As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

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António Gregório — A traição do Celso

Aqui há dois anos, num daqueles postos de venda rodeados de plástico que se encontram hoje nas estações de metro, comprei o único livro que conheço de António Gregório (Uma história de desamor treze vezes), por um euro e cinquenta cêntimos; livro de contos que ficou logo pago, por não ter usado bilhete de metro entre o Cais do Sodré e a Almirante Reis, entretido que vinha a lê-lo. Digamos que António Gregório me ficou de borla, com a vantagem do gozo de ter lido, pelo caminho, grande parte de um livro publicado aos 24 anos de vida do autor, na Âmbar: uma festa de ironia, de  formalização por vezes estonteante, mas de um domínio exemplar da escrita, em função da intencionalidade narrativa. Recordo-me particularmente das variações que o autor era capaz a propósito de um simples incidente, ou acidente, normalmente doméstico. O absurdo e a relatividade, um quase paródico olhar sobre os acontecimentos mais triviais, que eram desmontadas em doses torrenciais, onde cabia o auto-sarcasmo. Não conheço, de António Gregório, mais obra publicada, mesmo tendo procurado um bocadinho. Eis que no Resumo, a poesia em 2011 me deparo com um poema previamente publicado na Criatura nº 6 (única que ainda não possuo). Ao ler este poema, delicioso, lembrei-me imediatamente, pela temática, do grande texto/poema de Ruy Belo As Grandes Insubmissões, publicado no livro Homem de Palavra(s), na edição de 1969, da Dom Quixote.

Dito isto, a publicação deste poema é absolutamente deliberada e mesmo medida para que se ajuste sequencialmente no tempo: com a final da Taça de Portugal, da Taça de Inglaterra e a aproximação do Campeonato do Mundo de Futebol, as contiguidades nunca são inocentes.

A traição do Celso

Jogava comigo na defesa reduto

dos inábeis dos impopulares (abaixo

de nós só o guarda-redes); o Celso e eu

vendo a glória avançada e esperando os embates

entre o medo de sempre e o desejo da acção

heróica redentora. Mas como no amor

cabia-nos menos defender antes de ser

repositório de culpas pelos falhanços

colectivos e como um amante traiu-me

 

quando atrás de não sei que instinto (parecia

doido) subiu à baliza dos outros e

marcou o melhor golo da terceira classe.

 

António Gregório, Resumo, a poesia em 2011, Lisboa: Documenta / FNAC, 2012. (originalmente publicado em Criatura/6, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope da A.A. da F. de Direito de Lisboa, 2011.)

 

«Play Time, simplyspoken © simplyspoken, via Deviantart (D.R.)

[Nota: já depois de editado o post, sou informado da existência de um mais recente livro de António Gregório, American Scientist, Quasi, 2007 (reimpressão). Dizem-me que, ocasionalmente, surge nas livrarias da Bertrand]

David Teles Pereira — Pequena elegia da memória

 

Não nego que me sinto vencido

pela tua distância,

uma pedra e um pouco de gelo no sangue

uma violeta na primavera desta morte em flor.

A aflição não passa,

ainda que eu permaneça na defensiva, dia após dia,

na retaguarda do teu afecto.

 

Tocar-te o músculo, tal como a um livro de biblioteca.

Mas agora, o que se mantém vivo e fresco

no teu estojo de ossos? Assim, dizem,

se retira aos nossos restos, ainda que dignos,

o nervo e a tentação do teu nome.

 

Não dizer o teu nome, nunca. Não pode dar-se

tesouro eterno assim a mãos que me recusaram.

Quanto mais morres, mais difícil é dizer-te,

 

mais fácil é dizer apenas… corpo.

 

 

David Teles Pereira, Resumo, a poesia em 2011, Lisboa: Documenta / FNAC, 2012. (originalmente publicado em Criatura/6, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope da A.A. da F. de Direito de Lisboa, 2011.)

 

«Flaming June», Sir Frederic Leighton, 1895

 

Nota biográfica do autor, no portal «Poems from the Portuguese» (onde é possível encontrar versão deste poema em língua inglesa)

José Miguel Silva — Desculpas não faltam

(para ler em confronto e diálogo com o poema anterior, de Ana Salomé)

 

Uma casa junto ao Vouga,

rio de água suficiente,

onde apenas se mergulha

até à cintura, a pequena horta

de Virgílio, o amor robustecido

por nenhuma esperança

e tantos livros para ler

— que desculpa vou agora dar

para não ser feliz?

