As Folhas Ardem

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Etiqueta: Língua Morta

Rui Pires Cabral – Começo

Vejo-te um pouco como se já não houvesse

uma casa para nós. As grandes perguntas estão aí

por todo o lado, onde quer que se respire, dentro

dos próprios frutos. É o começo da noite

e os cinzeiros já estão cheios de meias palavras:

porque escolhemos tão pouco

aquilo que nos pertence?

Vejo-te de olhos fechados enquanto me confiavas

a tua história – à mesa da cozinha, quase um espelho,

quase uma razão.  As minhas canções preferidas

pareciam convergir para ti a certa altura, dir-se-ia

que te vestias com elas. E no entanto

como se apressaram as grandes florestas a invadir

as gavetas, como misturaram as raízes

no eco que fazia o teu desejo contra mim.

Cabral, Rui Pires, A Super-Realidade, Lisboa: “Língua Morta”, 2011

[nota do autor: “Este livro é uma reedição. Emendei alguns versos, rasurei outros tantos e excluí nove dos trinta e cinco poemas que compunham a versão original, publicada em Vila Real no outono de 1995”]

"sunsets and beer", Brittany Marter, via Deviantart (D.R.)

Maria Sousa — escrevo o que ainda não conheço

 

 

Escrevo o que ainda não conheço

nomes de ruas pássaros árvores

monólogos de quem ainda te fala alto

é a minha voz ou a tua?

 

lá fora a chuva confunde-se com gestos

falamos do tempo, ponte entre o silêncio e o nada

 

ouve, quando não fores capaz de falar, toca-me

 

Sousa, Maria, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.12

 

«let me fly», glinda © glinda, via Deviantar (D.R.)

[originalmente publicado em Exercícios para Endurecimento de Lágrimas, Lisboa: Língua Morta, 2010]

Maria Sousa – Exercícios para endurecimento de lágrimas

 

 

(reeditado, após alguns reparos pertinentes de Diogo Vaz Pinto, responsável pelas “Edições Língua Morta”)

Com lançamento em dia fadado a bons acontecimentos relativos à edição de poesia, 11 de Dezembro (pelas 18.30h, no Bar do Teatro A Barraca, em Lisboa), é com grande prazer que se anuncia aqui o lançamento de «Exercícios para endurecimento de lágrimas», nas “Edições Língua Morta”, essa outra recente boa notícia para a persistência da poesia editada. Para quem não conheça, Maria Sousa é autora de um dos mais interessantes (e belos) blogues feitos no burgo: There’s Only 1 Alice. É de grande valor e muito estimulante o trabalho poético de Maria Sousa, já publicado em revistas de poesia e conhecido por quem anda mais atento. Finalmente pode ler-se em livro (com uma tiragem de ainda por definir, mas que oscilará entre os 150 e os 200 exemplares!). Aqui se deixa um poema da escritora, originalmente publicado no blogue referido (apesar de o mesmo não constar no livro, servirá como uma espécie de amuse-bouche).

A mulher
organiza as sombras para evitar o escuro
na pele sente o medo

é prudente na batalha com as perguntas
que pousam no dia

sorriso

quando o som do telefone invade a sombra
nenhuma palavra lhe sai da voz
deverá falar como se fossem outras coisas a
respirar em vez do grito?

à janela, o vento e o sol, limpam-lhe as vozes
sobrepostas a dizer aquilo que a voz não diz.
mas não hoje

disse que não seria capaz de mudar
perdida no quarto, pequenino, onde utiliza os hábitos
como movimentos grosseiros

nenhuma palavra ali tem asas

fica apenas o silêncio onde a mulher fecha
as persianas e depois as cortinas
sem explicar o sentido do grito.

Maria Sousa (→ There’s Only 1 Alice, publicado sem autorização expressa da autora, acto de pirataria para o qual se augura pesado castigo)

«Exercícios para endurecimento de lágrimas»

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