As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Etiqueta: &etc

José António Almeida — Artigo treze da Constituição

 

 

 

Artigo treze da Constituição

 

«Cem euros, ou levas uma facada»

— isto é Portugal em 2005

numa vila da província no sul:

o que principia na cama acaba

na sala do comandante do posto

da Guarda Nacional Republicana.

 

O que germina como crocitante

revoada de pássaros ao peito

do mais íntimo de corpos no coito

é relatado tintim por tintim

na sala do comandante do posto

da Guarda Nacional Republicana.

 

Isso que mais custava dizer ontem

desde que nasceu até agora:

«sou homossexual, não me envergonho»,

proclamas com serena gravidade

na sala do comandante do posto

da Guarda Nacional Republicana.

 

Confessar a própria sexualidade

— que ninguém a ninguém é obrigado,

os olhos fixos por vezes nas armas

da bandeira de Portugal ao fundo

na sala do comandante do posto

da Guarda Nacional Republicana.

 

Almeida, José António, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.77

[originalmente publicado em Obsessão Lisboa: & etc, 2010]

 

 

Inês Lourenço – (dois poemas)

 

 

De novo se volta a Inês Lourenço, que já foi referida e transcrita aqui, desta vez com dois poemas publicados na Colóquio Letras n.º 147/148, de Janeiro de 1998 (datados de 1997, muito anteriores, portanto ao seu último livro, Coisas que Nunca, de 2010, publicado na & etc.).

RUA DO BONJARDIM
I

Vindo do marquês, o autocarro

chiava na curva estreita, soltando

os seus vapores de gasóleo, e

num portal surgia um gato pardo

para o qual me inclinei, sabendo

que fugiria ao contacto

da minha mão, ou apenas ao

esboço de carícia, como fazem

os gatos, tão fugidios na presença

de estranhos. Mas o animal, no

instante do recuo, aceitou o

deslizar dos meus dedos,

em troca de amáveis energias. E

uma longa saudade subiu-me pelo

braço, no arquear festivo

daquele pequeno tigre.

RUA DO BONJARDIM
II

Ao entrar no quiosque,

nesta tarde de névoa, para

comprar um jornal qualquer, uma criança

pediu algo que não entendi. Seria

uma moeda para um chiclete? Perguntei

ao homem sentado atrás das

revistas do coração e dos diários

da bola de quem seria a criança, como

se pudesse ser de alguém um ser

tão súbito, nascido da genealogia

indecifrável da tarde.

Porto, 97

Lourenço, Inês, in Colóquio/Letras n.º 147/148, Janeiro de 1998, Fundação Calouste Gulbenkian

«Spirit of the child», Ciril Jazbec © Ciril Jazbec, via Deviantar (D.R.)

(clique para ampliar)

 

Links Relacionados:

(desactualizado, mas com referências bio-bibliográficas e alguns poemas da escritora:)

Inês Lourenço

Adília Lopes – Louvor do lixo

 

Louvor do lixo

 

para a Amra Alirejsovic
(quem não viu Sevilha não viu maravilha)

 

É preciso desentropiar
a casa
todos os dias
para adiar o Kaos
a poetisa é a mulher-a-dias
arruma o poema
como arruma a casa
que o terramoto ameaça
a entropia de cada dia
nos dai hoje
o pó e o amor
como o poema
são feitos
no dia a dia
o pão come-se
ou deita-se fora
embrulhado
(uma pomba
pode visitar o lixo)
o poema desentropia
o pó deposita-se no poema
o poema cantava o amor
graças ao amor
e ao poema
o puzzle que eu era
resolveu-se
mas é preciso agradecer o pó
o pó que torna o livro
ilegível como o tigre
o amor não se gasta
os livros sim
a mesa cai
à passagem do cão
e o puzzle fica por fazer
no chão

Lopes, Adília, A mulher-a-dias, Lisboa: & etc, 2002

© Paulo César, via Olhares, fotografia online, (D.R.)

 

Links Relacionados:

O poema, lido pela autora:

Site sobre Adília Lopes (poemas, entrevistas, críticas, links diversos)

O (novo) blogue da & etc

 


© Capa de Bárbara Assis Pacheco

Inês Lourenço – Há coisas que nunca

 

 

Há coisas que nunca
tivemos em crianças e perdem
o valor para sempre. Aquele sempre
dos primeiros dez anos, onde o tempo,
as pessoas, as coisas
parecem enormes e indestrutíveis.

