olhos os filhos e esperaram que a água de baixo se unisse à que caía do céu.

E então, a chuva começou a decrescer. O vento diminui de intensidade. As nuvens mais escuras afastaram-se e a luz iluminou de novo o mundo que se esperava submerso. Deus recuou para a sua caverna do alto. Um pássaro apareceu a rasar as águas e desviou-se a tempo de chocar contra uma pirâmide de homens e mulheres que levantavam os filhos acima de si. E ao passar muito perto de uma menina que havia muito pouco começara a falar viu no reflexo dos seus olhos a história da sua própria vida. E só então se afastou, na direcção de um monte onde as águas começavam lentamente a baixar.

Cachapa, Possidónio, in «Contos que Contam», Lisboa: Centro Colombo, 2005

 

(colectânea de contos, “um projecto do Centro Colombo a reverter para o Instituto de Apoio à Criança”)

 

«monitoring the flood», christian © christian, via Deviantart (D.R)

Maria Velho da Costa — Maria Agustina, a trânsfuga

 

Não tem fito, não tem medo.

Vem em direcção ao olhar que a revê.

Pequena, cantarolante e abanando a saia, debaixo das estrelas que esmorecem. A lua desmaia, o alfange comido pelos rubores da aurora. Ela pára, aponta, abre a boca para dizer lua e vêem-se os dentes de rato, o riso de todas as palavras.

Tem quatro palmos de tamanhinha e vem só.

O vestido está desabotoado nas costas, os sapatos de verniz de presilha, os preferidos, vão soltas chancas a brilhar no relento da manhã. Atrapalham, mas não impedem. Os olhos apertados de botão-azeviche são só sorriso ufano, a quatro palmos do chão na cara cor de rosa-chá.

Tem três anos de idade e fugiu de casa.

Não é amuo, é o desconchavo do mundo o que a faz vir.

Diz ao sol subinte, esmerei-me, esmerei-me, ó medronho, ninguém me viu sair. Nem criada, nem ama, nem mãe.

Lá vem ela, no carreiro ermo, no plaino pedregoso, a que não terá contemporâneos.

Move-a o amor frio, a cabeça quente do poderio da terra. Não traz cuecas. Abre as pernas, ainda de roscas roliças, para uma pocinha escura. Triunfa, menina total e raciocinante.

Vibra e caminha, humaníssima.

Diz ao céu que se acende: amaldiçoa-me, mas deixa-me ser livre. E assim foi.

 

Costa, Maria Velho da, in, «Egoísta n.º especial», Estoril: Estoril-Sol (III) — Turismo, Animação e Jogo, S.A., Fevereiro 2007

 

Agustina Bessa-Luís © Correio do Porto (D.R.)

(clique para ampliar)

(links relacionados)

Maria Velho da Costa — Página com biografia, bibliografia, textos online e links adicionais.

Agustina Bessa-Luís — Página com biografia, bibliografia, textos online e links adicionais.

Agustina Bessa-Luís — Talento

A minha amiga L… (não se cansem a imaginar quem será; não é Lúcia, nem Laura, nem Leonarda) tinha dois contras na vida dela: a falta de dinheiro e a infidelidade do marido. Queixava-se amargamente de ambos, mas, por fim, já tomava as coisas com uma grandeza à grega. Um poeta que a estimava muito perguntou-lhe porque não enganava o marido.

— Com quem? Só se fosse com Alexandre da Macedónia.

Era uma resposta que requer talento, e ela tinha-o. Era uma snobe da Grécia e o que não sabia é que Alexandre também era um snobe. O seu tutor, Aristóteles, tinha-lhe incutido a admiração pela alta condição intelectual dos gregos, e acho que tudo aquilo que ele fez e as glórias que atingiu tinham muito que ver com essa inferioridade ou limitação face à civilização grega.

Alexandre era um génio, ou apenas um rapaz de talento?

São coisas diferentes. Não sei se a educação dum jovem deve ser entregue a um homem tão superior como Aristóteles. Forçosamente o génio causará um complexo avassalador sobre o aluno que, como Alexandre, estava mimado por um augúrio da sua divindade.

A própria mãe, a indomável Olímpia, achou por bem atribuir a paternidade de Alexandre a um deus, Zeus, e não a Filipe, seu marido. Além disso, era inclinada a superstições e coisas de magia. Quanto a Aristóteles, um filósofo e um génio da filosofia, foi o primeiro homem de pensamento a conceber um mundo global. Vivia em Estagira, cidade grega próxima da fronteira com a Macedónia; e o seu pai tinha sido o médico pessoal do rei Amintas. O gosto de Alexandre pela medicina vinha daí. Aristóteles foi perceptor de Alexandre durante três anos, o que bastaria apenas para lhe dar o verniz grego e a reputação de ter sido seu aluno. Mas não é de crer que lhe transmitisse o fulgor do seu génio nem sequer a síntese da sua sabedoria. Os talentos de Alexandre, a começar por uma forma física impressionante, são inegáveis. Mas foi ele um estratega consumado ou só um rapaz fogoso e apaixonado por uma ideia: a de superar o mestre e tudo o que se lhe deparasse como valor reconhecido; superar o mito grego, sobretudo?

Os gregos mereciam bem a sua celebridade. Tinham descoberto a natureza heliocêntrica do universo e a estrutura atómica da matéria. Ao átomo, o Oriente opunha Deus. E assim continua a grande oposição dos dois espíritos. Alexandre nasceu quando esta tensão estava formada. Não estava em vista a confrontação entre as duas civilizações mas a fusão das duas, complementares como os homens são uns dos outros. Esta ideia, vinda¹ dos segredos só contemplados  pelo génio, teria que ser posta em prática pelo talento. Alexandre foi um motor desse talento necessário à execução das grandes ideias. 

Digamos que venceu e fracassou ao mesmo tempo. Tinha trinta e dois anos e era senhor do Universo. Mas a sua capacidade de curiosidade e inovação esgotara-se. Já não comunicava espontaneamente com o seu exército; os antigos amigos estavam sombrios, preparavam-se as sedições.

