As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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Gonçalo M. Tavares — A Água

 

 
No café trazem-me um copo com água

como se ele resolvesse todos os meus problemas.

É ridículo – penso – não há saída.

No entanto, depois de beber a água

fico sem sede.

E a sensação exclusiva do organismo

acalma-me por momentos.

Como eles sabem de filosofia – penso –

e regresso, logo a seguir, à angústia.

 

Tavares, Gonçalo M.,  1, Lisboa: Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004.

 

«The Glass: Drowned» — Alberto Guerrero © Alberto Guerrero via Deviantart (D.R.)

 

  blogue de Gonçalo M. Tavares

 

Gonçalo M. Tavares — Atravesso em corrida as ruas

Atravesso em corrida as ruas

E tropeço: caio no chão.

            Levanto-me, chego a casa.

A minha mulher diz-me:

— Estás sujo.

            Respondo:

                        — De Deus.

 

Tavares, Gonçalo M., 1, Lisboa: Relógio d’Água, 2004, p.27.

«nuca», Gérard Castello-Lopes (D.R.)

  blogue de Gonçalo M. Tavares

   Gérard Castello-Lopes no blogue da «Associação Portuguesa de Photographia»

Gonçalo M. Tavares – Sobre as origens (pouco visíveis) de um suicídio

 

De certa forma esta é uma espécie de acto de contrição: tendo sido um dos que me insurgi contra o afastamento de Joana Morais Varela da Direcção da «COLÓQUIO Letras», e não retirando uma vírgula às virtualidades e especificidades que a mesma imprimiu à revista literária mais importante que se publica em Portugal, verifica-se que, sob a direcção de Nuno Júdice, na «COLÓQUIO» cumpriu-se a promessa de regresso à regularidade de publicação que se havia de alguma forma perdido (note-se que desde o ano de 2000 até 2009 saíram nove números, com um hiato de cinco anos entre 2004 e 2009, quando tomou posse a nova equipa, a qual já publicou sete!). Sem grande desvirtuação na qualidade do conceito gráfico (que é agora bastante mais sóbrio, sem o aparato requintadíssimo que chegou a possuir, mas ainda de um bom-gosto dificilmente discutível), é visível, após os dois números consagrados a Eduardo Lourenço, a tendência para, mantendo um tema (autor) principal, abrir a revista a um espectro de artigos, colaboradores e abordagens mais amplo, com uma forte incidência na «recensão crítica», uma atenção, que parece tendencial, ao campo da poesia e uma selecção de originais — embora irregular de edição para edição — com critérios mais largos, inclusivos e «aggiornati». Poesia, Ficção, Crónica, Entrevista parecem poder ocupar um lugar mais relevante, nesta nova fase da vida da «COLÓQUIO». Do seu número 173 se transcreve aqui, com a devida vénia e a título de divulgação, um texto ficcionado de Gonçalo M. Tavares. [Note-se que em nenhum lugar da revista, desde o número 170, encontrei qualquer referência à protecção de direitos de autor, o que só pode ser manifestamente lapso, para o qual se chama a atenção.]

 

Sobre as origens (pouco visíveis) de um suicídio

UM HOMEM com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio pede ajuda a outro homem.

Fala-se, pois, de dois homens. O homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio (um) pediu ajuda a um segundo homem (dois). Pediu-lhe, em suma, que fizesse algo divertido, que demonstrasse uma qualquer habilidade — colocar o pé atrás do próprio pescoço, fazer barulhos estranhos com a garganta, imitar animais através apenas do movimento dos olhos, enfim, que ele, este segundo homem, fizesse algo, uma habilidade qualquer, uma declamação, que conseguisse colocar o pé atrás do próprio pescoço, que conseguisse imitar animais através apenas do movimento dos olhos, qualquer coisa, mas que o convencesse, enfim, de que aquele sítio que era ele — pois uma pessoa por ser pessoa não deixa de ser sítio, de ocupar espaço, de ter altura, comprimento e volume — que conseguisse enfim mostrar a esse homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio que ele, o segundo homem, teria algo dentro de si mesmo, e portanto nele, pelo menos, neste segundo homem, o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio não encontrará o nada que tanto está habituado a encontrar.

Pode revistar-me à vontade — poderia dizer o segundo ao primeiro homem, se este texto entrasse claramente na ironia.

Mas ainda não nasceu — como se diz nos momentos de grande e definitivo elogio — o homem capaz de sair à rua e dizer a quem passa:

— Podem procurar à vontade, dentro de mim não encontrarão o nada. Tudo em mim está ocupado e tem sentido. Em mim, nem o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio encontrará esse tal nada.

Ainda não nasceu, pois, homem que em público possa falar assim.


 

Tomo banho, escovo-me bem, ensaboo-me da ponta dos pés à cabeça, passando pelos órgãos mais íntimos. Seco-me com uma toalha e mesmo assim não consigo: algures, em mim, o homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio encontrará esse bocado de nada que o facto de nascer e ter uma certa percepção do mundo me deu direito e o dever de não largar.