Disfarçar-se de relâmpago
ou de outras coisas impossíveis, comer
todos os chocolates, ter uma bicicleta igual
à do estúpido do vizinho, fazer
as coisas que os adultos escondem
atrás da porta dos quartos, retribuir
a bofetada aos nossos
legítimos superiores, querer
morder com justa causa
tanta gente no mundo e
só poder no escuro
morder uma almofada.

Lourenço, Inês Coisas que Nunca, Lisboa: & etc. 2010.

 

«I'm Still a Child», Ben Heine © Ben Heine, via Deviantart (D.R.)

 

Ligações Relacionadas:

sobre Inês Lourenço (com alguns poemas anteriores ao livro Coisas que nunca)

outra ligação de interesse

uma leitura crítica do livro por H. G. Cancela

 

Nota: recomendo muito a compra do livro, pelo seu mérito, pela editora, pela autora; aconselho o que ainda não fiz; tendo lido diversos poemas dispersos online e gostando particularmente deste, trouxe-o do muito belo There’s Only 1 Alice. E comprarei, sim.

Novos poetas (V) Nuno Moura

(por conter incorrecções factuais, este post foi editado (rasurado é mais verdadeiro), e já se encontra rectificado no blogue.)

Pronto, estilhaçam-se definições sobre o que são os ‘novos poetas’. É Nuno Moura que me apetece convocar, mesmo com livros publicados na década de noventa, ele hoje já muito dentro dos trinta.  Autor de obra singular, voz torrencial, surrealizante, lírica e agónica, irónica e prenhe de doçura, por vezes visceral até ao osso (Calendário das Dificuldades Diárias, &etc, Setembro de 2002). A escrever como um condutor em contra-mão numa auto-estrada.

Lembro-me dos empenhos juvenis em que se meteu para publicar o seu primeiro livro – que pagou a uma fazedeira de edições, a Signo – Não saia nem entre após aviso de fecho de portas (1992, 1.200 exemplares!). Lembro-me do entusiasmo com que abriu uma pequena editora, a Mariposa Azual, (agora parece que gerida por Paulo Condessa, seu companheiro de aventuras) que cometeu a proeza de publicar a Obra de Adília Lopes (15 livros reunidos) e a proeza maior de conseguir para a mesma três ilustrações de Paula Rego. Lembro-me do seu afã em sessões de leitura de poesia, onde acontecia sempre algo de inesperado e surreal (e acabava por lhe acontecer sempre algo de surrealmente inesperado). Lembro-me do excesso, do compromisso feroz entre a vida e a poesia, tão anacrónico e comovente. Lembro-me do inacreditável nome – apenas o nome, este nome, é um acto poético – do livro Nuno Moura e Mariposa Azual apresentam os livros Hélice Fronteira – gosto dos mesmo livros que tu Regina Neri – o monstro do entrepernas Vasquinho Dasse – histórias muito pequenas e muito más Ivo Longomel – piudefule Adraar Bous – beauty conteste talcum powder Robes Rosa – teatro para cães Estevão Corte – estudo sobre a sexta-feira 13 Alexandre Singleto – relatório & contas (Mariposa Azual, 2000). Sei que está envolvido em nova aventura, o lançamento da Revista Índice, no dia 11 de Setembro (20.000 exemplares? 60.000 de ‘audiência’? Tão excessivamente típico que pode ser mais uma pirueta do ‘Comediante’.) Deixo um excerto de Calendário das Dificuldades Diárias, coisa que não se deveria fazer, por impossível de ser retirado do seu contexto, mas… É livro para se ler do princípio ao fim, de um fôlego, até nos faltar o fôlego. Onde andas, Nuno Moura?

(…)

Hoje é o dia dos teus anos e mais uma vez o dia dos teus anos é escuro e frio, chove no meu terraço, caem gotas de água grande ao meu lado, vou lá meter a cabeça? A chuva vai trazer-me paz e amor? A chuva vai lavar-me? Lava-me tu. Lava-me tu.

(…)

Nuno Moura, in Calendário das Dificuldades Diárias, Diário, p. 31, &etc, Lisboa, 2002.

Andando pelos carris de Lisboa II © Raul Rebelo, Olhares, fotografia online

Andando pelos carris de Lisboa II © Raul Rebelo, Olhares, fotografia online