Os soldados estavam cansados das imparáveis marchas, da fome e das exaustivas campanhas. À borda do Ganges amotinaram-se e Alexandre teve de ceder. Um ano depois estava morto. Morto como um negociante no seu quarto de cama, devorado² pela malária ou talvez envenenado, que e a primeira suspeita que derruba a alma antes da vida. Estava desiludido ou apenas enfraquecido para fazer frente à doença, de resto agravada pelas contínuas bebedeiras e excessos de ambição. Ele sabia que a maior parte da terra lhe era desconhecida e que não a podia atingir nem juntar à sua glória. Perguntei à minha amiga L…:

— O talento foi o maior vício de Alexandre. Até hoje ninguém o superou. Mas, como dizia Platão, “as pessoas de bem não querem governar nem pelas riquezas nem pelas honras”. Isto põe Alexandre fora da lista dos homens de bem?

— Quem diz que eu o amava por ser um homem de bem?

— Era por ser visionário?

— Era porque havia nele bondade; provou-o muitas vezes. É o talento maior que alguém pode ter.

— Isso é — disse eu. Não me ocorreu dizer mais nada.

Bessa-Luís, Agustina, in, Autêntica n.º 7, Leça do Balio-Matosinhos: Unicer, 2007

¹ — «vindo», no texto impresso, provável erro tipográfico.

² — «devotado», no texto impresso, provável erro tipográfico.

Nota: a paginação do texto torna quase indiscernível a separação dos parágrafos. Seguiu-se um critério o mais próximo possível da estrutura do texto para a definição dos mesmos.

"Era porque havia nele bondade"

Possidónio Cachapa — 50

 

 

No meio de uma sala, uma gaiola dourada com uma mulher lá dentro. Cheira a cera e os mosaicos negros e brancos do chão brilham. Mas não reflectem o tecto. O que estará por cima.

Veste apenas lingerie, a mulher. Não se consegue ver a cor da roupa porque as janelas estão quase fechadas e há cortinados de tule, cobertos de pó, na sua frente. Sombras, no chão aos quadrados.

O cheiro de rosas sobe até à mulher que aproxima as mãos da cara e aspira.

Olha as flores fanadas sobre as costas da mão e pergunta porquê. Tem também jarros brancos, a amarelecerem nas pontas enroladas. As curvas elegantes e lascivas das suas copas a cobrirem-se de manchas amarelas e castanhas. Morrem flores nas mãos da mulher e é esse cheiro que a entristece.

“Vou pensar numa coisa boa, boa”, diz a si própria. Repete o ritual de meditação a que se forçou nos últimos anos: uma praia, as areias amarelas, o sol quente sobre a pele acabada de sair da água. Enterra os dedos e sente os grãos, a passar entre eles. Repara que tem os cabelos fora da toalha, mas não se recolhe. Um movimento agita a areia quente, agora, desagradavelmente quente, e um pequeno escaravelho preto sai do nada, caminhando na direcção do seu corpo. Faz-lhe cócegas, o insecto escuro sobre a pele, um pouco enrugada. Das suas costas vem uma voz a rir, que não consegue ver. é a de uma rapariga. Está a rir-se e provavelmente a mover os braços. A pele firme dos braços. A suavidade dos braços. A mulher não a vê, mas sabe que um homem tem as mãos sobre esta pele que apenas adivinha.

“Asso”, e levantou-se em direcção às dunas.

Quase só silêncio,  naquela sala. No chão da gaiola dourada, acumulam-se cascas de sementes. Comeu-lhes, uma a uma, o núcleo branco, doce. Quase sem dar por isso. Estão secas, as cascas, e rangem debaixo dos seus pés descalços.

Por cima da casa, passam corvos negros. Rodam, afastam-se, quase tocam as telhas rosa-velho e laranja, o musgo e o arroz-dos-telhados.

“CRRRÁÁÁÁÁÁÁ”, gritam, por cima do edifício, da gaiola e da mulher que nesse preciso instante pensa que são quase sete horas e o marido não dá sinais.

Mas engana-se. Ele acaba de entrar. Pousa a pasta.

“Hoje, uma das empregadas desatou a gritar com um utente. Não sei o que lhe disse ou fez o homem para provocar aquela reacção. Coitado, ainda tentou travá-la, evocar direitos. Mas ela parecia um bicho, por um instante. Apenas um instante. Depois, desfez-se em lágrimas, claro. Pediu-me desculpa, que não sabia o que lhe tinha dado.”

Tirou a gravata e largou os sapatos num canto. Na cozinha, bebeu água, de um copo largo, impecavelmente limpo.

“Tive pena dela, coitada. Tão nova ainda. Não percebe.”

Os seus olhos brilharam, por um instante. O cheiro das meias, estreadas nessa manhã, entrou na gaiola. A mulher conteve, já sem dar por isso, a respiração.

“Encorajei-a entender melhor as pessoas. As necessidades delas. Aquilo que às vezes nos parece um abuso e que não é mais que um gesto de alguém que precisa da nossa atenção. Coitado de quem é novo.”

Desapertou o cinto e foi mudar de roupa ao quarto.

Na sala a mulher tremeu um pouco.

“Estou numa praia, ao lado de um barco de pesca virado ao contrário. Cheira a madeira húmida e a restos de peixe seco, e é natural que assim cheire. Se levantar a cabeça consigo avistar as silhuetas dos pescadores, muito ao fundo, a fumar e a lamentar a vida. O vento sopra quente.”

A lingerie estava encharcada em suor. Junto às raízes brancas do cabelo, pequenas gotas.

“O vento sopra quente, a areia escalda”, pensou. Do quarto, a voz do marido ao telefone. A mulher toca nas frades da sua gaiola dourada, agora vermelhas, em fogo, e descobre-as frias.

Um corvo pousa sobre o algeroz e apanha o papel com o bico.

HISTÓRIA DO HOMEM-CORVO:

No meio de um terreno de cultura, semeado regularmente com trigo, existia um espantalho, feito de uma cruz de paus secos. Estava vestido com um casaco velho e um lenço que tinha pertencido à mãe do dono do terreno. Por cima, a fazer de cabeça, um nabo gigante, comido aos poucos por pássaros, insectos e até pequenos mamíferos, que subiam pelas roupas acima, e voltavam com restos do tubérculo nos dentes. O nabo estava coberto por um chapéu de palha e era dentro deste que vivia um homem-corvo. Quentinho e protegido, debaixo do chapéu dos outros.