 

José Miguel Silva, Resumo, a poesia em 2011, Lisboa: Documenta / FNAC, 2012. (originalmente publicado em Serém, 24 de Março, Lisboa: Averno, 2011)

 

Fotografia: «Macinhata do Vouga», Rui Pedro Silva © Rui Pedro Silva, via Olhares, fotografia online

Bénédicte Houart – um poema

Poema de Bénédicte Houart escolhido para integrar a colectânea “Resumo –  a poesia em 2009“, edição da Assírio & Alvim com o apoio da FNAC.

jaz viva e adormece

a menina de sua mãe

os caracóis soltos na almofada

os braços a bacia os pés partidos

o corpo pousado na cama articulada

as flores murchando na jarra improvisada

sentada numa cadeira a seu lado

a mãe descose as suas camisas de dormir

o corpo danificado

inchou de dor de nada

politraumatizada

jaz viva e anoitece

a menina de sua mãe

"Deep deep sea", © Sugarock via Deviantart

in “RESUMO, a poesia em 2009”, Lisboa: Assírio & Alvim,2010

(originalmente publicado em:) Houart, Bénédicte, “Aluimentos”, Lisboa: Livros Cotovia, 2009.

Novos Poetas (XI) – Rui Pires Cabral

Nesta procura de novas vozes poéticas, já se esbateram os limites etários, geracionais, editoriais (é novo porque não tem livro editado?). Importa mais ir descobrindo ou revelando autores cujo tempo de trabalho poético está ainda a entrar no alvor, ou dele acabou de sair para ganhar esplendor. Na número 10 da revista Telhados de Vidro, de Julho de 2008, editada pela Averno, Rui Pires Cabral (1967) surge, com quatro poemas, sob o título Oráculos de Cabeceira II, cada um deles com número remissivo junto ao título, para uma referência bibliográfica final, titulada ABERTOS AO ACASO. O autor está bem identificado no blogue Volumen, e vale a pena ir lá, perceber melhor. Um poeta só se percebe com o tempo da sua escrita. A sua escrita só se contrói no tempo.

A latere: pedi o número 10 da revista na Fnac do Chiado. Amabilíssima, a funcionária informou-me que estava esgotado, mas possuía 23 exemplares do número 11! Estranhei muitíssimo. Tanta estranheza levou a senhora à investigação in loco (nas prateleiras da ‘Poesia’). Voltou muito animada, de livro na mão, chamou uma colega e informou-nos aos dois: “tem graça, temos imensos números 10, o sistema é que deu entrada do número 11, que não existe”. Entregou-me o exemplar. Paguei e olhei para a incómoda etiqueta que colam na contra-capa dos livros, neste caso ainda mais irritante por estar ‘peganhentamente’ aposta sobre um material translúcido, o papel vegetal, que faz parte integrante do grafismo da revista (na capa, tem a função de deixar entrever e despertar a curiosidade para o desenho de Jorge Feijão, impresso na primeira página de papel opaco). De facto, na referida etiqueta, lá está – Telhados de Vidro N11, com código de barras e tudo. Gostava que as FNAC’s do mundo deixassem de colar vinhetas nas capas dos livros. Gostava, também, que todas fossem tão optimistas que anunciam já, num número acabado de sair, a existência do que há-de vir.

ORÁCULOS DE CABECEIRA II

«Are others happier?»¹

para a Helena Gaspar

Quando se sentam a ler

nos grandes átrios da noite

entre mil luzes, jogos de água,

escadas que rolam ainda

sob cúpulas de betão –

são mais felizes?


Quando saem do trabalho

acossados pelo vento

de meados de Fevereiro

e é sempre segunda-feira

nas paragens do eléctrico –

são mais felizes?


Quando se cruzam connosco

no remanso dos jardins

e encontram outro caminho

de mistério, de desejo

na nossa imaginação –

são mais felizes?


Quando os vemos mais

pequenos, mais ao longe,

nas esplanadas sobre o mar

e por momentos nos lembram

que tudo se há-de perder –

são mais felizes?

ABERTOS AO ACASO:

¹ Derek Jarman, Modern Nature, Vintage, Londres, 1992, p. 138.

Rui Pires Cabral, in revista Telhados de Vidro nº 10, p. 35, Averno, Lisboa, Julho de 2008

ponto cruz © Maria São Miguel, Olhares, fotografia online

ponto cruz © Maria São Miguel, Olhares, fotografia online