As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: Filipa Leal

Filipa Leal — «o minuto certo»

Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor.

Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam putas e charros e atiravam pedras ao rio. Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas, entendes? Nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade, mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.

Queria de ti um minuto. Um minuto.

Leal, Filipa in, «Egoísta n.º 32», Estoril: Estoril-Sol (III) — Turismo, Animação e Jogo, S.A., Setembro 2007

«blind date», Luigi Scuderi © Luigi Scuderi, via Deviantart (D.R.)

Nota: tal como em relação ao texto de Possidónio Cachapa publicado na «Egoísta», e transcrito aqui neste blogue, contamos com a gentileza da editora Patrícia Reis para permissão da transcrição deste texto de Filipa Leal. O que então se escreveu sobre a relevância e o significado da revista está essencialmente dito naquele post.

— Luigi Scuderi Photography — http://www.luigiscuderi.it/

Filipa Leal — Douro

 

 

Douro

 

Não sei se prefiro o rio

ou o seu reflexo nas janelas espelhadas.

 

De um lado

os barcos ancorados, do outro lado:

barcos — na imediata memória das âncoras.

Deste lado, o porto, ou o cais,

contracenando com a sua própria inexistência

daquele lado.

 

Existirá aquele rio nos espelhos?

Poderá este subsistir sem as janelas?

 

Sou dourada como os peixes que te

desabitaram. E, do outro lado, sou

desabitada.

 

Leal, Filipa, Talvez os Lírios Compreendam, Porto: Cadernos do Campo Alegre / 8, 2004

 

«Como a querer esconder-se», Rui Vaz Ribeiro © Rui Vaz Ribeiro, (D.R.)

 

Links Relacionados:

Nota biográfica de Filipa Leal (no site da Deriva)

Rui Vaz Ribeiro

Correntes d’Escritas — «Sondagem As Folhas Ardem»: Vote na sua obra preferida.

© Câmara Municipal da Póvoa do Varzim (D.R.)

O Prémio Literário Casino da Póvoa, este ano atribuído à poesia, será anunciado dia 23 de Fevereiro, no âmbito do evento Correntes d’Escritas – Encontro de Escritores de Expressão Ibérica, notável e corajosa iniciativa da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, evento de crescente e muito assinalável importância na dinamização do conhecimento e do contacto entre os leitores, os autores, as obras. Justíssima a lista pré-seleccionada, sendo o prémio atribuído por um júri respeitável: Almeida Faria, Carlos Vaz Marques, Fernando Pinto do Amaral, Patrícia Reis e valter hugo mãe.

Como é referido na página das Correntes d’Escritas, «Esta selecção resultou de cerca de 150 obras concorrentes de autores de língua portuguesa, castelhana e hispânica, com obras em português, editadas em Portugal (1ª Edição) entre Julho de 2008 e Junho de 2010. Ficaram excluídas as Obras Póstumas, Obras Completas e Compilações e Obras de Literatura Infanto-Juvenil. Também não foram admitidas a concurso obras de autores que tenham sido galardoados com o Prémio Literário Casino da Póvoa nos últimos seis anos. Recorde-se que este Prémio tem um valor de 20 mil euros e este ano distingue poesia. (…) A 22 de Fevereiro, dia anterior ao arranque da 12ª edição do Correntes d’Escritas, o júri reúne pela última vez para decidir qual o vencedor do prémio, decisão que será anunciada no dia 23, na sessão pública de abertura do Encontro. O prémio é entregue no dia 26, na sessão de encerramento.»

*

Lamentavelmente não fazemos todos parte do júri. Por isso, decidiu por unanimidade o conselho de administração deste blogue (1 voto a favor/0 contra), proporcionar a quem quiser a possibilidade de votar na sua obra preferida.

Algumas indicações e notas:

1 — Cada votante pode exprimir a sua preferência apenas uma vez e assinalar três (3) obras;

2 — O termo da votação expira no próprio dia 23 de Fevereiro, data em que o júri (oficial) anuncia o prémio (oficial);

3 — As obras estão alinhadas por ordem alfabética;

4 — Não há um prémio para os votantes; isto não é uma sondagem para acertar no vencedor;

5 — Pede-se a quem votar e/ou tomar conhecimento da iniciativa, que a divulgue. No final das contas,  dez ou vinte votantes já serão uma manifestação impressionante;

6 — O objectivo desta «sondagem» é apenas um: divulgar o evento e, de passagem, estimular o conhecimento das obras e do trabalho dos autores a concurso. Não tem apoio, incentivo, nem é do conhecimento oficial de entidades organizadoras, de qualquer instituição, editora, autor ou seja de quem for.

 

Dito isto, toca a votar nas obras de que gosta mais!

