As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: José Sócrates

Pérolas (20) – O flagelado

 

(No Expresso online de hoje)

Vital Moreira: Sem maioria absoluta Sócrates já teria morrido flagelado


O senhor Professor Vital não quereria sugerir “já teria morrido por ingestão de cicuta“? Sempre se cumpria uma tradição onomástica. E evitava-se esta referência ao imaginário cristão. Não, já não é impressão minha. A martiriologia vai ser a gramática e a retórica das eleições – de todas! – para o P.S.


"Na luta, morre-se de cicuta!" - Sócrates, citação apócrifa

"Na luta, morre-se de cicuta!" - Sócrates, citação apócrifa

A agressão a Vital Moreira e a estupidez de Canas

Vital Moreira foi agredido na manifestação do 1.º de Maio organizada pela CGTP. Uma estupidez grave: Vital Moreira, goste-se ou não, merece respeito. Como constitucionalista e parlamentar (brilhante) foi um dos ‘founding fathers‘ da Democracia representativa; a Manifestação do 1.º de Maio, goste-se ou não, merece respeito. Resulta de mais de um século de lutas por direitos que hoje consideramos fundamentais (Em 1875 o horário de trabalho diário de um trabalhador rural ou industrial media-se entre as 12 e as 16 horas diárias. Por exemplo.) Quem agrediu Vital Moreira não tem memória. Nem respeito. Terá sido coisa de arruaceiros, alterados ou gente doente. Mas seguramente um acto isolado e espontâneo. Dito isto, as declarações de Vitalino Canas, que leio no ‘Público online‘, são de uma desonestidade moral e política chocante. Afirmar que o sucedido é “o resultado do “ódio” instigado pelos comunistas e pela Intersindical ao longo desta legislatura. “A CGTP e o PCP criaram, durante esta legislatura, um ambiente de ódio. E este acontecimento foi a expressão desse ódio que foi sendo gerado contra o PSé entrar numa lógica de vitimização e procura de um clima de martiriologia que começa a parecer a gramática eleitoral de Sócrates e do PS. Uma estupidez nunca vem só. ‘L’ordure attire l’ordure.’

'O Canas é Socialista. E burro!'

'O Canas é Socialista. E burro!'

Sem Eira Nem Beira – os Xutos dominam…

Confesso, sim, sempre gostei dos Xutos & Pontapés. Não por os ter visto nascer (vi nascer coisas como os UHF, os Táxi, os Trabalhadores do Comércio, valha-me deus) mas pela inacreditável bojarda de energia com que aqueles putos começaram. As letras eram pobres? Batiam! O Tim cantava mal? O pessoal sentia aquilo! E bastou pouco, muito pouco tempo, para os Xutos terem criado duas coisas daquelas que ficam para sempre: um conjunto de canções maiores (Remar Remar, O Homem do Leme, Na América, Esta Cidade, Barcos Gregos, Direito ao Deserto, Sémen, designo apenas as que mais gosto); e uma iconografia única, como nunca ninguém fez em Portugal ao nível das bandas. Os Xutos são, hoje, trinta anos passados, uma marca transgeracional – basta olhar para o primeiro frame do video-clip para perceber a força da imagem que conseguiram gerar e, mais significativo, consolidar. Os espectáculos do grupo até se podem repetir um bocado. Mas são uma festa, o melhor que se faz no nosso país no domínio do Rock&Roll. Acomodados, os rapazes? Bem, ao lançarem o seu novo álbum, comemorativo de três décadas de carreira, os Xutos conseguem abanar, de novo, as águas, com o tema Sem Eira Nem Beira. E esta canção é uma bomba tão poderosa contra José Sócrates como um bom caso de polícia. Claro, como os rapazes não são parvos, um destes dias estão a tomar o pequeno-almoço com o sr. engenheiro.  Com um sorriso inapelavelmente simpático. E  letal.

