A história já é conhecida e pode ser lida aqui. Mas sauda-se a escolha de Tolentino Mendonça para o núcleo de criadores convidados por ocasião da celebração do 60.º aniversário da ordenação sacerdotal de Bento XVI, uma das personagens mais rotuladas e pior conhecidas na sua obra de reflexão filosófica e teológica, em pleno estado da arte do pensamento contemporâneo (fora isso, ainda é Papa).
O poema, esse, leva por título a enunciação de um dos fundamentos da psicanálise. Chega para lê-lo? Não. Seria como dizer que Ratzinger é alemão, feio e conservador.
O Mistério está todo na infância
E, por fim, Deus regressa carregado de intimidade e de imprevisto já olhado de cima pelos séculos humilde medida de um oral silêncio que pensámos destinado a perder
Eis que Deus sobe a escada íngreme mil vezes por nós repetida e se detém à espera sem nenhuma impaciência com a brandura de um cordeiro doente
Qual de nós dois é a sombra do outro? Mesmo se piedade alguma conservar os mapas desceremos quase a seguir desmedidos e vazios como o tronco de uma árvore
O mistério está todo na infância: é preciso que o homem siga o que há de mais luminoso à maneira da criança futura
A tradução para italiano que Bento XVI vai ler foi feita por Manuele Masini.
Tutto il mistero risiede nell’infanzia
E, finalmente, Dio ritorna carico di intimità e d’imprevisto i secoli ormai lo osservano dall’alto umile misura di un orale silenzio che credevamo destinato alla sconfitta
Ecco che Dio sale la scala ripida che abbiamo ripetuto mille volte e si trattiene in attesa senza nessuna impazienza con la dolcezza di un agnello malato
Di noi due, chi sarà l’ombra dell’altro? Anche se nessuna pietà conserverà le mappe scenderemo quasi subito smisurati e vuoti come il tronco di un albero
Tutto il mistero risiede nell’infanzia: è necessario che l’uomo segua ciò che di più luminoso esiste come fosse il fanciullo futuro
«Porque a experiência do divino não se dá exclusivamente em lugares dedicados à oração e em espaços que em gratuidade facilitam o silêncio, mas em plena 2ª circular em hora de ponta, nas rotundas onde o tempo é dobrado, e nas ruas cheias de encontrões de Álvaro de Campos» — Raquel Nobre Guerra
Me and my brother
Percorria os lugares daquela fotografia
a muralha de silvas, a quinta reencontrada
os finais de ano
e aquilo que depois não está
onde antes existiu
tinha esquecido para que serve
a infância
não é uma terra protectora
ao contrário do que dizem
com os seus céus que vemos cair
os fragmentos selvagens
em que mais tarde pensamos
vezes sem conta
o pudor já então reconhecível
que nos faz trair a vida
um pouco como tudo isto
Mendonça, José Tolentino, Baldios, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999
Tal como prometido, hoje divulgam-se os resultados da sondagem que lançámos há exactamente um mês, permitindo a todos que exprimissem a sua preferência sobre as obras a concurso. Contrariamente às expectativas, pronunciaram-se mais de cinco ou seis pessoas. Na verdade foram 102 votos expressos, que permitiram apurar os seguintes resultados:
(clique para ampliar)
O livro de José Tolentino Mendonça, «O viajante sem sono» (Assírio & Alvim) ganhou com um voto de vantagem sobre «A Inexistência de Eva», de Filipa Leal (Deriva). Um poeta muito justamente consagrado, com uma obra que se afirma na década de noventa, vence a votação com um voto mais que o livro magnífico de Filipa Leal, poeta surgida já na primeira década deste século sendo, para nós, o livro apresentado a concurso o melhor de todos os que escreveu (e são todos bons). Agora resta saber se a decisão do júri anda perto desta votação. O que é, de resto, irrelevante.
Obrigado a todos os que participaram. E boas «Correntes d’Escritas».