Era boa pessoa. Isto é, não chateava. Tinha lido os clássicos, antes do tempo. Tratava por tu o Joyce, o Musil, o Borges, e mais recentemente o Raduan Nassar (de quem gostava mais do nome que da escrita).. Onde ia buscar os livros não se sabia. Apenas que os lia, em silêncio, dia após dia, ano após ano. No meio desta concentração esquecera-se até de acasalar. Acordava em algumas noites de Primavera, aflito, sem saber porquê. Mas no dia seguinte, já se tinha esquecido e mergulhava de novo na leitura, saindo apenas para comer alguma coisa que rastejasse pelo chão ou para renovar a sua biblioteca.

“Não sabem o que perdem”, dizia ele aos outros animais, que passavam perto. Tinha deixado crescer uma barbicha oitocentista e, em virtude dos olhos cansados, roubara uns óculos a um velho adormecido à espera de uma camioneta de carreira que tardava. “Sabem lá a alegria que dá ler uma frase como esta: “O poeta celta Taliesi diz que não há nenhuma forma no universo que não tenha sido a sua”?. Mas as formigas não lhe ligavam, os melros cruzavam-se no ar, apenas contentes, um pouco mais à frente, o agricultor que desconhecia a sua existência, continua a lavrar a terra. “Pobres ignorantes”, pensava.

Como, apesar de tudo, isto lhe deixava um sabor amargo no bico, decidiu um dia começar a escrever, usando tudo aquilo que tinha lido. Repetindo a ideia testada, a frase certa. E quando fez isso, alguns animais vieram ter com ele. As ovelhas abriam a boca de espanto, as vacas sustinham o ruminar por um instante, uma ave tonta pousava ao lado, piando de vez em quando, “É genial!”. O homem-corvo ficou contente. Não é preciso muito para deixar contente quem nunca tinha tido nada, e continuou na sua escrita-leitura e na sua leitura-escrita.

Os dias passaram. e as vacas que pareciam escutá-lo foram cortadas em tiras de carne escura, a pele a forrar cadeiras. Antes delas, as ovelhas tinham levado um tiro sobre o crânio e o ar que ali vivia juntara-se à estratosfera das coisas vazias. Enquanto a barbicha do homem-corvo embranquecia, as coisas que julgara  conhecer morreram todas. Sobrou o campo, o lavrador cada vez mais velho, o clima que se tornava caprichoso, as dores junto às unhas das patas finas. No seu quinquagésimo aniversário, o homem-corvo tirou a cabeça fora do chapéu onde vivia, olhou os campos que nesse ano não estavam semeados, e percebeu que não lhe restava tempo para começar a viver.

Desceu do espantalho, enterrou os pés na terra e, quando começou a chover, virou o bico aberto para cima. Só depois caiu, as asas abertas em cruz para que o vento as movesse tanto tempo quanto possível.

 

No cimo de uma casa, um corvo levanta voo. Por baixo, uma gaiola com uma mulher lá dentro. À sua volta, os mosaicos grandes, brilhantes e estéreis cheiram a cera. Está na penumbra, esta sala.

 

Cachapa, Possidónio in, «Egoísta n.º 50», Estoril: Estoril-Sol (III) — Turismo, Animação e Jogo, S.A., Junho 2008

 

(post reeditado)

[Nota: a reprodução integral deste texto de Possidónio Cachapa é um acto ilícito, de acordo com os termos fixados pela publicação. Ao transcrevê-lo, na íntegra, a partir da edição comemorativa do quinquagésimo número da mesma, ponderei duas ordens de razões: nos meios literários, e culturais mais elitistas no nosso burgo a «Egoísta» não “conta”; não é referida, mencionada, o seu lugar significativo, original, na divulgação das artes e das letras que se produzem em Portugal e noutros países não são (ou serão muito raramente) referenciadas, tal como as suas edições, os autores, a qualidade gráfica (creio que tal facto se deve a um preconceito absurdo quanto à origem e à natureza do negócio do publisher , o que é uma característica de saloios). Por outro lado,  não tive capacidade ou coragem para cortar um «excerto» deste fascinante texto de Possidónio Cachapa, a título de citação. Resta-me pedir toda a indulgência possível a Mário Assis Ferreira (director, que deu asas a este singularíssimo projecto), à Patrícia Reis (editora, de irrepreensível criatividade e acerto). E parabéns igualmente ao projecto gráfico (Henrique Cayatte) e ao Possidónio Cachapa, evidentemente. Para que conste, farei chegar ao conhecimento dos primeiros e ao autor do texto esta transcrição.]

 

(já depois de transcrito o texto, quero agradecer à Patrícia Reis e ao Possidónio Cachapa, editora e autor, a sua permissão e generosidade)

 

«Scarecrow» — Igor © Igor, via Deviantart (D.R.)

 

 

Maria Gabriela Llansol — Herbais, 16 de Agosto de 1981

 

Hoje, passada a madrugada, continuei o dia com a minha parte mais sombria; soltaram-se-me as minhas recordações, presentes, passadas e futuras, e não encontrava caminho linear entre elas.

Não só importa escrever sucessivamente, mas saber quem me sucederá numa constelação de sentidos.

O que é a descendência?

A seiva sobe e desce numa árvore, estende-se pelos ramos, e é regulada pelas estações; eu e a árvore dispomo-nos uma para a outra, num lugar por nomear. Este lugar não tem significação de dicionário, não transmigrou para nenhum livro.

 

Agora o sol, o solo, a solo, encadeiam-me nas palavras      Esta madrugada aproximei-me da certeza de que o texto era um ser.


Llansol, Maria Gabriela, um falcão no punho — diário I, Lisboa: Edições Rolim, 1985. p.48

«A minute, a life», d-minutiv © d-minutiv, via Deviantart (D.R.)

(clique para ampliar)

 

Links Relacionados:

Bibliografia

Espaço Llansol — Associação de Estudos Llansolianos

Bénédicte Houart — Dilúvio

 

 

Dilúvio

Chove. As ambulâncias já ligaram as suas sirenes. O acidente ainda não aconteceu, mas com certeza não vai tardar. E, por isso, quando chove, penso na morte. Na morte daqueles que amo e de todos aqueles que deveria ter amado se soubesse como. As ambulâncias desligam as sirenes. Levo a mão ao sexo. Modo de chorar. Modo de despedida.

Chove. Cheira a narcisos no centro da cidade. As velhas estão dentro de casa aconchegando o tempo às pernas exangues. O sangue teima em circular embora a cabeça descaia vezes de mais. As velhas estão dentro de casa, salvo aquela que aquece sempre os pés na calçada. Percorre as ruas da cidade faça sol faça chuva. E nos seus cabelos compridos a chuva deixa gotas que parecem pérolas.