Faço ainda como vi em filmes: sento-me num banco de jardim, isolado, olho para todos os lados para ver se alguém me vê e, depois de confirmar que estou sozinho e sem vigilantes, tiro — do bolso de uma camisa — um saco de plástico vazio e ali o deixo, só, vazio, e sem sentido, em cima do banco do jardim — para de imediato ser levado à força pelo vento que, embora quase inexistente, tem força sempre para arrastar um saco de plástico que nada guarda dentro de si. Mas tal exercício não basta para o que pretendia; não é assim que me liberto do nada que existe no sítio que sou enquanto animal com volume; e esse saco vazio pode ser conduzido como um veado cego pelo jardim da cidade, batendo imprudentemente contra as árvores, caixotes do lixo e outros obstáculos, bem pode essa simulação do meu nada que simulei atirar borda fora como se o corpo fosse um navio, e o mundo alto mar, e o saco vazio fosse a parte que em mim não me deixa ter um sentido para todas as coisas, bem pode essa simulação do meu nada avançar por empurrões sucessivos para o lado oposto onde me encontro agora, que jamais serei capaz, diante do homem com vocação para encontrar o nada em qualquer sítio, de não tremer, de não ficar assustado, e perante a mera indicação para levantar os braços não os levantar de imediato e pedir perdão: sei que continuo com um bem localizado nada a montar e a desmontar consecutivamente tenda algures nesta parte mais débil deste meu organismo que uma mulher um dia, por descuido ou ilusão de apaixonada, chamou de belo corpo acima da terra. E nestes dias em que me sinto caminhar ao lado das toupeiras e com elas fazendo a melhor das amizades, eis que relembrar palavras simpáticas de uma mulher  me faz cair ainda mais, e soterrado, finalmente, por completo, sei que só se a morte me esconder mais ninguém, por mais que vasculhe, encontrará essa ponta do nada em que começou a minha depressão e em cujo centro a minha firme vontade de morrer se foi construindo, sólida e tranquila, como a construção sem pressas de uma casa.

Tavares, Gonçalo M., in COLÓQUIO Letras número 173, Janeiro / Abril 2010

«Just a Plastic Bag», Michalina © Michalina, via Deviantart (D.R.)

(clique para ampliar)

Gonçalo M. Tavares – [a mulher tem a química dos animais…]

 

 
a mulher tem a química dos animais e o pólen das plantas,

e da Grande Alma rouba o Apetite para multiplicar as coisas que nascem.

Os contágios são calmos.

Se uma flor voasse perdia o cheiro;

e se o pássaro tivesse aroma de rosa, de certeza seria coxo.

Porque o mundo se organizou todo de uma vez e depois calou-se.

Ficámos nós, sós, e a Filosofia.

A pedra calada, o animal grunhe,

a erva cresce tão lenta que só a vemos quando ela é adulta,

e os cães ladram debaixo do Sol.

Todos somos resíduos imperfeitos

e os organizadores do Baile saíram logo no início,

deixando a Música, mas não os passos.

Por isso tropeçamos,

partimos a unha má e boa,

apaixonamo-nos por uma mulher e depois já é outra,

e, no Fundo, o que queríamos era sossego e não dançar.

Do que temos medo é da solidão, temos de o reconhecer,

esse caixão que vem antes do tempo,

e nos fecha dos outros e do dia.

O que queremos é sossego;

nem Mistérios nem passos de dança,

apaguem a Música.

Tavares, Gonçalo M., Investigações. Novalis, Lisboa: Difel, 2002

(Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores)

«Soul Spring» © Elif Salem Karakoç, via Deviantart (D.R.)

 

Links Relacionados:

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Blogue de Gonçalo M. Tavares


“Como Desenhar Um Circulo Perfeito”, de Marco Martins.

Como desenhar um círculo perfeito, de Marco Martins (cartaz)

(clique para ampliar)


Quando estreou Alice (2005) fascinou-me a capacidade de Marco Martins dar espessura e dimensão a uma história tão “magra”. A brilhante linguagem cinematográfica do autor encarregou-se de criar um filme inesquecível (para o qual muito contribuíram, claro, a soberba interpretação de Nuno Lopes, a banda sonora de Bernardo Sassetti, a direcção de fotografia de Carlos Lopes (Cácá).

Hoje estreia “Como Desenhar Um Circulo Perfeito“, do mesmo realizador. Já não estamos no domínio da disfuncionalidade social/familiar, mas na ruptura dos conceitos família/relação. Histórias limite, histórias no limite, antítese da imagem do “desenho de um círculo perfeito”; ou metáfora (porque a história permite leituras plurais e, ou muito me engano ou vai ser alvo de debate no mais cretino dos terrenos, o da moral). Como diz Marco Martins em excelente entrevista dada hoje a Eurico de Barros, no DN.”Quando estava a escrever o argumento, descobri no YouTube que havia um campeonato mundial de desenho de círculos perfeitos e pareceu-me que seria uma metáfora perfeita e muito forte para a personagem do Guilherme e para sugerir que eles estão presos dentro de um desses círculos.

