As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Tag: Lígia Reyes

Lígia Reyes — Real Love

 

Meu amor madre‐pérola, 

Olha‐nos, a desfazermos 

Em ponto caramelo o corpo 

Em nostalgia e folhas de Outono ‐ 

Rash‐Rash ‐ Como queimávamos os pés 

Nesses passeios ínfimos 

Pelas avenidas de uma cidade  

Que chora um Rio: Descosíamos 

Os botões, alinhavados às palavras 

Da poesia e construíamos pontes. 

Vamos remar a favor do mármore, 

Não tenhas medo: Mil suicídios 

Aconteceram quando eu parti, 

E agora sobram cartas para lermos 

Até ao fim da vida. Juntos 

Venceremos o flogisto, acolheremos 

Patriamente a vitória da cinzas, 

Manjaremos tenras asas de fénix 

Até nos esgotarmos num jardim belo 

E uma chávena de chá ao fim da tarde.

 

Lígia Reyes. in, a sul de nenhum norte n.º 6.

 

 

«i once loved you by the sea», IgnotoDeo © IgnotoDeo, via Deviantart, (D.R.)

Lígia Reyes – Campanhã

 

 

Ainda sem obra publicada, com uma produção poética algo irregular na sua continuidade e formalização, Lígia Reyes (1990) é capaz de surpreendente maturidade poética, presente em poemas como este.

 

Campanhã

Doeu-me Campanhã nos ossos todos;
A minha sopa a arrefecer, só me apeteceu
Apanhar o combóio de volta a casa,
Mas quando cheguei só me lembrei
Que não comi tudo até ao fim.
Recordei um poema que escrevi

E até esse ficou incompleto.

Só gostava de te encontrar
Porque me dizias que poderia ser a melhor,
Poderia ser tanto,
Até a madrugada me ficou entalada na garganta:
O sol nasceu e os teus olhos eram esverdeados como os meus.

Agora sou melhor e pergunto-me
Se algum dia
Comerei a parte que me faltou escrever.


«Converse for the train», Hamovi3 © Hamovi3 (D.R.)

Lígia Reyes, via o blogue Parafilias, com autorização da autora.