Chove. Nos centros comerciais, há homens sentados junto às escadas rolantes. Estão pensativos. De vez em quando, esticam o pescoço, giram-no para a esquerda para a direita, movem-no para cima para baixo. Pensam na vida. Ela corre dentro deles como se fosse explodir dentro de segundos. E vai. Não estes segundos, mas outros, os próximos, talvez. Agora, ela chega-lhes em catadupa, escorre para fora deles.

A chuva parou. As putas animam os passeios trocando receitas de cozinha. Riem mostrando os dentes negros. Nascem, estão a nascer, novos clientes. Hão-de crescer depressa. Hão-de levar as mãos aos bolsos. Quanto a elas, é certo que não morrerão nunca.

Uma mulher está sentada a uma mesa. Leva de vez em quando o cigarro aceso aos lábios. Observa discretamente quem passa, não vá pensarem… Não tem importância, ela pensa por eles. Pensa com tanta força que parte a caneta contra a página. Ou então pára de escrever. Risca a página como se mudasse de vida.

Recomeça a chover. Calo-me. Por que não chove ininterruptamente durante um século? Criámos um deus de amor, mas não fazemos a menor ideia do que seja amar.

Texto publicado na revista INÚTIL número 2, Abril de 2010

«Shadows», Hugo Colares Pinto, © Hugo Colares Pinto (D.R.)

(clique para ampliar)

Links Relacionados:

Artigo sobre a autora no D.N. (por Isabel Lucas)

Alguns poemas (traduzidos para inglês, com a versão original)

A autora no catálogo da «Livros Cotovia»

Revista Inútil

Portfólio online de Hugo Colares Pinto

 

Dulce Maria Cardoso – Dois Homens

 

 

À Marlise Vaz Bridi

Chamou-me, aqui estou, disse o filho. O pai olhou para o filho como se o tivesse visto no dia anterior. Sem reparar nos sinais de ausência de mais de vinte e sete anos, os olhos mirrados que a custo se percebiam azuis, a pele velha, os dentes rombos e amarelados.

Estavam sentados na varanda contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, muito laranja. As gaivotas gritavam à procura de comida. O filho não sabia que se lembrava tão bem da fome das gaivotas.

Chamou-me, repetiu o filho.

O pai ficou calado uns segundos.

Amanhã, disse lentamente.

Os olhos azuis do pai fugiram dos olhos azuis do filho para o azul do céu que o fim da tarde envelhecia. O filho olhou para a ria e depois para o sapal. Já que nunca nada mudava, também eles deveriam ter continuado iguais. Mas não.

No dia seguinte o filho acordou tarde com o cheiro a comida e o barulho na cozinha. De olhos fixos no tecto o filho tentou identificar as vozes das mulheres. Em vão. Eram-lhe totalmente desconhecidas.

Reconheceu o cheiro da carne no forno. Como antigamente, pensou. Depois o cheiro a café e a caramelo. O pudim de café. Como nos domingos de festa. Antes de o pai ter dito que preferia que ele não tivesse nascido.

Olhou para as paredes do quarto que tinham sido pintadas de cor diferente. Reparou na mobília que era nova. A cama era mais larga e o guarda-fatos tinha agora um espelho que o reflectia no desconforto de ali estar.

Na cozinha o barulho crescia misturado com passos que iam e vinham. Punham a mesa na sala grande. A mesa comprida com a toalha de linho branco. E o padre numa das cabeceiras:

Ninguém se esconde dos olhos de deus. Muito menos um pecador. Um justo talvez. Um pecador nunca.

O pai bateu à porta do quarto do filho com os nós dos dedos. A comida está pronta, disse.

Sentaram-se nos lugares habituais, como se da vez anterior, antes do grande silêncio, o pai não tivesse repetido ali os mesmos nomes que lá fora chamavam ao filho.

Estou velho, disse o pai. Não queria ir deste mundo sem comer mais uma vez contigo.

As mulheres foram pondo na mesa travessas cheias de comida.

O pai serviu-se e mandou o filho servir-se. A sala cheirava bem. A rosmaninho. Pai e filho comeram. E tornaram a servir-se. E comeram mais ainda. Comeram muito e com verdadeiro prazer. Sobre isso também não trocaram uma palavra.

Quando a refeição acabou levantaram-se da mesa. Caminharam devagar, de tão cheios que estavam. Lado a lado.

Na varanda onde se sentaram outra vez contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, amarelo-esbranquiçado, o pai disse:

Agora já podemos terminar o que começámos. Dois homens não se despedem sem terem comido uma boa refeição em paz.

E ali ficaram. O sol alaranjou-se outra vez e as gaivotas gritaram novamente por comida.

Cardoso, Dulce Maria, Contos (colectânea), Leya, 2010

[Originalmente publicado em Até Nós, Edições Asa II, 2008]

"Is it strange to dance so soon?", futurowoman © futurowoman, via Deviantart, (D.R.)

Links relacionados:

Sobre Dulce Maria Cardoso aqui, aqui e aqui.

Rui Manuel Amaral – Doutor Avalanche

Foi lançado no dia 4 de Dezembro o novo livro de Rui Manuel Amaral, «Doutor Avalanche», edição da Angelus Novus. O livro tem um blogue próprio, onde se pode encontrar  exaustiva informação, bastante útil para um conhecimento adequado do título e do autor, incluindo notas críticas, onde se destaca a singularidade da escrita e do estilo de Rui Manuel Amaral no panorama da actual narrativa que se publica em Portugal. Várias são as referências a uma tradição (estribada em diversos autores), podendo ler-se: «(…) é exímio na arte do malogro. Usa de notas de rodapé que acrescentam vazio ao vazio das histórias, recorre ao humor e ao absurdo, por vezes ao puro nonsense leariano para desmontar chavões literários, frases feitas, clichés». Ao ler Rui Manuel Amaral, não me é possível deixar de pensar em Mário-Henrique Leiria como memória incontornável para a leitura da escrita deste autor.

o que os peixes decidiram fazer

Amaral, Rui Manuel, Doutor Avalanche, Coimbra: Angelus Novus, 2010

Capa do livro. Design de Sandra Roldão.

