As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Jorge Sousa Braga

Poesia Portuguesa (38) – Ana Luísa Amaral


METAMORFOSES

Faça-se luz

neste mundo profano

que é o meu gabinete

de trabalho:

uma despensa.


As outras dividiam-se

por sótãos,

eu movo-me em despensa

com presunto e arroz,

livros e detergentes.


Que a luz penetre

no meu sótão

mental

do espaço curto


E as folhas de papel

que embalo docemente

transformem o presunto

em carruagem!

AMARAL, Ana Luísa, Minha Senhora de Quê, Fora do Texto, Coimbra, 1990, reed. Lisboa, Quetzal, 1999

[poema ‘pilhado’ no blogue Poesia & Lda., de João Luís Barreto Guimarães e Jorge Sousa Braga, com análise textual da autoria de Barreto Guimarães. Como aqui não é hábito ‘pilhar’, pede-se indulgência e agradece-se muito]

@ Jaime Tiago, Olhares, Fotografia Online

@ Jaime Tiago, Olhares, Fotografia Online

Poesia Portuguesa (XII) – João Miguel Fernandes Jorge

Sobre Sob Voz, o primeiro livro de João Miguel Fernandes Jorge (Bombarral, 1947), é o título da notável primeira obra de um autor que se tornaria (com António Franco Alexandre, Luís Miguel Nava, Joaquim Manuel Magalhães, primordialmente) uma das vozes poéticas fundamentais na ruptura geracional – estética, ética, programática – introduzida na poesia portuguesa na década de setenta. Sobre o livro, leia-se, pelo confronto com a sua novidade e acto fundador, a crítica de Luís Miranda da Rocha na Colóquio/Letras nº. 8, de Julho de 1972. Essa mesmo, a Colóquio/Letras que nos vão tirar. Sobre o poema, leia-se a deliciosa quase detectivesca, perplexa e maravilhada análise textual de João Luís Barreto Magalhães, em entrada datada de Janeiro de 2006, no blogue Poesia & Lda., que mantém com Jorge Sousa Braga, e que só por inépcia minha ainda não topara. Dado não possuir o livro – embora a bibliografia de Fernandes Jorge habite abundante sob sobre as prateleiras da ‘minha’ poesia – é deste blogue que se extrai um belo e enigmático poema de João Miguel Fernandes Jorge.

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Quero falar de Amadeu,
talvez nascido a 11 ou 12
de novembro. Era 1919 e
tinha já então muito de

velho. As mulheres gostaram
dele (seduzindo-o na sua
própria vida de cigano) e
do outro lado da montanha

percebiam como sabia de
crisântemos, azuis (do
mesmo azul das dunas).

Ainda o visitam, mas o
tempo de Amadeu é agora
uma ilha perdida de Bocklin.

João Miguel Fernandes Jorge, in ‘’Sobre Sob Voz’, Colecção Círculo de Poesia, Moraes Editora, Lisboa, 1971.

'A Ilha dos Mortos' (terceira versão) - Arnold Boecklin

'A Ilha dos Mortos' (terceira versão) - Arnold Boecklin

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