Anda tudo do avesso

Nesta rua que atravesso

Dão milhões a quem os tem

Aos outros um passou – bem


Não consigo perceber

Quem é que nos quer tramar

Enganar

Despedir

E ainda se ficam a rir


Eu quero acreditar

Que esta merda vai mudar

E espero vir a ter

Uma vida bem melhor


Mas se eu nada fizer

Isto nunca vai mudar

Conseguir

Encontrar

Mais força para lutar…


(Refrão)

Senhor engenheiro

Dê-me um pouco de atenção

Há dez anos que estou preso

Há trinta que sou ladrão

Não tenho eira nem beira

Mas ainda consigo ver

Quem anda na roubalheira

E quem me anda a comer


É difícil ser honesto

É difícil de engolir

Quem não tem nada vai preso

Quem tem muito fica a rir


Ainda espero ver alguém

Assumir que já andou

A roubar

A enganar

o povo que acreditou


Conseguir encontrar mais força para lutar

Mais força para lutar

Conseguir encontrar mais força para lutar

Mais força para lutar…


(Refrão)

Senhor engenheiro

Dê-me um pouco de atenção

Há dez anos que estou preso

Há trinta que sou ladrão

Não tenho eira nem beira

Mas ainda consigo ver

Quem anda na roubalheira

E quem me anda a foder


Há dez anos que estou preso

Há trinta que sou ladrão

Mas eu sou um homem honesto

Só errei na profissão

(Refrão)

Sócrates “corrupto”? O DVD da TVI

Acabo de decidir… vou emigrar para o Brasil!

As Asneiras do Magalhães – ‘Gravar-lo e continuar-lo’

Durante algum tempo equacionei a possibilidade de ser um parolo por parola achar a parafrenália mediática e o empenho bacoco do Governo, e de José Sócrates em particular, na proclamação do ‘Magalhães’ como a varinha mágica que colocaria Portugal em geral e a juventude em particular numa nova era de modernidade, saber e progresso (Augusto Santos Silva, esse áugure, o proclamou). A constatação de que a coisa, além de parola, perigosa (leia-se António Barreto) é, ainda por cima, desastrada levou-me a uma irreprimível gargalhada. Uma triste gargalhada. «É o máximo, não é?»

«O Estado esteve na origem e liderou o projecto, mas este não é um programa do Governo, é sim o resultado de uma parceria entre o Estado, a escola, os operadores e as autarquias», avisou José Sócrates, que aproveitou para criticar que se empenha em desvalorizar o computador, considerando que essa é «uma atitude de quem não precisa, porque quem precisa da ajuda do Estado fica satisfeito por finalmente dispor de um programa capaz de responder a dois desafios: melhorar a educação e melhorar os índices de utilização de computadores». (…) O ministro Santos Silva até já fala numa substituição de paradigma: «Os computadores são hoje o que os cadernos, os lápis e as canetas foram e continuam a ser: materiais didácticos». Durante a visita à escola do 1º ciclo em S. Mamede de Infesta, que marcou o arranque do programa e-escolinhas, com a distribuição de 3 mil portáteis, José Sócrates fez questão em entrar em todas as salas de aula, onde os «Magalhães» já estavam a ser utilizados pelas crianças. «Isto é o máximo, não é?», questionava, sempre que os via, procurando auscultar o entusiasmo.

IOL Diário, 23 de Setembro de 2008 (sublinhados meus)

«Da maneira como o Governo aposta na informática, sem qualquer espécie de visão crítica das coisas, se gastasse um quinto do que gasta, em tempo e em recursos, com a leitura, talvez houvesse em Portugal um bocadinho mais de progresso. O Magalhães, nesse sentido, é o maior assassino da leitura em Portugal» (…) «Chegou-se ao ponto de criticar aquilo a que chamaram “cultura livresca”. O que é terrível. É a condenação do livro. Quando o livro é a melhor maneira de transmitir cultura. Ainda é a melhor maneira. A coroa de todo este novo aparelho ideológico que está a governar a escola portuguesa – e noutras partes do mundo – é o Magalhães. Ele foi transformado numa espécie de bezerro de ouro da nova ciência e de uma nova cultura, que, em certo sentido, é a destruição da leitura.»