 

António Lobo Antunes – As crónicas na “Visão”

 

As crónicas de António Lobo Antunes são seguramente as mais belas publicadas na imprensa em Portugal. E não o são apenas pelo seu carácter “literário”; bastaria, claro, o ofício e a mão do autor para colocar estes textos num plano singular, sem paralelo naquele que se convencionou designar como o género «crónica». Mas, ao partir de pequeníssimas cenas quotidianas, pessoas vulgaríssimas, gestos sem consequência aparente, acontecimentos desprovidos de interesse visível,  António Lobo Antunes constrói ‘frescos’ de uma realidade que nos passa todos os dias perante os olhos, vista nestes textos com fulgurante lucidez, num olhar apenas na aparência desemocionalizado e irónico – e aí está a marca distintiva do dispositivo textual – mas ensopada de ternura, algo perto da proximidade cúmplice com o outro que se torna, de alguma forma, um outro ‘eu’. O estilo (um estilo Lobo Antunes aplicado à crónica) atinge aqui uma dimensão funcional implacável: porque é ele que, na casualidade breve da frase, na informalidade desenvoltíssima e colorida de cada diálogo, na deslocação do objecto, na evocação da memória ainda que por episódios, reminiscências, quase traços, na repetição utilizada como modo de revelação, elabora fortíssimos quadros de uma pessoa, de um rua, de uma cidade. Do mundo todo, ou de tudo isto junto.

Aqui se deixa (com a devida vénia e à laia de publicidade) a crónica que, em 7 de Outubro, António Lobo Antunes publicou na revista “Visão”. Uma iluminadora leitura das «gengivas desmobiladas» de todos nós.

 

O Cabo Ferrador

Duzentos euros por mês não dão para muita coisa: uma sopinha e uma maçã ao almoço, uma sopinha e uma maçã ao jantar. Nos intervalos pede-me cigarros

– Não há por aí um cigarrinho a mais, doutor?

ou senta-se nas esplanadas até o mandarem embora, tratando-o por tu

– Põe-te a andar

e ele lá segue para o café próximo a arrastar um sapato sem atacadores. Não aceita esmolas, não aceita dinheiro, só pede cigarros aos amigos

– Só peço cigarros aos amigos

de acordo com o seu código aristocrático de miséria. Quando quis oferecer-lhe uma camisola recusou ultrajado

– Sou algum infeliz, eu?

e levou uma semana a perdoar a minha incompreensão da sua dignidade Você pode ser doutor e escrever livros mas não percebe nada da vida e tem razão, não percebo nada da vida. O seu maior orgulho é ter feito a tropa em Chaves

– Em Chaves, senhor

e eu, que nunca fui a Chaves, esmagado de respeito por Chaves pela maneira como ele fala

– Quem não conhece Chaves conhece pouco do mundo

e tem razão outra vez, conheço pouco do mundo. Pergunto-lhe

– Como é Chaves, senhor Ismael?

e em vez de resposta olha-me, durante uma eternidade, com pena sincera, até erguer ao alto, por fim, a mão de unhas duvidosas, unidas em cacho para dar ênfase à maravilha da cidade. A mão acaba por descer a fim de aceitar um cigarro

(um cigarrinho)

e o senhor Ismael a estender-se para a labaredazita do isqueiro

– Tem montanhas perto

e o

– Tem montanhas perto

deixado cair como uma moeda fora da circulação, pequena condescendência a um ignorante que não merece que se gaste tempo em explicações. Depois de tossir o fumo acrescenta

– E outras coisas

submerso em inesquecíveis lembranças militares, paisagísticas, amorosas

– Gajas boas não faltam

gajas boas a inundarem, só para ele, as ruas de Chaves, sorrindo-lhe, piscando-lhe o olho, chamando-o num sussurro prometedor

– Ismael

e o senhor Ismael, é claro, a dar conta do recado

– Sempre dei conta do recado, doutor fossem dez, vinte ou cinquenta

– Pelos ossos da minha irmã que está na cova que aviei seis numa tarde

sem tirar o bivaque de magala

– Mostre-me uma mulher que não goste de fardas

as mulheres e o senhor Ismael gostavam de fardas, puxou de uma espécie de carteira que, com o tempo, adquiriu a forma da sua nádega, na carteira o retrato seboso de um soldado

– Soldado vírgula, amigo, cabo ferrador

o retrato de um cabo ferrador, cheio de infância na cara mas inigualável a aviar, em que levei tempo a descobrir a criatura de agora, já sem infância nenhuma na cara, pregas, cicatrizes, a pele a lembrar-me o mapa de Portugal da minha escola, com uma cagadela de mosca no Alentejo e uma segunda mesmo ao lado de Faro, nas feições do senhor Ismael também os pontos negros das cidades, rugas iguais ao Guadiana e ao Douro, a ponta de Sagres do queixo, o estuário do Tejo da boca e, a propósito de boca

– Não se arranja um bagacinho que tenho a língua seca

mostrando-ma a sair das gengivas desmobiladas, guardando-a de novo

– Sequíssima

pronta à lubrificação do bagaço, metido na goela de uma só vez, à homem

– Quem não mete o bagaço de uma só golada não é homem nem é nada

seguido de soluços e lágrimas afastadas com desprezo pela manga

– A gente envelhece

e no meio das lágrimas do bagaço uma lágrima diferente, que ele percebeu que eu notei dado que

– Isto passa

de súbito quase menino, quase aflito, quase a abraçar-me, o retrato do magala por uma pena, cheio de infância na cara. Disse

– Doutor

repetiu

– Doutor e ficámos os dois que tempos em silêncio porque na realidade o

– Doutor

um discurso compridíssimo, com todas as suas desgraças dentro. Passado um grande bocado acrescentou

– Tenho dormido num degrau, sabia?

levantou-se da cadeira e foi-se embora, aposto que sem pensar em Chaves, nos montes, nas gajas, todo inteiro no interior de uma incomodidade com picos que o atormentavam, o filho morto em criança, a mulher ida com um caixeiro viajante, os duzentos euros, a sopinha. Mas havia de acabar por animar-se

– Isto já passa amigo

porque não há azares que um cabo ferrador como deve ser não aguente, em sentido para o toque a silêncio, que nos mexe a todos por dentro e é o mais bonito que existe.

