José António Almeida — Artigo treze da Constituição
Artigo treze da Constituição
«Cem euros, ou levas uma facada»
— isto é Portugal em 2005
numa vila da província no sul:
o que principia na cama acaba
na sala do comandante do posto
da Guarda Nacional Republicana.
O que germina como crocitante
revoada de pássaros ao peito
do mais íntimo de corpos no coito
é relatado tintim por tintim
na sala do comandante do posto
da Guarda Nacional Republicana.
Isso que mais custava dizer ontem
desde que nasceu até agora:
«sou homossexual, não me envergonho»,
proclamas com serena gravidade
na sala do comandante do posto
da Guarda Nacional Republicana.
Confessar a própria sexualidade
— que ninguém a ninguém é obrigado,
os olhos fixos por vezes nas armas
da bandeira de Portugal ao fundo
na sala do comandante do posto
da Guarda Nacional Republicana.
Almeida, José António, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.77
[originalmente publicado em Obsessão Lisboa: & etc, 2010]