António Barreto, Revista LER, Março de 2009 (sublinhados meus)

“Neste processador podes escrever o texto que quiseres, gravar-lo e continuar-lo mais tarde”

O Festival de asneiras do Magalhães, Expresso online, 7 de Março de 2009

'Circumnavega um ómem u mundo pra ver enchovalhado o nome'

'Circumnavega um ómem u mundo pra ver enchovalhado o seu vom nome'


Sócrates e a auto-vitimização

A auto-vitimização e desculpabilização como reflexo da desresponsabilização individual – Uma pessoa (…) simpática e afável, mas com uma deflação de auto-estima proporcional a uma autocentração e um egoísmo quase patológicos, elege sempre os outros como bodes expiatórios dos seus problemas, das suas próprias atitudes menos próprias, da sua irresponsabilidade pessoal, transformada, ulteriormente, em atitudes depressivas de auto-desculpabilização e vitimização. (…) Isabel Metello.

No Público online, após ter visto o resumo do debate parlamentar de hoje: “Está em condições de garantir ao Parlamento que não há qualquer interferência nem qualquer condicionamento dos serviços de informações sobre investigações criminais em curso?“, perguntou Paulo Rangel a José Sócrates hoje, no Parlamento. A pergunta é legítima, e colocada em sede própria. O primeiro-ministro qualificou de “insultuosa” a pergunta de Paulo Rangel. “O senhor deputado é que utiliza esses truques e essas tácticas, de quem quer trazer a questão do Freeport, dos serviços de informações para o debate na Assembleia da República. Faço-o frontalmente, faça-o com coragem“. Mais que as palavras, o tom em que falou Sócrates fez-me lembrar (inesperada reminiscência) o meu colega de escola primária que, depois de ter atazanado os colegas no recreio, chegou à aula e fez queixa à professora, perante toda a turma, por ter levado uma canelada. Levou uma palmada. “Queixinhas, vá-se sentar e esteja calado“, disse-lhe a professora.

Receio que os nervos do homem não andem bem. É natural. Representar aquele papel todos os dias deve cansar muito.

'It is an injustice. Yes it is!'

'It is an injustice. Yes it is!'


O meu post favorito de 2008

Não, não será o melhor post escrito na blogosfera em 2008; nem o mais pertinente; nem o mais incisivo; nem o mais luminoso; nem o mais… mas também quem definirá estas coisas? Li alguns blogues no ano que passou (digamos que gastei o dobro do tempo que devia com o assunto, facto de que não me arrependo nadinha) Quando li este post, da Ana Cristina Leonardo, no seu blogue Meditação na Pastelaria, a palavra mais exacta que me ocorreu foi júbilo. Numa penada absolutamente fulgurante, onde se passa de J. M. Cotzee a Kant, a Lewis Black, a Buñuel, a Machado de Assis, a Richard Dawkins (não necessariamente todos, nem por esta ordem) começando logo, à cabeça, por acertar o alvo bem no meio da testa – José Sócrates, who else?Ana Cristina Leonardo produz uma das mais inteligentes e hilariantes peças de retórica que li em muito tempo. Todo o post é tóxico para o alvo, o resultado absolutamente assassino (até pelo tom aparentemente negligé). Quando eu for grande gostava de escrever com este desfastio letal. Autorizado pela autora, aqui deixo o texto do post e o respectivo link. Já que é obrigatório ler duas vezes, ao menos que se leia a segunda no seu contexto primitivo. Obrigado, Ana Cristina Leonardo. Abriu todo um Freeport para nós. Absolutamente :-)

*

«Ao vencedor, as batatas»