 

António Lobo Antunes, revista Visão, 07 de Outubro de 2010

 

«Razão Forte», Stuart de Carvalhais (ficheiro online encontrado no blogue "Dias que Voam")

Beatriz Hierro Lopes – Jardim de São Lázaro

(texto inédito)

O que fazemos aqui, todas as horas paradas, tu olhando a superfície da água, eu a estátua de quando os meus pés, no colo de minha mãe, não me chegavam para tocar o chão de mármore, o que fazemos aqui? E talvez nunca tenhamos feito nada, talvez não façamos nada, já viste como o mármore escureceu com os anos? De tantos pés a ser pisada, mármore cinza como os dedos que trocam de jornais, dá-me metade, peço-te, os meus dedos caminhando lentos sobre as dobras das páginas sujando-se de letras e, não percebo, que nunca percebi bem as letras e a visão do branco que se abre no fim delas, no centro delas, elas negras manchando o branco e o branco sem se esquecer que é branco espreitando por entre as grades. Cinza como os meus dedos, que guarda as memórias deste mármore. Que o sujo com os meus passos de quando ainda era menos do que o colo de minha mãe, tu à minha frente, que ando devagar, eu pedindo-te ensinando-te a curvatura imperfeita que os meus passos criam ao tocarem o chão, dizendo-te, – anda lento, e o lento, um pouco como o vento que sopra lamentos sobre o lago que vês. No centro da água, emergindo de um só trago, os braços o rosto, a nadadora de branco, petrificada desde o colo de minha mãe, e o que vês (sem saberes) são todos os anos que juntei para que pudesse estar aqui, neste banco vermelho de jardim, pedindo-te metade de um jornal que não é meu.

Do coreto em que nunca entrei, por não ser daquele coreto as brincadeiras de infância, só as escadas, eu sentada nas escadas, imaginando depois do colo de minha mãe, que a porta que dava acesso à cave debaixo do coreto se abria e que dela saíam as raízes de todas as árvores, porque as raízes das árvores têm nome e têm corpo, e era com elas que falava quando ainda era só eu e não existia mais ninguém para lá do fim dos meus pés. Dava-lhes voz e cores, que o sangue de cada árvore é diferente, e existiam as verdes as azuis as amarelas, com sabores de gelado e de fim-de-tarde de Agosto de quando o meu pai não trabalhava e me ensinava a andar de bicicleta. Mais tarde, eu tropeçando, a bicicleta que era branca como mármore sujando-se de terra porque as raízes das árvores, expondo as mãos ao sol como fios de cabelos agarrando-me os tornozelos, não gostaram que eu me esquecesse das escadas do coreto. Que agora, vendo bem, me parecem demasiado pequenas para as minhas pernas para os meus pés e a guarda que o fecha, pintada de verde, que por eu ter pernas longas e pés grandes poderia saltar e brincar no coreto, mas as brincadeiras as árvores estão mudas, que na minha cabeça já não existem árvores nem colo de mãe ou bicicleta cor de mármore. Só esta ideia estranha de que a minha estátua, busto de homem, se parece com uma lápide funerária. Não há aqui mortos, embora os haja debaixo do jardim, nesta terra que antes de ser terra de jardim foi cemitério de cidade. Talvez nas raízes das árvores cabelos mortos de mulheres feias, não mães que as mães só colo e cabelo castanho quase dourado e, quem sabe, talvez fossem elas fazendo-me tropeçar de bicicleta, os joelhos raspando na terra, manchando-a de vermelho que sou vermelho como os bancos deste jardim, onde nem o meu pai nem a minha mãe liam jornais, e não havia dedos cinzentos nem meninas de horas caladas presas ao lamento das águas.

Talvez só estejamos aqui para eu te mostrar de que cor é a cor do branco das páginas que se fecham na minha mão.

 

Beatriz Hierro Lopes, Outubro de 2010

 

 

«Out in the garden», Ailera Stone © Ailera Stone, via Deviantart (D.R.)

 

Agustina Bessa-Luís – As Fúrias (excerto final)

(de volta)

Virtualidades das redes sociais: uma página dedicada à escritora acende como um rastilho a memória que do seus livros tenho. Procurando dar contributo para a referida página, acabo com As Fúrias na mão, e mesmo antes de o começar a reler já, deixa-se aqui o fragmento com que o romance termina. Falta um par de dias para que se cumpram 33 anos sobre a sua publicação.

«As traseiras da Rua do Almada ... e da Praça Filipa de Lencastre», Carlos Romão © Carlos Romão, via «A Cidade Deprimida», blogue

(clique para ampliar)

(…) Uma das vezes em que esteve na casa paterna ouviu falar na moradia da Foz, que ia ser vendida para dar lugar decerto a novas garagens e super-mercados. Os seus habitantes tinham sido desalojados, e para evitar outros intrusos, as janelas foram estilhaçadas e parte do telhado arrancado. A escada até ao primeiro andar foi destruída. Aguardava assim o braço do ‘caterpillar’, com uma energia que a fazia parecer ainda um belo modelo de metrópole passada. Pedro Rondom não foi lá; seria demasiado romântico uma visita dessas, e sobretudo o tempo não estava distraído no sentido dessas cogitações. Mas pensou com amargura que nada restava de Virgínia, que a marca da sua mão não ficara na balaustrada da entrada onde muitas vezes a vira, o tronco inclinado para fora como o de uma estátua prestes a precipitar-se. O cabelo, delgado, escondi-lhe a face; mas ele adivinhava-lhe o movimento dos lábios, a pálida boca que resumia uma passividade da razão que ele quisera explicar. Por fim, pelo que tinha de irremediável, isso fizera com que a amasse.

Uma família de ciganos instalou-se no jardim, mas foi expulsa logo a seguir; as rãs continuaram a coaxar tranquilamente no lago cuja podridão fazia rebentar bolhas de gás à superfície. Talvez a salamandra negra existisse ainda como um pequeno monstro dos abismos que dorme e desperta sem ética possível e sem transcendência. Era eterna por isso mesmo. Pois o que toda a inteligência ilumina é mortal. Doutro modo, a vida tornava-se insuportável.

Porto, 28 de Setembro de 1977.

Luís, Agustina Bessa, «As Fúrias», Lisboa: Guimarães e C.ª, Editores, 1983

Vergílio Ferreira – «Carta» (um conto)

Agora que na Quetzal se procede à reedição da obra e à publicação de inéditos de Vergílio Ferreira, lê-se de novo o volume que reúne os Contos do escritor, e aqui se deixa um deles, na íntegra.

