Os ramos de árvores despidos que nos lembram
o nada. Sobretudo na fase de exaltação
do espírito. Com a cabeça encostada
aos vidros altos.
Simultaneamente procurar o centro
da irradiação. O Sol matinal com os seus hiatos
preenchidos por casas. Ameias onde se
invertem os vértices do horizonte.
Sol magnânimo
fixo sobre as árvores abençoadas sem
folhas. Infinitos pormenores visíveis e
espaços audíveis preenchem a hora exaltada.
Ponto profusamente cheio. Um fino
silêncio exterior
sinal do nada circundante. Graveto
junto de graveto cruzados para além do fim
da perspectiva. Um significado diverso
naquelas ameias em outros planos. O nada
sempre coeso. Uma respiração intangível
e sem sombras.
Hasse Pais Brandão, Fiama, Três Rostos, Lisboa: Assírio e Alvim, 1989.
• página sobre Fiama Hasse Pais Brandão
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«Lua cheia às 21h e 21 m a 1 grau em Leão. Bom tempo. Procede-se à limpeza e adubação dos pomares. Adubam-se, podam-se e limpam-se as árvores, devendo tratar-se as fruteiras de modo a dispensar-lhes os precisos cuidados preventivos contra as doenças e parasitas animais. Procede-se à transfega do vinho, ou seja, à passagem do vinho novo de uma vasilha para outra com o fim de o separar do seu depósito (borras) localizado no fundo da vasilha. — Ao luar de Janeiro, vê-se a raposa no outeiro.»
Este mimoso naco de sabedoria é aposto ao dia de hoje, no «Seringador» que por desfastio substituí este ano ao habitual «Borda d’Água». Diz-me muito de um mundo que já me diz pouco: a infância e o campo. No campo, os velhos garantiam ser a lua de Janeiro a mais bonita do ano (e apetece pensar que, no campo, «os velhos» também tinham um sentido estético lá deles). Na linguagem urbana do almanaque a retórica maneirinha é suave; mas em Janeiro tudo era duro: «dispensar-lhes os precisos cuidados preventivos» era trabalho árduo, cortante; a trasfega não era um ritual, mas pedia força e experiência, coisa de homens. E o adágio, que deve ser muito antigo, decerto nortenho, é tão belo como esta noite em que podemos ver as raposas no outeiro.
*
O «Seringador» não nos actualiza, porque a sua função é que nos desactualizemos. Por isso não refere acontecimentos como a fundação do Sporting Clube de Braga (1921), meu sexto clube preferido e aquele que tem o estádio mais bonito do mundo, sem esquecer que ganhou uma Taça de Portugal (e a única Taça da Federação Portuguesa de Futebol; estou aliás convencido que a conquistou para a exterminar, num gesto que só revela a grandeza da agremiação).

Sporting Clube de Braga 2009 - 2010 (Sp. Braga 1 - F.C.Porto 0) © maisfutebol.iol.pt
O «Seringador» não nos actualiza, porque a sua função é que nos desactualizemos. Por isso não refere o aniversário do nascimento de Eugénio de Andrade (1923) e a passagem de quatro anos sobre a morte de Fiama.
A um poema
A meio deste inverno começaram
a cair folhas demais. Um excessivo
tom amarelado nas imagens.
Quando falei em imagem
ia falar de solo. Evitei o
imediato, a palavra mais cromática.
O desfolhar habitual das memórias é
agora mais geral e também mais súbito.
Mas falaria de árvores, de plátanos,
com relativa evidência. Maior
ou menor distância, ou chamar-lhe-ei
rigor evocativo, em nada diminui
sequer no poema a emoção abrupta.
Tão perturbada com a intensa mancha
colorida. Umas passadas hesitantes.
entre formas vulgares e tão diferentes.
A descrição distante. Sobretudo esta
alheada distância em relação a um Poema.
Brandão, Fiama Hasse Pais, Três Rostos, Lisboa: Assírio e Alvim, 1989
Em 1986 a Assírio & Alvim dava à estampa a terceira edição do seu Anuário de poesia – Autores não publicados. Creio que, após este número, a iniciativa deixou de ter continuidade mas nele encontramos, com alguma surpresa, três poemas de um jovem angolano então com 25 anos, que se viria a notabilizar como romancista e novelista: José Eduardo Agualusa (Huambo, 1960). É certo que, em 1990, Agualusa reúne, em Coração dos Bosques – Poesia 1980-1990, o seu trabalho poético de uma década. Mas é bem possível que tenham sido estes os primeiros poemas do autor a conhecerem edição (agradeço qualquer informação que corrija os dados de que disponho). Observação final: o júri teve de seleccionar os autores que considerou mais válidos (“com certo dom de expressão ou conhecimento da tradição multímoda dos poetas”) num universo de 956 propostos. Era composto, o júri, por Fiama Hasse Pais Brandão, José Agostinho Baptista e Miguel Serras Pereira. Era um ‘Anuário’ a sério.
(Nota: o referido volume foi comprado, há cerca de um mês, numa livraria do Chiado, em Lisboa (uma das mais antigas e pequenas, para que conste). Estava cuidadosamente ‘soterrado’ sob uma pilha de outro livros, dentro de um caixote de cartão. Preço: 1 (um) euro. Não sei o que pensar disto.)
TEMPO DAS CHUVAS
Antes que venham as primeiras chuvas
acender
Amarelas flores entre os rochedos
E o céu se torne móvel de compridos pássaros
E todo o chão se cubra do verde novo
Do capim
Saberás pelo vento que chegaste ao fim.
DO TEMPO E DA MORTE EM PUNGO ANDONGO
Às vezes penso naquele poente que eu não vi
em Pungo Andongo
E no tempo (esse estranho mito)
Que não fixou os corpos, nem os gritos
Nem o sangue do sol nesse preciso instante.
Às vezes penso em Pungo Andongo
E em quantas vezes se repetirá o rito
O ritual da morte (outro estranho mito)
Tão lúcido e tão breve nesse preciso instante.
NETO BISNETO DE JAGAS
Neto bisneto de Jagas
Tenho no sangue o lume do sangue
Das noites longuíssimas de espanto e temporais
Das noites eriçadas de presságios e punhais
Tenho no sangue a Morte
Neste sangue
Onde dormitam calados
os chacais.
José Eduardo Agualusa, in Anuário de Poesia – Autores não publicados, pp. 64 – 66, Assírio & Alvim, Lisboa, 1986.

© Luís Carlos Pinheiro Pires, olhares, fotografia online
O NOME LÍRICO
Esta manhã
hoje
é um nome.
Nem mesmo amanheceu
nem o sol
a evoca.
Uma palavra
palavra só
a ergue.
Como um nome
amanhece
clareia.
Não do sol
mas de quem
a nomeia.
Fiama Hasse Pais Brandão, in ‘Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o futuro‘, p.1766, Assírio & Alvim, Lisboa, Agosto de 2001

'madrugada' © Gustavo Failla, Olhares, Fotografia online