“Vou ser absolutamente pueril. E, sim, gosto de advérbios de modo. Ao invés, aborrece-me Sócrates, o primeiro-ministro. Tudo nele me aborrece. O curso, o inglês, as casas (ah, como me aborrecem as casas!), os livros que finge ter lido, os esgares, o perfil e os lugares-comuns, até os fatos me entediam de tão óbvios. E por falar em fatos abrevio: repugna-me a enfatuada ignorância.
Citando de novo esse génio do humor que dá pelo nome de Lewis Black, José Sócrates é a prova de que o americano estava universalmente certo quando disse: In my lifetime, we’ve gone from Eisenhower to George W. Bush. We’ve gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we’ll be voting for plants.
Da política tive eu, em pequenina, sem naturalmente o saber que não venho para aqui armar-me em génio, uma visão pré-maquiavélica. Resume-a muito bem J.M.Coetzee em Diário de um Mau Ano: A posição pré-maquiavélica era a da supremacia da lei moral. Se acontecesse a lei moral ser por vezes infringida, era uma infelicidade, mas no fim de contas os governantes eram apenas humanos. A nova posição, a maquiavélica, é que a infracção à lei moral se justifica quando necessária.
De Maquiavel, que era esperto, fomos andando até chegarmos às plantas que, como é fácil entender mesmo sem ter lido Kant, escapam à lei moral.
Um pragmatismo alucinado invadiu a política. A presente crise internacional, nascida disso mesmo, não teve como resultado nenhuma discussão séria. Comemos mais do mesmo. Não que eu me encontre ainda na fase anal pré-maquiavélica ou tenha qualquer ilusão sobre o «homem novo» (neste capítulo estou com o Viridiana do Buñuel). Apesar disso, as Luzes continuam a pestanejar a espaços no trapézio do meu cérebro, como diria Machado (e, já agora, diga-se que o título deste post também é do brasileiro).
Tudo isto me foi gerundicamente ocorrendo (eu avisei que gosto de advérbios de modo), após ler estas declarações de José Sócrates a respeito do próximo ano, chamado pelo próprio (ou pelos assesores de agit-prop) o «cabo das tormentas»: É preciso agir sem ortodoxia e sem ideias feitas (…) É preciso estar com a mente aberta para responder aos problemas e não para responder às necessidades da nossa ideologia. Precisamos de ter mente aberta e não ficarmos reféns da ideologia ou das respostas clássicas, porque problemas novos exigem respostas novas.

Ou seja, e sem lembrar agora a frase de Richard Dawkins: There’s this thing called being so open-minded your brains drop out. Ou lembrando-a. Pronto. Esqueçamo-nos por uns segundos que o iluminado engenheiro se refere à actual crise. Façamos de conta que fala durante os heróicos tempos do boom financeiro que acabou como se sabe. Sublinhem-se as diferenças. Zero! Ideias novas? Zero. O mesmo ódio ao pensamento (entendido pejorativamente como “respostas clássicas”), a mesma crença no fim das ideologias (depois ― ou antes? ― foi ― ou fora? ― o fim da História), o mesmo credo pragmático. O paleio é decalcadinho… como decalcadinho de outras matrizes se mostra o paleio de Alegre. É o cabo das tormentas: estamos entregues às plantas.” – Ana Cristina Leonardo, in Meditação na Pastelaria, 21-12-2008
'realmente, exactamente, optimisticamente, exigentemente'

'pois, realmente, exactamente, optimisticamente, exigentemente'

(clique para ‘diminuir’)

Pérolas (12) – Sócrates avaliado

(Ontem, dia 7, o Público escrutina as ‘afirmações factuais’ da entrevista de José Sócrates à SIC. E conclui com esta exigente fasquia:)

‘O primeiro-ministro passa no teste: dos 17 factos analisados, nove são verdadeiros’

'Quando eu for grande quero ter uma média de 10,3. Depois já posso ser primeiro-ministro e avaliar toda a gente'

'Quando eu for grande quero ter uma média de 10,6. Depois já posso ser primeiro-ministro de Portugal e mandar avaliar toda a gente. Os professores, por exemplo'

Fotografia do Dia (XXIII) – Atenas

A Grécia está a ferro e fogo desde há uma semana, com tumultos nas ruas, os quais, a partir de Atenas, se estenderam a outras cidades gregas. O rastilho foi a morte, perpretrada por um agente da polícia, de um rapaz de 15 anos, Alexandros Grigoropoulos. Mas a causa profunda radica na generalizada insatisfação popular com as actuais circunstâncias de vida e com o pacote económico que o governo de centro-direita aprovou para aproximar a Grécia dos ‘parâmetros europeus’. Ainda antes da crise. Depois, esta atingiu o país como um vento quente do deserto. A CNN, que tem um link especial para noticiar o que por lá se passa, publicou um artigo daqueles que só o jornalismo anglo-saxónico é capaz: tentar explicar tudo numa síntese Q&A. A fotografia é terrível, pela placidez como se olha para o rasto da violência. Eu quase aposto que 2009 trará outros incêndios sociais em países da UE. Em Portugal, em ano de eleições, é bom que Sócrates se cuide. Ele talvez não conheça o potencial de violência que se está a acumular na classe média urbana. Os professores são a ponta do iceberg.