«flames», maria © maria, via photobucket (d.r.)

CARTA


Eis que te procuro agora como nunca, te espero agora como nunca. Se tu visses… A casa fica no meio das oliveiras e de um quintal de verdura. O tempo não passa por ela distraído, e demora-se sempre um pouco. Quando é pela primavera, há flores nas macieiras e pintainhos novos pelo pátio. E quando é o Verão, há as manhãs solenes, e quando é o Outono, o ouro das colheitas. Lembro essas manhãs e o brilho fresco da água pelas noites sufocantes de Julho, e o frémito da terra na hora do recomeço. Meu pai, quando parti, disse-me:

— Volta.

Minha mãe olhava-me em silêncio, dorida, e todavia serena como se detivesse o fio do meu destino, ou soubesse, da sua carne, que tudo estava certo com a vida: o nascer, o partir, o morrer.

— Volta — repetiu ainda meu pai.

Eis que volto, enfim, nesta tarde de Inverno, e o ciclo se fechou. Abro as portas da casa deserta, abro as janelas e a varanda. No quintal as ervas crescem com as sombras, as oliveiras têm a cor escura do céu. Em baixo, no chão húmido ao pé da loja, há restos de ferragem enferrujada: um sacho sem cabo, um aro de pipa, um regador. Meu pai amava a terra. Lembro-me de o ajudar a podar o pequeno corrimão de videiras, de lhe ir encher o regador para o cebolo novo. Minha mãe olhava-nos da varanda e os três sabíamos uns dos outros no silêncio dos corações. Pensei, sofri, lutei. Mas de tudo o que aconteceu é como se nada me tivesse acontecido. Alguém me incumbiu do que fiz, muito antes de eu nascer, quando outros homens, outra gente, acabavam a tarefa que eu havia de começar. Essa tarefa deixo-a aos que vierem depois. De tudo, ficou-me apenas esta voz humilde que ouço, que ouço.

— Se voltares — tu o dizias.

Aqui estou. Acendo lenha no fogão e as chamas crescem como uma memória antiga. Silêncio bom. Como outrora. Como quando nada tínhamos já a dizer, e estávamos cheios, todavia, da presença um do outro. Estendo as minhas mãos ao calor, e olho, e escuto. O lume enche-as de sangue, acende-as por dentro como brasas. Tu dizias:

— Ninguém conhece as suas mãos. Só talvez as dos outros. É bom ter as tuas aqui, com os dedos todos submissos.

Estranhas noites estas de Inverno, sem um rumor. Só os cães ladram das quintas. Discutem pela noite fora até adormecerem. Ouço um já rouco, lá nos confins da noite, agora a falar sozinho, decerto para ter a última palavra. Houve um cão outrora cá em casa. Numa manhã de chuva, achámo-lo à porta da cozinha, todo ensopado, a tiritar. Minha mãe não gostava de cães.

— Sujam tudo, roem tudo.

Enxuguei-o, dei-lhe pão, pus-lhe um nome. Minha mãe resignou-se. Os caçadores levavam-no à caça porque tinha bom faro. Um dia, não sei como, mataram-no com um tiro. Era um cão perdigueiro. Tinha um olhar humano.

A chama apaga-se, a pirâmide de carvões desmorona-se. Os cães adormecem enfim, sob o grande céu de estrelas. Não há lua. Nem vento. Só as estrelas vibram no céu negro de veludo. Se tu viesses. Eu te imagino, desde o fundo do meu cansaço, silenciosa e grave como esta hora final, como um apelo obscuro vindo do abismo do tempo. Um halo de sombra coroa o teu olhar, a tua presença é quente como o fluido da ternura. Tudo em vão, tudo em vão. Ou não bem isso, não bem isso. Alguma coisa me ficara esperando talvez, desde antes e antes, qualquer coisa que eu trazia do lado de lá da vida. Eis que a encontro e me fala e floresce no sangue e procuro reconhecê-la na tua face. Aqui ao pé do fogão há uma cadeira de braços. Minha mãe sentava-se nela, meu pai nesta em que escrevo. Pelas noites de vento, olhavam o lume, deixavam-se adormecer… Tu dizias:

— É bom terem já dito tudo e reconhecerem-se ainda.

Abro de novo a varanda para a noite, o ar gela-me a face como um espelho. Ao fundo do quintal havia uma figueira grande. Minha mãe franjeava xailes e cintas para fora. E eu atava as cintas e balouçava-me na figueira.

— Ah, tu acabas por deitar a figueira abaixo. E já rompeste duas cintas.

Numa noite brava de Inverno, a figueira caiu. E minha mãe dizia sempre, daí em diante, que fora de eu me balouçar…

Tanta coisa aconteceu e eu recordo e eu recupero não talvez na lembrança, não talvez, mas num apelo indistinto e longínquo e angustiante como o silêncio desta noite. Olho ainda o frémito das estrelas sobre a aridez fria da terra. E penso: «Qualquer coisa vai acontecer de misterioso e grande, qualquer coisa miraculosa se anuncia como a vinda de um Deus.»

— Sim, a esperança é talvez a melhor parte da vida.

Tu o dizias. Eis que porém a minha esperança tem agora a cor do cansaço e da resignação. E de tudo o que pensei e quis que brotasse da terra, de tudo o que foi novo e me comoveu, da agitação do meu sangue, do clamor com que fiquei rouco, da fúria, do choro, da alegria, de tudo o que me deu a conhecer os meus dentes, os meus ossos, as minhas pobres vísceras — a forma que se desenha e que me envolve agora tem o volume quente do seio da piedade. Se amanhã quando me erguesse e pensasse que havia ainda um dia árido a vencer, e outra noite, e outro dia, e quantos dias e quantas noites o tempo guarda para mim, eu de manhã te encontrasse preparando o fogão e o aroma da casa, e te sentasses nesta cadeira ao lado, e os dois nos esquecêssemos de falar, até um dia, até um dia, e nos deixássemos enfim adormecer…

Ferreira, Vergílio, Contos, Lisboa: Bertrand Editora, 2008.

Matilde Rosa Araújo (1921 – 2010)

Foi um mail do Rui Almeida que me deu a notícia da morte de Matilde Rosa Araújo, autora que marcou gerações de leitores e partiu sem capas de jornais ou notícias de abertura de telejornal. Não era um simples mail e trazia, nele, um belo texto da escritora. O Rui fez mais pela devida homenagem a esta autora que muitos meios de comunicação social. Meios? Grupos inteiros.

