As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Tag: Homem de Palavra(s)

Ruy Belo — Uma Vez Que Já Tudo Se Perdeu

 

(em modo de paixão por um livro)

 

UMA VEZ QUE JÁ TUDO SE PERDEU

 

Que o medo não te tolha a tua mão

Nenhuma ocasião vale o temor

Ergue a cabeça dignamente irmão

falo-te em nome seja de quem for

 

No princípio de tudo o coração

como o fogo alastrava em redor

Uma nuvem qualquer toldou então

céus de canção promessa e amor

 

Mas tudo é apenas o que é

levanta-te do chão põe-te de pé

lembro-te apenas o que te esqueceu

 

Não temas porque tudo recomeça

Nada se perde por mais que aconteça

uma vez que já tudo se perdeu

 

Ruy Belo. Obra Poética de Ruy Belo, volume 1, Lisboa: Editorial Presença, 1981. p. 164

 

«lost», Kristyan @ Kristyan, via Deviantart, (D.R.)

 

 

Ruy Belo — As Grandes Insubmissões

Alguns dias atrás, a transcrição de um poema de António Gregório neste blogue recordou-me, memória longínqua mas muito presente, um texto de Ruy Belo, que li ainda na primeira edição da Dom Quixote, ainda na primeira edição da minha vida. Relendo-o, relendo integralmente Homem de Palavra(s), retomo o grande gozo que a sua leitura repetidamente me deu e a admirável modernidade (também se poderia falar de contiguidade no tempo, contemporaneidade) do livro. O texto transcreve-se agora, sabendo que todo este livro deveria ser lido como algo «canónico», que estabelece uma voz intocável a abordagens, ideologias, perspectivas que o possam menorizar; que desafia e vence o tempo.

AS GRANDES INSUBMISSÕES

As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.

Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.

Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.

Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.

— Ó maurício, faltaste à aula das nove.

E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.

Tocou para a aula das dez.

— Ó maurício, não vens à aula?

O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.

Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.

Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.

Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.

Ruy Belo. Obra Poética de Ruy Belo, volume 1, Lisboa: Editorial Presença, 1981. p. 181

«basketball hoop», Arevik © Arevik, via Deviantart (D.R.)

Ruy Belo no portal da D-GLB

Ruy Belo no portal do Instituto Camões

António Gregório — A traição do Celso

Aqui há dois anos, num daqueles postos de venda rodeados de plástico que se encontram hoje nas estações de metro, comprei o único livro que conheço de António Gregório (Uma história de desamor treze vezes), por um euro e cinquenta cêntimos; livro de contos que ficou logo pago, por não ter usado bilhete de metro entre o Cais do Sodré e a Almirante Reis, entretido que vinha a lê-lo. Digamos que António Gregório me ficou de borla, com a vantagem do gozo de ter lido, pelo caminho, grande parte de um livro publicado aos 24 anos de vida do autor, na Âmbar: uma festa de ironia, de  formalização por vezes estonteante, mas de um domínio exemplar da escrita, em função da intencionalidade narrativa. Recordo-me particularmente das variações que o autor era capaz a propósito de um simples incidente, ou acidente, normalmente doméstico. O absurdo e a relatividade, um quase paródico olhar sobre os acontecimentos mais triviais, que eram desmontadas em doses torrenciais, onde cabia o auto-sarcasmo. Não conheço, de António Gregório, mais obra publicada, mesmo tendo procurado um bocadinho. Eis que no Resumo, a poesia em 2011 me deparo com um poema previamente publicado na Criatura nº 6 (única que ainda não possuo). Ao ler este poema, delicioso, lembrei-me imediatamente, pela temática, do grande texto/poema de Ruy Belo As Grandes Insubmissões, publicado no livro Homem de Palavra(s), na edição de 1969, da Dom Quixote.

Dito isto, a publicação deste poema é absolutamente deliberada e mesmo medida para que se ajuste sequencialmente no tempo: com a final da Taça de Portugal, da Taça de Inglaterra e a aproximação do Campeonato do Mundo de Futebol, as contiguidades nunca são inocentes.

A traição do Celso

Jogava comigo na defesa reduto

dos inábeis dos impopulares (abaixo

de nós só o guarda-redes); o Celso e eu

vendo a glória avançada e esperando os embates

entre o medo de sempre e o desejo da acção

heróica redentora. Mas como no amor

cabia-nos menos defender antes de ser

repositório de culpas pelos falhanços

colectivos e como um amante traiu-me

 

quando atrás de não sei que instinto (parecia

doido) subiu à baliza dos outros e

marcou o melhor golo da terceira classe.

 

António Gregório, Resumo, a poesia em 2011, Lisboa: Documenta / FNAC, 2012. (originalmente publicado em Criatura/6, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope da A.A. da F. de Direito de Lisboa, 2011.)

 

«Play Time, simplyspoken © simplyspoken, via Deviantart (D.R.)

[Nota: já depois de editado o post, sou informado da existência de um mais recente livro de António Gregório, American Scientist, Quasi, 2007 (reimpressão). Dizem-me que, ocasionalmente, surge nas livrarias da Bertrand]