Atenas, Grécia, 13 de Dezembro, 2008

Atenas, Grécia, 13 de Dezembro, 2008 - A burned-out car outside Athens Polytechnic following four days of anti-government riots

(clique para ampliar)

Sócrates, o ‘Magalhães’ e o cigano.

Na cimeira Ibero-Americana, o primeiro-ministro de Portugal dedicou entre seis a dez minutos (conforme as fontes) à promoção do ‘computador português’ Magalhães. E não foi de modas, afirmando tratar-se do “primeiro grande (sic) computador ibero-americano”, acrescentando que é “uma espécie de Timtim: para ser usado dos sete aos 77 anos(sic). Não sei o que pensaram da extraordinária comparação alguns generais Tapiocas e Alcazares presentes na cumieira. Mas sei, apesar da pequenez da fotografia, que o esbugalhado ar de felicidade de Sócrates tem ao seu lado o compungido rosto de Luís Amado. No lugar dele eu também estaria. Ouvir o chefe proclamar que todos os seus assessores usam diariamente o ‘Magalhães para (sic) o seu trabalho‘ deve deixar indisposta uma alma civilizada. E sei que, de computador em riste, afirmar  que o mesmo “foi pensado para crianças e por isso é resistente ao choque. O Presidente Chávez já o atirou ao chão e não o conseguiu partir(sic, sic, sic) é conversa de vendedor de tachos e panelas.

*

Quando era miúdo, ia à terra. Uma vez por mês havia a feira do Pinhal Novo, onde um cigano, Paco de seu nome, vendia roupa interior feminina. Os argumentos eram imbatíveis. “Olha a bela cueca ‘azul ciél’, resiste uma vida, a minha filha usa, a minha mulher usa, a minha mãe usa, é a melhor cueca que podem encontrar.” Os mesmos argumentos exibia o cigano Paco que o primeiro-ministro Sócrates. Com uma não dispicienda vantagem para o Paco, no terreno da honestidade: estava a vender artigo novo no lugar próprio.

'é azul ciél'

'é azul ciél'

PS – O cigano Paco é o meu modesto contributo para a existência de um Joe the Plumber cá no torrão.

Trapalhadas…

José Manuel Fernandes ‘declarou’ à ERC – Entidade Reguladora da Comunicação Social –  que o primeiro-ministro o pressionou, telefonicamente, para não divulgar notícias relativas à polémica em torno da sua (do PM) Licenciatura. ‘Declarou’, mas não ‘gravou’. Ou porque “não nos lembrámos de gravar” ou porque o “gravador ou o sistema avariou” (duas possibilidades que se podem facilmente confundir na memória de qualquer director de jornal de referência, especialmente quando um primeiro-ministro nos  está a ‘pressionar’). Pressurosa, a ERC tratou logo de difundir no seu site o que disse J. M. Fernandes, a partir de apontamentos de membros da Entidade. Esclarecidos? Não, porque, afinal, os apontamentos  dos ‘membros’ eram imprecisos e não foi bem aquilo que o director do Público disse. Confusos? Não, porque a ERC encarregou-se imediatamente de assumir o ‘erro’. E de pedir, por escrito, novo depoimento, uma ‘reconstituição provisória’ (o que seria uma ‘reconstituição definitiva’?) a Fernandes, que assim fez. Ah, finalmente vamos ver luz! Não. Acontece que o teor da dita ‘reconstituição’ tem matizes mais difusas, nuances que relativizam o teor da famosa primeira conversa ‘esquecida de gravar ou não gravada por avaria do gravador ou do sistema’ – seja lá o que isso for. Sócrates esperou sentado. Depois enviou uma carta à ERC onde chamou “covarde” a José Manuel Fernandes.