Correntes d’Escritas — Prémio Literário Casino da Póvoa

«Sondagem As Folhas Ardem»

Links relacionados:

Página do «Correntes d’Escritas» no site da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim

Guta Naki

"Os Poetas da Meia Noite" - fotografia de Rita Nunes

Ainda ecos da sessão / evento / sei lá como catalogar, que teve lugar na noite de 20 para 21, no Teatro Casa da Comédia. Apresentados pelo anfitreão Filipe Crowford, nesta fotografia (descaradamente roubada no Facebook, da autoria de Rita Nunes), da esquerda para a direita: Miguel-Manso, Ana Salomé, Hugo Milhanas Machado, Filipa Leal, Vasco Gato e Catarina Nunes de Almeida. Seis autores com vozes poéticas muito distintas, mas tendo em comum uma maturidade e intensidade notáveis (aqui apenas o gosto determinará preferências). Manuel Cintra encerrou (ele que afirmou preferir abrir) a festa. Entre leituras, gostei particularmente de ouvir os Guta Naki, grupo que não conhecia. Entre textos de Álvaro de Campos e Henry Miller, pelo menos uma cantora de uma expressividade vocal e cénica surpreendentes.

Os Poetas da Meia Noite

De repente, com o início do ano, as iniciativas em torno da poesia e dos novos autores parecem multiplicar-se em Lisboa. Depois da Poesia em Vinyl ter surgido a 14 de Janeiro, ao que parece para continuar e bem, a criteriosa e imaginativa qualidade de programador de Filipe Crowford vai levar ao Teatro Casa da Comédia,  no  dia 20 de Março (entrando pela noite fora, trespassando assim o Dia Mundial da Poesia essa desnecessidade), o evento intitulado «Os Poetas da Meia Noite». Dos seis poetas convidados, cinco são muito da estima deste blogue, faltando inexplicavelmente saber por que raio nunca aqui se enroscou o Vasco Gato (salvo seja). Assunto a tratar em breve. Olhando para o programa, a coisa parece prometer muito. Ide, portanto.

O programa das festas:

TEATRO CASA DA COMÉDIA  Poetas da Meia-noite
Comemorações do Dia Mundial da Poesia (21 de Março).
” Há poetas que choram…
Há poetas que riem…Há poetas que cantam…
… mas, acima de tudo, há poetas que respiram a alma pela flor da pele, como suor, sangue ou lágrimas.
Descubra os Poetas da Meia-noite, dia 20 de Março, pelas 22h, no Teatro Casa da Comédia.
Venha desarmado… ”

Participação de: Ana Salomé, Catarina Nunes de Almeida, Filipa Leal, Hugo Milhanas Machado, Miguel Manso e Vasco Gato.Participação especial de: Manuel Cintra e Filipe Crawford.

Músicos: Lder, Nanu Figueiredo (mola dudle), Gutanaki, Gonçalo Miragaia e mais um convidado surpresa.

"venha desarmado"

TEATRO CASA DA COMÉDIA
Rua São Francisco de Borja, 22 – 1200-843 Lisboa
Tel.: 21 395 94 17/8 Fax: 21 395 94 19 Produção: 969826535
info@filipecrawford.com
teatro.casadacomedia@gmail.com
http://www.filipecrawford.com

Filipa Leal – A Inexistência de Eva

Coloco este livro no cimo de tudo o que li em 2009. Não me interessa se é “o melhor”, “a grande revelação”. O que conta: Filipa Leal agarra no mais primitivo do ser, nos mais primordiais arquétipos culturais do ocidente e inaugura uma escrita, uma projecção onírica para lá do nosso tempo cujo alcance levará muito tempo a ser integrado: pelos leitores; pelas academias; pelos editores, pelos bibliotecários. Pouco importa, igualmente, serem estes poemas trinta e um textos (poemas/textos, a questão é irrelevante). Já de tomar nota: apenas fazem sentido, os textos, se lidos todos, de seguida, em sequência. Em mim, depois de os ler, instalou-se um grande silêncio. Branco.

Uma referência à cuidada edição da Deriva e à capa, com uma fotografia de Mafalda Capela que, bem vista, quanto melhor vista, mais nos abençoa de perplexidade.

(Agradeço a quem me deu a conhecer, ainda que lendo eu cego de luz.)

[Editam-se aqui os cinco primeiros textos, apenas para revelar, a quem não leu, um pouco da (a)ventura de mergulhar na obra. Não se edita todo o livro porque o editor me perseguiria a tiros de caçadeira. Retribuo informando o venturoso leitor, que ainda existem livros em venda, no site da editora, ou em algumas livrarias especializadas em poesia]

fotografia da capa: Mafalda Capela (d.r.) - digitalização: CercARTE (blogue)

ESTE LIVRO FOI ESCRITO HÁ MUITO TEMPO.


Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca.

Ouviu: – Não fujas. Não esqueças.

Era uma mulher lívida de medo de não conseguir esquecer.

*

À volta da sala, havia um pomar redondo que a envolvia de maçãs

avermelhadas, difusas. Ela estava lívida e suja, entre a castidade

e o remorso.

Ouviu: – Esquece o arrependimento. Fica.

*

Ao redor do pomar, existira um rio que secara nos últimos

anos. Se o seguisse, junto à margem, em linha curva e longa,

encontraria uma cidade desconhecida. Embora nenhuma cidade

seja desconhecida se soubermos onde está.

Ouviu: – Perder-te-ás na ausência

de água do rio.

*

Não havia um único espelho na sala. Ela não sabia o que era o

princípio e o fim. Desconhecia os conceitos de vida e de morte.

Nunca medira a sala, nem o pomar, nem o terror. Se desejasse,

abriria a porta.

Ouviu: – Assustar-te-á a existência

de dia e de noite.

*

Sabia o seu nome. Chamava-se Eva. Nunca questionara. Porque

haveria de questionar um nome simples e breve? Desconhecia o

texto bíblico, e o simbolismo das palavras. Se se chamasse mar,

ou cálice, ou manhã, não o questionaria.

(…)

LEAL, Filipa, “A Inexistência de Eva” , Porto: Deriva Editores, 2009



Quintas de Leitura – Havemos de ir a Viana, com Filipa Leal

É já dia 26, tendo Filipa Leal como poeta convidada, que se realiza a próxima sessão do ciclo de poesia organizado pelo Teatro do Campo Alegre. Havemos de ir a Viana promete “Cento e vinte minutos de pura magia…”.

Aqui se deixa um poema de Filipa Leal, publicado em 16 de Março no blogue das Quintas de Leitura (enquanto o meu exemplar de A Inexistência de Eva, último livro da autora, procura o seu caminho até à Bulhosa do Campo Grande.)flyer-filipa-leal

No Princípio Era


Não dormia sem o escuro absoluto.

Doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,

de ter esquecido gente, do frio

do vidro nas palavras. Demorava tanto

a entender o mundo que agora não dormia

de muita luz que as coisas tinham

antes sequer de serem suas. Trabalhava-se tanto

nesse lugar onde vivia com outros como ela

que às vezes pensava: tão estranho nascer

(quer dizer, nascer mesmo, estar aqui)

para o dia passado com estranhos.

E por isso, no princípio, não dormia

sem procurar o amor, sem beijar na testa

a noite que acabava serena e exausta como a noite.

No princípio era.

Depois esvaziou-se com cuidado.


→(Filipa Leal, Janeiro de 2007)


(clique para ampliar)


Novos Poetas (XXVI) – Filipa Leal

Filipa Leal (1979), já com obra publicada  – Lua-Polaroid (ficção, 2003), Talvez os Lírios Compreendam (2004), A Cidade Líquida e Outras Texturas (2006), e O Problema de Ser Norte (2008) -, emerge com a grave leveza de uma poética no limiar da narrativa, processo que lhe permite acentuar um lirismo intenso, construído em torno da interpelação do quotidiano, transmutado em matéria poética. Em linha divergente de muita da poesia que se escreve agora, o ‘eu’ desloca-se do centro do poema, deixando de ser o seu objecto focal, para o lugar da ‘observação’ poética do real, de interacção emocional com as coisas, as pequenas coisas. Os resultados são (no livro Talvez os Lírios Compreendam, o único que li) de uma espessura intensa. De um desencantado humano olhar.

ESCREVIA À MÃO A CIDADE

Habitava da cidade
os lugares mais pequenos.

Limpava-lhe o pó,
pintava-lhe os cabelos,
escondia-lhe as rugas
(chegava mesmo a deitar-se
ou a deitar areia sobre as ruas
abertas).

Às vezes chorava-lhe no centro
a ausência,
ou matava-lhe os homens
que corrompiam os homens.
Por fim,
esquecia-lhe as feridas.

Escrevia à mão a cidade
e a cidade escrevia-se
sobretudo
no cinzento
no esquecimento.

Eram tão simples as palavras
da cidade,
mas complexos os amigos
que dela habitavam
os lugares mais pequenos.


Filipa Lealin ‘Talvez os Lírios Compreendam‘, Cadernos do Campo Alegre, 2004.

(tanto ruido no interior deste silêncio) © Mariah, Olhares, fotografia online

(tanto ruído no interior deste silêncio) © Mariah, Olhares, fotografia online