Sinopse: “Numa velha mansão com traços de uma Lisboa há muito desaparecida, os gémeos Guilherme e Sofia cresceram a partilhar experiências e, aos poucos, vão descobrindo a sua sexualidade. Mas Guilherme, incapaz de lidar com o amor não correspondido da sua irmã e das relações que ela mantém com outros rapazes, acaba por fugir de casa. Refugia-se em casa do pai, que vive isolado, imerso num mundo quase autista. Guilherme descobre então que a vida não cabe num círculo perfeito e volta para casa. Quando os gémeos se reencontram, surge finalmente o amor. De forma íntima e silenciosa, o filme oferece o prazer da exploração dos limites, criando um universo fechado e claustrofóbico, inocente e contagiante na simplicidade das suas emoções. (fonte: http://www.best-cine.com).”

Assinale-se que o argumento é assinado em conjunto pelo realizador e pelo escritor Gonçalo M. Tavares; que a banda sonora continua a contar com Bernardo Sassetti; e que no elenco surgem, para lá dos jovens “actores” protagonistas, gente como Beatriz Batarda e Lourdes Norberto, razões de expectativa, escolhas inteligentes. Refira-se ainda a troca de produtor: de Paulo Branco em Alice, Marco Martins passa a trabalhar com António e Pandora Cunha Telles; e, finalmente, o link para o site oficial do filme, muitíssimo cuidado para o que é norma cá no burgo. E bem bonito.

Isto posto… só falta ir ver o filme.

Poesia Portuguesa (XVI) – Gonçalo M. Tavares

1, editado em 2004, único livro de poesia do escritor (pelo menos que eu conheça) é, nas palavras inscritas no blogue do próprio autor, um “Livro de poesia que é uma espécie de antologia de oito pequenos livros bem distintos entre si.”

Aqui se deixa um poema e um excerto em prosa.

PALAVRAS, ACTOS


A ironia ensina a sabotar uma frase

Como se faz a um motor de automóvel:

Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres

No verbo ou numa letra do substantivo

A frase trágica torna-se divertida,

E a divertida, trágica.

Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,

Desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar

A linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo

Portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita

Aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida

Comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero

Envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.


*


«No mundo onde existem peixes e animais sólidos e altos como os grandes mamíferos, onde existem animais, como a borboleta, que parecem papel e não organismo, no mundo onde existem asas de cores diversas e cauda que se eleva ligeiramente para deixar espaço para os excrementos, no mundo onde o inesperado chega mais aos ricos que aos pobres, no mundo em que metade das coisas visíveis são cruéis e a outra metade é delicada por estratégia, no mundo tão vaidoso das suas cidades como da montanha que exibe na fotografia, no mundo soberbo e caridoso na forma como não mija demasiado sobre os que perderam, neste mundo, neste alegre mundo, como ocupará um poeta a sua manhã?»

Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004.

1

Sob o signo de Llansol

Com entusiasmo, Helena Vieira, directora da Mariposa Azual e sócia activa (se bem a conheço, hiper-activa) do Espaço Llansol, faz chegar a notícia da evocação de Maria Gabriela Llansol, dia 24 de Novembro, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Sintra. É a data de nascimento da escritora que se celebra e serve como convocação do evento, onde serão apresentados dois livros dedicados à sua obra (ver, Programa, abaixo), ambos editados pela Mariposa Azual, na nova colecção, já aqui anunciada, Rio Da Escrita. Como não é todos os dias que podemos encontrar Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça comentando obras de João Barrento e de Maria Etelvina Santos, (havendo ainda lugar à leitura de fragmentos dos Cadernos Inéditos a cargo de Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça, sendo que os próprios autores das suas obras falarão, estamos perante um acontecimento cultural que deve ser acompanhado e, de preferência, presenciado. A entrada é livre. Não me consta que haja croquetes e tapas, com copinhos de porto e sumo de laranja. Se assim for, ainda bem. Se houver, olha…

PROGRAMA

MARIA GABRIELA LLANSOL
Um Lugar e um legado

Sessão evocativa e lançamento de livros
Biblioteca Municipal de Sintra
24 de Novembro de 2008, 18 h.

• João Barrento: «Llansol entre nós»
• Maria Etelvina Santos: «M. G. Llansol – Um registo de vida»
• Leitura de fragmentos dos Cadernos inéditos por
Hélia Correia, Gonçalo M. Tavares e José Tolentino Mendonça,
• O espólio de Maria Gabriela Llansol: uma visita virtual

• Helena Vieira apresenta a Mariposa Azual
• Apresentação dos livros da nova colecção «Rio da Escrita»,
da editora Mariposa Azual:

• Como Uma Pedra-pássaro que Voa. Llansol e o improvável da leitura

de Maria Etelvina Santos, por José Tolentino Mendonça

• Na Dobra do Mundo. Escritos LLansolianos, de João Barrento,

por Gonçalo M. Tavares

(APOIO: Câmara Municipal de Sintra)

'Na Dobra do Mundo. Escritos Llansolianos'. João Barrento

'Na Dobra do Mundo. Escritos Llansolianos' - João Barrento

'Como uma pedra pássaro que voa' - Maria Etelvina Santos

'Como uma pedra-pássaro que voa' - Maria Etelvina Santos