A história pode ser toda lida, online, e com links para os ‘documentos’, no site do Portugal Diário.

Na rua dos meus Pais, nas Avenidas Novas, aconteceu há dias uma cena igualzinha. Envolvia o homem do talho, a vogal da Junta de Freguesia e um armazém frigorífico. Quem se ficou a rir foi o armazém frigorífico.

Foste tu, seu covarde!

Foste's tu, seu covarde! © Norman Rockwell

A globalização e o umbigo…

Hugo Chávez e José Sócrates encontraram-se pela quarta vez este ano, ao que parece. Coincidência? Amizade desinteressada? Enlevo mútuo? Não me parece. Chávez tem de sobra matéria-prima que lhe permite falar alto. Falta-lhe contudo respeitabilidade junto do mundo civilizado, algo que ele procura, sabe-se lá porquê, de forma desesperada (em nome da Venezuela, que por osmose, confunde com a sua magna pessoa). Sócrates sempre é Primeiro-Ministro de um periférico país da UE, com uma palavrita a segredar aos ouvidos dos grandes do mundo e dos oligarcas africanos. São credenciais respeitáveis, há que reconhecê-lo. Falta-lhe porém mercados, exportação, equilíbrio no comércio externo. Ambos são pragmáticos e pensam que podem encontrar, um no outro, salvação para as suas carências. Um vende petróleo, presume-se que de forma simpática. O outro casas pré-fabricadas, ‘memorandos na área da electricidade’ (raios partam se se consegue perceber estoutra pérola de retórica!)… e ‘Magalhães’. (Não deixa de me surpreender este fabuloso equipamento. Além de computador – não abriu com destreza em língua castelhana na sua apresentação a Chávez, mas suspeito que o assunto lhe seja indiferente – tem a funcionalidade extra de ‘chave de fendas’ comercial. Chapeau!)

Uma coisa une os dois estadistas. A percepção de que o mundo, hoje, é um T0 onde todos acabam por se encontrar na cozinha. E um conceito de globalização cujo epicentro se encontra algures num raio de cinco centímetros em redor do seu umbigo.

"4-Friends"? 'Bora juntar o Zédu e o Putin...

"4-Friends"? Bora juntar o Zédu e o Putin...

O ‘Magalhães’ e a retórica

Afiança o Jornal Digital que, em São Mamede de Infesta, Matosinhos, Portugal, José Sócrates, presidiu à entrega dos primeiros computadores Magalhães a alunos do 1º. Ciclo do Ensino Básico, na Escola Padre Manuel de Castro. No acto, Sócrates disse: «Estamos hoje a formar uma nova geração de portugueses que domina o inglês e as tecnologias de informação e comunicação. Será uma geração mais bem preparada e em melhores condições para servir o objectivo do desenvolvimento do nosso país». Eu pasmo com o desígnio. Sócrates quer (melhor, está) a formar uma nova geração. De portugueses. O homem novo lusitano, à escala de uma geração! Com o Magalhães, esse milagre de inovação que devemos à Intel, dinâmica empresa nacional que, antes mesmo de se virar para o torrão, ousou, com uma visão globalizante digna de aplauso, produzir o mesmo aparelho em 30 países. Desde 2006. Com outro nome. E é assim que, em S. Mamede Infesta nasce “uma nova geração (…) para servir o objectivo do desenvolvimento do nosso país.”

Não se caustique a bondade da politica. Ela é, de facto, do domínio da bondade. Da fé no Magalhães. A retórica, essa, é absolutamente abjecta.

“A nossa tarefa consiste em dar à juventude a possibilidade de organizar, por si mesma, a sua vida, de forma activa e dinâmica, e ajudá-la com habilidade a fazê-lo. (…) tudo isto, pois, deve servir, entre nós, a formação cultural do homem novo.”Enver Hoxha“A Luta Ideológica e a Educação do Homem Novo“. [Citação desenvergonhadamente editada, de modo a criar semelhança entre os discursos. A ideologia, os pressupostos e os tempos são completamente diferentes. Mas a retórica, senhores ouvintes, a retórica…].

"As Novas Geraçães querem Magalhães"

"As Novas Geraçães, querem Magalhães"