Bicicletas
Por muito tempo amarei casas que existam apenas
para guardar uma bicicleta ou os remos de um bote
As casas interessantes não têm pretensão nenhuma
Estão perto de nós na hora necessária
mas a qualquer momento
com mais clareza
afastam-se das certezas que perdemos
e da imensidão que se avista de lá
Um velho provérbio diz:
Se deres um passo atrás, talvez te coloques a tempo
de uma estação clemente
Mendonça, José Tolentino, O viajante sem sono, Lisboa: Assírio e Alvim, 2009, p. 42
O Prémio Literário Casino da Póvoa, este ano atribuído à poesia, será anunciado dia 23 de Fevereiro, no âmbito do evento Correntes d’Escritas – Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, notável e corajosa iniciativa da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, evento de crescente e muito assinalável importância na dinamização do conhecimento e do contacto entre os leitores, os autores, as obras. Justíssima a lista pré-seleccionada, sendo o prémio atribuído por um júri respeitável: Almeida Faria, Carlos Vaz Marques, Fernando Pinto do Amaral, Patrícia Reis e valter hugo mãe.
Como é referido na página das Correntes d’Escritas, «Esta selecção resultou de cerca de 150 obras concorrentes de autores de língua portuguesa, castelhana e hispânica, com obras em português, editadas em Portugal (1ª Edição) entre Julho de 2008 e Junho de 2010. Ficaram excluídas as Obras Póstumas, Obras Completas e Compilações e Obras de Literatura Infanto-Juvenil. Também não foram admitidas a concurso obras de autores que tenham sido galardoados com o Prémio Literário Casino da Póvoa nos últimos seis anos. Recorde-se que este Prémio tem um valor de 20 mil euros e este ano distingue poesia. (…) A 22 de Fevereiro, dia anterior ao arranque da 12ª edição do Correntes d’Escritas, o júri reúne pela última vez para decidir qual o vencedor do prémio, decisão que será anunciada no dia 23, na sessão pública de abertura do Encontro. O prémio é entregue no dia 26, na sessão de encerramento.»
*
Lamentavelmente não fazemos todos parte do júri. Por isso, decidiu por unanimidade o conselho de administração deste blogue (1 voto a favor/0 contra), proporcionar a quem quiser a possibilidade de votar na sua obra preferida.
Algumas indicações e notas:
1 — Cada votante pode exprimir a sua preferência apenas uma vez e assinalar três (3) obras;
2 — O termo da votação expira no próprio dia 23 de Fevereiro, data em que o júri (oficial) anuncia o prémio (oficial);
3 — As obras estão alinhadas por ordem alfabética;
4 — Não há um prémio para os votantes; isto não é uma sondagem para acertar no vencedor;
5 — Pede-se a quem votar e/ou tomar conhecimento da iniciativa, que a divulgue. No final das contas, dez ou vinte votantes já serão uma manifestação impressionante;
6 — O objectivo desta «sondagem» é apenas um: divulgar o evento e, de passagem, estimular o conhecimento das obras e do trabalho dos autores a concurso. Não tem apoio, incentivo, nem é do conhecimento oficial de entidades organizadoras, de qualquer instituição, editora, autor ou seja de quem for.
Dito isto, toca a votar nas obras de que gosta mais!
Correntes d’Escritas — Prémio Literário Casino da Póvoa
«Sondagem As Folhas Ardem»
Links relacionados:
Página do «Correntes d’Escritas» no site da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim
Socialmente a morte tem vindo a ser, no Ocidente, progressivamente escondida como acontecimento maior na experiência humana, ocorrência perante a qual se estruturam e organizam os comportamentos, os laços, a construção identitária, emocional, social; o confronto (encontro) espiritual que habitará em cada um. Por iniciativa da Pastoral da Cultura da diocese do Porto publicou-se e começou a ser distribuída hoje uma brochura com o título em epígrafe, que pretende, segundo Joaquim Azevedo, director do Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura, “ser um instrumento útil para cada pessoa promover a desocultação da morte e do seu sentido, nas suas vidas quotidianas”. Uma boa apresentação desta publicação pode ser encontrada aqui, mas realça-se o conteúdo, com cinco textos da autoria de António Filipe Barbosa, Fernando Rosas, João Duque, José Nuno Silva e José Pedro Angélico e três poemas, de Daniel Faria, Fernando Echevarría e José Tolentino Mendonça. Deste último, aqui se deixa, por já estar acessível online, o poema «Ilha dos Mortos».