[Rui Almeida é poeta (Lábio Cortado, Livro do Dia, 2008); e autor de um dos mais amplos e persistentes blogues de divulgação de poesia portuguesa, Poesia Distribuída na Rua]

MATILDE ROSA ARAÚJO / SEBASTIÃO DA GAMA

[…] Eras tu, Sebastião; tu glorioso, apesar do teu corpo mudo de menino de tua mãe. Tu que me disseste: «E quando a morte vier diz-lhe que não; diz-lhe que és moça e não cumpriste ainda. Vês, querida amiga, é por causa de momentos assim, em que te resignas a ela, que é preciso a gente escrever, mesmo com certa casca literária, uma «largada». Porque mocidade é insurreição, protesto contra o que não está direito, vontade de erguer monumentos, desassombro para contrariar a morte. Negas a tua mocidade — não a mereces, quando, em momentos que eu muito bem compreendo, aceitas a morte como uma boa irmã. E sabes tu por que motivo a morte, surda ao teu abandono, às boas vindas que lhe cicias, se vai para outros caminhos? É porque ainda a não mereces. Nós não merecemos a morte ainda, Matilde. Que é que nós fizemos? Que lágrimas enxugámos? A que bocas demos pão? Que remédios trouxemos para curar o «mal profundo da alma»? Claro, minha filha, que alguma coisa fizemos. A nossa torre de marfim é bem rasgada de janelas. Mas o «alguma coisa» que fizemos é tão débil, tão mínimo… Ver Nápoles e morrer — dizem. Fazer alguma coisa e morrer — devemos dizer nós, gente nova. Tu perguntaste-me, quando te disse o «Convite a ser-se moço»: «Porque rimaste no fim?» Achei fora de propósito a pergunta… Mas, se meditasse um minuto, talvez respondesse que para fixar melhor aqueles últimos versos.
É preciso merecer a mocidade, é preciso merecer a mocidade, é preciso merecer a mocidade. E o processo não é dizer que sim à morte.
Quantas vezes me insurjo contra mim, Matilde, porque me não sinto verdadeiramente moço; é que a minha vida tem mais horas de sangue morno do que sangue latejante… E eu queria ser era forte, era moço, era construtivo. Não para que dissessem, num elogio: Aquele é forte, é moço, é construtivo. Antes para sentir que era útil. Tanta vez tenho vergonha de mim, me sinto mesquinho!» E conta. E continua : «…agora não quero mais senão fixar uma coisa: é que podem todos gritar, como têm gritado, que sou um indiferente, um desinteressado dos… que me cercam — que eu sinto tranquila a minha consciência. E para tal me basta que saiba, de ciência certa, que não sou indiferente, que me não desinteresso. Valem, para mim, muito mais as acções do que as palavras. E tenho e certeza de que sou humano e do meu tempo nas minhas relações com os outros. Para muitos desses outros não basta — queriam qualquer ismo para designar a minha maneira de ser; qualquer ismo moderno. Mas paciência. E sobretudo é cedo demais para julgar quem é mais interessado.
E também já estou a escrever demais e sério demais. A isto me levou o nevoeiro que amanheceu na Arrábida. Desculpa. Eu preferiria, de facto, contar-te uma história de crianças. Olha, esta, a que a Joaninha assistiu: «Eu gostava de ser flor. E tu?» Bem é verdade: «O melhor de tudo são as crianças».
As crianças. Era isso, Sebastião. Era tudo isto: o sol alado, glorioso, que morreu ontem. Era esta tua força perante a vida, este teu merecer a morte, gloriosa e final como mereceste. É isto que nos afasta. Tu mereceste-la inteira […]

(in Távola Redonda – folhas de poesia, fascículos 16 e 17 [edição de homenagem a Sebastião da Gama], 30 de Abril de 1953 – da edição fac-similada: Contexto editora, 1989)

Convento da Arrábida, Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. (Fonte: Fundação Oriente)

Vergílio Ferreira – Em Nome da Terra (fragmento)

 

“Espera, deixa-me ver-te devagar. Dás uns passos, bates uma palmada no chão e sobes alto e lá no ar dás uma volta sobre ti, mas antes de caíres de pé, imóvel, fico a ver-te parada no ar. Corpo elástico, esguio, fico a ver-te. Flutuas imponderável, a Terra não tem razão sobre ti. Vejo-te no espaço, todo o corpo elástico numa curva dos pés até ao extremo das mãos, ou talvez não, recomeça o salto para ver melhor. Talvez o corpo não em prancha ao alto mas enrolado sobre si e giras no ar em rodízio até te desenrolares e caíres depois em pé firme. Queria dizer-te como isso me maravilhou, o teu corpo poderoso, desprendido das coisas, liberto da sua condição bruta, feito de um esplendor imaterial. Terei dito bem? Imaterial. Quanta coisa havia nele, os teus ossos, as tuas vísceras, mas tudo existia leve e eu só lhe via a sua forma perfeita de voo. Há uma órbita da exactidão como se diz dos astros e tu seguia-la, um rigor matemático com que o universo existe. (…)


 

Janela

Janela

 

Bati palmas, elas ressoaram pelo espaço do Olimpo. Não fui bem eu que as bati mas o duplo de mim, não te sei explicar. As palmas foram à frente e eu já não as pude apanhar. Porque o homem, minha querida, tem sempre em si um outro de si e só num tarado é que os dois coincidem. Também não sabia bem porque o fiz, agora sei. Claro, havia a destreza, a perfeição da tua realização, mas agora sei que havia outra coisa. Queria dizer-te simplesmente que havia o teu corpo, mas não chega. Havia outra coisa – que coisa? Mónica, minha querida. Havia, deixa-me pensar. Ah, poder falar do teu corpo. Perder o pé da realidade. Fechar à volta uma cortina para que nada de ti me fugisse e ficar eu só diante de ti. Sinto agora alguém dentro de mim a perguntar e depois? que é que aconteceu? Sei lá o que aconteceu, quero lá saber. Quero é estar contigo no nada do tudo o que acontecer. Saturar-me da tua presença. E ver-te. E ver-te. Que importa o que «acontece»?”

 

Ferreira, Vergílio, Em Nome da Terra, 10.ª edição, Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 28 – 29.