Ilha dos Mortos
Enquanto iluminas a entrada do rio o cobre emudece dinastias sem número por degraus desiguais os mineiros, os artesãos, as lavadeiras lutam pela perfeição, lutam por Deus em galerias remotas as armas de caça vencidas por ramos e arados
nenhuma morte é tão longa quanto a vida diria quem pela primeira vez visse debaixo de árvores sombrias o sítio do mar, a porta das constelações cem espantos possíveis e no espanto uma esperança
o loureiro assinala a todos sua ciência negligenciada címbalos, manuscritos e coroas atiradas para o chão como vestimenta da batalha insígnias do nosso posto de estrela em estrela
dão-nos sem nós pedirmos ouvimos até sem querer acima das arestas sombrias a noite clara e os bosques
José Tolentino de Mendonça, in «Morreste-me», publicação do Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura do Porto, 2010
«The Isle of the Dead» (“Basel” version) 1880, Arnold Boecklin
Lentamente chega à perturbante morte, ela que era, para nós rapazinhos, a perturbadora imagem da vida. E a morte da vida dela tem o rosto da vida da nossa morte.
Farrah Fawcett
(…)
2. Repare. Sobre os telhados da cidade, nas ruas esguias, onde a multidão dos homens se aglomera e dispersa, nunca se extinguem verdadeiramente o pavor e a graça. Perseguidos aqui… reaparecem além… (…)
Com entusiasmo, Helena Vieira, directora da Mariposa Azual e sócia activa (se bem a conheço, hiper-activa) do Espaço Llansol, faz chegar a notícia da evocação de Maria Gabriela Llansol, dia 24 de Novembro, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Sintra. É a data de nascimento da escritora que se celebra e serve como convocação do evento, onde serão apresentados dois livros dedicados à sua obra (ver, Programa, abaixo), ambos editados pela Mariposa Azual, na nova colecção, já aqui anunciada, Rio Da Escrita. Como não é todos os dias que podemos encontrar Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça comentando obras de João Barrento e de Maria Etelvina Santos, (havendo ainda lugar à leitura de fragmentos dos Cadernos Inéditos a cargo de Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça, sendo que os próprios autores das suas obras falarão, estamos perante um acontecimento cultural que deve ser acompanhado e, de preferência, presenciado. A entrada é livre. Não me consta que haja croquetes e tapas, com copinhos de porto e sumo de laranja. Se assim for, ainda bem.Se houver, olha…
PROGRAMA
MARIA GABRIELA LLANSOL
Um Lugar e um legado
Sessão evocativa e lançamento de livros
Biblioteca Municipal de Sintra
24 de Novembro de 2008, 18 h.
• João Barrento: «Llansol entre nós»
• Maria Etelvina Santos: «M. G. Llansol – Um registo de vida»
• Leitura de fragmentos dos Cadernos inéditos por
Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça,
• O espólio de Maria Gabriela Llansol: uma visita virtual
• Helena Vieira apresenta a Mariposa Azual
• Apresentação dos livros da nova colecção «Rio da Escrita»,
da editora Mariposa Azual:
• Como Uma Pedra-pássaro que Voa. Llansol e o improvável da leitura
de Maria Etelvina Santos, por José Tolentino Mendonça
• Na Dobra do Mundo. Escritos LLansolianos, de João Barrento,
por Gonçalo M. Tavares
(APOIO: Câmara Municipal de Sintra)
'Na Dobra do Mundo. Escritos Llansolianos' - João Barrento
'Como uma pedra-pássaro que voa' - Maria Etelvina Santos